O que está acontecendo com o COPOM?

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Na reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) realizada ontem, a autoridade monetária decidiu por uma nova redução cosmética da taxa de juros de apenas 0,25 p.p, levando a taxa selic para 13,75% a.a. Considerando uma projeção de inflação (no cenário de referência do BCB em outubro de 2016) de 4,4% para o ano de 2017 o nível atual da selic significa um juro real ex-ante de incríveis 8,9% a.a, no contexto de uma economia que está em recessão a sete trimestres consecutivos e onde os dados recentemente divulgados sobre o PIB do terceiro trimestre mostram uma aceleração na margem da queda do nível de atividade econômica de -0,4% no segundo trimestre para -0.8% no terceiro trimestre.

No comunicado divulgado ontem para a imprensa, a diretoria do BCB justifica a decisão de manter o passo de cágado no processo de redução da taxa de juros com base na avaliação de que o ambiente externo – leia-se eleição de Donald Trump – torna mais incerta a condução da política monetária nos Estados Unidos, o que afeta a capacidade do PIB mais fraco em afetar mais favoravelmente a dinâmica da taxa de inflação no Brasil.

Essa “justificativa” do BCB esbarra em dois problemas. O primeiro é que o FED – ao contrário do BCB – tem independência com respeito ao poder executivo de forma que o presidente eleito dos Estados Unidos não pode simplesmente obrigar o FED a aumentar a taxa de juros, se essa não for a vontade da autoridade monetária americana. Uma elevação forte da taxa de juros nos Estados Unidos pode advir, contudo, de uma aceleração do crescimento da economia norte-americana, caso o governo Trump consiga implementar um pacote de estímulo fiscal. Não se trata, portanto, de um risco de curto-prazo, mas de médio-prazo. Mesmo nesse cenário o BCB possui instrumentos para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio, diminuindo assim o impacto inflacionário advindo desse cenário.

O segundo problema é que de acordo com as projeções feitas pelos modelos econométricos do BCB – que baseiam o chamado cenário de referência – a inflação prevista para 2017 e 2018 já se encontra abaixo do centro da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional. De fato, em outubro passado o cenário de referência apontava para uma inflação de 4,3% para 2017 e de 3,9% para 2018, sinal claro de que não só a autoridade monetária prevê a convergência para o centro da meta de inflação em 2017, como ainda espera que a inflação fique muito abaixo do centro da meta em 2018. Nesse contexto, o protocolo do regime de metas de inflação indica a necessidade de uma redução da taxa de juros para impedir um custo desnecessário em termos de queda do nível de atividade econômica.

Se os modelos econométricos do BCB indicam a necessidade de um corte (agressivo) da taxa de juros, qual a razão da relutância da diretoria do COPOM em acelerar o passo ? Uma explicação possível é que embora as projeções da equipe técnica do BCB apontem para uma inflação abaixo da meta em 2017 e 2018, as expectativas de mercado ainda se encontram (levemente) acima do centro da meta. Com efeito, em outubro o cenário de mercado apontava para uma inflação de 4,9% para 2017 e 4,7% para 2018. Havendo divergências entre as projeções da equipe técnica do BCB e as projeções do mercado, o BCB deve arbitrar sempre pelas suas próprias projeções, a não ser que ele tenha razões para desconfiar da acuidade de seus modelos de previsão. Nesse caso, o correto seria trocar os modelos – ou a equipe técnica – e comunicar o ocorrido para a sociedade.

Uma segunda explicação tem com base a economia política. A ideia é que a diretoria do BCB estaria deliberadamente retardando o ciclo de redução da taxa de juros para aprofundar a queda do nível de atividade econômica e assim criar a sensação de urgência necessária para o Congresso Nacional votar e aprovar as medidas de ajuste fiscal propostas pelo Ministério da Fazenda. Ainda segundo essa linha de interpretação, um afrouxamento monetário mais tempestivo, ao levar a uma recuperação do nível de atividade econômica, poderia produzir uma sensação de alívio entre os parlamentares, fazendo com que os mesmos perdessem o sentido de urgência, ou até mesmo o sentido de necessidade, de aprovar não apenas a PEC 241/55, como ainda a reforma da Previdência Social. Essa interpretação tem algum respaldo no trecho do comunicado divulgado ontem pelo BCB no qual lê-se que “o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia é lento e envolve incertezas”.

