OCDE reduz previsão do PIB global em 2023: “Pagando o preço da guerra” (Correio Braziliense, 27/09/2022)

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Prolongamento da guerra na Ucrânia e aumento de juros para conter alta da inflação vão desacelerar crescimento econômico em todo o mundo, segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

Rafaela Gonçalves

postado em 27/09/2022 03:50

O choque nas economias globais com a guerra na Ucrânia e o aumento das taxas de juros para conter a inflação levaram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) a rever para baixo suas projeções de crescimento em todo o mundo. Em seu relatório, intitulado “Pagando o preço da guerra”, a organização prevê um crescimento global modesto de 3% para economia em 2022, que deve desacelerar para 2,2% em 2023, estimativa 0,6% menor que anterior, divulgada em junho.

O número está bem abaixo do ritmo de crescimento econômico projetado antes da guerra e representa cerca de US$ 2,8 trilhões de perdas no mundo no ano que vem. Segundo a OCDE, o conflito deve continuar afetando a economia, em particular nos preços da energia e dos alimentos. A previsão de inflação mundial foi elevada para 8,2% em 2022 e 6,6% em 2023. “As pressões inflacionárias são cada vez mais generalizadas, com o aumento dos custos da energia, transportes e outros que são transferidos para os preços”, destacou o relatório.

Em linha com as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), a organização projeta que o Brasil crescerá 2,5%, quase dois pontos acima da estimativa de junho, bem superior às previsões iniciais. No entanto, a estimativa para 2023 foi 0,4 ponto percentual abaixo da previsão anterior, projetando que o país deve crescer apenas 0,8% no próximo ano.

Segundo o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), José Luis Oreiro, o crescimento mais expressivo neste ano não é sinônimo de que a economia brasileira esteja pujante e em pleno crescimento. “Na verdade é o resultado das medidas fiscais extremamente expansionistas e eleitorais, chamando atenção para a redução do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) dos combustíveis e da eletricidade, que reduziram a inflação”, disse.

A guerra elevou ainda mais os preços da energia, especialmente na Europa, agravando as pressões inflacionárias em um momento em que o custo de vida já estava subindo rapidamente em todo o mundo devido aos impactos persistentes da pandemia de covid-19. Por outro lado, o economista destacou que o conflito acabou favorecendo o Brasil com o preço das commodities agrícolas. “Ajudou o valor das exportações brasileiras, principalmente da soja. A combinação de todos esses elementos vai fazer a economia brasileira se expandir 2,5%, mas eu quero chamar atenção que esse [crescimento de dois e ]meio por cento é inferior a nossa média [histórica de 1980-2014, que foi de 2,8% a.a]”, acrescentou.

O economista especialista em macroeconomia e doutorando em ciência política, Felipe Queiroz, atribui o baixo crescimento projetado para os próximos anos à recuperação lenta da indústria, que é quem realmente contribui para o aquecimento da economia. “Nos últimos anos perdemos capacidade de produção de fertilizantes, de refino e de petróleo. Além disso, a indústria em diferentes setores está estrangulada, isso contribui para que as projeções, especialmente dos organismos internacionais, sejam não apenas conservadoras, mas muito cautelosas e até mesmo pessimista em relação à capacidade do país crescer”, afirmou.

Os países do G20 devem avançar no próximo o mesmo ritmo da economia mundial, após uma redução de 0,6 ponto da perspectiva para o grupo na comparação com junho. Neste grupo, a OCDE diminuiu em 1,5 ponto a previsão para a Argentina, que deve crescer 0,4% no próximo ano, depois de um avanço calculado em 3,6% para 2022, que não teve alteração, e de 10,4% em 2021.

pri-2709-economia

pri-2709-economia(foto: pri-2709-economia)

Riscos de recessão

O relatório projeta recessão na Alemanha e na Rússia no ano que vem. Na Alemanha, a previsão é de crescimento de 1,2% este ano, mas a economia alemã entraria em recessão, com contração de 0,7% em 2023. E, após uma contração de 5,5% em 2022, a OCDE reduziu a estimativa para o próximo ano na Rússia, que deve registrar resultado negativo de 4,5% em 2023.

O crescimento na China também foi atingido e deve cair para uma projeção de 3,2% em 2022. Exceto pela pandemia de 2020, esta será a menor taxa de crescimento na China desde a década de 1970. Para 2023, a projeção é 4,7%. Já o crescimento da economia dos Estados Unidos seria de 0,5% em 2023, sete décimos a menos que na previsão anterior. Além dos efeitos da guerra nos preços, o aumento das taxas de juros pelos Bancos Centrais para conter a inflação e as consequências da pandemia também repercutem na economia mundial, concluiu o relatório.

Novas taxas de juros no Brasil e EUA serão anunciadas na quarta-feira (21) [Portal Vermelho, 20/09/2022]

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Preço da alimentação não dá trégua e diminuição dos preços dos combustíveis é “redistribuição de renda dos pobres para a classe média”, aponta economista da UNB.

por Murilo da Silva

Publicado 19/09/2022 20:01 | Editado 19/09/2022 20:02

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A semana será marcada por anúncios sobre as taxas de juros do Brasil e dos Estados Unidos. Na próxima quarta-feira (21), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) brasileiro se reunirá para decidir se coloca fim ao ciclo de alta dos juros, ou se realiza mais um aumento antes de finalizar o ciclo. No mesmo sentido, o Federal Reserve dos EUA decidirá o quanto aumentar para controlar a inflação no país.

No Brasil, a taxa de juros (Selic) está em 13,75% ao ano. Parte do mercado acredita que os juros serão mantidos após divulgação do boletim Focus do BC. De acordo com o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro, é possível que a manutenção aconteça, porém ele acredita em uma elevação de 0,25%, em um último aumento que encerraria o ciclo de elevação.

“Nos últimos dois aumentos, o Banco Central elevou em 0,5%. Acredito que antes de finalizar o ciclo de aperto monetário o Banco Central vai fazer um ajuste residual de 0,25%. Então acredito que a taxa de juros vá aumentar para 14% e a partir daí será sinalizado o encerramento, ou suspensão temporária do ciclo de elevação da Selic”, diz.

Inflação

A inflação é medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-IBGE) construído em cima de uma cesta representativa do consumo de bens entre famílias que ganham entre um e quarenta salários mínimos.

Leia tambémJuros continuam aumentando nos EUA, mas inflação não cai

Segundo o Focus, a projeção para a inflação do ano caiu de 6,40% para 6%.  No entanto, a queda apontada acontece em meio as ações do governo que visam ganhar popularidade com a classe média pela redução do preço dos combustíveis. No entanto, as medidas não auxiliam a questão da subida dos preços dos alimentos. Além disso, houve redução no valor da energia elétrica no período, com a operação tarifária em bandeira verde.

“No ano passado operou-se com bandeira vermelha tipo 2. As condições dos reservatórios, das usinas hidrelétricas estão melhores do que o ano passado. Isso significa que se aciona menos as termoelétricas e por isso estamos em bandeira verde. Quando você junta a redução dos preços de combustíveis e eletricidade, devido à redução do ICMS, com a redução sobre o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), isso explica toda a queda observada na inflação nos últimos dois meses, junho e julho”, aponta Oreiro.

Peso da alimentação X Combustíveis

O economista ainda alerta que a redução apontada pelo IPCA, que tem uma grande amplitude, diz mais sobre as famílias que tem automóveis e, portanto, se beneficiam da redução do preço dos combustíveis, do que para as famílias com renda menor, para quem a cesta básica de alimentos tem maior peso.

“O peso da alimentação para famílias que ganham de um a dois salários mínimos é muito maior do que para famílias que ganham mais de 20 salários mínimos. Assim como o peso dos combustíveis para quem ganha entre um e dois salários mínimos é nenhum, porque essas pessoas não tem carro. Já quem ganha entre 5 e 6 salários mínimos, provavelmente, tem o seu próprio carro, pode ir trabalhar com ele e tem um gasto considerável devido aos combustíveis. Com isso, o efeito da queda do preço dos combustíveis é assimétrico, ele beneficia mais quem ganha mais, ou seja, foi uma medida regressiva do ponto de vista da distribuição de renda”, explica.

Conforme demonstra o professor, os mais pobres não se beneficiam com a queda da inflação puxada pelos combustíveis e pela eletricidade, pois a inflação dos alimentos continua alta, com entressafra, guerra e lockdown.

“Os alimentos continuaram subindo de preço, até porque a gente já está em entressafra e existem os problemas com a guerra da Ucrânia e Rússia e tem os lockdowns na China. Tudo isso continua pressionando os alimentos enquanto os combustíveis, que são mais importantes para a classe média e classe média alta, caíram de preço, isto é, foi uma política de redistribuição de renda dos pobres para a classe média”, crítica o economista as medidas do governo às vésperas da eleição.

Estados Unidos

A economia norte-americana continua em alerta com alta na inflação, de 8,3% em 12 meses (até agosto), o que afeta os preços dos alimentos no Brasil.

Como sinaliza o professor da UNB, os analistas apostam que Federal Reserve pode aumentar em até 1% a taxa de juros. Porém, ele acredita em uma nova elevação de 0,75% na taxa básica de juros norte-americana.

Sobre a influência sobre o Brasil, Oreiro observa que o câmbio nacional continuará pressionado acima de 5 reais por dólar.

