Desenvolvimentismo sem consistência (Valor Econômico, 18/06/2013)

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Autor(es): José Luis Oreiro
Valor Econômico – 18/06/2013

 

A performance macroeconômica durante os dois  primeiros anos da presidente Dilma tem sido decepcionante. O crescimento  econômico foi medíocre, ficando abaixo de 1,5% ao ano na média  2011-2012. A inflação permanece elevada e ameaça acionar os velhos  mecanismos de indexação, abandonados desde o Plano Real como por exemplo  o “gatilho salarial”. Por fim, a situação externa, tão confortável  durante os dois mandatos do presidente Lula, já mostra sinais de visível  deterioração com a elevação do déficit em conta corrente para mais de  3% do PIB, com viés de alta. Em suma, trata-se de um quadro de  “estagflação” com sérios riscos de crise de balanço de pagamentos a  médio prazo.

A equipe econômica tem insistido em culpar o cenário  externo pela pífia performance macroeconômica. Não resta dúvida que o  quadro recessivo nos países desenvolvidos contribuiu para a  desaceleração do crescimento da economia brasileira ao derrubar em quase  20% as nossas exportações de manufaturados, o que explica, em parte, a  situação de estagnação da produção industrial prevalecente na economia  brasileira.

Mas também não podemos esquecer que esse mesmo cenário  permitiu que o Banco Central iniciasse um ciclo de redução da taxa de  juros em meados de 2011, levando a Selic ao seu mais baixo patamar nos  últimos 20 anos. Esse enorme estímulo monetário deveria ter induzido um  crescimento robusto da economia brasileira, se a razão fundamental da  sua estagnação fosse a escassez de demanda agregada.

A apreciação cambial e o aumento dos salários levam a um aumento muito rápido do custo unitário do trabalho

O  problema da economia brasileira não está no lado da demanda, mas do  lado da oferta. A razão de nossa estagflação encontra-se na brutal perda  de competitividade sofrida pela indústria brasileira nos últimos seis  anos em decorrência dos efeitos combinados da apreciação da taxa real de  câmbio, do crescimento dos salários acima da produtividade do trabalho e  das deficiências notórias e crescentes em nossa infraestrutura. A  apreciação cambial em conjunto com o aumento dos salários tem levado a  um aumento extremamente rápido do custo unitário do trabalho, fazendo  com que, em poucos anos, a indústria brasileira se tornasse incapaz de  concorrer, tanto nos mercados externos como no mercado interno, com a  indústria de outros países, notadamente a China. As deficiências de  infraestrutura completam o quadro, acrescentando externalidades  negativas à produção industrial doméstica.

Esses problemas são  resultado da inconsistência do modelo de desenvolvimento adotado pelo  Brasil no final do governo Lula e aprofundado nos dois primeiros anos da  presidente Dilma.

Esse modelo de desenvolvimento baseia-se na  ideia do “desarollo hacia dentro”. Trata-se de um modelo no qual as  políticas de redistribuição de renda e de aumento real do salário  mínimo, em conjunto com uma forte expansão do crédito bancário, deveriam  estimular um vigoroso crescimento dos gastos de consumo, o que levaria  os empresários a aumentar os gastos de investimento, permitindo assim um  aumento simultâneo da capacidade produtiva e da produtividade do  trabalho. Nesse caso, seria possível obter um elevado crescimento do PIB  e dos salários reais, ao mesmo tempo em que a inflação seria mantida  sob controle.

Esse modelo de desenvolvimento, no entanto, se  mostrou inconsistente no caso brasileiro. O forte crescimento da demanda  doméstica no período (2007-2012) levou o desemprego a níveis  historicamente baixos, fazendo com que os salários reais crescessem  acima da produtividade do trabalho, exacerbando a perda de  competitividade decorrente da apreciação cambial acumulada desde 2005.  Para reverter a perda de competitividade seria necessário uma forte  desvalorização cambial, o que causaria uma forte elevação da taxa de  inflação, a não ser que seu efeito fosse contrabalançado por uma  política fiscal mais apertada. O problema é que desde 2008 a política  fiscal brasileira tem sido expansionista – além de ter um viés em  consumo e custeio, em vez de investimento- tornando impossível um ajuste  não inflacionário da taxa real de câmbio.

Em suma, o modelo de  desenvolvimento brasileiro não pode alcançar simultaneamente dois  objetivos, a saber: inflação baixa e estável e câmbio competitivo.  Faz-se necessário sacrificar um objetivo para (tentar) alcançar o outro.  Aparentemente, o apelo eleitoral fez a presidente Dilma escolher o  controle da inflação, sacrificando no altar do poder as perspectivas de  crescimento da economia brasileira.

Integra da Entrevista Concedida ao Valor Econômico a Propósito do livro “Macroeconomia do Desenvolvimento”

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Propostas para fazer do crescimento uma certeza

Por Cyro Andrade |  Valor

Política e economia começam a confluir para um só  campo de observação e movimentos, dentro e fora do governo. A aproximação do ano  eleitoral, com sua carga de indagações sobre o futuro aumentada pela antecipação  da campanha presidencial, explica incertezas e ansiedades. A depender dos  novo-desenvolvimentistas — economistas acadêmicos de formação heterodoxa não  marxista, líderes industriais e políticos do governo e da oposição — uma agenda  para o Brasil, capaz de tranquilizar espíritos hoje tomados pela  inquietação,  poderia inspirar-se no que chamam  de “macroeconomia estruturalista do desenvolvimento”. As soluções estão ali,  para agora e para o futuro.

O livro “Macroeconomia do Desenvolvimento” oferece  uma visão ampla e detalhada do que é essa estratégia de desenvolvimento, “uma  espécie de síntese entre a macroeconomia keynesiana e a teoria estruturalista do  desenvolvimento”, como explica José Luís Oreiro, professor da Universidade de  Brasília e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos organizadores do  livro.

Parte fundamental dessa estratégia está no fortalecimento  da indústria, em contraposição ao que seria uma espécie de “reprimarização” da  economia brasileira. É preciso reverter o processo de “desindustrialização” —  processo que economistas de outras tendências, ditas ortodoxas, também enxergam.  Divergem, porém, dos novos-desenvolvimentistas, que veem a redução da  participação da indústria no PIB como efeito da apreciação cambial causada pela  abertura da conta de capital do balanço de pagamentos e pela “doença holandesa”.  “Trata-se, portanto”, segundo Oreiro, “de um processo que resulta de um modelo  de política macroeconômica que privilegia o setor financeiro e o setor  primário-exportador”.

