A miséria intelectual dos críticos do novo-desenvolvimentismo

Tags

, ,

Uma crítica recorrente ao novo-desenvolvimentismo é que a insistência que a escola (que não se resume aos artigos do ilustre Professor Bresser-Pereira, seu “pai fundador”) na importância numa taxa de câmbio competitiva, estável e sustentável no longo-prazo, se basearia na existência de um suposto regime de demanda do tipo profit-led, ou seja, numa relação inversa (direta) entre a participação dos salários (lucros) na renda e o grau de utilização da capacidade produtiva. Isso porque, continua o argumento, apenas nesse caso uma desvalorização da taxa de câmbio real – inevitavelmente associada a uma redução da taxa de salário real e, portanto, a uma redução das participação dos lucros na renda – seria capaz de produzir um aumento da demanda agregada e do grau de utilização da capacidade produtiva. Um nível mais elevado de utilização da capacidade produtiva, por seu turno, levaria a um aumento da taxa de acumulação de capital devido ao efeito acelerador do investimento, proposto pioneiramente por Harrod (1939). A aceleração do ritmo de acumulação de capital, por seu turno, levaria a um aumento da taxa de crescimento do produto real e da produtividade do trabalho no médio e longo-prazo.

Os críticos do novo-desenvolvimentismo, contudo, afirmam que existem boas razões teóricas e fundamentação empírica para afirmar que o regime de demanda é, na verdade, wage-led de maneira que uma redução do nível de salário real deverá ser seguido por uma contração, ao invés de um aumento, da demanda agregada e do grau de utilização da capacidade produtiva, de forma que a taxa de acumulação de capital deverá se contrair ao invés de aumentar. Nesse contexto, tudo o que uma nação precisa para se desenvolver é aumentar a demanda agregada, pois o investimento sempre irá se ajustar ao nível de demanda agregada existente na economia, independente da estrutura produtiva da economia, ou seja, independente da composição da produção entre os diversos setores de atividade produtiva. As condições de oferta ou de balanço de pagamentos são consideradas sempre como irrelevantes ou, mais precisamente, no-binding, ou seja, a taxa de crescimento da economia nunca será maior do que a permitida pelo crescimento da força de trabalho (e da produtividade do trabalho) ou pela restrição de balanço de pagamentos. Além disso, os críticos do novo-desenvolvimentismo acreditam que toda a redução da participação dos lucros na renda será compensada ou mais do que compensada pelo aumento do grau de utilização da capacidade produtiva de maneira que a taxa de lucro nunca irá se reduzir como resultado da transferência de renda dos lucros para os salários, ou seja, uma situação de profit-squeeze que reduza o incentivo a acumulação de capital jamais poderá ocorrer.

A tese de que o ritmo de acumulação de capital não pode ser reduzido por causa de um “esmagamento dos lucros” pelo crescimento dos salários acima do ritmo de crescimento da produtividade do trabalho (ou seja, por um aumento da participação dos salários na renda) é um puro non-sense (Sobre o caso brasileiro recente ver Oreiro, 2017). Isso porque existe um limite físico a ampliação do grau de utilização da capacidade produtiva: no longo-prazo as empresas irão operar com um grau de utilização da capacidade produtiva igual ao “normal” ( o qual, por uma série de razões, é menor do que 100%) de maneira que um aumento cumulativo da participação dos salários na renda irá resultar, cedo ou tarde, na redução da taxa de lucro, a não ser que seja compensado por um aumento da produtividade do capital, ou seja, uma redução da relação técnica capital-produto, o que exigiria um progresso técnico do tipo capital-saving, algo que a evidência empírica disponível aparentemente não-corrobora. Os críticos do novo-desenvolvimentismo poderiam argumentar, contudo, que enquanto a taxa de lucro sobre o capital próprio for superior ao custo médio ponderado do capital, então a redução da taxa de lucro não terá nenhum impacto sobre o ritmo de acumulação de capital. O problema com essa tese é de que ela não tem nenhum embasamento empírico: a experiência brasileira no período 2000-2016 mostra a existência de uma forte correlação positiva entre a taxa de lucro e a taxa de crescimento do investimento (Marquetti et al 2020, p.118), correlação essa compatível com a equação de Cambridge; ou seja, uma redução da taxa de lucro – decorrente do profit squeeze – está associada a uma redução do ritmo de acumulação de capital.

Voltemos agora nossa atenção a questão do regime de demanda. Os críticos do novo-desenvolvimentismo erram rotundamente ao confundir os efeitos de uma variação da taxa real de câmbio com os efeitos do nível da taxa de câmbio sobre o crescimento econômico. A evidência empírica mostra de forma bastante contundente, para não dizer avassaladora, que uma taxa de câmbio competitiva ou ligeiramente subvalorizada tem efeitos positivos e estaticamente significativos sobre o crescimento da renda per-capita dos países em desenvolvimento, controlando-se para uma série de outras variáveis (Ver, entre outros Rodrik, 2008; Missio el al, 2015; Gabriel el al 2020). Os críticos do novo-desenvolvimentismo nunca foram capazes de apresentar evidências empíricas contrárias a esse resultado. Suas críticas se limitam ao campo puramente teórico, quando não apologético: eles afirmam que existem (sic) bons argumentos teóricos para acreditar que uma desvalorização da taxa de câmbio irá resultar numa contração da demanda agregada, bem como afirmam que essa posição é endossada não só pela Teoria Clássica do Desenvolvimento Econômico como pelo Pensamento Estruturalista Latino-Americano, invocando assim os nomes de Raul Prebisch e Celso Furtado para fundamentar suas teses num pretenso argumento de autoridade. É precisamente aqui que encontramos a razão da confusão mental na qual os críticos do novo-desenvolvimentismo se auto encerraram: eles não são capazes de entender, ou não querem entender, que uma coisa é avaliar o efeito de uma variação da taxa de câmbio; outra coisa bem diferente é avaliar os efeitos do nível da taxa de câmbio. Que uma desvalorização do tipo once-and-for-all da taxa real de câmbio pode produzir, sobre certas condições (em particular, deve haver uma grande diferença entre a propensão a poupar a partir dos lucros e a propensão a poupar a partir dos salários, assim como uma baixa sensibilidade do investimento a variações da margem de lucros), uma redução suficientemente grande da demanda de consumo das famílias e, dessa forma, uma redução do grau de utilização da capacidade produtiva e da própria taxa de acumulação de capital no curto e no médio-prazo é algo perfeitamente aceito pelos novo-desenvolvimentistas. Mas esse efeito é puramente temporário. Uma vez que a taxa real de câmbio se estabilize por um período suficientemente longo de tempo num patamar competitivo (Oreiro, 2020); então o aumento da competitividade preço da indústria de transformação dará início a um processo de mudança estrutural, com um aumento cumulativo da participação da indústria de transformação no PIB. Isso levará a um aumento da elasticidade-renda das exportações, fazendo com que, no longo-prazo, a taxa de crescimento das exportações – o único componente realmente autônomo da demanda no longo-prazo (Thirwall, 2002) – se acelere, permitindo que, em algum momento ao longo da trajetória de crescimento, a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos da economia doméstica seja superior ao crescimento da renda do resto do mundo, ou seja, viabilizando a estratégia de catching-up.