“Isso significa que a inflação de alimentos não vai ceder, porque a única maneira de fazer ceder essa inflação seria por intermédio de uma valorização do real frente ao dólar. Coisa que não vai acontecer por conta da política monetária nos EUA e na Europa”, completa.

Link da matéria: https://vermelho.org.br/2022/09/19/novas-taxas-de-juros-no-brasil-e-eua-serao-anunciadas-na-quarta-feira-21/

Brazilian Central Bank raises the interest rate again: wrong diagnosis or vested interests of the rentier class? (Monetary Policy Institute Blog, 14/08/2022)

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Link: https://medium.com/@monetarypolicyinstitute/brazilian-central-bank-raises-the-interest-rate-again-wrong-diagnosis-or-vested-interests-of-the-2fc5ef55515f

José Luis Oreiro
Associate Professor of Economics, University of Brasília (Brazil)

“So, the rentiers and the financial sector, which have a very thigh relationship with the Central Bank, are taking advantage of the last few months that remain of their absolute dominance over the Central Bank to make the largest possible income extraction from the rest of the society. … Taking advantage of a government that is falling apart, which has no chance of re-election, to make the most of it, that is, it is pure plunder of the Brazilian economy.”

On Wednesday August 3, the Monetary Policy Committee of the Brazilian Central Bank (COPOM/BCB) raised the short-term interest rate by 50 basis points, from 13.25% to 13.75%. Despite the unemployment rate still above the 2014–2016 pre-crisis level, since March 2021, the Brazilian Central Bank began a very fast and deep process of “normalization” of monetary policy, raising the Selic rate from 2% to 13,75% — the greatest increase in the short-term nominal interest rate in the western world in such a short time-span. In this note, I will discuss the reasons — or rather excuses — the Brazilian Central Bank (BCB hereafter) gives in defending the increases of the selic rate in the last meeting of COPOM.

One of the reasons given by the BCB is the so-called Bolsonaro’s goodness package, also called “PEC Kamikaze” — a 50% increase in income transfers to the poorest Brazilian people in a desperate attempt to increase Bolsonaro’s popularity and win the presidential elections, in October 2022. The BCB warns against the risk of this “populist measure” becoming permanent after the end of 2022. They do not say so explicitly, but the BCB refers to the future government of President Luiz Inácio Lula da Silva. As such, due to the increased fiscal risk this new government would pose, the Central Bank justified another rise of half a percentage point of the Selic rate.

The problem with the successive increases in the short-term interest rate made by the BCB is that it is not clear what is the nature of inflation, according to the analysis of the Central Bank?

In my view, not the BCB´s view, actual inflation in Brazil (and maybe in the western world in general) is a persistent — but not permanent — supply shock problem: you have food and energy inflation resulting from a series of events that are persistent in time, such as the war between Russia and Ukraine, the long-standing effects of COVID-19 on the world supply chains, and so on. These effects are lasting longer than we expected. In fact, no one expected that at the end of 2021 that the war of Russia and Ukraine would take place, which certainly added great inflationary pressure due to the interruption of exports of corn and wheat from both Russia and Ukraine, as well as western sanctions against Russia which affected the international price of oil and gas, increasing global energy and food inflation. That’s my diagnosis.

However, the BCB apparently has two contradictory diagnoses. The first diagnosis is that the rise in inflation in Brazil stems from a deterioration of the fiscal framework that has recently been accentuated by increases in government expenditures that resulted from the so-called ‘PEC Kamikaze’, and that there is a risk that the measures of the ‘PEC Kamikaze’ will become permanent if former President Lula wins the presidential run in October. That is, in the next government, they will be maintained, which would increase the public debt and inflation.

Well, there’s no direct causal relationship between public debt and inflation. That’s an unbelievable primitive economic thinking. I mean, if it were because of that, Japan should have the highest inflation rate in the world, because Japan has a government debt-to-GDP ratio of almost 300%. This is a ridiculous explanation.

The second diagnosis is that the fiscal expansion made by Bolsonaro at the end of his term will have such a huge impact on aggregate demand that they would put the Brazilian economy to work above its potential output. Well, the Brazilian economy still has a 10% unemployment rate, but in the case of a dual economy like Brazil, the unemployment rate is not such an important variable for us to assess the pressure over productive capacity. Why? Most of the jobs that have been generated in the Brazilian economy in the last two years and, mainly, now, after the beginning of vaccination against COVID-19, were jobs in the informal or subsistence sector of the economy, which are precarious jobs. So, the unemployment rate just a little below 10% hides a huge, disguised unemployment. There is no demand pressure on the Brazilian economy. So, in my view, the two justifications that the Central Bank uses to continue raising the interest rate are completely unfounded.

That’s what brings me to the question of what political economy is behind the increase in interest rates. The only reason I see for such insane policies is that this is a government that is at the end of its mandate. Everyone knows that Bolsonaro will lose the elections, that President Lula will be elected and there will be a change in macroeconomic policy. For sure, the interest rate will be reduced not at once but in a gradual way. So, the rentiers and the financial sector, which have a very thigh relationship with the Central Bank, are taking advantage of the last few months that remain of their absolute dominance over the Central Bank to make the largest possible income extraction from the rest of the society.

Moreover, each percentage point increase in interest rates generates an increase in government spending (debt servicing) of about R$30 billion (almost US$6 Billions), over a 12-month period. In this context, the recent increase of half a percent made means that it will add over the next 12 months approximately R$15 billion in government spending (US$ 3 billions), that is, a transfer of income from the rest of society to the richest 1% of R$ 15 billion.

In my view, what is happening is simply the ‘end of game´ effect, which means that the remaining time for plunder Brazilian Treasury with insane high level of short-term interest rate is ending, so it is necessary to increase the rate of plundering before it is too late. So, they are taking advantage of the government’s last days in office to make the most of it. Taking advantage of a government that is falling apart, which has no chance of re-election, to make the most of it, that is, it is pure plunder of the Brazilian economy.

Brasil cresce menos que o mundo no governo Bolsonaro (Folha de São Paulo, 24/09/2022)

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País repete desempenho de Dilma e Temer; dados contradizem avaliação do governo de que a economia está decolando

É possível falar em taxa de desemprego de Equilíbrio no Brasil? Algumas considerações a partir da Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento

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No dia 14 de setembro de 2022, Samuel Pessoa publicou no Blog do IBRE um artigo intitulado “Completou-se a recuperação pós-pandemia” (https://blogdoibre.fgv.br/posts/completou-se-recuperacao-pos-pandemia) no qual ele sugere a possibilidade da economia brasileira terminar o ano com uma taxa de desemprego de 8,5% da força de trabalho, o que seria na visão do articulista uma situação de pleno-emprego. Com a inflação rodando no início de 2023 acima da meta e com a economia operando em pleno-emprego seria necessário realizar uma contração fiscal para permitir que o BCB consiga obter a meta de inflação em 2024.

Considerando que a taxa de juros Selic se encontra atualmente em 13,25% a.a e que a expectativa de inflação para 2022 de acordo com o Boletim Focus divulgado hoje é de 6%, temos uma taxa real de juros de incríveis 7,3% a.a. Estimativas da taxa neutra de juros são difíceis de serem feitas e altamente controversas, mas creio que ninguém em sã consciência diria que com esse nível de taxa de juros a política monetária não se encontra no campo contracionista. Dessa forma, a simples manutenção da taxa real de juros nesse patamar ao longo de todo o ano de 2023 seria – caso a política monetária tivesse a eficiência que seus defensores propõem, e caso a aceleração inflacionária observada desde o primeiro trimestre de 2021 fosse devido a um choque de demanda – suficiente para reduzir drasticamente a inflação em 2023 colocando-a, ao menos, dentro do intervalo de variação do regime de metas de inflação, o que significa, com base no arcabouço institucional vigente no Brasil, o cumprimento da meta de inflação para o próximo ano. Isso posto, qual a necessidade de realizar uma contração fiscal? Repetir o erro do governo Temer no qual se fez um overkilling da economia brasileira devido a combinação de contração fiscal moderada e contração monetária longa e profunda?

No entanto, não é sobre esse tema que quero discutir aqui. Samuel Pessoa “estima” que a NAIRU (Non Accelerating Inflation Rate of Unemployment) para o Brasil seja de 8,5%da força de trabalho. Não vou discutir o número em si mesmo, até porque Samuel não apresentou nenhuma evidência empírica para, pelo menos, dar algum suporte ao mesmo. Meu interesse é de outra natureza: quero discutir a relevância da NAIRU como indicador de “pleno emprego” para uma economia como a Brasileira que, ao contrário da economia dos Estados Unidos ou dos países de renda alta da União Europeia, é uma economia dual no sentido de Lewis (1954), ou seja, possui um setor moderno (capitalista) e um setor tradicional ou de subsistência, que emprega uma quantidade negligenciável de capital físico e, por isso mesmo, possui baixa produtividade.