Um dos pressupostos da macroeconomia estruturalista do  desenvolvimento, que fundamenta o novo-desenvolvimentismo, é que existe uma  relação de causalidade do crescimento do setor industrial para o crescimento da  economia como um todo em função do fato de que a indústria não é um setor como  outro qualquer, mas apresenta certas características estruturais que fazem dela  a fonte dos retornos crescentes de escala, essenciais para o crescimento de  longo prazo.

“A indústria brasileira, após uma recuperação na forma de  “V” dos efeitos da crise mundial de 2008, entrou numa fase de estagnação a  partir de 2011”, observa Oreiro. “Desde então, a economia brasileira perdeu  dinamismo, apresentando taxas medíocres de crescimento. Acredito que isso seja a  demonstração cabal da importância do dinamismo industrial para o crescimento de  longo prazo.”

Valor: Várias outras questões, decisivas  para a definição dos termos de competitividade da indústria (e da economia)  brasileira permanecem pendentes, sem melhor equacionamento à vista, como as  referentes à carga tributária e às deficiências de infraestrutura, entre outras.  Em que medida a questão cambial acaba, talvez, sendo supervalorizada como  decorrência da falta de medidas de correção de rumos nessas outras áreas?

José Luís Oreiro: O câmbio não é tudo, mas  é quase tudo. Com o ciclo de elevação do preço das commodities internacionais, a  partir de 2004, a taxa real de câmbio no Brasil vem se apreciando  consideravelmente, tendo retornado ao nível prevalecente durante o primeiro  mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Se olharmos para a relação  câmbio efetivo/salário, a situação ainda é pior: o câmbio hoje se encontra mais  valorizado do que naquela época. O problema do câmbio apreciado é que se traduz  em redução da margem de lucro das empresas, o que desestimula o investimento.  Como as novas tecnologias estão incorporadas em máquinas e equipamentos  recentemente produzidas, ao invés de serem uma espécie de maná que cai do céu,  como nos modelos neoclássicos de crescimento, uma baixa taxa de investimento  implica uma baixa modernização do parque industrial, o que contribui para o  crescimento baixo da produtividade do trabalho na indústria, o que reforça a  perda de competitividade. Está claro que uma parte da perda de competitividade  da indústria deve-se a infraestrutura deficiente, o que termina por tornar os  produtos brasileiros ainda mais caros.

Valor: A indústria tornou-se global.  Fala-se hoje em cadeias de produção. Isso exige abertura da economia para fora e  para dentro. Persistem, no entanto, certas tendências protecionistas em  políticas de governo, como a de preferência pelo produto nacional, que acabam  excluindo o Brasil daquelas cadeias, com prejuízo para a absorção de fatores de  inovação. Como vê essa questão, no contexto mais amplo da competitividade ainda  não alcançada pela indústria brasileira, possibilidades de que venha a  alcançá-la e importância do câmbio para que isso aconteça?

Oreiro: Não sou favorável a políticas de  proteção comercial à indústria. O que a indústria brasileira necessita é de  igualdade de condições com seus concorrentes no exterior, o que demanda uma taxa  real de câmbio competitiva e a realização de grandes investimentos em  infraestrutura. Meu colega Nelson Marconi, da EESP [Escola de Economia de São  Paulo, da Fundação Getúlio Vargas], estima que a taxa de câmbio dólar/real  necessária para tornar a indústria brasileira competitiva esteja em torno de R$  2,70. Acredito que se um ajuste cambial dessa magnitude for realizado e a taxa  de câmbio for mantida num patamar competitivo por um período de tempo  suficiente, as empresas do setor industrial brasileiro voltarão a investir,  modernizando seu parque produtivo, fazendo com que a produtividade do trabalho  volte a crescer. Mas para que isso ocorra é necessário que o empresário nacional  tenha confiança na estabilidade da taxa de câmbio num patamar competitivo. Não é  isso o que ocorre hoje. A administração da taxa de câmbio no governo Dilma  parece oscilar entre a necessidade de dar competitividade à indústria e a  manutenção da inflação em patamares baixos. Isso faz com que a taxa de câmbio  não seja nem suficientemente depreciada para estimular a indústria nem  suficientemente apreciada para estabilizar a inflação, de forma que ficamos no  pior dos dois mundos: inflação alta com indústria pouco competitiva.

Valor: Alguns países vêm passando por um  processo de perda de peso relativo da indústria na composição do PIB, que alguns  chamam de reindustrialização. Não seria essa uma tendência para que, por  caminhos naturais de uma espécie de reorganização industrial global, movida a  avanços tecnológicos contínuos, se estabeleça a competitividade de uma ‘nova  indústria’, “puxada” por articulações com outros segmentos do setor de serviços?  Como se integraria a essas mudanças, que parecem bastante consistentes, o fator  cambial como visto no pensamento novo-desenvolvimentista? Manteria sua própria  consistência e peso relativo?

Oreiro: Existem dois tipos de  desindustrialização, a natural, ocorrida nos países desenvolvidos a partir de  meados dos anos 1970, e a precoce. A desindustrialização natural é uma  decorrência do próprio processo de desenvolvimento econômico, uma vez que o  aumento contínuo do nível de renda per capita faz com que, a partir de certo  patamar de renda, a demanda por serviços cresça mais rapidamente do que a  demanda por produtos industriais, fazendo com que a participação do setor de  serviços no PIB aumente, ao passo que a participação do setor industrial se  reduz. Na desindustrialização precoce, o que ocorre é uma redução da  participação da indústria no PIB a patamares de renda per capita inferiores aos  observados nos países desenvolvidos quando começaram a sua desindustrialização.  Essa desindustrialização não é natural, mas resulta da apreciação cambial  causada pela abertura da conta de capital do balanço de pagamentos e pela  “doença holandesa”. Trata-se, portanto, de um processo que resulta de um modelo  de política macroeconômica que privilegia o setor financeiro e o setor  primário-exportador. [Os novo-desenvolvimentistas consideram a “doença  holandesa” uma “falha de mercado” que se origina na existência de recursos  naturais ou humanos baratos e abundantes que mantêm a taxa de câmbio  sobrevalorizada e impede a produção de bens comercializáveis usando tecnologia  no estado da arte. É um obstáculo ao crescimento do lado da demanda agregada  porque limita as oportunidades de investimento. Isso aconteceu na Holanda nos  anos 1960, quando o aumento do preço do gás atraiu capitais e valorizou o  câmbio]

Valor: O setor primário exportador tem  garantido parcela relevante do crescimento brasileiro. Sem essa contribuição, a  evolução do PIB parece correr o risco de cair até para números negativos. Isso  representa uma espécie de ‘reprimarização’ de parte considerável da economia  brasileira que deva ser considerada uma expressão de retrocesso ou se trataria  também de um reflexo de reacomodação intersetorial no uso de fatores de  produção?