Em suma, os críticos do novo-desenvolvimentismo, seja por insuficiência de capacidade cognitiva, seja por pura e simples desonestidade intelectual, são incapazes de diferenciar os efeitos de curto e médio-prazo de uma variação da taxa real de câmbio, dos efeitos de longo-prazo de uma taxa de câmbio mantida num nível competitivo. Ao faze-lo acabam por se tornar aliados, inconscientes ou não, do rentismo financista que advoga a manutenção de uma taxa de juros elevada com o argumento de que essa é uma medida necessária para manter a inflação baixa e os salários altos por intermédio de uma taxa de câmbio (insustentavelmente) sobrevalorizada. Não é por outro motivo que muitos dos críticos do novo-desenvolvimentismo se tornaram apoiadores enfáticos da retomada do ciclo de elevação da taxa de juros no Brasil no primeiro semestre de 2021. Ainda bem que tudo o que disseram está devidamente registrado nas redes sociais, de forma que não poderão dizer, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, “esqueçam tudo o que eu escrevi”. No que depender de mim posso afirmar que “we will never forget”.

Referências

Gabriel L.F., Ribeiro L.C.S., Jayme Jr F.G. and Oreiro J.L. (2020), “Manufacturing, economic growth, and real exchange
rate: empirical evidence in panel date and input-output multipliers”, PSL Quarterly Review, 73 (292), pp. 51-75

Harrod, R. (1939), “An essay in dynamic theory”, The Economic Journal, vol. 49, No. 193, Oxford, Blackwell Publishing

Marquetti, A; Hoff, C; Miebach, A. (2020). “Profitability and Distribution: The Origin of the Brazilian Economic and Political Crisis”. LATIN AMERICAN PERSPECTIVES, Issue 230, Vol. 47 No. 1, January, 115–133

Missio F., Jayme Jr F.G., Brito G. and Oreiro J.L. (2015), “Real Exchange Rate and Economic Growth: New Empirical Evidence”, Metroeconomica, 66 (4), pp. 686-714.

Oreiro, J.L. (2017). “A grande recessão brasileira: diagnóstico e uma agenda de política econômica”. Estudos Avançados, Vol. 31, N. 89.

Oreiro, J.L. (2020). “New Developmentalism: beyond competitive exchange rate”. Brazilian Journal of Political Economy, vol. 40, nº 2, pp. 238-242.

Rodrik D. (2008), “The Real Exchange Rate and Economic Growth”, Brookings Papers on Economic Activity, 39 (2),
pp. 365-415.

Thirlwall, A. (2002). The Nature of Economic Growth, Aldershot: Edward Elgar.

Câmara acaba com o piso salarial de cinco categorias, que reagem (O Estado de São Paulo, 19/07/2021)

Tags

,

Salário mínimo para formados em Agronomia, Arquitetura, Engenharia, Química e Veterinária, em vigor há 55 anos, é extinto por medida provisória que tem o objetivo de facilitar a abertura de empresas; categorias querem reverter a decisão no Senado

A Câmara dos Deputados revogou o piso salarial para os formados em Agronomia, Arquitetura, Engenharia, Química e Veterinária em vigor desde 1966. Agora, os conselhos federais dessas categorias se mobilizam para reverter a medida no Senado e cogitam até mesmo judicializar a questão.

O texto final da medida provisória (MP) 1.040, com o objetivo de facilitar a abertura de empresas, aprovado pela Câmara em votação simbólica no fim de junho, conta em seu artigo 57 com um “revogaço” de 33 leis ou trechos de leis. Entre elas, o relator Marco Bertaiolli (PSD-SP) incluiu a revogação da Lei nº 4.950-A, que garante o piso salarial dessas cinco categorias. Para os formados em cursos de graduação de quatro anos, o piso é de seis salários mínimos (R$ 6,6 mil). Para cursos de menor duração, o piso é de cinco salários (R$ 5,5 mil).

Para o relator na Câmara, não faz sentido que essas categorias – ou quaisquer outras – tenham um piso salarial garantido em lei federal. “Procuramos desburocratizar ao máximo o Brasil. Junto com o Ministério da Economia, buscamos revogar legislações que não possuíam mais sentido com a realidade. Uma delas é o piso para algumas profissões específicas”, diz o deputado. “O único piso que deve existir em lei é o salário mínimo. A partir daí é uma negociação entre sindicatos e empresas. Imagina se todas as profissões tivessem um piso em lei.”

Bertaiolli acredita que o Senado não deve fazer muitas alterações em um texto aprovado com quase unanimidade pelos deputados – apenas a bancada do PSOL se declarou contra a MP. “As empresas não conseguem mais conviver com essa legislação. Muitas vezes, a empresa contrata como auxiliar técnico para não dizer que é engenheiro. A categoria não ficará desassistida, existem os acordos trabalhistas para isso”, afirma o relator.

Pegos de surpresa pela votação na Câmara, os conselhos federais dessas categorias e outras entidades de classe iniciaram um movimento para convencer os senadores a reverterem a medida. Como resultado, mais de 30 emendas já foram apresentadas para preservar o piso salarial desses profissionais e garantir a fiscalização por parte dos conselhos.

“Não há justificativa para a retirada do salário mínimo desses trabalhadores. A fixação de valores mínimos para o exercício das atividades profissionais é proporcional à extensão e à complexidade do trabalho”, avalia o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que é contra a retirada do piso. “A revogação vai na contramão do direito à remuneração digna para atender às necessidades vitais básicas do trabalhador, o que viola frontalmente o princípio da dignidade da pessoa humana.”

O argumento é de que a inclusão desses artigos na MP seria inconstitucional, por não ter relação com o escopo principal da medida provisória – o chamado “jabuti” no jargão do Congresso Nacional. A expectativa é de que o Senado vote a MP na primeira semana de agosto.

O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) afirma contar com o apoio de mais de 50 dos 81 senadores para manter o piso.

A vice-presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Ana Elisa Fernandes de Souza Almeida, questiona como o fim do piso salarial das categorias melhoraria o ambiente de negócios no País. Para ela, a desregulamentação dos salários dos profissionais pode trazer mais prejuízos na qualidade dos serviços prestados do que uma eventual economia na folha de pagamento das empresas.

“A remuneração de profissionais habilitados não é uma mercadoria que deva ser regulada apenas pela oferta e pela demanda. Essa emenda vai atingir mais de 1 milhão de profissionais, com uma mudança danosa para a população, que é quem será atingida na ponta pela precarização dos serviços”, avalia ela. “Um serviço não qualificado tem mais custo do que uma pequena economia de salário.”

O coordenador do Comitê de Relações Institucionais e Governamentais do Conselho Federal de Química (CFQ), Rafael Barreto Almada, argumenta que todos esses profissionais técnicos precisam ter condições de trabalhar sem se sujeitar a pressões diversas de ordem financeira. Segundo ele, trata-se de profissões muito assediadas para elaboração de projetos sem o controle e o rigor necessários.

“O químico, por exemplo, emite laudos, faz análises, experimentos, que abrangem desde produtos alimentícios, medicamentos, petroquímicos. Com a banalização do valor mínimo para contratar esse profissional, ele pode passar a se submeter a qualquer tipo de trabalho”, afirma Almada. “A MP cria conceitos equivocados, ao flexibilizar a fiscalização. Os conselhos das categorias não são entraves, mas ferramentas criadas pela sociedade para protegê-la dos maus profissionais. Os conselhos impedem que esse tipo de profissional atue”, completa. ‘Revogaço’ de piso salarial na Câmara gera resistência de entidades de classe

Faz sentido acabar com o piso salarial das categorias?

Não

Acabar com o piso dessas categorias é uma resposta burra para um problema real. De fato, houve uma redução dos lucros das empresas do setor não financeiro na última década, mas há duas maneiras de reagir. A maneira inteligente é aumentar a produtividade por meio de investimentos e atualização tecnológica. A resposta burra é reduzir os custos trabalhistas, com a redução na marra dos salários.