Qualquer que seja a explicação para a relutância irracional do BCB em acelerar o processo de redução da taxa selic, a diretoria do BCB deveria refletir profundamente sobre a advertência de Luiz Carlos Mendonça de Barros feita no Valor Econômico de hoje: “Se o Banco Central não agir direito, pode transformar a recessão em depressão“.

 

 

Apesar de incerteza com Trump, BC não deve usar reservas cambiais, dizem analistas (Agência Reuters, 23/11/2016)

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Por Luiz Guilherme Gerbelli

SÃO PAULO (Reuters) – A volatilidade esperada com o incerto governo de Donald Trump nos Estados Unidos não deve levar o Banco Central brasileiro a usar as reservas cambiais para evitar transtornos nos mercados financeiros, segundo analistas consultados pela Reuters.

A vitória de Trump resultou em turbulência para o mercado financeiro, sobretudo para os países emergentes -no Brasil, o dólar chegou a valer mais 3,50 reais logo após ser conhecido o resultado da disputa eleitoral, uma valorização de mais de 10 por cento sobre o patamar de 3,16 reais até então.

No auge do estresse, na semana da vitória inesperada do republicano, profissionais do mercado financeiro sinalizaram que a autoridade monetária brasileira poderia se desfazer de parte das reservas, hoje próximas de 375 bilhões de dólares, para atenuar a valorização do dólar, evitar volatilidades e até mesmo reduzir impactos inflacionários.

Por ora, o BC não vendeu reservas, mas chegou a aumentar a intervenção no câmbio por meio dos swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares. Nesta quarta-feira, o dólar está sendo negociado ao redor do patamar de 3,40 reais.

“A venda de reservas seria mal recebida pelo mercado. Não faz sentido enfraquecer essa posição no momento em que as coisas estão complicadas”, afirma o ex-diretor do BC e chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, José Julio Senna.

A última vez que o BC utilizou as reservas internacionais foi na crise internacional de 2008, quando houve forte retração da liquidez global devido à crise financeira nos Estados Unidos e as linhas de crédito praticamente secaram. Entre outubro daquele ano e fevereiro de 2009, o BC se desfez de 14,5 bilhões de dólares, segundo a assessoria de imprensa da autoridade.

A diferença daquele momento para o atual, com volume muito maior de reservas, é que a economia brasileira é muito mais frágil agora. O país não é mais grau de investimento e está com as contas públicas fragilizadas, com sucessivos rombos primários.

“As reservas no Brasil, apesar de serem expressivas para a história brasileira… são importantes como um colchão. Além do Trump, há incerteza com o Brexit”, diz o ex-presidente do BC e diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, Carlos Langoni, referindo-se à recente decisão do Reino Unidos de deixar a União Europeia.

O BC tem deixado claro que está atento ao andamento do mercado e que dispõe de vários instrumentos para conter a volatilidade cambial. Questionado sobre a venda de parte das reservas, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, já afirmou que elas são importantes e que funcionam como uma espécie de seguro e ajudam na redução do risco país.

Para o economista do banco Santander Luciano Sobral, a discussão parece prematura para o momento. “Com a vitória do Trump, o real andou como se esperava dado o nosso histórico recente”, afirma Sobral.

MAIS RISCO

A utilização de reservas também poderia trazer risco adicional para o BC, na avaliação dos analistas. Se a venda de dólares não alcançar o resultado esperado, poderia haver desconfiança em relação à autoridade monetária e sua capacidade de amortecer momentos turbulentos.

“Se o BC intervém com reservas e não se chega ao resultado esperado, vira um problema”, afirma o economista da FGV e presidente da Associação Keynesiana Brasileira, Nelson Marconi. “O que ele devia fazer é voltar com a tributação no mercado futuro para operações sem lastro em exportações.”

Na avaliação dos analistas, a discussão sobre o tamanho das reservas cambiais e se o BC deve ou não se desfazer de parte dela só terá maior espaço na economia quando a questão fiscal for equacionada.