Vamos começar com o conceito de NAIRU. Se tomarmos o manual de Macroeconomia de Olivier Bhanchard (2011) como referência, a NAIRU é a taxa de desemprego que compatibiliza o salário real que as firmas estão dispostas a pagar, dada a produtividade do trabalho e a taxa desejada de mark-up [a qual reflete o seu “poder de monopólio” para usar um conceito criado por Michael Kalecki (1954)] com o salário real que os sindicatos (no mundo real as negociações salariais se dão por intermédio de sindicatos, não a nível individual) desejam obter dado o seu poder de barganha, o qual depende de diversas variáveis que refletem a institucionalidade vigente no mercado de trabalho (nível e abrangência do seguro desemprego, grau de centralização das negociações coletivas, percentual da força de trabalho sindicalizada) e do estado prevalecente no mercado de trabalho. Dessa forma, dadas as variáveis institucionais o poder de barganha dos sindicatos será tão menor quanto maior for a taxa de desemprego, fazendo com que seja possível definir uma taxa de desemprego de equilíbrio, ou seja, uma taxa de desemprego que equaliza o salário real desejado por firmas e sindicatos. A esse nível de desemprego, a inflação é constante, pois as demandas salariais por parte dos sindicatos irão se resumir a recompor as perdas decorrentes da inflação passada.

Se o Banco Central desejar reduzir o patamar de inflação então será necessário elevar temporariamente o desemprego acima do patamar de equilíbrio para enfraquecer o poder de barganha dos sindicatos e, com isso, forçá-los a aceitar um reajuste dos salários nominais que seja menor do que a inflação passada, ou seja, será necessário ocorrer uma redução do salário real.

A taxa de desemprego de equilíbrio não é um dado da natureza, mas pode se alterar ao longo do tempo devido a mudanças institucionais. A reforma trabalhista realizada em 2017 deveria ter tido o efeito, conforme seus defensores, de reduzir a taxa de desemprego de equilíbrio. Samuel é um dos defensores dessa reforma. Então por uma questão elementar de coerência ele deveria supor em suas análises que a taxa de desemprego de equilíbrio no Brasil caiu. Mas seu texto recente no Blog do IBRE parece, salvo melhor juízo, não levar em conta o suposto efeito positivo da reforma trabalhista sobre essa taxa.

O modelo de Blanchard, contudo, supõe uma economia madura, ou seja, uma economia onde toda a força de trabalho já foi transferida para o setor moderno de forma que a oferta de trabalho se torna inelástica. Podemos discutir se esse conceito pode ser aplicar hoje a economias como dos Estados Unidos ou do Reino Unido, mas uma simples inspeção na composição do emprego no Brasil no primeiro trimestre de 2022 mostra que esse caso não se aplica ao Brasil.

Conforme dados obtidos da tabela acima extraídos de Oreiro et al (2022) [disponível em https://www.researchgate.net/publication/362508607_LABOUR_MARKET_REFORMS_IN_BRAZIL_2017-2021_AN_ANALYSIS_OF_THE_EFFECTS_OF_RECENT_FLEXIBILIZATION_ON_LABOR_MARKET_LEGISLATION%5D um em cada dois trabalhadores no Brasil trabalha no setor informal ou de subsistência na economia brasileira. Dada a precariedade dos empregos informais na comparação dos empregos formais, segue-se que o emprego informal no Brasil nada mais é do que Joan Robinson (1936) denominou de “desemprego disfarçado”, nas suas palavras:

“In a society in which there is no regular system of
unemployment benefit, and in which poor relief is either non-
existent or ” less eligible ” than almost any alternative short of
suicide, a man who is thrown out of work must scratch up a living
somehow or other by means of his own effort. And under any
system in which complete idleness is not a statutory condition for drawing the dole, a man who cannot find a regular job will fully as he may. Thus, except
under peculiar conditions, a decline in effective demand which
reduces the amount of employment offered in the general run of
industries will not lead to ” unemployment ” in the sense of
complete idleness, but will rather drive workers into a number of
occupations-selling match-boxes in the Strand, cutting brush-
wood in the jungles, digging potatoes on allotments-Nvhich are
still open to them. A decline in one sort of employment leads
to an increase of another sort, and at first sight it may appear
that, in such a case, a decline in effective demand does not cause
unemployment at all. But the matter must be more closely
examined. In all those occupations which the dismissed workers
take up, their productivity is less than in the occupations that they
have left. For if it were not so they would have engaged in them
already. The wage received by a man who remains in employ-
ment in a particular industry measures the marginal physical
productivity of a similar man who has been dismissed from it,
and if the latter could find an occupation yielding him a better
return, he would not have waited for dismissal to take it up.
Thus a decline in demand for the product of the general run of
industries leads to a diversion of labour from occupations in which
productivity is higher to others where it is lower.3 The cause
of this diversion, a decline in effective demand, is exactly the same
as the cause of unemployment in the ordinary sense, and it is
natural to describe the adoption of inferior occupations by dis-
missed workers as disquised unemployment” (pp. 225-226).

Isso posto, uma taxa de desemprego de 8,5% da força de trabalho no Brasil está muito longe de poder ser considerada de pleno-emprego ou “desemprego de equilíbrio”, dada a existência de uma enorme massa de pessoas “empregadas” em atividades de subsistência de baixa produtividade para simplesmente evitar morrer de fome. Se e quando a economia brasileira voltar a crescer de forma sustentada por intermédio do aumento da taxa de investimento e do aumento da participação da indústria de transformação do PIB haverá uma transferência de mão-de-obra do setor informal/subsistência para o setor moderno/industrial, o que terá como consequência um aumento permanente da produtividade média do trabalho da economia brasileira, o que tornará possível que os salários reais aumentem sem gerar pressão inflacionária de caráter permanente.

Para tanto será necessário, entre outras coisas, um aumento considerável do investimento público em obras de infraestrutura, ou seja, será necessária a realização de uma expansão fiscal, exatamente o oposto que Samuel defende no seu artigo no blog do IBRE.

Referências

Blanchard, O. (2011). Macroeconomia. Pearson: São Paulo (5 edição)

Kalecki, M. (1954). A Teoria da Dinâmica Econômica. Nova Cultural: São Paulo [coleção Os Economistas]

Lewis, A. (1954). “Economic Development with Unlimited Supplies of Labour”. The Manchester School of Economic and Social Studies, Vol. 28.

Oreiro, J.L; Gabriel, L.G; D´Amato, S.W; Martins da Silva, K. (2022). “LABOUR MARKET REFORMS IN BRAZIL (2017-2021): AN ANALYSIS OF THE EFFECTS OF RECENT FLEXIBILIZATION ON LABOR MARKET LEGISLATION” Anais do 34 Encontro da European Association for Evolutionary Political Economy: Nápoles.

Robinson, J. (1936). “Disguised Unemployment”. The Economic Journal, Vol. 36, N. 182, pp. 225-237.

“Com 33 milhões passando fome, BC transferiu R$ 200 bi para os mais ricos em um ano”, critica Oreiro (Hora do Povo, 18/09/2022)

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 Por Hora do Povo  Publicado em 18 de setembro de 2022

José Luís Oreiro, economista e professor da UnB. Foto: Marcos Oliveira – Agência Senado

“Este é o custo da política monetária que iniciou em março de 2021. Nesta época, a taxa estava em 2%, agora em setembro de 2022 está em 13,75%. Você aumentou em um ano o pagamento dos juros da dívida em R$ 200 bilhões”, analisou o economista e professor da UnB

Com os aumentos na taxa básica de juros da economia (Selic) realizados pelo Banco Central (BC), a transferência de renda da sociedade para o setor financeiro, por meio dos juros da dívida pública, atingiu a soma de R$ 586,4 no acumulado de doze meses até julho.

A cifra bilionária gasta pelo governo Bolsonaro com juros representa 6,31% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo informações do BC. No mesmo intervalo de tempo do ano passado, a soma foi de R$ 323,5 bilhões (3,94% do PIB).

“É o maior programa de transferência de renda da história, de toda sociedade, para o 1% mais rico do País”, criticou o economista José Luís Oreiro, ao destacar que o aumento da taxa de juros não teve impacto sobre a inflação.

 “Nós temos 33 milhões de brasileiros passando fome, e são quase R$ 600 bilhões transferidos para os mais ricos”, destacou em entrevista ao HP.

INFLAÇÃO

“Este é o custo da política monetária que iniciou em março de 2021. Nesta época, a taxa estava em 2%, e, agora, em setembro de 2022, está em 13,75%. Você aumentou em um ano o pagamento dos juros da dívida em R$ 200 bilhões. Chama a atenção que isto é três vezes o Auxílio Brasil. Isto é maior que todo o gasto do governo federal e dos Estados com a desoneração de combustíveis e energia elétrica, que está em torno de cerca de R$ 150 bilhões. Quer dizer, quando se fala da gastança do governo Bolsonaro, que ele está gastando para reduzir os impostos – o chamado gasto tributário – redução de impostos sobre combustíveis e sobre eletricidade, isso não passa nem perto do gasto com os juros da dívida”.

“O maior programa de transferência de renda da história, de toda sociedade, para o 1% mais rico do País’

“Qual foi o efeito que teve sobre a inflação este aumento da taxa de juros? Nenhum. A inflação só cedeu um pouco nos últimos dois meses porque o governo reduziu o ICMS sobre os combustíveis e sobre eletricidade e isto deu deflação em dois meses. É por isto que a inflação este ano vai fechar menor que a previsão, não foi por causa da elevação dos juros”, explicou o economista.