Os jabutis não foram colocados à toa na MP, mas, sim, fazem parte de uma lógica de ajuste macroeconômico. A classe empresarial busca recuperar sua rentabilidade por meio da redução geral de salários, mas esquece que o salário é uma fonte de demanda. Quanto maior a folha salarial, mais as empresas conseguem vender. Muitas vezes é preciso proteger os empresários deles mesmos.

José Luis Oreiro

Professor do departamento de Economia da UnB

Condições para ciclo de crescimento: convergências e (algumas) divergências com Samuel Pessoa

Tags

, ,

No artigo de sua coluna dominical na Folha de São Paulo, meu colega Samuel Pessoa finalmente se rendeu a tese novo-desenvolvimentista de que o ajuste da taxa real de câmbio é condição necessária – embora não suficiente – para a retomada do crescimento da economia brasileira, tese sobre a qual existe ampla literatura empírica disponível (Rodrik, 2008; Fabricio et al 2015; Gabriel et al 2020). Ele aparentemente também endossa a tese de que o crescimento deve ser financiado com poupança doméstica, pois enfatiza o papel importante desempenhado pelo forte ajuste do déficit corrente do balanço de pagamentos no período 1997-2004, no qual a economia brasileira passa de um déficit em conta corrente de 3% do PIB para um superávit em conta corrente de 4% do PIB. Além disso, como todo período de aceleração do crescimento exige um aumento da taxa de investimento, então a substituição de poupança externa por poupança doméstica deve ser superior a 100%; o que demanda a realização de um ajuste fiscal que permita que pelo menos parte do aumento requerido da poupança doméstica seja atendida por intermédio da poupança do governo. Nesses três pontos estou totalmente de acordo com ele.

Outro ponto com o qual concordo com Samuel Pessoa refere-se ao papel desempenhado pela queda da taxa de lucro das empresas não-financeiras na estagnação e subsequente crise da economia brasileira no período 2011-2016, conforme argumentei em artigo publicado em 2017 na Revista Estudos Avançados da USP (Oreiro, 2017). Ao contrário do que pensa parte da heterodoxia brasileira, viciada nos modelos de crescimento e distribuição de renda de matriz neo-kaleckiana, a grande recessão de 2014-2016 teve como fator detonador o esmagamento da taxa de lucro (profit-squeeze) ocorrido entre 2010 e 2014, o qual levou ao colapso a formação bruta de capital fixo entre o segundo e o quarto trimestre de 2014. Está claro que a política fiscal contracionista , junto com a elevação brutal da taxa Selic e o “tarifaço” adotados por Joaquim Levy em 2015 ajudaram a transformar o que seria uma recessão leve na maior recessão da economia brasileira desde 1981, devido aos seus efeitos amplificadores sobre o choque inicial ocorrido nos gastos de investimento. Mas o “triggering event”, para usar o termo cunhado por Hyman Minsky, foi o colapso do investimento em decorrência do esmagamento de lucros.

Em termos macroeconômicos, a taxa de lucro é o produto entre o grau de utilização da capacidade produtiva, a participação dos lucros na renda e a produtividade do capital. Nos modelos neo-kaleckianos de crescimento, via de regra, assume-se um regime de demanda do tipo wage-led: um aumento (redução) da participação dos salários (dos lucros) na renda irá induzir um aumento de tal magnitude no grau de utilização da capacidade produtiva que (i) a taxa de lucro poderá se manter constante ou até mesmo aumentar e (ii) as firmas deverão aumentar os gastos de investimento devido ao conhecido mecanismo do acelerador do investimento de Harrod. Não tenho dúvida de que a política econômica do governo do PT desde 2007 foi pautada por esse tipo de modelo de desenvolvimento, o qual tem também algumas semelhanças com a ideia Furtadiana de que o desenvolvimento de um mercado de consumo de massas era condição necessária para dar dinamismo a demanda agregada e assim viabilizar o processo de desenvolvimento econômico.

Existe um grande debate entre os economistas heterodoxos sobre se o regime de demanda é wage-led ou profit-led, com as evidências empíricas dando suporte misto para ambas as hipóteses. No caso brasileiro, contudo, o comportamento das vendas no varejo ampliado em comparação com o comportamento da produção física da indústria de transformação no período 2011-2014 não deixam margem para dúvidas de que ocorreu no Brasil um enorme vazamento de demanda doméstica para importações: o crescimento das vendas do comércio ampliado sinalizando um forte crescimento da demanda agregada que não foi atendido pelo crescimento da produção manufatureira, mas por importações. Em outras palavras, no período em consideração ocorreu uma substituição de produção doméstica por importações, resultante do processo de desindustrialização da economia brasileira. Se aumento da a participação dos salários na renda induziu um aumento da demanda, esta não teve como contrapartida um aumento da utilização da capacidade produtiva da indústria e, dessa forma, não impediu a queda da taxa de lucro e também não serviu para induzir um aumento do investimento.

Quais as causas desse processo? Em artigo que publiquei recentemente na PSL Quarterly Review com Paulo Gala (FGV/SP) e Luciano D´Agostini (IFPR) mostramos que a desindustrialização da economia brasileira desde 2005 pode ser atribuída a perda da competitividade preço e da competitividade extra-preço da economia brasileira. Nossas estimativas mostram que 40% da queda da participação da indústria de transformação no PIB decorre da sobrevalorização da taxa de câmbio no período (relativamente a nossa estimativa da taxa de câmbio de equilíbrio industrial); ao passo que 60% pode ser atribuída a queda da competitividade extra-preço (elevação da taxa de câmbio de equilíbrio industrial devido ao aumento do hiato tecnológico da indústria brasileira).

A sobrevalorização da taxa de câmbio certamente contribui para a queda da taxa de lucro por intermédio de um aumento artificial, pois insustentável no longo-prazo, dos salários na renda nacional. Segue-se, portanto, que a eliminação desse desequilíbrio macroeconômico passa obrigatoriamente, não por um suposto desejo malévolo dos novo-desenvolvimentistas, pela redução da participação dos salários na renda; a não ser que seja possível aumentar a produtividade do capital. Essa ressalva não tem sido devidamente explorada pela literatura novo-desenvolvimentista que tem se baseado nos “fatos estilizados” de Kaldor, segundo o qual a produtividade do capital seria estável no longo-prazo. O problema é que a produtividade do capital na economia brasileira vem apresentando uma tendência a queda no período 1957-2003, segundo dados apresentados em Marquetti et al (2010). Os dados para o período 2003-2016 ainda não foram publicados, mas as evidências preliminares apontam para uma continuidade ou pelo menos não-reversão desse processo. Aqui nos deparamos com um puzzle. Numa economia em processo de desindustrialização a produtividade do capital deveria aumentar, pois as atividades manufatureiras são altamente intensivas em capital, ao passo que os serviços não. Dessa forma, a queda da participação da indústria no PIB e o consequente aumento da participação dos serviços no PIB deveria levar a uma queda da relação capital-produto, ou seja, a um aumento da produtividade do capital, o que atenuaria o processo de queda da taxa de lucro. Uma tentativa de explicação desse puzzle pode ser obtida em Ros (2013, capítulo 10) onde se mostra que numa pequena economia aberta que opera com uma função de produção Cobb-Douglas e na qual as firmas domésticas produzem um único bem transacionável, mas se defrontam com condições competitivas diferentes nos mercados doméstico e internacional, sendo price-takers no mercado internacional, e price-makers no mercado doméstico; então a produtividade do capital é uma função positiva da taxa real de câmbio. Daqui se segue que parte, talvez até mesmo a totalidade, do ajuste da taxa de lucro permitida pela desvalorização da taxa real de câmbio pode ser feita por intermédio do aumento da produtividade do capital, com uma redução mínima da participação dos salários na renda.