Oreiro: Não tenho dúvida de que se trata  de um retrocesso. Alguns economistas, inclusive de formação heterodoxa, dizem  que essa reprimarização não seria problemática, haja vista que hoje em dia parte  considerável das atividades primárias é altamente intensiva em tecnologia. Esse  argumento não me convence. Durante a época colonial, o Brasil se especializou na  produção de açúcar, uma atividade que utilizava a mais elaborada tecnologia  então existente para a moagem de cana. Além disso, era uma atividade bastante  intensiva em capital, algo inexistente na Colônia. Nas 13 colônias inglesas, que  mais tarde se constituiriam nos Estados Unidos, as atividades produtivas, ao  menos no Norte, se concentraram na produção de produtos manufaturados,  inicialmente com um nível tecnológico bastante rudimentar e pouco intensiva em  capital. Com o passar do tempo, o modelo primário-exportador implantado no  Brasil levou à estagnação do crescimento da produtividade, ao passo que o modelo  adotado pelas 13 Colônias levou ao seu enriquecimento. Em 1822, quando o Brasil  se torna independente, nosso nível de renda per capita já era bastante inferior  ao dos Estados Unidos e essa diferença continuará se aprofundando até a década  de 1930, quando o Brasil começa a se industrializar. No período 1930-1980, o  hiato de renda per capita entre Estados Unidos e Brasil se reduz de forma  considerável. Com a “década perdida” e os anos neoliberais do governo Fernando  Henrique, esse processo de “catching-up” foi interrompido e nunca mais retomado.  Coincidentemente ou não, no mesmo período verificou-se o aprofundamento do  processo de desindustrialização da economia brasileira .

Valor: É fundamental o peso da  produtividade como fator de definição dos termos de durabilidade de processos de  desenvolvimento econômico. O que se pode dizer, especificamente, a respeito da  involução recente da produtividade na indústria e, portanto, da redução de sua  contribuição para a produtividade da economia como um todo, considerando os  efeitos da desindustrialização a que costumam se referir os  novo-desenvolvimentistas?

Oreiro: A queda da produtividade da  indústria nos anos recentes se deve ao “labor hoarding”, ou “entesouramento de  trabalho”, resultante da estagnação da produção industrial. Devido aos custos de  contratação e demissão de trabalhadores, as empresas, face a uma queda  temporária da demanda por seus produtos, podem optar por manter ociosa ou  semiociosa parte de sua força de trabalho, para evitar uma elevada rotatividade  da mão de obra, economizando, assim, os custos de demitir e contratar novos  trabalhadores. No Brasil, além desses custos, temos uma situação de “pleno  emprego”, devida à demanda alta no setor de serviços, o que faz com que as  empresas industriais fiquem ainda mais relutantes em demitir trabalhadores, com  receio de que não sejam capazes de contratá-los novamente se e quando a demanda  por produtos industrias se elevar.

Além do “labor hoarding”, a produtividade da indústria se  encontra estagnada devido à falta de investimentos na ampliação/modernização do  parque industrial. Isso decorre da apreciação cambial, que impõe uma queda na  margem de lucro das empresas do setor industrial, desestimulando o  investimento.

Valor: O pensamento  novo-desenvolvimentista é marcadamente orientado para o longo prazo. É um  pensamento “de estratégia”. Naturalmente, o longo prazo é feito de seguidos  curtos prazos… É preciso agir de imediato, em função de objetivos que se vão  distribuindo no tempo. O que faz um país como o Brasil, pressionado, de um lado,  por necessidades prementes de crescimento e, de outro, envolvido por restrições  impostas a políticas de desenvolvimento, como se pressupõe devam ser as  políticas com foco no longo prazo, no contexto de um ambiente internacional  assinalado por incertezas e instabilidades ainda decorrentes da crise financeira  de 2007/2008? Quais são os limites hoje impostos à autonomia decisória do  Estado-nação por essas condições adversas do cenário global?

Oreiro: Não acho que as condições adversas  do cenário global estejam impondo uma restrição à adoção da estratégia  novo-desenvolvimentista. Pelo contrário, esse cenário global se caracteriza por  um período de taxas de juros internacionais excepcionalmente baixas por um  período prolongado de tempo. Isso torna extremamente improvável um cenário de  estrangulamento externo devido a uma interrrupção brusca de fluxos de capitais.  Além disso, esse cenário externo viabilizou a forte redução da taxa de juros  Selic entre 2011 e 2012. Sendo assim, o cenário externo jogou a favor da adoção  de uma estratégia novo-desenvolvimentista. Mas essa estratégia não foi adotada  no Brasil. O que vemos no governo Dilma Rousseff é um conjunto de políticas  descoordenadas, sem um norte claro. A desvalorização cambial iniciada em 2012  parou no meio do caminho, o investimento em infraestrutura não decola, a  inflação se acelera devido aos aumentos salariais acima da produtividade do  trabalho e o lado fiscal se deteriora a olho nu, em função da adoção crescente  da assim chamada “”contabilidade criativa”. Isso não tem nada que ver com o  novo-desenvolvimentismo.

Valor: Lê-se no livro: ‘No Brasil, por  conta de anos de adoção de políticas neoliberais, o Estado parece ter perdido  sua capacidade de induzir o crescimento, o que requer um novo aprendizado”. O  que haveria de mais essencial, nesse aprendizado, que, como se lê no livro,  pressupõe a construção de um Estado “forte e fiscalmente responsável”, para  caracterizar um progresso significativo, em termos de expressão e durabilidade,  que possa ser sugerido pelo modo de pensar novo-desenvolvimentista? Como se  qualifica o Estado brasileiro hoje, a seu ver, numa escala de aplicação desses  dois adjetivos, e com quais consequências para a saúde da economia brasileira, a  julgar pelos indicadores mais recentes?