Oreiro observou, ainda, que o governo Bolsonaro faz “o maior programa de transferência de renda da história, de toda sociedade, para o 1% mais rico do País. Enquanto isso, estamos vendo os indicadores econômicos, por exemplo, o setor do varejo, na transição de julho para julho, veio em queda, o varejo restrito e ampliado. O efeito da reabertura da economia está se esgotando. Nós temos 33 milhões de brasileiros passando fome, e são quase R$ 600 bilhões transferidos para os mais ricos. É uma mentira dizer que há transferência no Brasil  dos ricos para os pobres. O que tem é uma transferência de renda de toda a sociedade para os mais ricos. Eu repito, esse aumento em um ano de R$ 200 bilhões é três vezes o Auxílio Brasil. É transferir de toda a sociedade para os 1% mais ricos. Lógico que este pessoal está apoiando Bolsonaro, evidente, estão ganhando muito dinheiro”, avaliou o professor de economia da  Universidade de Brasília (UnB).

COPOM

Na próxima terça-feira (20), o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC se reunirá para decidir se continuará elevando ou não a taxa de juros. A alta na Selic começou em 17 de março de 2021 e, desde então, a taxa subiu 12 vezes consecutivamente, de 2% para 13,75%, patamar mais alto desde 2016, quando a taxa começou o ano em 14%. Neste patamar, o Brasil lidera o ranking mundial de juros reais, isso é, descontada a inflação.

A elevação dos juros não teve impacto sobre a inflação, que vem de causas que não têm a ver com o aumento da demanda. Em 2021, o IPCA, que mede a inflação oficial do país, encerrou em alta de 10,06%, o maior aumento desde 2015 (10,67%). Nos últimos 12 meses até agosto, o índice geral acumula alta de 8,73%, de acordo com o IBGE.

Ao analisar o problema da inflação no Brasil, Oreiro destaca que “não existe pressão de demanda sobre a economia brasileira” que justifique o aumento da taxa de juros. “A inflação é um problema de choque de oferta persistente, mas não permanente”, disse o professor da UNB, em outra entrevista concedida ao HP. Em sua opinião, há inflação de alimentos e de energia subindo, “por conta de uma série de eventos que persistem no tempo, como: a guerra da Rússia e da Ucrânia, como os efeitos ainda da Covid-19 sobre a cadeia mundial de suplementos”. “Quer dizer, esses efeitos estão durando mais do que a gente havia esperado”, avaliou.

ENDIVIDAMENTO

O impacto dos juros altos foi ineficaz contra a inflação, mas agravou o endividamento das famílias e das empresas ao encarecer ainda mais o crédito aos consumidores, além de criar mais travas aos investimentos e ao consumo – afetando diretamente os empregos e a renda.

Com os altos custos dos alimentos e de outras despesas do dia a dia, as famílias que têm seus salários corroídos pela queda da renda e pela inflação estão sendo forçadas a se endividar com o cartão de crédito, cheque especial e até empréstimos – com seus juros exorbitantes.

Em agosto, o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer atingiu 79% do total de lares no país em agosto – cresceu 6,1 p.p. na comparação com agosto do ano passado, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Já a inadimplência – a proporção de famílias que relataram ter dívidas em atraso, chegou a 29,6%.

Do lado do consumo, o resultado das vendas do comércio varejista brasileiro foi de queda pelo terceiro mês consecutivo e a quarta maior queda para o mês nos últimos quatro anos, segundo números divulgados pela Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE.

O volume de vendas do setor recuou 0,8% em julho na comparação com junho, após quedas de -1,4% e -0,1% nos meses anteriores. Na comparação com julho do ano passado o resultado também foi negativo, -5,2%. Nos últimos 12 meses, o comércio varejista nacional está em baixa de -1,8%.

INDÚSTRIA

Operando a níveis abaixo do patamar anterior à pandemia, a Indústria brasileira ao longo deste ano tem apresentado pequenas oscilações no fundo do poço. Em julho, a produção industrial teve um avanço de 0,6% ante junho, mas apresentou recuo de -0,5% no mês ante o mesmo período de 2021, de acordo com dados da Pesquisa Mensal da Indústria. O setor acumula queda de 2% no ano. Já no acumulado de 12 meses, está negativo em -3,0%.

Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), os dados revelam que 2022 “dificilmente será promissor para a indústria”. Com base no que foi apurado pela pesquisa do IBGE, o instituto lembra que no acumulado dos sete primeiros meses de 2022, 73% dos ramos da indústria permanecem desastrosamente no vermelho.

“Entre os macrossetores, a maior perda cabe a bens de consumo duráveis, com -10,5% ante jan-ago/21, seguidos de longe por bens intermediários (-1,7%) e bens de capital (-1,6%), que em 2021 como um todo tinham acumulado crescimento de dois dígitos (+27,8%). Bens de consumo semi e não duráveis, por sua vez, têm queda de -0,8%”, avalia a entidade.

ANTONIO ROSA

Link da matéria : https://horadopovo.com.br/com-33-milhoes-passando-fome-governo-transferiu-r-200-bi-para-os-mais-ricos-em-um-ano-critica-oreiro/

Pesquisadores lançam propostas para retomada do desenvolvimento com inclusão Social (O Estado de São Paulo, 14/09/2022)

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BRASÍLIA – Em plena campanha eleitoral, um grupo de 27 pesquisadores faz nesta quinta-feira, 15, em Brasília, o lançamento do livro “Retomada do Desenvolvimento” com propostas para um modelo de crescimento com inclusão social.

Esse é um dos temas mais citados na campanha eleitoral deste ano, mas pouco debatido com profundidade pelos presidenciáveis e candidatos a governadores, deputados e senadores.

Publicado pela Fundação Astrojildo Pereira, o livro contém 25 ensaios organizados pelos economistas Benito Salomão, da Gladius Research, e José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília.

A publicação partiu da ideia de criar um material amplo e plural de diferentes pensamentos para subsidiar, de forma independente de partido ou ideologia, as propostas de governo em ano eleitoral. “Temos economistas das mais variadas vertentes teóricas e ideológicas”, diz Salomão, duas vezes vencedor do Prêmio Brasil de Economia (2018 e 2020).

Fundação Astrojildo Pereira

Segundo ele, livros de ensaios na maioria das vezes são feitos por pesquisadores do mesmo grupo de pensamento, como, por exemplo, desenvolvimentistas ou liberais. “Dificilmente tem gente dos dois grupos conversando. Por que não fazer?”, conta o economista. O livro mistura também pesquisadores mais velhos e da nova geração.

Logo na apresentação, os organizadores destacam a importância da busca da pluralidade no cenário atual de acúmulo nos últimos dez anos de inúmeras crises e perda de aspirações de voltar a ser um país desenvolvido. “Via de regra, os livros de ensaios organizados a fim de sugerir alguma agenda econômica são de iniciativas de grupos de estudo ou clubes acadêmicos, muitos já conhecidos da opinião pública e que têm pouca abertura para incorporar ideias divergentes”, destaca apresentação. Entre os ensaístas, além de economistas, estão também cientistas políticos, juristas e engenheiros.

O lançamento será feito às 18h, na Biblioteca Salomão Malina, com um debate presencial dos dois organizadores com a diretora da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Vilma Pinto, o ex-secretário da Receita, Everardo Maciel, e o ex-senador e educador da Universidade de Brasília, Cristovam Buarque.

Debate econômico ‘empobrecido’

Segundo Salomão, já se imaginava que o debate público ia ser empobrecido na campanha eleitoral. “Isso é o que tem acontecido. Está extremamente esvaziado. Os candidatos estão muito engessados”, avalia ele, que escreve sobre a coordenação de política fiscal e monetária num capítulo dedicado à política fiscal, também com artigos das economistas Vilma Pinto e Julia Braga, da Faculdade Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Um dos pontos reforçados no livro é de que, após praticamente uma década perdida, em que a economia brasileira apresentou, em 2020, um PIB per capita inferior ao que tinha em 2010, o país chegou a 2022 com duas missões não triviais: reafirmar sua democracia restabelecendo uma convivência sadia entre as instituições que governam o país e restabelecer as bases mínimas para o crescimento sustentado nesta década em curso e na próxima.

Com as propostas, o tom é mais otimista numa tentativa de resgatar o debate mais intenso que acontecia no País em torno do crescimento em substituição da discussão de crise.

O professor Antonio Corrêa de Lacerda, coordenador do programa de pós-graduação em economia política da PUC-São Paulo, e presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), escreve sobre propostas para a reversão do processo de desindustrialização em curso, que ele diz ser viável.

Sergio Vale, economista-chefe e sócio da MB Associados, escreve sobre os princípios básicos para o crescimento da produtividade no Brasil. Em parceria, Leandro Pinheiro Safatle e Carlos Grabois Gadelha apontam os caminhos para para regulação e acesso a tecnologias no setor de saúde no Brasil. Os dois são pesquisadores da Fiocruz.

PIB cresce 1,2% no 2º trimestre, mas previsão é de desaceleração no 3º e 4º (Hora do Povo, 01/09/2022)

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Foto: Arquivo/ Agência Brasil

De acordo com a Fiesp, “o 2º semestre não deverá repetir o mesmo dinamismo, em grande parte devido aos efeitos defasados do significativo aperto monetário”

O resultado do Produto Interno Bruto no segundo trimestre deste ano de 1,2% na comparação com o trimestre anterior foi puxado pelo setor de serviços, segundo divulgou nesta quinta-feira (1º) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), totalizando R$ 2,4 trilhões em valores correntes. Em 2022, o primeiro semestre acumula alta de 2,5%. Em comparação com o mesmo trimestre de 2021, cresceu 3,2%.

Após um tombo de quase 4% em 2020, Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, diziam que a economia “bombava”, que se recuperava em “V”, quando o país atingia recordes de desemprego, inflação e índices de pobreza. Para o economista José Luis Oreiro, a economia recuperou o que havia perdido em 2020, “mas nada mais além disso”.