“Dado o quadro de fragilidade do setor público, é importante manter uma reserva e ter uma posição credora em dólares”, diz José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Não é um problema para se resolver agora. Depois da questão fiscal equacionada, aí sim pode-se pensar nessa discussão”, afirma.

 

Inflação baixa reforça aposta em queda de juros Correio Braziliense – 24/11/2016

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O resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que cravou alta de 0,26% em novembro, abaixo das expectativas, reforçou as apostas do mercado de que o Banco Central (BC) continuará o processo de queda de juros. Boa parte dos analistas estima que a taxa básica (Selic), hoje em 14% ao ano, será reduzida em 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 29 e 30 de novembro. Uma minoria, entretanto, avalia que os diretores do BC deveriam acelerar esse processo, diante da profunda retração da economia brasileira e da queda nas expectativas para a inflação do próximo ano.

O custo de vida só não caiu mais neste mês devido à alta do etanol. O litro do combustível ficou 7,29% mais caro. Além disso, O IBGE destacou que o aumento no valor das multas de trânsito, que chegou a 23,72%, pressionou o índice. Alimentos e bebidas, fontes de pressão no primeiro semestre, tiveram deflação de 0,06%. A maior queda foi no preço do leite longa vida, de 10,52%.

Quem cobra do BC uma flexibilização maior da política monetária afirma que o resultado do IPCA-15 de novembro, o menor desde 2007 para o mês, mostra que a inflação segue em trajetória de queda gradual. Além disso, argumentam que a mediana das estimativas para o aumento no custo de vida em 2017, está em 4,93%, abaixo da meta oficial, o que abre espaço para uma queda maior de juros. “O BC deveria reduzir a Selic em 0,75 ponto percentual porque o nível de atividade está muito ruim. Caminhamos para três anos de recessão”, alertou o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele explicou que, além de retração no terceiro trimestre de 2016, os dados preliminares apontam queda do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos três meses do ano. “A Fundação Getulio Vargas (FGV) já estima crescimento de 0,5% em 2017 e o governo, que sempre é mais otimista, de apenas 1,1%. A situação é crítica”, comentou Oreiro. No mercado, as estimativas para a queda da economia entre julho e setembro têm piorado.

O PIB do terceiro trimestre será divulgado em 30 de novembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas contas do Itaú Unibanco, a economia encolheu 1,1% no período. Mesmo assim, o maior banco privado do país espera que o BC faça um corte de apenas 0,25 ponto percentual na Selic, diante das incertezas globais criadas pela eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Dinâmica

O economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, também espera que os juros terminem o ano em 13,75%. “Apesar da recente dinâmica de atividade real, mais fraca do que a esperada, a pressão eleitoral nos Estados Unidos sobre o Brasil e a incerteza e os riscos gerados pelo resultado das eleições levarão o BC a ser cauteloso e manter o ritmo de redução de juros”, destacou.

A queda, neste mês, dos preços de alimentos, como feijão e leite, além da desaceleração nos custos de serviços, levou a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Marzola Zara, a colocar viés de baixa na projeção de IPCA para 2016, hoje em 6,9%. Mesmo assim, ela estima que que o BC reduzirá os juros em apenas 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom. “ Para 2017, mantemos nossa projeção de inflação de 4,9%”, disse ela.

Professor critica falta de discussão sobre taxa de juros e crescimento econômico (Jornal de Floripa, 23/11/2016)

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O professor José Luís Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concordou com a necessidade de limitar os gastos públicos, mas afirmou que esse debate está deixando de lado problemas como a alta taxa de juros e o baixo crescimento econômico.

Antonio Augusto / Câmara dos Deputados
VII Seminário Nacional de Fiscalização e Controle dos Recursos Públicos discute “A PEC 241 E OS IMPACTOS NA POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA”. Professor UFRJ, José Luís Oreiro
José Luiz Oreiro, professor da UFRJ, sugeriu mudança na PEC do Teto dos Gastos

“Acho que são agendas fundamentais, a gente está simplesmente passando ao largo e não estamos fazendo esse tipo de discussão. Tudo virou uma questão de aprovar a PEC porque ela vai salvar o Brasil. Isso não é verdade.”