Oreiro: Um Estado fiscalmente forte é um  Estado que adota a regra de ouro da política fiscal: “Só te endividarás para  realizar investimentos, nunca para pagar gastos correntes”. É aqui que o Estado  Brasileiro se mostra fiscalmente fraco. Em 1999, para fazer frente ao descalabro  fiscal imposto pela desvalorização cambial num contexto no qual boa parte da  dívida pública era indexada à taxa de câmbio (um completo “non-sense”) a  política fiscal brasileira se pautou pela obtenção de metas de superávit  primário com o objetivo de estabilizar/reduzir a dívida pública como proporção  do PIB. Esse objetivo foi atingido, mas não atentamos para o fato de que o  Estado brasileiro ainda tinha uma poupança negativa. Dessa forma, a  estabilização do endividamento público não mudou a prática de tomar dinheiro  emprestado para pagar gastos correntes. Esse modelo de ajuste fiscal é perverso  para o desenvolvimento de longo prazo, porque faz com que a variável de ajuste  nas contas públicas seja o investimento (e, em menor grau, a carga tributária),  em vez dos gastos correntes. O Brasil precisa mudar urgentemente o seu modelo de  política fiscal, de modo a pautá-lo por metas de poupança pública, em vez de  metas de superávit primário. Isso permitirá uma mudança na composição do gasto  público, diminuindo a participação dos gastos correntes e aumentando a  participação do investimento. Isso não significa, como dizem alguns, que essa  mudança de modelo implicaria uma contração fiscal sem paralelo na economia  brasileira. Isso é um “nonsense”. Trata-se de mudar a composição do gasto  público, não necessariamente a sua magnitude.

Valor: Recentemente, armou-se grande  celeuma a propósito de erros, simplesmente de tabulação, mas também de análise,  cometidos por Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em “paper”, de 2010, no qual  estabeleciam relações entre dívida pública e crescimento. Comentou-se, então,  que o trabalho dos dois renomados economistas teria contribuído para a  orientação equivocada de políticas fiscais adotadas em vários países, dando-lhes  um caráter de contenção excessiva. A seu ver, qual é a maneira correta de se  compreender essa relação, se é que existe?

Oreiro: Essa relação entre crescimento e  endividamento é mera correlação, que não implica uma relação definida de  causalidade. Assim, uma leitura mais keynesiana seria que um baixo crescimento  econômico leva a maior endividamento público, por reduzir o ritmo de crescimento  das receitas fiscais e elevar o ritmo de crescimento das despesas, em função do  aumento dos pagamentos de seguro-desemprego, por exemplo. Acredito que os  acontecimentos na Europa estejam endossando essa interpretação. Consideremos o  caso da Espanha, por exemplo. Até 2007, o governo tinha superávit nominal e a  dívida pública como proporção do PIB era inferior a 40%. Com a crise, as  receitas tributárias caíram e as despesas com seguro-desemprego e obras públicas  para conter os efeitos da crise aumentaram, levando ao aumento do déficit e da  dívida pública. A partir de 2010, os mercados começaram a desconfiar da  solvência da Espanha e outros países, passando a exigir taxas de juros mais  altas para a rolagem da dívida pública. Atingido esse ponto e dada a relutância  inicial do Banco Central Europeu em comprar títulos da dívida soberana desses  países, a única saída para evitar o colapso do euro foi a austeridade fiscal. O  problema é que se trata de uma política “self-defeating”: a austeridade fiscal  leva a um aprofundamento da recessão, que leva a uma deterioração do quadro  fiscal, exigindo assim novas rodadas de austeridade.

Valor: O momento do debate econômico, no  Brasil, lhe parece produtivo? Quais resultados se pode esperar do confronto de  posições entre o pensamento “mainstream” e os inovadores, como os  novo-desenvolvimentistas? O novo-desenvolvimentismo teria ganhado expressão de  consistência significativa na disciplina?

Oreiro: Houve considerável evolução nos  últimos anos. Até 2005, o debate econômico feito na grande mídia se resumia ao  modus operandi do regime de metas de inflação e ao valor numérico da meta de  superávit primário. Tudo mais seria “resolvido” pelo mercado. Hoje, a discussão  se concentra na análise das condições necessárias para a retomada do  desenvolvimento da economia brasileira em bases sustentáveis. Isso é um bom  sinal. O problema central passou a ser o desenvolvimento, não a estabilização da  economia, como era nos anos 1980 e 90. O confronto entre  “novo-desenvolvimentistas’ e ortodoxos tem feito com que estes revejam algumas  de suas posições. Por exemplo, quando o debate sobre a desindustrialização da  economia brasileira começou, em 2005/2006, os economistas ortodoxos se dividiam  em negar a ocorrência desse processo ou afirmar que seria irrelevante para as  perspectivas de longo prazo da economia brasileira. Atualmente, os mesmos  economistas que negavam a desindustrialização ou pontificavam sobre a sua  irrelevância inseriram-se ativamente no debate a respeito do que deve ser feito  para estimular o dinamismo da indústria. Para mim, isso é um sinal inequívoco de  que a agenda do debate econômico é cada vez mais pautada pelos  novo-desenvolvimentistas.

Atualmente, estou concluindo, em conjunto com Luiz Carlos  Bresser-Pereira e Nelson Marconi, uma livro-texto sobre a macroeconomia  estruturalista do desenvolvimento, que será publicado provavelmente no final de  2013, pela Editora Routdlege na Inglaterra. Será mais um reforço ao  desenvolvimento teórico dessa disciplina.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/cultura/3148436/propostas-para-fazer-do-crescimento-uma-certeza#ixzz2VFK5iORE

Propostas para fazer do crescimento uma certeza (Valor Econômico, 04/06/2013)

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Por Cyro Andrade | De São  Paulo

Política e economia começam a confluir para um só campo de observação e  movimentos. A aproximação do ano eleitoral, com sua carga de indagações sobre o  futuro aumentada pela antecipação da campanha presidencial, explica incertezas e  ansiedades. A depender dos novo-desenvolvimentistas – economistas acadêmicos de  formação heterodoxa não marxista, líderes industriais e políticos do governo e  da oposição – uma agenda para o Brasil, capaz de tranquilizar espíritos hoje  tomados pela inquietação, poderia inspirar-se no que chamam de “macroeconomia  estruturalista do desenvolvimento”. As soluções estão ali, para agora e para o  futuro. O livro “Macroeconomia do Desenvolvimento” oferece uma visão ampla e  detalhada do que é essa estratégia de desenvolvimento, “uma espécie de síntese  entre a macroeconomia keynesiana e a teoria estruturalista do desenvolvimento”,  como explica José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília e da  Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos organizadores do livro.