“Na média do período 2019-2021 o crescimento do PIB foi de 0,52%, patamar inferior ao observado no primeiro ano do governo Bolsonaro, o qual já havia sido menor do que o observado na média do período de governo de Michel Temer”, assinalou o economista da UnB.

Apesar do crescimento de 1,2% no trimestre, o PIB brasileiro ainda está 0,3 p.p abaixo do pico da série histórica ocorrido no primeiro trimestre de 2014, diz o economista. “Essa é a prova cabal de que não apenas a tão propalada “agenda de reformas” não entregou os resultados esperados, como também que o governo Bolsonaro foi um desastre completo na economia”, afirma Oreiro.

No segundo trimestre, os setores da economia – indústria, serviços e agropecuária – registraram alta, sendo que o setor de serviço, que mais peso tem no resultado das Contas Nacionais, puxou o conjunto da economia após a normalização das atividades com a vacinação contra a Covid e os incentivos dados pelo governo federal. Incentivos estes com o dinheiro do próprio trabalhador, como a antecipação do 13º salário, a liberação de saque antecipado do FGTS e a elevação da margem do crédito consignado.

A alta no consumo veio acompanhada de índice recorde de inadimplência das famílias brasileiras, 67 milhões não conseguem pagar suas contas, muitos nem as contas de água e luz, diante da carestia e da queda na renda. O desemprego atinge cerca de 10 milhões de brasileiros, 40 milhões estão na informalidade, no trabalho precário.

De acordo com a Fiesp, “o 2º semestre não deverá repetir o mesmo dinamismo, em grande parte devido aos efeitos defasados do significativo aperto monetário. Vale destacar também as incertezas envolvidas no processo eleitoral e o esgotamento dos efeitos da reabertura econômica. Ademais, no cenário externo, a elevação das taxas de juros nas economias desenvolvidas e a desaceleração mundial também se colocam como importantes desafios. Tais fatores já impactam, inclusive, as expectativas de crescimento para 2023, as quais têm sido continuamente reduzidas”.

Entre os fatores que apontam para uma desaceleração no próximo trimestre está “o forte aumento da taxa de juros”, diz a Fiesp, que projeta para a produção industrial em 2022 uma queda de 0,9%.

“A projeção da Fiesp para o resultado do PIB em 2022 é de 2,6%, muito em função do efeito da herança estatística do 1º semestre, ou seja, mesmo que seja observado crescimento zero nos dois próximos trimestres, o PIB brasileiro ainda deverá crescer acima de 2% no ano, devido ao desempenho favorável dos dois primeiros trimestres. Para 2023, no entanto, a previsão da Fiesp é que a economia brasileira apresente crescimento de 0,2%, refletindo, sobretudo, os efeitos defasados da política monetária contracionista”, manifestou a Fiesp em nota.

A economista Natália Cotarelli do Itaú Unibanco também considera que o PIB deve mostrar perda de fôlego ao longo do segundo semestre, sob efeito dos juros mais altos, que jogam contra a recuperação do consumo. “Não mudou muito a perspectiva para o segundo semestre. A gente espera uma desaceleração da economia, o PIB andando de lado”, declarou à Folha. O Itaú Unibanco prevê o resultado do PIB de 2023 em torno de zero: 0,2%.

Resultado do PIB do 2º trimestre:

Serviços: 1,3%

Indústria: 2,2%

Agropecuária: 0,5%

Consumo das famílias: 2,6%

Consumo do governo: -0,9%

Investimentos: 4,8%

Exportações: -2,5%

Importações: 7,6%

Com Bolsonaro Brasil apresenta a menor taxa média de crescimento desde 1999

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A divulgação hoje pelo IBGE do crescimento do PIB brasileiro de 1,2% no segundo trimestre de 2022 na comparação com o primeiro trimestre, as hostes Bolsonaristas já estão em polvorosa alardeando que esse bom resultado é a prova de que no governo Bolsonaro a economia do país está “voando”.

Pegar dados de crescimento trimestral e extrapolar para o futuro é um erro básico que qualquer pessoa minimamente alfabetizada e que não viva submersa nas bolhas das redes sociais – que criam um universo paralelo que não corresponde a realidade – não deve cometer. Fatores pontuais podem fazer com que a economia de qualquer país cresça mais num trimestre do que no outro, sem que isso signifique uma aceleração da tendência de crescimento da economia no médio ou no longo prazo.

Um erro pior, no entanto, é ignorar o passado. O governo Bolsonaro não começou em 2022, mas no dia 01 de janeiro de 2019. Dessa forma, é preciso uma avaliação do conjunto da obra e sua comparação com os dados observados em períodos anteriores.

Na tabela abaixo eu apresento a taxa média anual de crescimento real do PIB (já descontada a inflação) desde o início do segundo mandato do presidente Fernando Henrique (1999) até o ultimo dado disponível que corresponde ao ano de 2021, terceiro ano do mandato do, por assim dizer, Presidente Bolsonaro.

Fonte: Ipeadata. Elaboração do autor.

Na elaboração dessa tabela, o ano de 2016 foi excluído do cálculo das médias por ter sido um ano atípico em que o Brasil teve dois Presidentes: Dilma Rouseff (até abril de 2016) e Michel Temer (de maio a dezembro de 2016).

Conforme podemos observar claramente na Tabela, o crescimento médio da economia Brasileira se acelera na passagem do segundo mandato do governo Fernando Henrique para o primeiro mandato da presidente Lula. Apesar da ocorrência da maior crise da história do capitalismo desde a grande depressão de 1929, a assim chamada crise financeira internacional (2008), a economia brasileira no segundo mandato do presidente Lula (2006-2010) ganha ainda mais tração e apresenta um crescimento médio de 4,21% a.a no período. Embora com uma certa dose de exagero, o presidente Lula acabou entregando o que havia prometido ao povo brasileiro, a saber: o espetáculo do crescimento.

A desaceleração do crescimento tem início no primeiro mandato da Presidenta Dilma Rouseff, em parte resultado da crise do Euro em 2012, mas também de diversos erros na condução da política macroeconômica como as desonerações fiscais sem contrapartida, a intervenção desastrosa no setor elétrico e nos preços dos combustíveis (ops, creio que esse filme é conhecido) e a tentativa de acelerar o crescimento econômico por intermédio de uma política de expansão da demanda agregada, num contexto em que a economia estava sobreaquecida e perdendo dinamismo pelo lado da oferta devido a desindustrialização prematura.

A combinação de todos esses elementos faz com que a economia brasileira entre em recessão no segundo semestre de 2014, o que não impede a Presidenta Dilma de se reeleger em outubro desse mesmo ano.

O início do segundo mandato da Presidenta Dilma Rouseff foi caracterizado pela reversão completa na condução da política macroeconômica. Se no primeiro mandato, tanto a política fiscal como a política monetária foram, na média, expansionistas; no ano de 2015 o governo puxa todas as travas da economia ao mesmo tempo: redução de 35% do investimento público em termos reais, aumento da taxa selic para 14% a.a e “tarifaço”, ou seja, aumento das tarifas de eletricidade e nos preços dos combustíveis. O resultado obtido foi exatamente o previsto em qualquer manual de macroeconomia: uma queda vertiginosa do PIB (-3,15%) e uma forte aceleração da inflação, a qual chega quase a 11% no final do ano.

O desastre econômico abre caminho para o impeachment da Presidenta Dilma Rouseff e a posse de Michel Temer como presidente da República (Bolsominions o PT não governou até 2018, quem passou a faixa presidencial para Bolsonaro foi Michel Temer do MDB, parem de falar bobagem). No governo Temer, a economia sai da grande recessão de 2014 a 2016, mas apresenta um crescimento médio de 1,5%, inferior ao observado no segundo mandato do governo Fernando Henrique e muito menor do que o ocorrido nos dois mandatos do Presidente Lula.

Quando Bolsonaro assume em 01 de janeiro de 2019, a economia brasileira não se encontrava mais em recessão, embora estivesse crescendo a um ritmo médio muito inferior ao observado no período 1999-2010. Para a surpresa geral de 0 pessoas, Bolsonaro e seu posto Ipiranga conseguem a proeza de fazer com que no ano de 2019 a economia brasileira apresentasse um crescimento de apenas 0,97%, fazendo a Presidência de Michel Temer parecer uma espécie de belle époque.

Em março de 2020 a Organização Mundial de Saúde decreta estado de Pandemia de Covid-19. Medidas de restrição a mobilidade social (as quais Bolsonaro apelidou de “fica em casa, depois a gente vê como fica”) foram adotadas em todos os países civilizados do planeta Terra, no Brasil inclusive apesar da obstinada resistência do Presidente da República. Graças a iniciativa do Congresso Nacional, na época presidido pelo Deputado Rodrigo Maia, foi aprovado uma Emenda Constitucional (Bolsominions emenda constitucional é iniciativa do congresso, não do presidente talquei?) que viabilizou o pagamento de um Auxílio Emergencial de R$ 600,00 por três meses para 66 milhões de pessoas. Essa medida amorteceu o impacto das medidas de distanciamento social sobre o PIB, o qual apresentou uma queda de “apenas” 3,74% em 2020.