Em seminário sobre a PEC do Teto dos Gastos nesta segunda-feira (21) realizado pela Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, Oreiro explicou que as despesas do governo crescem acima da inflação desde 1999 – isso ocorreria de qualquer forma, disse – e também defendeu a reindustrialização do País, sob pena de o crescimento econômico ficar limitado a 2% ao ano.

Crescimento populacional
Oreiro sugeriu ainda que a PEC seja modificada para que as despesas do governo acompanhem, pelo menos, a inflação mais o crescimento anual da população, hoje de 0,8% ao ano. A proposta atual prevê a inflação acumulada como teto – ou seja, o aumento das despesas poderá ser até menor do que a variação dos preços.

Pelas simulações de Oreiro, com a correção apenas pela inflação, as despesas não obrigatórias do governo mais educação cairiam de R$ 264 bilhões em 2016 para R$ 71 bilhões em 2026.

Já com a inclusão do crescimento anual da população, essas despesas também cairiam, mas com uma velocidade menor. Assim, em 2026, o montante chegaria a R$ 222,8 bilhões.

Crítica
Nas contas, o professor estimou uma manutenção do aumento real médio atual de despesas como saúde e benefícios previdenciários. O deputado Izalci Lucas (PSDB-DF) criticou a simulação, por não considerar a reforma da Previdência, o próximo passo do governo após a aprovação da PEC.

Vídeo do VII Seminário Nacional de Fiscalização e Controle de Recursos Públicos (Auditório Nereu Ramos, 21/11/2016)

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Seminário realizado no âmbito da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados no dia 21 de novembro de 2016 a respeito dos impactos da PEC 241/55 sobre a economia brasileira.

Programação programacao-2016-1-1

Vídeo da Mesa 1 – A PEC 241 E OS IMPACTOS NA POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA

Convidados:

1 – Alexandre Manoel da Silva Ministério da Fazenda
2 – Rodrigo Orair Pesquisador IPEA
3 – José Luís Oreiro Professor UFRJ

link: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cffc/videoArquivo?codSessao=58344&codReuniao=45831

Após revisão do IBGE, PIB de Dilma iguala o de segundo mandato de FHC (Folha de São Pauloi, 18/11/2016)

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Uma revisão nos dados recentes da economia brasileira, feita pelo IBGE, melhorou o resultado do PIB durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-14).

Assim, a primeira administração da petista deixou de ser isoladamente a de menor crescimento desde o governo de Fernando Collor (1990-92) e empatou com o desempenho de FHC em seu segundo mandato (1999-2002).

A revisão feita pelo IBGE não foi muito grande e ocorre cada vez que o instituto publica dados mais depurados do PIB. Nesta quinta (17), saiu o número definitivo de 2014. Em vez de uma estabilidade de 0,1%, a economia cresceu 0,5%. Também foi revisto levemente para cima o resultado de 2011, de 3,9% para 4%.

Foi o suficiente para a média anual de crescimento de Dilma 1 subir de 2,22% para 2,34% —superior, na segunda casa após vírgula, ao de FHC 2 (2,31%). Na divulgação oficial, o IBGE só considera o primeiro número após a vírgula, o que os coloca em empate.

Paulo Picchetti, pesquisador e um dos membros do Comitê de Datação de Ciclos da FGV, lembra que tanto Dilma quanto FHC enfrentaram turbulências externas.

Em sua segunda gestão, o tucano enfrentou o colapso argentino. Já Dilma encarou o estrago da crise financeira nos países da Europa. FHC enfrentou o racionamento de energia, e Dilma, a crise hídrica em 2014.

Mas, para Picchetti, o governo Dilma produziu desequilíbrios que cobraram seu preço no segundo mandato.

“O benefício de um crescimento que se mostrou melhor não compensa de forma alguma a dificuldade que estamos vivendo agora.”

A recessão se instalou em 2014, mas derrubou o PIB a partir de 2015, resultado de uma política de excessiva intervenção do governo no setor privado e desmesura nos gastos públicos, que levou à baixa da confiança empresarial e acabou em inflação.