Parte fundamental dessa estratégia está no fortalecimento da indústria, em  contraposição ao que seria uma espécie de “reprimarização” da economia  brasileira. É preciso reverter o processo de “desindustrialização” – processo  que economistas de outras tendências, ditas ortodoxas, também enxergam.  Divergem, porém, dos novo-desenvolvimentistas, que veem a redução da  participação da indústria no PIB como efeito da apreciação cambial causada pela  abertura da conta de capital do balanço de pagamentos e pela “doença holandesa”.  “Trata-se, portanto”, segundo Oreiro, “de um processo que resulta de um modelo  de política macroeconômica que privilegia o setor financeiro e o setor  primário-exportador”.

 

Um dos pressupostos da macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, que  fundamenta o novo-desenvolvimentismo, é que existe uma relação de causalidade do  crescimento do setor industrial para o crescimento da economia como um todo em  função do fato de que a indústria não é um setor como outro qualquer, mas  apresenta certas características estruturais que fazem dela a fonte dos retornos  crescentes de escala, essenciais para o crescimento de longo prazo.

“A indústria brasileira, após uma recuperação na forma de “V” dos efeitos da  crise mundial de 2008, entrou numa fase de estagnação a partir de 2011″, observa  Oreiro. “Desde então, a economia brasileira perdeu dinamismo, apresentando taxas  medíocres de crescimento. Acredito que isso seja a demonstração cabal da  importância do dinamismo industrial para o crescimento de longo-prazo.”

Leia a seguir trechos selecionados da entrevista que Oreiro concedeu ao  Valor.

Valor: Várias outras questões, decisivas para a  definição dos termos de competitividade da indústria (e da economia) brasileira  permanecem pendentes, sem melhor equacionamento à vista, como as referentes à  carga tributária e às deficiências de infraestrutura, entre outras. Em que  medida a questão cambial acaba, talvez, sendo supervalorizada como decorrência  da falta de medidas de correção de rumos nessas outras áreas?

José Luís Oreiro: O câmbio não é tudo, mas é quase tudo. Com  o ciclo de elevação do preço das commodities internacionais, a partir de 2004, a  taxa real de câmbio no Brasil vem se apreciando consideravelmente, tendo  retornado ao nível prevalecente durante o primeiro mandato do presidente  Fernando Henrique Cardoso. Se olharmos para a relação câmbio efetivo/salário, a  situação ainda é pior: o câmbio hoje se encontra mais valorizado do que naquela  época. O problema do câmbio apreciado é que se traduz em redução da margem de  lucro das empresas, o que desestimula o investimento. Como as novas tecnologias  estão incorporadas em máquinas e equipamentos recentemente produzidas, ao invés  de serem uma espécie de maná que cai do céu, como nos modelos neoclássicos de  crescimento, uma baixa taxa de investimento implica uma baixa modernização do  parque industrial, o que contribui para o crescimento baixo da produtividade do  trabalho na indústria, o que reforça a perda de competitividade. Está claro que  uma parte da perda de competitividade da indústria deve-se a infraestrutura  deficiente, o que termina por tornar os produtos brasileiros ainda mais  caros.

Valor: A indústria tornou-se global. Fala-se hoje em  cadeias de produção. Isso exige abertura da economia para fora e para dentro.  Persistem, no entanto, certas tendências protecionistas em políticas de governo,  como a de preferência pelo produto nacional, que acabam excluindo o Brasil  daquelas cadeias, com prejuízo para a absorção de fatores de inovação. Como vê  essa questão, no contexto mais amplo da competitividade ainda não alcançada pela  indústria brasileira, possibilidades de que venha a alcançá-la e importância do  câmbio para que isso aconteça?

Oreiro: Não sou favorável a políticas de proteção comercial  à indústria. O que a indústria brasileira necessita é de igualdade de condições  com seus concorrentes no exterior, o que demanda uma taxa real de câmbio  competitiva e a realização de grandes investimentos em infraestrutura. Meu  colega Nelson Marconi, da EESP [Escola de Economia de São, da Fundação Getúlio  Vargas], estima que a taxa de câmbio dólar/real necessária para tornar a  indústria brasileira competitiva esteja em torno de R$ 2,70. Acredito que se um  ajuste cambial dessa magnitude for realizado e a taxa de câmbio for mantida num  patamar competitivo por um período de tempo suficiente, as empresas do setor  industrial brasileiro voltarão a investir, modernizando seu parque produtivo,  fazendo com que a produtividade do trabalho volte a crescer. Mas para que isso  ocorra é necessário que o empresário nacional tenha confiança na estabilidade da  taxa de câmbio num patamar competitivo. Não é isso o que ocorre hoje.A  administração da taxa de câmbio no governo Dilma parece oscilar entre a  necessidade de dar competitividade à indústria e a manutenção da inflação em  patamares baixos. Isso faz com que a taxa de câmbio não seja nem suficientemente  depreciada para estimular a indústria nem suficientemente apreciada para  estabilizar a inflação, de forma que ficamos no pior dos dois mundos: inflação  alta com indústria pouco competitiva.

Leia íntegra da entrevista no site www.valor.com.br

“Macroeconomia do Desenvolvimento – Ensaios sobre Restrição Externa,  Financiamento e Política Macroeconômica”

José Luís Oreiro, Luiz Fernando de Paula e Flavio Basilio  (organizadores). Editora da UFPE. 480 págs., R$ 60,00

 

Dose forte no juro provoca críticas (31/05/2013)

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Autor(es): SIMONE KAFRUNI  » DIEGO AMORIM Enviado especial
Correio Braziliense – 31/05/2013

 

Para economistas, aumento de meio ponto da Selic põe em risco a produção e mostra descuido com a alta de preços no passado