Voltando ao artigo de Samuel. Ele afirma que o ajuste fiscal é necessário para impedir que a desvalorização da taxa de câmbio ocorrida nos últimos 18 meses seja perdida por um aumento da taxa de inflação. Aqui tenho duas divergências. No período 2003-2006 a taxa real de câmbio voltou a se apreciar fortemente no Brasil, não por uma elevação da taxa de inflação, mas por uma fortíssima apreciação do câmbio nominal, resultado tanto da valorização dos termos de troca como da imensa entrada de capitais especulativos decorrente do diferencial entre as taxas de juros doméstica e internacional existente no período. Um menor diferencial de juros somado a medidas mais duras de controles a entrada de capitais certamente teriam reduzido o ritmo de apreciação cambial ocorrido no período e, dessa forma, mantido a competitividade preço da indústria brasileira. Sendo assim, nada adianta ter uma inflação baixa, se a política econômica permite, ou até mesmo incentiva, a apreciação da taxa de câmbio. Em segundo lugar, uma elevação persistente da taxa de inflação face a uma desvalorização do câmbio nominal só é possível se os trabalhadores não aceitarem a redução do salário real decorrente da mesma. A “resistência do salário real” (real wage resistance) tende a ocorrer em economias onde o mercado de trabalho esteja bastante aquecido, o que certamente não será o caso da economia brasileira pelos próximos 2 ou 3 anos, para dizer o mínimo. Sendo assim, o ajuste fiscal ou consolidação fiscal é uma medida necessária para o médio e longo-prazo, não para as atuais circunstâncias da economia brasileira. No curto-prazo é necessário um amplo programa de investimentos públicos para tirar a economia brasileira na estagnação que se encontra desde 2017 (mas vamos falar isso bem baixinho para o Bolsonaro não escutar e tentar se reeleger). Uma vez atingido o “pleno-emprego” dos fatores de produção, a magnitude do efeito pass-through vai depender da resposta da produtividade do capital a desvalorização do câmbio. Se a produtividade do capital aumentar, então a queda requerida do salário real será pequena e, dessa forma, as demandas dos trabalhadores por recomposição salarial também serão. Nesse contexto, uma pequena acomodação da meta de inflação, com o centro da meta sendo elevado para 4% a.a será suficiente para permitir o ajuste permanente da taxa real de câmbio sem detonar um novo ciclo de elevação da selic, o que traria consigo a possibilidade de apreciação do câmbio nominal por intermédio da volta das entradas de capital especulativo.

Em suma, o artigo de hoje de Samuel Pessoa na FSP finalmente desinterdita o debate entre a ortodoxia e a parte ilustrada da heterodoxia brasileira. Como disse o inspetor francês no filme Casablanca, Capitain Renault, espero que seja o começo de uma bonita amizade.

Pós-Escrito

Um leitor do meu blog me chamou, corretamente, a atenção para o fato de que parte relevante do desequilíbrio fiscal atual deve-se ao hiato do produto prevalecente na economia brasileira, o qual deve rodar em torno de 3% do PIB. Nesse caso, a simples eliminação do hiato do produto geraria uma melhoria no resultado primário de 1 p.p do PIB. Isso significa que o déficit primário estrutural prevalecente hoje no Brasil deve ser, no máximo, 2% do PIB, algo que pode ser facilmente obtido por uma reforma tributária digna de nome

Referências

Gabriel L.F., Ribeiro L.C.S., Jayme Jr F.G. and Oreiro J.L. (2020), “Manufacturing, economic growth, and real exchange
rate: empirical evidence in panel date and input-output multipliers”, PSL Quarterly Review, 73 (292), pp. 51-75

Marquetti, A; Maldonado Filho, E. Lauterti, v. (2010). “The Profit Rate in Brazil,1953-2003”. Review of Radical Political Economics, 42(4), pp. 485-504.

Missio F., Jayme Jr F.G., Brito G. and Oreiro J.L. (2015), “Real Exchange Rate and Economic Growth: New Empirical
Evidence”, Metroeconomica, 66 (4), pp. 686-714.

Oreiro, J.L. (2017). “A grande recessão brasileira: diagnóstico e uma agenda de política econômica”. Estudos Avançados, Vol. 31, N. 89.

Oreiro J.L., Manarin D’Agostini L.L., Gala P. (2020), ”Deindustrialization, economic complexity and exchange rate overvaluation: the case of Brazil(1998-2017)”, PSL Quarterly Review, 73 (295):313-341

Rodrik D. (2008), “The Real Exchange Rate and Economic Growth”, Brookings Papers on Economic Activity, 39 (2),
pp. 365-415.

Ros, J. (2013). Rethinking Economic Development, Growth and Institutions. Oxford Economic Press: Oxford.


Privatização dos Correios afunda economia e agrava índice de desemprego no Brasil (Site da CUT/DF, 16/07/2021)

Tags

, ,

De acordo com o economista José Luís Oreiro, a entrega da empresa para a iniciativa privada tenciona o desemprego e a flagrante crise econômica do país

O título de recordista em desemprego e propulsor do descalabro da economia parece não ser um peso para o presidente Jair Bolsonaro. O tom conservador dos discursos do capitão reformado do Exército acompanha a agenda econômica imposta ao Brasil com a velha política da privatização das empresas estatais e o insistente discurso de que o privado é melhor. A planejada consequência é a desregulação do mercado financeiro e a concentração de setores estratégicos da economia nas mãos de particulares. Isso desemboca na elevação do preço dos serviços e no enxugamento dos quadros de pessoal, uma equação necessária para a elevação dos lucros: principal meta de qualquer negócio privado. É esse o cenário que ganha corpo com a privatização dos Correios.

O projeto apresentado pelo Poder Executivo que prevê a venda da estatal mais antiga do Brasil diz que o governo manterá a prestação do chamado “serviço postal universal”, que inclui encomendas simples, cartas e telegramas. A ressalva, no entanto, não alivia o teor ultraliberal do texto. Isso porque o grande filão dos Correios, o maior operador logístico do Brasil, é o transporte de encomenda, em crescimento acelerado com o e-commerce, que viabiliza compras e vendas pela internet.

Segundo o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília, enquanto empresa pública, os Correios “regulam o poder de mercado das empresas concorrentes”. “Digamos que os Correios sejam comprados por uma dessas empresas que já fazem transporte de encomendas. Muito provavelmente, com uma maior participação de mercado, o que ela vai fazer é aumentar o preço das encomendas tanto da empresa que ela adquiriu quanto da sua própria”, afirma o docente que já publicou mais de 50 artigos em revistas científicas no Brasil e no exterior e é autor ou organizador de mais de uma dezena de livros sobre economia.

Ele acredita que, caso concretizada a privatização dos Correios no Brasil, certamente o país seguirá os passos de Portugal. Na terra de Cabral, a privatização do CTT (Correios de Portugal) resultou no aumento das tarifas e na redução da qualidade do serviço, acarretada pelo fechamento de várias agências nas pequenas cidades.

De acordo com José Luis Oreiro, “(Paulo) Guedes tem na cabeça a microeconomia que estudou em Chicago nos anos 70, que está totalmente ultrapassada”.  “Ele (Paulo Guedes) acha que os mercados têm um monte de empresas de um lado, um monte de consumidores do outro e que a concorrência é impessoal. Não é assim. Todo setor de logística, tanto no Brasil como no mundo, é oligopolizado, ou seja, são poucas empresas que operam no sistema de transporte de logística. Então, quando se vende os Correios, que provavelmente será adquirido por uma empresa de transporte de carga ou transporte de encomenda, o que vai acontecer é aumentar o grau de concentração desse mercado e elevar o preço do serviço”, explica.