O economista José Luis Oreiro, da UFRJ, dá peso à aceleração da inflação e ao choque de oferta produzidos pela súbita correção de tarifas, como de energia, em 2015 —represadas no primeiro governo Dilma. A crise política e as investigações da Lava Jato multiplicaram incertezas e debilitaram o investimento.

SEM NORTE

Oreiro afirma que a revisão dos números de Dilma não altera a leitura da gestão econômica da petista.

“Foi um governo que não soube lidar com a sustentabilidade do crescimento”, afirma. “Após tentar corrigir o câmbio [a seu ver, excessivamente valorizado], o governo Dilma desistiu e passou a adotar uma política econômica sem norte.”

O erro, diz Oreiro, foi ter interpretado que a moderação, após os anos de forte crescimento do governo Luiz Inácio Lula da Silva, se devia à falta de consumo. Em vez de adotar ações para estimular o investimento privado, optou-se por sobreaquecer a demanda.

Governantes desde o Plano Real, diz Oreiro, aplicaram juros altos e dólar barato para controlar a inflação, combinação que limita o investimento e a capacidade do país crescer no longo prazo.

“Sabemos que há 25 anos o padrão de crescimento do Brasil é baixo, ao redor de 2,3% anuais, o que é reflexo de uma baixa taxa de investimento, em torno de 18% do PIB. Isso é um problema mais estrutural do que de um governo ou de outro”, afirma.

Pequena indústria sofre para pagar 13º salário (O Estado de São Paulo, 17/11/2016)

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Como reflexo da queda do consumo e a retração do faturamento, quase sete em cada dez micro e pequenas indústrias paulistas enfrentam dificuldades para pagar o 13º salário dos funcionários neste ano. Para 17% delas, a situação é ainda mais grave e já se trabalha com a perspectiva de atrasar o repasse do benefício. Os dados são de um levantamento do Sindicato da Micro e Pequena Indústria do Estado de São Paulo (Simpi). As empresas paulistas correspondem a cerca de 40% do total de micro e pequenos fabricantes do País, segundo o Simpi.

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Situação é constrangedora, diz Gonçalves, da Tec Stam

A fabricante de parafusos Tec Stam é uma das que terá de postergar o pagamento de fim de ano dos empregados. “É uma situação muito constrangedora. A segunda parcela, que deveríamos repassar para a equipe até dezembro, só vamos conseguir pagar em fevereiro, com recursos próprios”, diz Humberto Gonçalves, sócio da firma.

Com os negócios em baixa, a empresa atrasou o cumprimento de contratos, o que a fez perder credibilidade com bancos e dificultou o acesso a crédito. “Fornecemos para diferentes segmentos, de máquinas e equipamentos a fabricantes de carrocerias para ônibus e caminhões, mas o capital fugiu, quem há dois anos tinha planos de investir teve de se preocupar em sobreviver, e diminuímos também.” Hoje, a empresa opera com 30% de ociosidade.

Na indústria de cutelaria La Lupe, a queda estimada no faturamento em 12 meses até novembro é de 15%, o que também dificultará o pagamento do 13.º salário, segundo Sérgio Luiz Kyrillos, sócio da fabricante. “Estamos fazendo um esforço para não atrasar o pagamento, mas o ano está sendo cruel, sobretudo para quem faz artigos que não são de primeira necessidade.”

Caso uma parte significativa dos micro e pequenos fabricantes atrase o 13.º, o impacto poderá ser grande nas vendas de Natal, lembra José Luis Oreiro, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Os comerciantes já esperam vendas natalinas mais fracas para este ano, mas um consumidor com menos dinheiro no bolso e mais receoso de gastar pode fazer com que o nível de estoque nas lojas aumente e a indústria já começaria o ano que vem tendo de contrair a produção e demitir mais gente. É um cenário alarmante para todos.”

Segundo Oreiro, a retração do mercado interno é ainda mais impactante para os fabricantes de menor porte, que não têm condições de exportar seus produtos, mesmo em um cenário de dólar mais valorizado. “Fica cada dia mais difícil reverter essa situação, em que as empresas operam com capacidade ociosa e sem perspectiva de melhora no consumo interno. Se nada for feito, pode chegar um momento em que a economia atinja um ponto de ruptura, caso a recessão se aprofunde.”