Brasília  e Rio de Janeiro — Frente ao baixo crescimento da economia e ao  decepcionante 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), anunciado ontem,  economistas criticaram duramente a opção do Banco Central (BC) em cravar  a Selic em 8%, com alta de 0,5 ponto percentual. Na análise de alguns, o  salto na taxa de juro pode ser alto demais neste momento de fraca  produção industrial e clara estagnação no consumo doméstico — e os  sinais são de que haverá novos aumentos. Para outros, a medida teria  sido desnecessária agora se o governo não tivesse mostrado leiência com  os preços no passado.
“A dosagem do remédio pode ter sido  excessiva. A economia está mais fraca do que se imaginava, o consumo  caiu, o dólar disparou e o endividamento está alto. Mas o BC mostrou que  pode elevar ainda mais os juros, em 0,25 ou até 0,50 ponto percentual  até o fim do ano”, analisou o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu  de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio  (CNC).
A alternativa para manter os juros em patamares  aceitáveis, disse Gomes, passa por medidas como acabar com o Imposto  sobre Operações Financeiras (IOF) na renda fixa. Com isso, ponderou,  haveria maior entrada de recursos no país, derrubando o dólar e,  consequentemente, reduzindo a pressão inflacionária sem necessidade de  elevar os juros. “Nesse cenário, o aumento da Selic poderia ficar em 8%  ao ano”, disse.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex  Agostini, argumentou que a elevação mais agressiva, adotada na reunião  do Copom, poderia ter ocorrido antes. “Se fosse independente, o BC  deveria ter iniciado a alta de juros mais cedo. Porém, optou por tentar  manter a economia aquecida, quando sua meta é conter a inflação. Agora,  apostamos em nova alta de 0,25 ou mesmo 0,5 ponto percentual. Há  possibilidade de fecharmos o ano com juros de 8,5% e até 9%”, estimou.
Ele  também lamenta que a alta de juros, que poderia ser feita ao longo de  todo o ano, tenha sido concentrada agora. “Podem ter antecipado a  decisão por uma questão política, para não ter que elevar juros no ano  que vem, que é período eleitoral”, analisou.
Para o economista do  Conselho Federal de Economia Júlio Miragaya, o BC quis demonstrar ao  mercado que age com autonomia. “Mas, com o crescimento abaixo do  esperado, não era o momento mais aconselhável para soltar brado de  independência”, opinou. Em circunstâncias normais, disse o economista, o  PIB frustrante de 0,6% teria levado a uma alta mais moderada da Selic.
Como  a maioria dos analistas do mercado, o economista Newton Marques, do  Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF)  acreditava que o BC seria mais comedido no aumento de juros, com ajuste  de 0,25 ponto percentual. “Aumentaram mais para conter a inflação, mas  infelizmente acabaram criando mais combustível para o pessimismo”,  avaliou.
Para o economista e professor da Universidade de  Brasília (UnB) José Luis Oreiro, a autoridade monetária sinalizou que a  taxa básica de juros chegará ao fim de 2013 em pelo menos 8,75% ao ano, o  que mostra a intenção de encurtar o ciclo de alta de juros. O comitê se  reunirá novamente nos dias 9 e 10 de julho.
O presidente da  Trevisan Escola de Negócios, Antoninho Marmo Trevisan, pontuou que é  preciso ir além. “Na verdade, o Brasil precisa de medidas mais  consistentes e estruturais. Não podemos colocar em risco a baixa taxa de  desemprego, que se mantém em torno de 5%, o processo de inclusão  socioeconômica e ascensão de milhões de pessoas das classes E e D para a  C, reservas cambiais superiores a US$ 400 bilhões de dólares e dívida  externa equacionada”, disse.

Pressão cada vez maior (Correio Braziliense, 31/05/2013)

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Risco de estagflação – fenômeno temido,  caracterizado pela combinação de inflação alta e paralisia da atividade -  torna mais difíceis os desafios da política econômica

Rio de Janeiro e Brasília —  A frustração com o desempenho pífio do Produto Interno Bruto (PIB) no  primeiro trimestre (0,6%), em boa parte afetado pela perda de poder de  compra do consumidor para a inflação, tornou 2013 um desafio ainda mais  complexo para a presidente Dilma Rousseff, às vésperas de um ano  eleitoral. O medo da volta da estagflação — o pior dos pesadelos  econômicos, formado pela combinação de inflação persistente com baixo  crescimento do PIB — ficou sugerido na avaliação de especialistas e na  própria decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa básica de juros  (Selic) de 7,5% para 8% ao ano para puxar os índices de preços para  abaixo da meta oficial de 6,5%.
Os fatos acabaram ajudando a  autoridade monetária a dar uma resposta parcial ao dilema entre impedir  um esfriamento maior da atividade e atiçar ainda mais o dragão  inflacionário. “O bolso do brasileiro já está sentindo perdas acima dos  índices oficiais de inflação, agravadas com sustos nos supermercados e o  encarecimento dos serviços”, observou Simão Silber, professor de  economia da Universidade de São Paulo (USP). A carestia, acrescenta ele,  se tornou o obstáculo politicamente mais complexo para Dilma, por mexer  com a vida da maioria da população. “O grande inimigo da presidente é o  descontrole inflacionário, porque ele é traiçoeiro”, resumiu.
Desorganização Guardadas  as devidas proporções entre os números astronômicos da hiperinflação  dos anos 1980, a década perdida, e os índices mais civilizados desde a  estabilização pelo Plano Real (1994), a possibilidade de uma convivência  de PIB estagnado com uma alta generalizada de preços remete ao momento  de maior desorganização da história econômica do país, no período final  do governo José Sarney (1985-1990). Somente em março de 1990, último mês  da gestão do derradeiro presidente da República eleito indiretamente, o  Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de  inflação, bateu em 82%. No ano anterior, o indicador havia acumulado  alta de 1.972,91%.
Naquela época, os brasileiros viveram o raro  fenômeno da estagflação, mais perversa que inflação alta simplesmente,  porque o capital produtivo preferia se refugiar na especulação  financeira a ampliar a oferta de mercadorias. Eram dias em que  consumidores corriam aos supermercados de manhã para evitar reajustes  gerais de produtos à tarde. Desde a última década do século passado, a  última vez em que o Brasil assistiu a uma inflação anual de dois dígitos  foi em 2002 (12,5%), puxada pelas tensões em torno da eleição de Lula.
Desde  ontem, quando foi anunciado o PIB do primeiro trimestre, consultorias  nacionais e estrangeiras vêm tratando de reavaliar para baixo suas  previsões para o país, com crescimento anual bem menor do que 3% (última  projeção do Fundo Monetário Internacional) e inflação acima de 6%.  Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, teme que as respostas do  Planalto ao drama de baixa expansão do PIB e IPCA estourando a meta  continuem no rumo do intervencionismo. “O excesso de controles,  verificado nos dois primeiros anos do governo Dilma, afastou  investimentos e gerou incertezas para o futuro. Se essa tendência se  prolongar, poderemos atingir uma rigidez na economia difícil de mudar,  como as angústias encontradas nos anos 1980”, alertou.
Saídas As  dificuldades enfrentadas pelo país não se restringem ao cenário  doméstico. Para as exportações brasileiras, o receio está no fim do  ciclo de alta nos preços dos produtos básicos, sobretudo os  carros-chefes, minérios e soja. “O ritmo acelerado das vendas para a  China está diminuindo, e o Brasil não poderá fazer nada contra isso. É  só assistir e rezar”, sublinhou José Augusto de Castro, presidente da  Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O economista Júlio  Miragaya, presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal,  também acredita que o PIB de 2013 “só chegará perto de 3% se a balança  comercial apresentar números robustos e a retomada dos investimentos se  consolidar”.
Newton Marques, do Conselho Regional de Economia do  Distrito Federal (Corecon-DF), observou que todos os incentivos do  governo ao consumo foram insuficientes para impedir a decepção com o  crescimento do país no primeiro trimestre. O “esvaziamento” da  capacidade de consumo das famílias apontado pelo Instituto Brasileiro de  Geografia e Estatística (IBGE) pode ter feito de 2013 um “ano perdido”,  ameaçando colocar em risco a reeleição de Dilma.
Os sinais mais  preocupantes para a atividade econômica estão vindo, contudo, da  indústria. José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília  (UnB), teme que a crescente perda de competitividade do setor esteja  colocando em xeque as iniciativas do governo para estimular a produção.  No lugar das atuais políticas de incentivo — como desoneração da folha  de pagamento —, o economista aposta na desvalorização do câmbio e em  investimentos agressivos na infraestrutura para salvar o parque fabril.  “De toda forma, pelo andar da carruagem, o PIB de 2013 será inferior a  2%, bem abaixo da meta estipulada pelo governo, de 3,5%”, sentenciou.