Entretanto, o economista alerta que, embora o governo federal tenha uma agenda liberal ultrapassada, “não há nenhuma dúvida de que se trata de um bom negócio para o setor privado, o que não significa que é um bom negócio para o interesse público”. “O que nós vamos ver é o fechamento de agências dos Correios nas cidades menores, com demissão de funcionários. É mais gente desempregada ou no mercado informal. Portanto, nessas cidades menores, vai ter queda de renda e de emprego, que leva à redução da arrecadação de impostos”, reflete.

A preocupação com o agravamento da crise econômica do Brasil é compartilhada pelo deputado Leonardo Monteiro (PT-MG), presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Correios. “A privatização dos Correios gera impacto econômico para prefeituras, já que pagamentos de benefícios são realizados pela estatal em muitos municípios”, afirma. Ele ainda ressalta que, para além do impacto econômico, há um grave reflexo social imediato. “Os Correios possuem uma função social importantíssima, de entrega de material didático nas escolas públicas brasileiras, de entrega das provas do Enem, de entrega de medicamentos. Assim, esse projeto fere a soberania nacional, e o único objetivo é atender grandes interesses privados.”

Propositalmente inflexível

A campanha salarial dos trabalhadores dos Correios vem amargando com a intransigência da direção da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos do DF (Sintect-DF) e dirigente da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (Fentect), Amanda Corcino, conta que, neste ano, a luta é pelo “resgate dos direitos e em defesa dos empregos”.

“Ano passado nós perdemos muito. Foram 50 cláusulas retiradas do nosso Acordo Coletivo. Perdemos a jornada de 40 horas, o auxílio para filhos com deficiência, a prorrogação da licença-maternidade, que era até o sexto mês e agora é só de 120 dias, e tantas outras conquistas históricas”, conta. Ela ainda diz que, na campanha atual, além de resgatar os direitos perdidos, a categoria pede a correção da inflação e 5% de ganho real no salário. Nas demais cláusulas econômicas, a reivindicação é apenas pela recomposição da inflação. 

“E o que a empresa ofereceu? 0% de reajuste e a implementação de um banco de horas que, na verdade, quer legalizar uma exploração já realizada. Os Correios tiveram um lucro de R$ 1,5 bilhão no ano passado e vem divulgando nos seus canais um número recorde de postagens. Mas nas reuniões de negociação a diretoria diz que há um déficit de R$ 853 milhões e que por isso não pode dar reajuste, não pode conceder nada”, repudia Amanda Corcino. De acordo com a sindicalista, a proposta severa, já rejeitada em assembleia pela categoria, tem segundas intenções.

“Esse posicionamento da empresa, de não fazer uma negociação séria, é justamente para tencionar a greve que, nesses casos de intransigência, é o nosso único meio de reivindicar melhores salários e condições de trabalho. Com isso, a empresa quer tentar construir uma opinião-pública de que privatizar é melhor, que com empresa privada não vai ter greve. Mas é importante que a população saiba que, quando a gente realiza greve, é também defendendo o direito da população, já que Correios privatizado é prejuízo para o povo”, lembra a presidenta do Sintect-DF.

Em jogo

A venda de 100% dos Correios está estabelecida no projeto de lei 591/2021, de autoria do governo Bolsonaro. A proposta está na Câmara dos Deputados e deve ser colocada em votação em agosto, após o recesso do Congresso. A versão preliminar do relatório, apresentada pelo deputado Gil Cutrim (Republicanos-MA), não alivia em nada o os prejuízos impostos no texto original. Um dos poucos adendos à proposta do governo federal é uma mísera estabilidade de 18 meses para os funcionários da estatal após a privatização, além da criação de um PDV (plano de demissão voluntária).

“Nesses 18 meses, não dá nem pra juntar dinheiro e fazer uma poupança. Esse tempo não traz nenhum alívio para os trabalhadores dos Correios. Na verdade, daqui a 18 meses, nós vamos fazer parte dessa grande massa de desempregados do Brasil”, afirma a presidenta do Sintect-DF, Amanda Corcino.

Segundo ela, agora é hora de “mobilizar ao máximo e tentar reverter votos dentro da Câmara”. De acordo com o deputado Leonardo Monteiro (PT-MG), esse trabalho já vem sendo feito dentro da Câmara dos Deputados.

“Os partidos de oposição estão no front de luta em defesa dos Correios e, por meio da Frente Parlamentar em Defesa dos Correios, temos feito um bom debate e ampliado o diálogo com partidos de centro, que já percebem a falácia do discurso de que a estatal é deficitária e compreendem a importância da empresa e o impacto de uma privatização inclusive para a economia nacional”, afirma. 

O último levantamento realizado pelo Sintect-DF mostra que, da bancada do Distrito Federal, além da deputada Erika Kokay (PT) e do deputado professor Israel (PV), oposição ao governo, o compromisso de votar contra a privatização dos Correios foi feito apenas pela deputada Celina Leão (PP), da base governista. Bia Kicis (PSL-DF), Julio Cesar (Republicanos-DF), Luis Miranda (DEM-DF), Paula Belmonte (Cidadania-DF) e Laerte Bessa (PL-DF) são favoráveis ou se dizem indecisos quanto à proposta.

RPD 33 || José Luis Oreiro: O Brasil está condenado a ser um fazendão? (Julho, 2021)

Tags

, , ,

Sucesso do agronegócio não se traduziu em aumento do padrão de vida da imensa maioria da população brasileira, avalia José Luis Oreiro em seu artigo. Desindustrialização crescente pode condenar o país ao subdesenvolvimento (link: RPD 33 || José Luis Oreiro: O Brasil está condenado a ser um fazendão? – Fundação Astrojildo Pereira (fundacaoastrojildo.com.br))

Recentemente, o Ministro Paulo Guedes afirmou que O país tem vocação para o agronegócio, e esse governo enxerga isso de forma muito clara, objetiva e efetiva”. Não é a primeira vez que ouvimos isso da boca de um economista liberal autodeclarado. Entre 1944 e 1945, Eugenio Gudin defendeu, em debate com Roberto Simonsen, que o Brasil possuía uma “vocação agrícola” e que o Estado deveria se abster de intervir na economia para liderar o processo de industrialização. Naquele momento, contudo, a posição liberal foi derrotada. A realidade da escassez de dólares pós-Segunda-Guerra Mundial obrigou o governo Dutra a voltar atrás no processo de liberalização cambial e comercial posto em prática em 1946. Entre meados de 1947 e o início de 1948, o governo se viu forçado a mudar a política de comércio exterior, extinguindo o mercado livre de câmbio e adotando um sistema de contingenciamento de importações, o qual deu grande impulso à substituição da importação de produtos manufaturados pela produção doméstica. 

Em 1949, durante a primeira conferência da CEPAL, o economista argentino Raul Prebisch apresenta o famoso “Manifesto Latino-Americano”. Nesse documento, Prebisch explica que a industrialização era a única forma de os países da América Latina superarem o problema do “desenvolvimento desigual” com relação aos países industrializados. Isso, porque a inserção dos países latino-americanos na divisão internacional do trabalho, como exportadores de produtos primários, fazia com que parte dos ganhos de produtividade gerados pela incorporação do progresso técnico nesses países fosse apropriada pelos países industrializados, por intermédio da tendência secular à deterioração dos termos de troca. Essa tendência resultava do fato de que, enquanto na América Latina a incorporação do progresso técnico no setor exportador levava a uma queda dos preços dos produtos exportados, nos países industriais os avanços nas técnicas de produção eram incorporados na forma de salários mais elevados, mantendo-se constantes os preços desses produtos.  