Ele lembra que muitos Estados em crise já atrasam pagamentos de servidores e, caso a iniciativa privada tenha de fazer o mesmo, não haverá como evitar um Natal mais magro.

Conta atrasada. O cenário atual do mercado interno é negativo para qualquer lado que se olhe, mas os pequenos industriais têm uma fragilidade maior do que as empresas grandes quando precisam recorrer aos bancos em busca de crédito, lembra Gustavo Loyola, da Tendências Consultoria.

Nesse contexto, a maior restrição a empréstimos, que afeta a todos, acaba sendo mais perversa com os menores, o que também reduz as suas possibilidades de defesa durante a recessão econômica, avalia.

Em outubro, 11% dos empresários disseram ter deixado de pagar seus fornecedores no mês anterior e 19% admitiram não conseguir honrar dívidas com bancos ou financeiras, ainda de acordo com o levantamento do Simpi.

“É como uma bola de neve. A receita diminuiu e, sem recursos para arcar com seus custos operacionais, as empresas se tornam inadimplentes. O passo seguinte é cortar na carne e atrasar os benefícios dos funcionários”, diz Joseph Couri, presidente do sindicato.

“Outubro e novembro são meses em que a produção nessas empresas costuma estar em alta, para atender às demandas de Natal do comércio, mas não é o que se vê neste ano. As máquinas estão paradas. Sem facilitar o acesso ao crédito para os micro e pequenos, não há muito o que o empresário possa fazer para tentar se reerguer.”

Outro artigo aprovado no JPKE

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Caros leitores,

o artigo “Macroeconomic Policy Regimes, Real Exchange Rate Over-Valuation and Performance of Brazilian Economy (2003-2015)” escrito em co-autoria com Luciano Dagostini, meu orientado de pós-doutorado no IE-UFRJ, acaba de ser aprovado para publicação no Journal of Post Keynesian Economics, Revista A1 no rankin Qualys da CAPES.

 

 

Seis meses depois, como está a economia, principal preocupação do governo Temer? (BBC Brasil, 15/11/2016)

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Superar a crise econômica, fator certamente decisivo para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, é a maior prioridade do governo de Michel Temer.

O presidente adotou um plano ousado e controverso para cumprir esse objetivo – quer limitar o crescimento dos gastos do governo à inflação, com a promessa de que a retomada do equilíbrio das contas públicas trará a volta da confiança dos investidores e empresário, criando mais empregos.

A proposta deve ser facilmente aprovada em dezembro pelo Congresso. Se ela vai de fato funcionar, no entanto, é uma avaliação que divide economistas entrevistados pela BBC Brasil.

Após seis meses, os sinas dos indicadores econômicos têm sido erráticos. Segundo o IBGE, a inflação vem recuando (caiu de 10,67% no final de 2015 para 7,9% em outubro), mas o desemprego permanece alto (11,8% em setembro). Já as previsões para a atividade econômica, que havia melhorado logo após a posse de Temer, caíram um pouco nos últimos dois meses.

Segundo levantamento semanal do Banco Central com analistas de mercado, a previsão mediana para a retração do PIB deste ano passou de 3,9% no início de maio (antes da queda de Dilma) para 3,1% em setembro e agora está em 3,4%. Enquanto a projeção de crescimento para 2017 subiu de apenas 0,2% em abril para 1,4% em setembro, esta semana caiu novamente para 1,1%.

O Banco Central, por sua vez, deu início a uma tímida redução na taxa de juros em outubro (de 14,25% para 14%), no primeiro corte desde 2012.

Para completar, a eleição do polêmico Donald Trump como presidente dos Estados Unidos serviu para embaralhar ainda mais o cenário econômico.

Governabilidade melhor, mas juros ainda altos

Na avaliação do ex-diretor do Banco Central e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas, cortes mais expressivos na taxa básica de juros (Selic) seriam uma boa medida para estimular o crescimento, tendo em vista as expectativas de continuidade da queda da inflação.

Ressaltando que o comércio projeta um Natal muito ruim neste ano e deve fechar 2016 com queda de 6% nas vendas, ele diz que os esforços do governo não devem se concentrar apenas “em equacionar o problema fiscal”, mas também focar no “setor real da economia”.