O problema não é na ignição

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Hoje sairam os dados do crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre de 2013: 0,6% quando comparado com o ultimo trimestre de 2012, 1,9% quando comparado com igual período do ano anterior. Repete-se a trajetória de crescimento medíocre do PIB observada desde meados de 2011, a economia brasileira encontra-se numa situação de semi-estagnação. Se o problema fosse falta de demanda, os efeitos somados da redução dos juros e das desonerações tributárias já deveriam ter surtido efeito e a economia brasileira deveria estar crescendo a um ritmo mais forte. Mas o problema não é falta de demanda, mas a total incapacidade das empresas brasileiras do setor industrial em ter acesso a essa demanda em função da sobre-valorização cambial ainda prevalecente na economia brasileira. Com efeito, enquanto o setor de serviços se expandiu 1,7%, a indústria amargou uma queda de 1,4% em comparação com igual período de 2012. O que salvou o resultado do PIB do primeiro trimestre de 2013 foi a agropecuária, a qual teve uma expansão de 17% !!!! Indústria em queda e atividades primárias em elevação são sinais claros de que o problema brasileiro não é conjuntural, mas estrutural, a economia brasileira está voltando a ser uma economia primário-exportadora, perdendo assim o dinamismo que é inerente a uma economia industrializada.

O governo insiste em medidas pontuais, descordenadas e mais recentemente optou pela estratégia tacanha, medíocre, da maquiagem dos números fiscais para sinalizar a (sic)  ”robustez” da política macroeconômica. Já se fala em Brasilia de que o governo estaria pensando numa mudança na metodologia de cálculo do PIB. Afinal se os números do PIB não agradam, o erro deve estar nos números, não na brilhante política macroeconômica executada pelo ainda mais brilhante Ministro da Fazenda. Não isso não tem nada que ve com o Novo-Desenvolvimentismo como querem fazer crer alguns economistas liberais. Trata-se de uma nova corrente econômica: a do neo-atrasismo. Triste Brasil.

 

Receio de PIB baixo limita alta de juros (Correio Braziliense, 28/05/2013)

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Diante da expectativa de mais um desempenho fraco  do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, o mercado financeiro está  apostando que o Banco Central (BC) vai seguir uma estratégia de aumento  gradual dos juros básicos, de modo a controlar a inflação sem prejudicar  ainda mais a atividade econômica. Com isso, a previsão dominante entre  os analistas é que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve promover  uma elevação de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião que começa  hoje e termina amanhã, o que levaria a taxa para 7,75% ao ano.

Quando  anunciar a decisão, no início da noite desta quarta-feira, o BC já terá  todas as informações sobre o resultado do PIB no primeiro trimestre,  que será divulgado de manhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e  Estatística (IBGE). Na semana passada, a autoridade monetária apontou  uma alta de 1,05% do IBC-Br, indicador por meio do qual tenta captar a  evolução da atividade econômica. Apesar do número robusto, que, se  confirmado, seria compatível com um avanço superior a 4% do PIB no ano, o  mercado mantém a avaliação de que, em 2013, a economia não terá  crescimento tão acentuado.

A estimativa dos analistas é de que a  economia está se enfraquecendo e, por isso, o PIB deve crescer apenas  2,93% em 2013, conforme ficou claro na edição de ontem do Boletim Focus,  pesquisa em que o BC recolhe as previsões de mais de 100 instituições  financeiras sobre os principais indicadores econômicos. Na semana  passada, por exemplo, a projeção era de 2,98%. Há um mês, acreditava-se  em um avanço de 3%. Na avaliação do mercado, a alta do primeiro  trimestre, captada no indicador do BC, teria sido um movimento “fora da  curva”, que não deve se repetir nos próximos meses.

Sem surpresa O  diagnóstico de que a economia ainda se movimenta em ritmo fraco é o que  leva a maioria dos especialistas a acreditar que a Selic terá um  aumento de 0,25 ponto percentual. Segundo o Focus, o mercado também  projeta a inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo  (IPCA), com leve alta, de 5,80% para 5,81% em 2013. Há quatro semanas, a  estimativa era de 5,71%. Para 2014, a aposta é de um IPCA de 5,80%.

Para  o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília  (UnB), a semana, embora importante do ponto de vista da divulgação de  números aguardados com expectativa pelo mercado, não deve trazer muitas  surpresas. A Selic, aposta ele, subirá mesmo para 7,75% ao ano. “O Banco  Central adotou uma trajetória de muita cautela”, disse, prevendo que,  até o fim do ano, a taxa básica chegará a 8,5%.

A divulgação do  PIB do primeiro trimestre poderá reforçar, na avaliação de Oreiro, a  tendência do BC de não mexer tanto na Selic. “A inflação está cedendo no  acumulado de 12 meses e não há sinais de retomada de crescimento  acelerado na economia. Existe, sim, um certo receio em adotar um aumento  muito drástico”, completou. “O BC vai manter um avanço lento e gradual  da taxa básica. Aumentará 0,25 (ponto percentual) e vai esperar para ver  o que acontece”, afirmou.