Além dessa questão, Prebisch argumentou que, enquanto a elasticidade-renda da demanda por produtos primários era menor do que um, a da demanda por produtos manufaturados era superior a um. Sendo assim, seria impossível aos países latino-americanos crescer de forma sustentável a um ritmo maior do que o dos países industrializados. Isso porque, nesse caso, as importações dos países latino-americanos cresceriam mais rapidamente do que suas exportações, levando a uma progressiva redução das reservas internacionais e, em algum momento, a uma crise de balanço de pagamentos.  

Essa particularidade da “condição periférica” (para usar o termo criado por Prebisch) acabou fazendo com que os sucessivos governos brasileiros entre 1947 e 1980 se preocupassem em estimular a industrialização do país, processo esse que foi extremamente bem-sucedido; e permitiu que o Brasil apresentasse a segunda maior taxa de crescimento do PIB per capita no mundo, durante o período em consideração, ficando atrás apenas do Japão.  

A crise da dívida externa marcou ponto de inflexão no processo de desenvolvimento econômico do Brasil, levando à “década perdida” e à “alta inflação” dos anos 1980. Com o governo Collor, inicia-se no Brasil o processo de abertura da conta de capitais do balanço de pagamentos, o que permitiria o financiamento externo por intermédio do capital especulativo, atraído pelas altas taxas de juros pagas no Brasil. O modelo de industrialização por substituição de importações dá lugar ao modelo de crescimento com poupança externa que gera uma forte apreciação da taxa de câmbio, levando o país a uma nova crise de balanço de pagamentos, em 1998, e a um processo de crescente desindustrialização. Com o forte crescimento da economia da China nos anos 2000, a exportação de produtos primários disparou, e a participação dos produtos primários na pauta de exportações volta a superar a participação dos produtos manufaturados. O boom das commodities nos anos 2000 eliminou (ao menos temporariamente) a restrição externa da economia brasileira, permitindo uma hiper valorização da taxa de câmbio e a destruição de parte significativa do parque industrial brasileiro. Desde então, a economia brasileira tem permanecido semiestagnada, apresentando crescimento da renda per capita inferior a 1% a.a.  

O sucesso do agronegócio não se traduziu em aumento do padrão de vida da imensa maioria da população brasileira. Se for verdade que o Brasil está condenado a ser um “fazendão”, então, a conclusão inescapável é que nosso país está condenado ao subdesenvolvimento.  


José Luis Oreiro possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996) e doutorado em Economia da Industria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000). É editor do site que leva seu nome (www.joseluisoreiro.com.br)

Privatização dos Correios traz risco de encarecer envio de encomendas (Portal UOL, 14/07/2021)

Tags

,

Privatização dos correios é um erro, diz economista

O economista José Luís Oreiro, professor da UnB (Universidade de Brasília), declarou que a privatização dos Correios é um erro. Segundo ele, experiências internacionais, como a de Portugal, devem ser levadas em conta.

“A experiência portuguesa, de privatização dos serviços postais do país, foi muito ruim. O sistema é caro e ruim. As cidades pequenas são mal atendidas. O grande risco que existe é que se perca a capilaridade do serviço prestado hoje no Brasil”, declarou.

Segundo Oreiro, todos os municípios brasileiros têm atendimento dos Correios, e há risco de fechamento das agências que não dão lucro. Além disso, ele declarou ele declarou que os serviços para envio de encomendas devem ficar mais caros.

“Os Correios, com maior participação de mercado, regulam indiretamente o preço do envio de encomendas. O serviço é confiável e eficiente. Se os Correios forem comprados por uma empresa do setor de logística e entregas, teremos uma diminuição da concorrência. Isso se traduz em aumento da margem de lucro e elevação de preços para o envio de encomendas”

José Luís Oreiro

Link da matéria: A privatização dos Correios encarecerá o preço de envio de encomendas? (uol.com.br)

Três Perguntas aos Economistas com José Luis Oreiro (@economiadiscussão, 13/07/2021)

Tags

,

1) Podemos pensar em uma forte redução do dólar nos próximos meses? No que isso impacta a economia brasileira?


Oreiro: Acho pouco provável. Em primeiro lugar, a incerteza sobre a evolução da pandemia do covid-19 continua forte devido a propagação da variante delta do Sars-Cov-2, a qual reduz a eficácia das vacinas existentes até o presente momento. Isso significa que podemos ter, no Brasil, uma terceira onda de contágios e mortes por volta de agosto/setembro de 2021 com a decretação de novas medidas de distanciamento social, com impacto negativo sobre os preços dos ativos, particularmente a taxa de câmbio. Em segundo lugar, a crise política no Brasil subiu alguns degraus após os recentes depoimentos ocorridos na CPI do Senado Federal, com indícios crescentes de envolvimento do Presidente da República, ao menos por omissão, no caso da vacina Covaxin. Instabilidade política se traduz sempre em aumento de percepção de risco e, dessa forma, em desvalorização do Real frente ao dólar. Por fim, a proposta de reforma tributária do Ministro Paulo Guedes parece não ter agradado ao mercado financeiro, o que mantem uma pressão baixista sobre o Bovespa e altista sobre o preço da moeda norte-americana. Sendo assim, acredito que a taxa de câmbio continuará acima de R$ 5,00 mantendo pressionados o IPA e o IGP-M, os quais tem forte correlação com o IPCA. Nesse contexto o Banco Central do Brasil deverá continuar o processo de “normalização” da política monetária, com a elevação da selic para perto de 7% a.a até dezembro de 2021. 


2) O Banco Central do Brasil anunciou aumentos consecutivos da taxa de juros para a economia nos últimos meses. O FED (autoridade monetária americana) também sinalizou que pode aumentar os juros no longo prazo. Como o aumento dos juros interfere na vida dos brasileiros?


Oreiro: Quanto ao FED não existe nenhuma evidência de que a taxa de juros básica da economia norte-americana possa ser elevada antes de meados de 2022. No Brasil, como disse na pergunta anterior, o BACEN deverá continuar o processo de elevação da taxa de juros Selic até que a mesma alcance um patamar próximo de 7% a.a em dezembro de 2021. Como as expectativas de inflação para 2022 estão abaixo de 4% a.a, isso significa que a economia brasileira vai entrar o ano de 2022 com uma taxa real de juros em torno de 3% a.a num contexto de desemprego elevado e muita capacidade ociosa. Justamente o oposto que deveria ser feito nestas circunstâncias. As evidências empíricas disponíveis mostram, sem margem para dúvida razoável, que existe uma relação inversa entre o nível de atividade econômica e a taxa real de juros. Dessa forma, o aperto monetário deverá tirar alguns pontos percentuais de crescimento do PIB em 2022, contribuindo assim para a perpetuação do quadro de estagnação da economia brasileira. 


3) Com o real desvalorizado frente ao dólar, encarecem-se as importações e favorecem-se as exportações. O setor exportador brasileiro tem se beneficiado com a pandemia? A sociedade brasileira obtém alguma vantagem com o aumento no número das exportações?


Oreiro: Numa economia que opera com sub-utilização dos recursos produtivos, como é o caso do Brasil, um aumento das exportações líquidas, ou seja, da diferença entre exportações e importações é positiva para o nível de atividade econômica pois aumenta a demanda agregada por bens e serviços produzidos no país. O problema é que, devido a composição da pauta de exportações brasileira, atualmente dominada por produtos primários, as importações (devido a pequena recuperação econômica em curso) vão crescer mais do que as exportações, ou seja, as exportações líquidas irão diminuir. No ano de 2021, as exportações brasileiras foram muito beneficiadas pelo aumento do preço internacional da soja. Esse fator não deverá se repetir em 2022, quando haverá uma queda expressiva da cotação da soja no mercado internacional. Se o câmbio permanecer num patamar competitivo por um período razoavelmente longo de tempo, então eventualmente a composição da pauta de exportações começará a se mover na direção de produtos manufaturados; mas se trata de um processo que leva muito tempo para ocorrer, pois exige uma transformação na estrutura produtiva da economia brasileira.