No dia 31 de dezembro de 2020 expirou o “estado de calamidade pública”, o qual permitiu o pagamento do auxílio emergencial ao longo daquele ano. Aqui deve-se deixar claro que o Presidente da República poderia ter solicitado ao Congresso Nacional a prorrogação do estado de calamidade pública, até porque o contágio e as mortes por causa da covid-19 continuavam elevadas no Brasil e no mundo. Mas Bolsonaro não mexeu um dedo. Deixou expirar o prazo de validade do “estado de calamidade pública”. Nos 6 meses seguintes o Brasil irá registrar mais de 400 mil mortes por conta do Covid-19, o dobro do que registrou no ano anterior, com um agravante: em 2020 não haviam vacinas disponíveis prevenir as mortes por covid, em 2021 elas estavam amplamente disponíveis. Deixo a cargo da História o julgamento do governo Bolsonaro por negligência deliberada no enfrentamento da covid-19.

Retornemos a economia. Após um tombo de quase 4% em 2020 e tendo sido aprovada em 2019 a Reforma da Previdência muitos analistas (me incluam fora dessa porque eu cansei de escrever que não ia rolar) apostavam não só numa recuperação em V da economia, como ainda na retomada do crescimento econômico. Não foi o que ocorreu. A economia recuperou o que havia perdido em 2020, mas nada mais além disso. Na média do período 2019-2021 o crescimento do PIB foi de 0, 52%, patamar inferior ao observado no primeiro ano do governo Bolsonaro, o qual já havia sido menor do que o observado na média do período de governo de Michel Temer.

Agora voltamos para o segundo trimestre de 2022. Apesar do crescimento de 1,2% no trimestre, o PIB brasileiro ainda está 0,3 p.p abaixo do pico da série histórica ocorrido no primeiro trimestre de 2014, durante a gestão da Presidenta Dilma Rouseff. Apesar de todas as reformas feitas nos governos Temer (Teto de gastos e reforma trabalhista) e Bolsonaro (Previdência) o fato é que a economia brasileira é menor do que era no início de 2014. Essa é a prova cabal de que não apenas a tão propalada “agenda de reformas” não entregou os resultados esperados, como também de que o governo Bolsonaro foi um desastre completo na economia.

Efeitos da Pandemia e da Guerra na Ucrânia sobre os preços das commodities: implicações para o debate sobre a condução adequada da política monetária no Brasil.

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Recentemente estive participando de um debate no Corecon-DF sobre o comportamento da taxa de juros no Brasil (https://www.youtube.com/watch?v=qufwmPuW3JA&t=20s). Na minha apresentação procurei focar sobre o comportamento de longo prazo da taxa de juros (Selic real ex post), o qual apresenta um nível estruturalmente elevado na comparação com a taxa de juros internacional ajustada pelo prêmio de risco país (Ver Figura 1 abaixo). Contudo, foi inevitável que o debate também abordasse o comportamento mais recente da política monetária, em particular o último ciclo de elevação da Selic iniciado em março de 2021 que elevou a selic nominal do patamar de 2% a.a para o patamar de 13,75% a.a em agosto de 2022. Na comparação internacional o Brasil foi um dos primeiros, se não o primeiro país do mundo, a iniciar o processo de “normalização” da política monetária e o fez num ritmo muito superior ao observado nos países que iniciaram mais tardiamente esse processo.

Figura 1

Fonte: IPEADATA. Elaboração do autor.

A elevação da taxa de juros no Brasil e em diversas partes do mundo foi uma reação a aceleração da inflação observada a nível global a partir do segundo semestre de 2020, aceleração essa que se intensificou ao longo do ano de 2021 e, notadamente, após a invasão da Ucrânia pela Rússia no dia 24 de fevereiro de 2022.

A figura 2 abaixo apresenta a evolução diária dos preços spot de três commodities, a saber: trigo, soja e petróleo no período compreendido entre 02/01/2020 a 25/08/2022. No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou a existência de uma Pandemia de Covid-19. Conforme podemos verificar na figura abaixo, o efeito da pandemia sobre os preços das commodities foi nitidamente baixista no primeiro semestre do ano de 2020. O petróleo, por exemplo, acumulou um queda de 37,89% no período compreendido entre 02 de janeiro e 30 de junho de 2020. Não é de admirar, portanto, que o impacto inicial da Covid-19 tenha sido deflacionário, isto é, tenha resultado numa redução expressiva dos índices de inflação globais no primeiro semestre do ano em questão.

Figura 2

Fonte: Macrotrends e Quantum Axis.

No início do segundo semestre de 2020, contudo, as economias da Europa, Estados Unidos e China começaram um processo de reabertura gradual após um longo período de lockdown em meados do primeiro semestre. Os governos e os bancos centrais dos países desenvolvidos realizaram uma forte expansão fiscal e monetária com o objetivo de atenuar o impacto sobre a renda das famílias e sobre a solvência das empresas resultante das medidas de lockdown necessárias para frear a contágio do vírus e evitar o colapso dos sistemas de saúde pública. Essas medidas foram reforçadas em 2021 nos Estados Unidos após a posse de Joe Biden como Presidente da República.

Em tese a reabertura das economias dos países desenvolvidos após as medidas de lockdown serem suspendidas não deveria trazer maiores problemas. Embora a covid-19 tenha ceifado a vida de algumas milhões de pessoas ao redor do mundo, o impacto sobre o tamanho da força de trabalho foi relativamente pequeno. Além disso, o estoque de capital físico e o nível de conhecimento tecnológico não foram afetados pela pandemia, o contrário do que pode vir a acontecer num cenário de Terceira Guerra Mundial em função da ampliação do conflito na Ucrânia ou das aventuras militares norte-americanas pelas águas do Mar da China. Sendo assim, as economias atingidas pela covid-19 deveriam se recuperar rapidamente da queda ocorrida em 2020, apresentando elevados níveis de crescimento em 2021.

No que se refere ao nível de atividade econômica a recuperação ocorreu, mas num ritmo mais rápido nos Estados Unidos do que na Europa, devido a maior amplitude da expansão fiscal realizada pelo governo americano na comparação do que aquele realizado pelos governos dos países europeus.

No entanto, quando verificamos o comportamento dos preços das três commodities em análise constatamos que em 2021 os mesmos não só recuperaram os níveis prevalecentes no período anterior ao da pandemia, como ainda fecharam o ano num patamar muito maior do que os níveis pré-pandemia. Aqui nos deparamos com um puzzle: dado que no final de 2021 as economias dos países desenvolvidos haviam conseguido, quando muito, recuperar as perdas ocorridas no ano anterior, como explicar uma elevação dessa magnitude nos preços das commodities em consideração?

A resposta elementar é que a elevação dos preços das commodities não foi resultado de um aumento da demanda, mas de uma contração da oferta. No caso do petróleo a explicação é muito simples: a OPEP reduziu a produção de petróleo em 1,92 milhões de barris por dia em junho de 2020 na comparação com maio do mesmo ano como resultado da tentativa do cartel internacional dos países exportadores de petróleo de reverter a queda de preços ocorrida entre março e abril de 2020. Como resultado desse corte a produção de petróleo da OPEP caiu ao menor nível desde o ano de 2000. Embora algumas flexibilizações na redução da produção da OPEP tenham ocorrido desde então, principalmente após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a produção da OPEP se manteve inferior aos níveis pré-pandemia, o que explica, em parte, a elevação do preço do petróleo.

Apenas a redução da produção de petróleo da OPEP não pode explicar o comportamento dos preços das commodities agrícolas. No caso das mesmas o comportamento dos preços entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro semestre de 2021 se explica por uma série de razões. Em primeiro lugar vários países em desenvolvimento reduziram suas exportações de alimentos e/ou aumentaram suas importações de soja e milho para constituírem estoques de alimentos em face ao risco de rompimento ou interrupção da cadeia mundial de suprimentos pelos efeitos das sucessivas ondas de contágio de covid-19. Em segundo lugar, a retomada rápida e generalizada do nível de atividade econômica nos países desenvolvidos e em desenvolvimento gerou um “efeito engarrafamento” na logística mundial de transporte de cargas. Os estoques acumulados de matérias-primas e bens acabados nos diferentes portos do mundo durante os períodos de lockdown não poderiam ser imediatamente transportados ao seu destino com a frota de navios de cargas herdada do período pré-pandemia. Problemas similares também ocorreram nos portos secos com o transporte de carga por trens e caminhões. Esses gargalos ou engarrafamentos na logística de transporte fizeram com que a oferta de bens intermediários como semi-condutores e fertilizantes agrícolas não pudesse acompanhar o crescimento da demanda. A elevação dos preços dos insumos utilizados na agricultura tem impacto direto nos preços das commodities agrícolas, elevando os preços das mesmas.

Ao longo do segundo semestre de 2021, contudo, os preços das commodities apresentam nítidos sinais de estabilização, com o preço da soja recuando fortemente com relação ao pico observado em maio de 2021. O preço do petróleo também apresenta um recuo nítido no período entre 20 de outubro a 03 de dezembro de 2021. Aparentemente os efeitos da pandemia do covid-19 sobre a logística mundial de transportes estavam desaparecendo, o que sinalizava uma queda dos preços das commodities e, consequentemente, da inflação global para o ano de 2022.