O economista José Matias-Pereira,  também professor da UnB, é outro que não acredita em números destoantes  das previsões feitas até aqui. “O Copom continuará a trajetória de alta,  mas nada muito significativo”, disse. Para ele, o ajuste de 0,25 ponto  percentual servirá, mais do que qualquer outra coisa, para o BC tentar  minimizar a imagem de distanciamento da recente escalada de preços.

Sobre  o PIB, Matias-Pereira pondera ser preciso esperar o resultado do  primeiro trimestre para ter uma visão mais clara, mas não vislumbra  crescimento, até dezembro, superior a 2,5%. “O comportamento da economia  segue preocupante. As medidas do governo não tiveram o efeito  esperado”, comentou.

Na contramão Fernando Montero, economista  do Tullett Prebon, concorda com as projeções de PIB menor e inflação  mais alta. “Sem poder contar com a ajuda do câmbio para segurar os  preços, com a indústria sofrendo com aumento de custos, e fazendo  superavit primário com desonerações pontuais por setor, apenas para  atingir a meta do mês seguinte, só resta ao governo aumentar os juros.  Ele ataca o sintoma e não a causa”, avaliou.

Contrário à maioria,  Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco WestLB do Brasil, acredita  que o BC vai fazer um ajuste maior, de 0,5 ponto percentual, elevando a  Selic para 8% ao ano. “A inflação continua oscilando ao redor do teto  da meta, de 6,5%. A atividade econômica, que vinha contribuindo para uma  postura de maior cautela, deve apresentar um ritmo mais consistente de  expansão no primeiro trimestre, permitindo ao Copom ser mais incisivo no  combate à inflação neste momento”, explicou.

» Governo otimista

O  governo ainda mantém a expectativa de que o Produto Interno Bruto (PIB)  terá crescimento de 3,5% neste ano. A previsão consta da Lei de  Diretrizes Orçamentárias (LDO), divulgada em março. O ministro da  Fazenda, Guido Mantega, no entanto, já admitiu que o número poderá ser  revisto, dependendo do resultado do PIB do primeiro trimestre, que será  divulgado amanhã pelo IBGE. No ano passado, a economia teve avanço de  apenas 0,9%, o pior desempenho desde 2009.

Quem são os desempregados brasileiros? (Jornal do Brasil, 19/05/2013)

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Mesmo com ‘pibinho’ persistente do país, sobre renda e emprego, há pouco o que reclamar

 
Carolina Mazzi

O crescimento da economia brasileira continua desanimando os investidores. No primeiro trimestre deste ano, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 1,05%. Porém, quando se trata de renda e emprego, os brasileiros pouco têm a reclamar quando são observados os dados nacionais.

A taxa de desocupados chegou a 5,7%, a menor para o mês de março desde o início da série, em março de 2002. Há dez anos, este número era mais do que o dobro. Os números são inéditos para o país e mostram principalmente a força do mercado interno, afirma o economista José Oreiro, professor da Universidade de Brasília. Porém, para ele, ainda não é possível afirmar que vive-se em “pleno emprego”, principalmente devido às limitações na metodologia dos índices.

A taxa de desocupados chegou a 5,7%, a menor para o mês de março desde o início da série, em março de 2002

“Estamos definitivamente em um momento único, histórico, com um desemprego para os padrões brasileiros bem baixo. Porém, estas metodologias estão muito presas as regiões metropolitanas, o que acaba tornando difícil ter uma noção real dos desempregados. Quem mora no interior, por exemplo, está excluído, assim como o grupo do ‘nem-nem’”, analisa.

Os “nem-nem” são pessoas que não estudam, não trabalham, nem estão procurando emprego e por isso ficam fora da contagem dos desempregados. Pesquisa do “Mercado de Trabalho: conjuntura e análise” do Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), divulgado em dezembro do ano passado, mostra que estes brasileiros já representam cerca de 8,8 milhões de pessoas.

Segundo Ana Amélia Camarano, técnica de planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc), a maior parte são mulheres, que normalmente deixam de trabalhar e estudar após o casamento ou nascimento dos filhos. “Elas compõem mais de 65% do total, mas os índices têm caído bastante”, afirma a especialista.

Além deles, a redução na produção tem diminuído a geração dos empregos industriais, contribuindo na conta dos 6%. No primeiro trimestre de 2013, na comparação com o mesmo período do ano passado, o emprego do setor apontou variação negativa de 0,2%. Em março, a queda foi de 0,6%. “Acredito que o perfil destes desempregados são pessoas que estão em transição, ou seja, entre um e outro emprego, mas também aqueles com menor nível de escolaridade e jovens”, analisa Oreiro.

Situação pode piorar

Com o crescimento ainda baixo, o número de desempregados do país pode voltar a subir, caso a economia não se recupere até o final do ano. É o que afirma o economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP). “Nosso crescimento dos últimos anos veio muito através do aumento do consumo e da demanda. Só que a produtividade do brasileiro é muito baixa, então uma hora a conta não vai mais bater”, analisa.

Para ele, é preciso que o governo atue mais fortemente no incentivo à economia, mas principalmente melhore a qualidade da educação do país. “É fundamental, a curto e médio prazo. Temos que aumentar a produtividade da nossa mão de obra, para que possamos ter mais competitividade e suprir nossas demandas”, afirma.

Análise de emprego é “difícil”

Os economistas concordam, no entanto, que as análises em relação ao emprego são difíceis de ser mensuradas. “Alguns índices se utilizam de vários fatores, pegam desde entrevista a consumo de energia. Outros, apenas quem está procurando emprego. Então, não tem como saber o nível exato de desemprego numericamente dentro da economia”, afirma Dana.

Casos de desalento, que ocorrem em economias em recessão, também podem confundir e levar à interpretações erradas sobre os níveis de empregabilidade de cada país. A situação ocorre quando, sem esperanças de encontrar ocupação, as pessoas desistem de procurar emprego. Como os índices só consideram desempregados quem procurou algum ofício, estes desistentes não são mais contados como “desempregados”.

Dos cerca de 74 milhões de jovens desempregados no mundo, 1/3 fica mais de 6 meses sem ocupação. O tempo é suficiente para levar estas pessoas à desistência, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A situação de desalento não só retira os jovens do mercado de trabalho, como frequentemente desestimula o aperfeiçoamento através do aumento da escolaridade, por exemplo.

“Há a perda da qualificação através da experiência, através do desenvolvimento de novas capacidades, o famoso ‘aprender fazendo’. Mas frequentemente estes jovens desempregados não estão nem trabalhando, nem estudando”, afirma Lúcia Garcia, supervisora do Sistema de Pesquisa em Emprego e Desemprego (PED) do Dieese.

 

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