Apesar dessa ressalva, Freitas considera que Temer começou seu governo “razoavelmente bem” e deu “sinais positivos” ao buscar equilibrar as contas públicas (desde 2014 o governo tem amargado deficits bilionários).

Ele destaca principalmente a volta da “governabilidade”, já que o peemedebista conseguiu costurar uma ampla base no Congresso, fazendo andar suas propostas econômicas.

“Agora você tem governabilidade no país e isso significa mais confiança (na economia). Mas como ele herdou um país cheio de problemas, com o deficit fiscal muito alto e com os Estados quebrados, a solução vai ser lenta”, pondera.

A retomada da boa relação com o Congresso também é destacada pelo o economista José Luís Oreiro, professor da UFRJ. Dilma tentou enviar propostas para reverter o rombo nas contas públicas, como a recriação da CPMF (cobrança sobre transações financeiras), mas não tinha votos suficientes para sua aprovação.

“Foi um primeiro ponto muito positivo. Se o governo não voltasse a funcionar, não seria possível qualquer tipo de saída para a crise econômica”, afirma.

Ambos elogiam a PEC do teto e afirmam que a medida não terá um efeito tão pesado nos primeiros anos. Como a inflação, embora em queda, ainda fechará o ano em patamar alto (perto de 7%), os gastos de 2017 poderão ter um ajuste razoável, ressaltam.

‘Ajuste recessivo’

O economista-chefe da Gradual Investimento, André Perfeito, por outro lado, tem uma avaliação bem mais pessimista da medida.

Destoando da maioria dos analistas de mercado, ele considera que há um “pânico excessivo” quanto ao deficit das contas públicas, que segue abaixo da média dos países emergentes, ressalta.

Para Perfeito, o governo deveria fazer um ajuste mais leve, para conseguir estimular mais a recuperação da economia com investimentos públicos. Sua projeção hoje é de que a economia vai ficar praticamente estagnada em 2017, crescendo apenas 0,2%.

“Você está no meio de uma recessão, faz um ajuste fiscal recessivo, não precisa ser economista para saber que vai sair mais recessão”, argumenta.

Embora indicadores de confiança tenham mostrado nos últimos meses uma recuperação do otimismo de empresários e consumidores, ele aponta dois fatores que limitam o impacto disso no crescimento econômico.

De um lado, o desemprego alto e a renda em queda tendem a manter as pessoas cautelosas com seus gastos. De outro, como a indústria está com alta capacidade ociosa, ou seja, não está produzindo tudo que pode no momento, não há porque erguer novas fábricas no curto prazo.

‘Efeito Trump’

E a eleição de Trump, que assume o comando dos EUA em janeiro, trouxe nova dose de incerteza para a economia.

A expectativa é que o republicano adote medidas mais fortes para estimular o crescimento americano, o que poderia elevar a inflação e consequentemente os juros em seu país.

Juros mais altos tendem a tornar investimentos em títulos americanos mais atrativos, provocando uma migração de investidores para os EUA. Isso pode levar o Banco Central brasileiro a cortar menos os juros por aqui, para evitar uma saída muito grande de dólares, explicam os economistas.

Para Oreiro, o maior erro da atual administração foi não ter cortado a taxa Selic antes, a partir de junho, e de forma mais intensa.

Ele nota que a desvalorização do real no ano passado teve um efeito importante de recuperar as exportações. No entanto, como o juros permaneceram altos mesmo com a queda da inflação, houve uma entrada de dólares no país e o real se valorizou.

“A gente esperava uma recuperação da atividade industrial no terceiro trimestre de 2016, ela não veio e agora as expectativas para o quarto trimestre são muito ruins. Esse erro custou o início da recuperação da atividade econômica”, acredita o professor da UFRJ.

‘Efeito Trump’ deverá ser prolongado (O Estado de São Paulo, 13/11/2016)

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A volatilidade registrada nos mercados desde a eleição de Donald Trump, na terça-feira, deverá se manter pelas próximas semanas, com impacto nos juros, câmbio, fluxo de capitais e até na inflação, de acordo com especialistas ouvidos pelo ‘Estado’. Fora de quase todos os cenários projetados por analistas para os quatro anos a seguir, o novo presidente dos Estados Unidos ainda é uma incógnita, e as bolsas deverão reagir a cada nova sinalização do que virá a ser o seu governo, a partir de janeiro do ano que vem.