Contudo, a partir de meados de dezembro de 2021 a Rússia começa a realizar uma série de exercícios militares ao longo de toda a fronteira com a Ucrânia, mobilizando cerca de 200 mil homens. Rumores passaram a circular com crescente força de que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, preparava uma invasão ao território ucraniano, o que de fato ocorreu no dia 24 de fevereiro de 2022, dando início a um conflito militar que se estende até os dias de hoje e que não tem, no momento que escrevo essas linhas, nenhuma perspectiva de encerramento

A expectativa de um conflito entre Ucrânia e Rússia teve um forte impacto sobre os preços da soja e do petróleo entre dezembro de 2021 e fevereiro de 2022. Com o rompimento do conflito bélico, os preços das commodities disparam devido ao peso da Rússia e da Ucrânia nas exportações mundiais de petróleo (Rússia) e trigo (Rússia e Ucrânia). A imposição das sanções econômicas pelos países da OTAN a Rússia contribuiu para o agravamento do problema no curto prazo, ao impor dificuldades operacionais para a exportação de petróleo e gás pela Federação Russa. As sanções econômicas também dificultaram a produção e a exportação de fertilizantes pela Rússia, contribuindo assim para aumentar o custo de produção das commodities agrícolas, entre as quais a soja.

Embora os preços das commodities tenham recuado com respeito ao pico observado no início do conflito (um exemplo claro de over-shooting), os mesmos permanecem em patamares consideravelmente superiores aos observados em dezembro de 2021, os quais, por sua vez, eram muito mais altos do que os observados em dezembro de 2020.

Todo esse razoado nos leva a conclusão lógica de que a economia global teve o “azar” de passar por dois choques negativos de oferta de forma consecutiva, elevando a taxa de inflação por um período muito maior de tempo do que ocorreria caso esses eventos não tivessem ocorrido de forma sequencial.

Em função da natureza do recrudescimento da inflação no Brasil e no mundo nos últimos dois anos a pergunta que se coloca é como deve se comportar a política monetária ? Um choque de oferta temporário produz uma aceleração temporária da inflação e uma queda do nível de atividade econômica, a qual passa a operar abaixo do potencial. Aqui a autoridade monetária se acha diante do dilema entre estabilizar a atividade econômica, acomodando o choque de oferta com uma redução da taxa de juros; ou estabilizar a taxa de inflação ao nível pré-choque, elevando a taxa de juros. Nesse caso, não ocorre a “coincidência divina” prevista nos modelos de meta de inflação: inflação e nível de atividade econômica se movem em direções opostas.

Os bancos centrais dos países desenvolvidos optaram, a meu ver corretamente, acomodar o choque de oferta mantendo as taxas nominais de juros em torno de zero ou até mesmo negativas, com base no pressuposto de que a aceleração da inflação seria temporária. Dado que o período compreendido entre a eclosão da crise financeira internacional de 2008 e a erupção da pandemia da covid-19 foi marcado por um crescimento anêmico do emprego e do nível de atividade econômica – o que levou muitos analistas a supor que a economia dos países desenvolvidos havia entrado numa era de estagnação secular – e uma inflação inferior a 2% a.a, a decisão de acomodar o choque de oferta temporário era mais do que justificada, pois uma normalização prematura da política monetária poderia matar a recuperação das economias dos países desenvolvidos após o fim das medidas de distanciamento social, com efeitos pouco expressivos sobre a dinâmica de curto prazo da taxa de inflação.

O início da guerra na Ucrânia frustrou as expectativas dos bancos centrais de acomodar o choque de oferta. O que deveria ser um aumento temporário da inflação, tornou-se um aumento persistente. Face a recuperação do nível de emprego nos Estados Unidos e, em menor medida, na Europa, o risco que se colocava pela aceleração persistente da inflação devido a um choque de oferta era desencadear um movimento de recomposição dos salários reais por intermédio da indexação dos salários aos preços. A indexação transformaria uma elevação persistente da inflação em elevação permanente devido ao aumento da inércia inflacionária. Face a esse risco os bancos centrais dos países desenvolvidos decidiram iniciar em 2022 um processo de normalização da política monetária com elevações sucessivas da taxa básica de juros sendo realizadas pelo Federal Reserve, pelo Bank of England e pelo Banco Central da Europa. No momento em que escrevo essas linhas, a taxa básica de juros nos Estados Unidos está no intervalo entre 2,25% a 2,5% a.a, no Reino Unido está em 1,75% a.a e na Área do Euro está em 0% a.a, deixando assim o território negativo em termos nominais que se encontra a vários anos.

Na comparação com os países desenvolvidos o Banco Central do Brasil começou o ciclo de elevação da taxa básica de juros com pelo menos um ano de antecedência, e já opera com uma taxa real de juros positiva, seja ex-post ou ex-ante. Contudo, se não fosse a deflação de julho de 2022, decorrência da redução dos impostos estaduais e federais sobre combustíveis e energia elétrica, a variação acumulada em 12 meses ainda estaria acima de 10% o que mostra a impotência da política monetária para lidar com os efeitos adversos de um choque de oferta, cuja origem se encontra fora das fronteiras nacionais. Está claro que alguma elevação da taxa de juros seria necessária face a aceleração da inflação no Brasil mas, citando o Senador José Serra durante a campanha presidencial de 2010, “a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem”. Além disso, como o caso da deflação de julho deixou bastante nítido, o governo dispõe de mecanismos para lidar com os efeitos inflacionários de choques de oferta adversos. A redução dos impostos sobre combustíveis terá um custo de cerca de 100 bilhões de reais no acumulado em 12 meses. A elevação da taxa de juros entre março de 2021 e agosto de 2022 custou um aumento de cerca de 300 bilhões de reais no pagamento de juros sobre a dívida pública.

Se considerarmos os juros como parte integrante da despesa pública, ao invés de trata-la como uma “despesa ausente” como é feito no Brasil há mais de 20 anos, então podemos chegar a conclusão de que é possível fazer alguns compromissos entre redução de impostos (indiretos) e redução da taxa de juros no que se refere a combater os efeitos de um choque de oferta sobre a dinâmica da inflação numa economia que, por mais que os economistas convencionais afirmem o contrário, encontra-se ainda muito longe da plena utilização da capacidade produtiva.

Novo governo terá de reinventar a indústria (Valor Econômico, 25/08/2022)

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Maior protagonismo do setor depende de inserção às cadeias globais e política setorial, defendem especialistas

Seja quem governar o Brasil de 2023 até o fim de 2026 terá uma bola de ferro com a qual terá de lidar: a perda do protagonismo da indústria de transformação na economia brasileira.
O peso da indústria manufatureira no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 15,9% em 2005 para 11,9% em 2021, segundo dados das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No comércio exterior, a representação do setor manufatureiro como percentual das exportações do Brasil passou de 79,3% em 2005 para 51,4% em 2021, segundo o Ministério da Economia.
Em 2008, o investimento na indústria de transformação como percentual do investimento total na economia era de 28% – dez anos depois, havia caído a 15%.
Para estancar essa queda e reverter o quadro, o primeiro objetivo teria de ser tornar o Brasil mais competitivo, de modo que possa se integrar mais às cadeias globais de valor (CGV)s. “Ficamos à margem desse processo. Hoje não conseguimos exportar um automóvel feito no Brasil porque ele é caro e ruim”, afirma ao Valor o economista Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O próximo governo, portanto, precisaria traçar um plano de reindustrialização, que teria de ser uma política de Estado, e não de um mandato. Esse processo poderia ter o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) como financiador de longo prazo em um programa de atualização de tecnologia, com juros subsidiados e contrapartidas como aumentar as exportações e fazer a transição para uma economia de baixo carbono, afirma José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB). As reformas tributária e administrativa, acrescenta, seriam auxiliares.
Mas, se o Brasil não levar adiante tais ajustes, pode continuar vendo o setor manufatureiro minguar ainda mais e não conseguir se beneficiar da reorganização das cadeias de valor em curso, alerta Dan Ioschpe, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
 
A seguir, os principais pontos abordados pelos entrevistados:
Cadeias e competitividade