Desde 2005, o Brasil passou por um forte processo de desindustrialização, com a participação da indústria de transformação no PIB caindo de cerca de 17% em 2005 para pouco mais de 10% em 2019. No mesmo período, a participação dos produtos primários na pauta de exportações superou a participação dos produtos manufaturados. A classificação da economia brasileira no Atlas de Complexidade Econômica caiu da 34 posição em 2005 para a 49 posição em 2018 (ver The Atlas of Economic Complexity (harvard.edu)), mostrando de forma clara a perda de sofisticação da estrutura produtiva no Brasil. A manutenção de uma taxa de câmbio competitiva é condição necessária, mas não suficiente, para reverter esse quadro. O Brasil precisa retomar, urgentemente, as políticas industrial, de ciência e tecnologia e inovação com o objetivo de modernizar o parque industrial brasileiro, de maneira a preparar nossa indústria para a próxima Revolução Industrial que será baseada na descarbonização da estrutura de produção e consumo. Se perdermos essa janela de oportunidade o Brasil irá se transformar num grande “fazendão”.  

Efeitos do novo ciclo de commodities se restringem ao entorno do campo (Folhapress, 27/06/2021)

Tags

Arquivo/Ricardo Teles/EBC

Na avaliação de especialistas, ainda que os dois ciclos favoreçam as exportações brasileiras e tenham o mesmo indutor (um aumento da demanda da China por alimentos e minério de ferro), a alta de preços acontece em momentos muito distintos para o Brasil.

Ao contrário do boom de commodities que ocorreu aproximadamente de 2003 a 2013, o novo ciclo, que ganhou impulso no ano passado com o início da recuperação após a crise causada pela pandemia do novo coronavírus, ainda tem efeitos limitados nos outros setores da economia brasileira.

“O agronegócio hoje é maior do que era antes. Em tese, o ciclo atual estaria impactando mais, mas os outros setores [como indústria e serviços] estão em uma situação muito pior. O campo ajuda, mas tem muita coisa para resolver nas outras áreas”, diz Alexandre Mendonça de Barros, da consultoria MB Agro.

Pelo CRB (Commodity Research Bureau), índice que acompanha o comportamento dos produtos básicos (como soja, petróleo e minério de ferro), o aumento dos preços desses produtos foi de 51,5% em um ano até maio. No ciclo anterior, o pico havia sido em junho de 2008, com um aumento de mais de 100% na comparação com o início da alta de preços, pouco mais de cinco anos antes.

O efeito disso tem se irradiado para o consumo e a renda nas cidades próximas ao campo, que experimentam desde um boom imobiliário –como em Goiânia, onde esse mercado cresce desde 2016– à falta de máquinas agrícolas devido à alta procura. Mas acaba sendo insuficiente para chegar ao resto do país, como ocorria antes.

O ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn é um dos que acreditam que o boom anterior e o ciclo atual devem ter efeitos diferentes para o país. Se o dos anos 2000 se deu por um aumento de preços pelo forte crescimento da China e dos Estados Unidos, o movimento atual ocorre por uma recuperação cíclica, após uma grave crise, e não é possível prever ainda quanto tempo ele irá durar, diz.

“Uma década é suficiente para se espalhar por outros setores, mas o que temos garantida hoje é uma recuperação na saída da Covid-19, que pode durar um ou dois anos. E essa é uma recuperação que acontece de forma desigual ao redor do mundo”, afirma o economista, que hoje é presidente do conselho do Credit Suisse.

Na avaliação do professor da EESP/FGV (Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas) Felippe Serigati, o campo e a agroindústria têm influenciado positivamente a economia e, por mais que o país passe por dificuldades desde a crise 2015 e 2016, as turbulências foram menos traumáticas onde o agro é predominante.

“No ciclo passado, a gente teve a sensação de um transbordamento maior, mas estamos operando em realidades diferentes. A indústria tem tido graves dificuldades ao menos nos últimos cinco anos e o setor de serviços apanhou muito durante a pandemia. É como se a gente estivesse esperando que o agronegócio e a mineração resolvessem todos os problemas”, avalia Serigati.

No passado, o boom de commodities também teve como aliados um aumento do crédito e de consumo com ganhos reais dos salários, o que ajudou a aquecer o mercado de trabalho e a espraiar os efeitos do dinamismo do campo.

Agora, no entanto, o Brasil passa pela pandemia com recordes seguidos de desemprego, aumento da desigualdade e renda das famílias em queda livre. Como o agronegócio está cada vez mais mecanizado e a mineração gera poucos empregos diretos, esses setores acabam contribuindo diretamente pouco com a redução da desocupação.

O economista Paulo Morceiro, pesquisador da Universidade de Joanesburgo (África do Sul), lembra que o ciclo dos anos 2000, principalmente de 2004 a 2013, costuma ser vinculado apenas às commodities, mas um outro atrativo das divisas foi o diferencial de juros do Brasil.

Com a entrada de divisas, as reservas internacionais aumentaram em dez vezes, o que ajudou a eliminar a fragilidade do país nas crises externas.

“O crédito dobrou de 25% para mais de 50% do PIB no período, e o salário mínimo real aumentou de 2000 a 2014.”

Esse aumento da massa salarial e do emprego fez a economia girar, complementa o economista. “Boa parte desse crescimento do emprego acabou indo para as importações de produtos prontos e para insumos da indústria. O 

país poderia ter se beneficiado da industrialização no ciclo anterior, e, depois que o ciclo passou, o crescimento da economia não se manteve”, afirma.

Ao destrinchar os dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Morceiro observou que desde o ano passado ocorre um fenômeno que não acontecia desde o fim da década de 1950: o peso da agropecuária e da indústria extrativa somados no PIB ultrapassou o da indústria de transformação.

“Hoje, a gente caminha por uma cidade do interior do Centro-Oeste e tem a impressão de estar em outro país. Tudo é muito novo, e esse desenvolvimento veio do agronegócio, mas é algo muito localizado em estados de população pequena.”

Em 2018, o IBGE destacou que a região Centro-Oeste foi a que mais avançou no PIB per capita (uma das formas de se medir o padrão de vida) ao longo da série histórica do levantamento. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, grandes exportadores de commodities, apareciam entre os estados em que o indicador era melhor que a média nacional.

Morador de Campo Grande (MS), o veterinário João Kintschev Júnior, 32, viu de perto essa melhora do padrão de vida nas cidades próximas ao agro. Ele, que hoje trabalha na startup Agrointeli, que oferece serviços de mapeamento para propriedades rurais, nem pensa em deixar a região.

“Dá para sentir nitidamente os efeitos do ciclo de commodities de Mato Grosso do Sul até a região do Matopiba [região na divisa dos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia]. A riqueza do campo ajuda os outros setores locais, e a gente acaba tendo de contratar profissionais de outras regiões do país.”

Com perfil parecido, o engenheiro carioca Edson Lima, 33, não consegue emprego na área de infraestrutura há dois anos. “Recebi um convite de um tio, que mora em Mato Grosso, para tentar a vida por lá. Sair do Rio não estava nos meus planos, mas pode ser a oportunidade que estava buscando”, conta.