Na semana passada, a Bovespa refletiu o chamado “efeito Trump”. Na última sexta-feira, a Bolsa registrou uma nova queda, de 3,30%, e saiu do patamar de 60 mil pontos, fechando em 59.183,50 pontos. Em uma semana, a BM&FBovespa acumulou perdas de 3,92%. O dólar também encerrou o dia com uma nova elevação, de 1,3%, cotado a R$ 3,40.

“Foi uma reação natural, as pesquisas apontavam Hillary Clinton na dianteira e todo o mercado trabalhava com essa expectativa. O discurso de campanha de Trump fugia tanto do senso comum que ninguém ainda sabe onde termina o personagem e onde começará o presidente – e qual será sua política econômica, ainda mais governando com maioria na Câmara e no Senado”, diz o economista José Luis Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A perspectiva é de maior volatilidade para os próximos meses, e que o mercado reaja positiva ou negativamente, a depender da temperatura das futuras declarações de Trump.

Próximos sinais. Durante a campanha, Trump sinalizou que pretende aumentar gastos, o que deve pressionar a inflação. Como contrapartida, a expectativa é que, a partir do ano que vem, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) aplique a política de elevação da taxa de juros, para conter os preços.

“A subida dos juros de longo prazo também será ruim para o Brasil, pois temos um problema fiscal grave e precisamos contar com uma condição de financiamento mais favorável”, analisa Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas. “A eleição de alguém fora do espectro político tradicional representa uma mudança importante também para a economia mundial.”

Em um cenário mais nebuloso como o projetado para o ano que vem, a urgência de reformas estruturais no Brasil, como a reforma fiscal, torna-se ainda maior, diz Pessôa.

O aumento da taxa de juros deverá ter impacto na valorização do câmbio, que deve se refletir na depreciação do real, que já começou, lembra Oreiro. “Espera-se que ele aplique fortes cortes de tributos, o que poderia impulsionar com força o déficit orçamentário americano.”

Caso essa volatilidade se mantenha, o Banco Central poderá ter de rever a convergência da inflação brasileira para o centro da meta, de 4,5%, para 2018 ou 2019, diz. “Seria impraticável a projeção de que isso aconteça a partir do ano que vem.”

“Há ainda um fenômeno de saída forte de capitais de mercados emergentes, em geral. Os ativos estão caindo, porque as pessoas agora estão mais preocupadas com o aumento do risco. Como os discursos de campanha de Trump eram muito duros e distantes da realidade, o mercado agora deverá reagir às nomeações para o Tesouro e demais pastas”, lembra Armando Castelar, também do Ibre.

Disputa com chineses. Uma queda de braço fiscal do governo de Donald Trump com a China colocará o Brasil em uma situação delicada. Durante as eleições, o republicano criticou a postura comercial chinesa e ameaçou impor tarifas de 45% sobre os produtos do país asiático importados pelos EUA.

“Uma briga entre esses dois gigantes gera uma perspectiva de redução no comércio mundial e isso aconteceria em um momento delicado para o Brasil, que não pode abrir mão de divisas”, diz José Luis Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Mesmo que doure a pílula agora, a tendência é que Trump faça exigências muito mais pesadas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e eleve o tom do discurso protecionista, prejudicando os demais países.”

Mercado latino. Para o ex-secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) João Clemente Baena Soares, o recado de Trump é bem claro: ele não está interessado no fortalecimento de blocos econômicos. “Ainda que suavize o discurso, ele já sinalizou que a Parceria Transpacífico (TPP) pode não vingar e que o Nafta (aliança com México e Canadá) deverá ser revisto.”

“Trump não está preocupado com a economia mexicana, só está de olho nos imigrantes. Os latino-americanos, em geral, não serão prioridade, muito menos os países do Mercosul.”

A vitória do republicano representa a consolidação de uma onda protecionista que ocorre em escala mundial, e o bloco deveria investir na facilitação da circulação de pessoas e no estímulo a investimentos entre os países da região, diz.