Samuel Pessôa – O maior problema é que a indústria brasileira ficou à margem da construção das CGVs. Esse fenômeno, que adquiriu velocidade a partir da década de 1990, divide o processo produtivo em várias etapas, e cada uma tem de ser feita em um lugar diferente. O Brasil faz meio que tudo aqui. E fica tudo meio ruim.
No Brasil prevaleceu certa visão da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal) no momento em que o mundo mudou muito. A visão cepalina não era tão ruim quando a lógica do mundo eram as grandes multinacionais se estabelecendo e produzindo em diversos países, com uma planta produzindo carro, outra, eletrodomésticos. Essa lógica foi mudando a partir de 1970, 1980, 1990 e virou essa construção das CGVs, com os países se especializando em processos e serviços. Isso gerou ganhos de produtividade e qualidade. Mas ficamos à margem desse processo.
Hoje não conseguimos exportar um automóvel feito no Brasil porque é caro e ruim. Mas conseguimos exportar avião porque a Embraer está dentro da cadeia produtiva de aviões. A Embraer projeta o avião e monta. Todo o restante, compra. O resultado é que o avião da Embraer é tão bom quanto qualquer outro do mundo. Essa lógica tem de ir para outros setores.
Dan Ioschpe – O Brasil precisa ter maior ingresso nas cadeias internacionais de valor. Isso, na nossa visão, significa participar [mais] dos acordos internacionais, como se tentou no acordo com a União Europeia, e também em outras formas que promovam integração do Brasil ao mundo. Não apenas no comércio, mas em foros que discutem sustentabilidade, créditos de carbono etc., como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
José Luís Oreiro – A indústria manufatureira sofre de um gravíssimo problema de competitividade. Isso vai além do preço e é decorrente do atraso tecnológico da indústria de transformação. Foram anos e anos de baixo investimento, que a está deixando para trás.
Samuel Pessôa: “Não conseguimos exportar carro, porque é caro e ruim” — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Pessôa -Se chamarmos de desindustrialização a queda da participação da indústria no PIB, podemos dizer que o Brasil passa por esse processo. Mas isso ocorre desde 1980. E não é ruim nem bom. É o que o mercado produziu.
Ioschpe – A participação da indústria no PIB talvez seja a melhor forma de se medir a desindustrialização. E o que temos visto é um declínio da participação da atividade de transformação industrial do PIB, caindo quase à metade [do que já foi] nos últimos 30. Em outros países houve certo recuo [da participação da indústria] por causa do crescimento tecnológico, por uma série de atividades de serviços, e até mesmo pelo setor agrícola. Mas não na proporção que vemos no Brasil. Essa trajetória das últimas décadas está muito correlacionada a uma mediocridade do PIB como um todo, da renda per capita e do desenvolvimento socioeconômico nesse período.
Oreiro – Nossa desindustrialização é ruim porque é prematura. Ocorre antes que se alcance o que na literatura se chama ponto de Lewis, em que o desenvolvimento econômico se dá em condições de oferta limitada de mão de obra. A desindustrialização nas economias modernas ocorreu quando boa parte da população já havia passado do setor de subsistência, que era o da agricultura, para o setor moderno. Seria diferente se a desindustrialização aqui ocorresse com a maioria da população trabalhando no setor moderno, que seria hoje o de serviços de alta tecnologia, como fazem empresas como a Amazon.
Pessôa – Qualquer política de desenvolvimento industrial tem de estar ligada a progresso tecnológico, inovação, pesquisa e desenvolvimento. Iniciativas que fizemos no passado, como gastar dinheiro do BNDES para o setor de frigoríficos de carne, que é uma tecnologia do fim do século XIX, não faz sentido. Além disso, uma política de desenvolvimento industrial tem de ser precedida por cuidadoso estudo e planejamento. Sair gastando como se fez com a indústria naval não faz sentido. Ou seja, a necessidade de se investir no setor não é condição suficiente. Tem de ter governança para gerar bons frutos. Ou será apenas desperdício.
É preciso, portanto, bons projetos, boa governança e ter ligação com atividade de inovação e incorporação de novas tecnologias. Além disso, a questão ambiental parecer ser a mais séria da humanidade hoje. É transversal e tem de ser considerada em qualquer desenho de política pública hoje.
Ioschpe -Precisamos incentivar um esforço muito maior de pesquisa, desenvolvimento e inovação [na indústria]. A melhor forma de agregar valor ao longo do tempo é por meio de uma atividade pujante de pesquisa e inovação. Se não acelerarmos os bons instrumentos para fomentar isso no Brasil, não iremos muito longe. Temos instrumentos interessante como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), mas precisamos fazer mais.
A reindustrialização tem enorme relevância para o desenvolvimento socioeconômico do país. Sem a recuperação do PIB industrial, é improvável que tenhamos crescimento mais expressivo do PIB nacional. Porque a indústria tem algumas características essenciais em seu processo, como a questão da fronteira tecnológica. Como vemos com a descarbonização, a eletrificação veicular, a geração de energias alternativas, e a própria indústria 4.0.
Oreiro – A única chance que temos de dar emprego decente para a população e [fomentar o] crescimento é reindustrializando o país. O primeiro passo para isso é um programa de modernização da indústria brasileira. Isso não é política para um mandato de governo, mas de Estado. Ou seja, não caberá apenas ao próximo governante. A sociedade brasileira precisa se conscientizar que com boi, soja e minério de ferro não vamos dar emprego decente para uma força de trabalho de 110 milhões de pessoas. Temos de fazer essa reforma estrutural.
E aproveitar a janela oportunidade dada pela transição para uma economia de baixo carbono. Essa é nova revolução industrial. Terá implicações na matriz energética, na maneira como produzimos bens e serviços. E vai demandar investimentos públicos e privados. Essa massa de investimentos pode criar um mercado para novas indústrias verdes no Brasil.
Pessôa – A maior política industrial hoje é a PEC 45, que reduz o custo de conformidade da legislação tributária. Hás muitos problemas na indústria, mas dois são fato. O primeiro é que o setor produtivo é o mais tributado. Dentre agropecuária, indústria e serviços, o que tem maior carga tributária é a indústria. A carga tributária sobre serviços e agropecuária tem de subir, e a da indústria, cair. O segundo ponto é a complexidade da legislação de impostos indiretos como ICMS, ISS, PIS/ Cofins e IPI, que dificulta mais a vida do setor.
O custo de conformidade é muito maior na indústria, que tem cadeias produtivas longas, tem de conviver com diversos regimes tributários especiais, diversos contadores, e muito litígio. É preciso unificar a estrutura de impostos. [Por isso], a PEC seria a melhor política industrial, uma vez que resolve a maior parte desses problemas.
Ioschpe – A indústria brasileira precisa de um ambiente que contemple quatro aspectos: tranquilidade institucional, trajetória macroeconômica adequada ao longo do tempo, melhoria das condições sociais do país e melhor distribuição da renda, e sustentabilidade ambiental.
Tendo isso sob controle, entramos em uma agenda mais especifica, que é importante para o país como um todo. Mas, olhando pelo lado da indústria, o primeiro item da agenda é uma reforma tributária que melhore custos de pagar impostos, insegurança jurídica e oneração exagerada sobre o setor industrial frente aos outros.
E o melhor instrumento para isso são as PECs 45 e 110, que preveem unificação de impostos sobre o consumo de bens e serviços, o IVA. Esta é a forma correta de se fazer, com a tributação no destino, e não na origem. Essas são características essenciais de uma boa tributação sobre bens e serviços, que resolveriam a discrepância de tributação sobre o setor e reduziriam custos para empresas, sociedade e a insegurança jurídica.
Hoje no Brasil, a indústria representa entre 10% e 15% do PIB e mais de 35% da arrecadação. É uma disfunção se arrecadar duas vezes o que se contribui para a atividade econômica, enquanto outros setores estão subrepresentados na tributação. É algo que tem de ser consertado.
O segundo item importante da agenda é a reforma administrativa, que ajudará na trajetória de equilíbrio macroeconômico ao longo do tempo. Com ela, tem-se melhor controle das contas públicas e presta-se serviço mais inteligente e agilizado para sociedade.
O terceiro item fundamental é a aceleração da infraestrutura, tanto em estradas, portos, aeroportos e energia, como em relação à conectividade.
Oreiro – O próximo presidente deveria recuperar o papel do BNDES como financiador de longo prazo em um programa de atualização tecnológica do parque industrial brasileiro, com juro subsidiado. Isso é fundamental para que a indústria não desapareça.
Ao contrário das vezes anteriores, o BNDES pode exigir dois tipos de contrapartida: meta de exportação e de conquista de market share nos mercados internacionais. Temos de fazer a indústria brasileira se voltar para o exterior. Essa é a abertura comercial correta, e não reduzir tarifas de importação da noite para o dia e destruir a indústria. Tem de dar financiamento para fazer atualização tecnológica do parque industrial brasileiro, o que implica comprar máquinas e equipamento modernos para aumentar a produtividade.
O segundo vetor é de transição para economia de baixo carbono. Então, aquilo que for financiado pelo BNDES no processo de modernização tecnológica, tem de ter embutidas metas de redução de CO2. Isso é particularmente importante para indústria automobilística brasileira, que ainda não definiu prazo para parar a produção de carros por combustão interna.
A reforma tributária ajuda na reindustrialização. De todo ICMS arrecadado hoje, a indústria de transformação paga 50%. O nosso sistema de impostos indiretos penaliza a indústria e beneficia o agronegócio, que paga 10% do ICMS arrecadado no Brasil.
Pessôa – Falar sobre esse movimento de ‘reshoring’ e regionalização da produção ainda é muito especulativo. Será ruim para o mundo, que crescerá menos. A taxa de crescimento da produtividade da economia mundial cairá. E esse processo de globalização das CGVs será, em parte, revertido.
A economia brasileira teve dificuldade de se adaptar à economia globalizada. Resistimos por muito tempo. É possível que em um mundo mais fechado tenhamos desempenho um pouco melhor.
Ioschpe – [Essa reorganização das cadeias globais] é oportunidade e ameaça. Estamos vendo a revisão do processo de transferência da atividade industrial para Ásia e China. Isso poderia trazer não apenas conteúdo para o mercado brasileiro, mas para outros países próximos do Brasil que desejassem diminuir a dependência em relação a uma única região produtora.
Mas, se não endereçarmos nossas questões de competitividade e desenvolvimento tecnológico, podemos acabar ainda mais perdedores à medida que outros países conseguem fazer isso melhor. [Aproveitar esse movimento] dependerá de como o Brasil trabalhará na próxima década. Se ocorrer nos termos da política e planejamento das últimas três décadas, não vamos ter um bom resultado.
Oreiro – O ‘reshoring’ ocorrerá mais perto de mercados consumidores como EUA e União Europeia. Para que pudéssemos aproveitar essas mudanças, o investimento em infraestrutura teria de melhorar consideravelmente, seja em portos, seja em transporte de carga em trens. O investimento para isso criará demandas importantes.