Além do incentivo via crédito e salário, os efeitos dos dois ciclos também são diferentes, pois no primeiro boom de commodities houve em paralelo um boom de exportações de manufaturados –e isso não ocorre agora, avalia o professor da UnB (Universidade de Brasília) José Luis Oreiro.

“O dinheiro que está sendo gerado pelas commodities fica com um número muito pequeno de pessoas e acaba virando consumo de luxo. É preciso introduzir um imposto sobre exportações de commodities e usar essa receita para financiar obras de infraestrutura”, diz o economista.

Segundo Mendonça de Barros, da MB Agro, porém, o espraiamento dos efeitos positivos do agronegócio ainda vai acontecer. “É uma questão de tempo, já que o choque de preços começou recentemente e o efeito demora um pouco mais, mas os fatores multiplicadores da riqueza das commodities vão se impondo.”

Crise hídrica pode afetar PIB do setor agrícola, diz Ipea

São Paulo | Reuters”O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada revisou para cima a projeção do PIB do setor agropecuário para 2021, para alta de 2,6%, mas disse que a crise hídrica pode afetar o desempenho.

“A ocorrência de choques climáticos adversos no centro-sul, e a possibilidade de adoção de medidas restritivas ao uso da água para a lavoura –em razão da necessidade de poupar o recurso para a geração de energia hidrelétrica–, podem afetar negativamente as estimativas para alguns produtos”, disse o boletim de conjuntura do Ipea.

Some Few Remarks on Job Guarantee Program and Modern Money Theory from Structuralist Development Macroeconomics View

Tags

, ,

The Job Guarantee (JG hereafter) program of the Modern Money Theory (MMT hereafter) literature seems to be designed for a mature economy in the sense of Lewis (1954). There is no subsistence sector in the economy, so anyone that cannot get a job on the modern sector is unemployed or out of the labor force. This can be a good picture for high income countries, but it is definitely not the case for emerging and developing economies where more than 30% of the labor force works at subsistence or informal urban sector. This means that when one is fired in the modern sector of the economy, he/she has always the alternative (except during covid-19 pandemia) to “work” within the subsistence sector. These people are not officially unemployed, but their situation can be considered a “disguised unemployment” in the sense of Joan Robinson (1936).

In her 1936 article Joan Robinson explicity writes that : “Yet unemployment, as we know it, is specifically the disease of an advanced industrial community” (p.225); and she asks “How can we account for the fact that, over the
the whole range of human history, unemployment in the modern sense is, comparatively speaking, a rare and local phenomenon?” (ip.225).

She answered this question with the concept of disguided unemployment. In her words:

“The answer is to be found in the existence of disguised un-
employment. In a society in which there is no regular system of
unemployment benefit, and in which poor relief is either non-
existent or ” less eligible ” than almost any alternative short of
suicide, a man who is thrown out of work must scratch up a living
somehow or other by means of his own efforts. And under any
system in which complete idleness is not a statutory condition for

drawing the dole, a man who cannot find a regular job will
naturally employ his time as usefully as he may. Thus, except
under peculiar conditions, a decline in effective demand which
reduces the amount of employment offered in the general run of
industries will not lead to ” unemployment ” in the sense of
complete idleness, but will rather drive workers into a number of
occupations-selling match-boxes in the Strand, cutting brush-
wood in the jungles, digging potatoes on allotments-which are
still open to them. A decline in one sort of employment leads
to an increase of another sort, and at first sight it may appear
that, in such a case, a decline in effective demand does not cause
unemployment at all. But the matter must be more closely
examined. In all those occupations which the dismissed workers
take up, their productivity is less than in the occupations that they
have left” (1936, p.225-226).

How a JG programm will work in such situations, which are typical of dual economies in the sense of Lewis?

Another issue is regarding the external constraint. For MMT a system of floating exchange rate seems not only a necessary/sufficient condition for monetary sovereignty, but also for eliminating the external constraint. I had two criticisms to this idea. First of all, in the real world a pure floating exchange rate regime do not exist. All countries intervene in the foreign exchange market in order to reduce the amplitude of exchange rate fluctuations. If that is so, exchange rate floating may be not able to perform the role of “automatic stabilizer” of balance of payments. Second, the effect of changes in the nominal exchange rate over real exchange rate and in trade balance depends of (i) the level of real wage resistance; (ii) the price elasticities of exports and imports. In high income countries, the price elasticities of exports and imports are high, so a real exchange rate devaluation can increase the trade balance; but real wage resistance is higher, mainly in continental Europe countries, like France and Italy. This means that a devaluation of nominal exchange rate will create demand for higher nominal wages, reducing the effect of exchange rate over trade balance. In emerging and developing countries the wage resistance is low – due to low levels of labor unionization – but price elasticities are low (at least for countries specialized in exports of primary goods). This means that for these countries is impossible to make economic policy without considering the external constraint (Prebisch, 1950). The historical record of Latin American countries is the a clear demonstration of this statement.

This means that for Latin American countries the best economic policy for given people a decent job is not to implement a JG programm; but to faster the rate of structural change, speeding the pace of capital accumulation in the modern sector of the economy in order to transfer labor force from the subsistence sector to the modern sector until the so-called “Lewis Point” is reached and labor supply ceases to be unlimited. The most effective way to do that is by means of industrialization, that is, to increase the share of manufacturing industry both in GDP and total employment. A necessary, although not sufficient condition, is to keep the real exchange rate at a stable and competitive level in the medium to the long term (Bresser-Pereira, Oreiro and Marconi, 2015). It will be also required State to coordinate the investment decisions of the private sector in order to produce a “big push” in the rate of capital accumulation and increase the private incentives for investment, which are low in developing countries due to the existence of increasing returns and both technological and pecuniary externalities. Some socialization of investment in Keynes´s sense through State-Owned Enterprizes can be necessary for accomplish this goal.

References

Bresser-Pereira, L.C; Oreiro, J.L; Marconi, N. (2015). Developmental Macroeconomics: new developmentalism as a growth strategy. Routledge: London.

Lewis, A. (1954). “Economic Development with Unlimited Supplies of Labor”. The Manchester School of Economic and Social Studies, Vol. 28.

Prebish, R. (1950). The Economic Development of Latin America and its Principal Problems. United Nations: New York

Robinson, J. (1936). “Disguised Unemployment”. The Economic Journal ,Vol. 46, No. 182, pp. 225-23

Câmara pode votar privatização dos Correios em julho, diz líder do governo (Portal UOL, 23/06/2021)

Tags

, , ,

Agenda de privatizações é ultrapassada, diz economista

O economista José Luis Oreiro, professor da UnB (Universidade de Brasília), declarou que a agenda de privatizações do governo é puramente ideológica. Segundo ele, são poucos os estudos específicos que detalhem os benefícios para a sociedade brasileira com as privatizações. Ele declarou que nos últimos 20 anos mais de 800 empresas voltaram ao controle estatal em diversos países. “O Brasil está embarcando em uma agenda ultrapassada, privatizando empresas de setores estratégicos e que são sensíveis, como o de geração de energia”, disse. Segundo ele, a privatização dos Correios é uma “maluquice” porque o mercado brasileiro já é a aberto, e outras empresas competem para a entrega de encomendas. “A experiência da privatização dos serviços postais de Portugal deve ser levada em conta. Os portugueses avaliam o setor postal como caro e ruim. Os Correios no Brasil são monopolistas na entrega de cartas. Mas há competição nos outros setores. Os parlamentares deveriam discutir esse tema com calma porque isso pode trazer prejuízos para os brasileiros”, disse.

Link da matéria completa: Câmara pode votar privatização dos Correios entre 12 e 15 de julho (uol.com.br)