Próximo governo terá de rever teto (Diário de Comércio e Indústria, 13/07/2018)

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A “bomba” de R$ 100 bilhões em novas despesas federais que deputados e senadores estão deixando para o próximo governo, eleito nas urnas em outubro, contém cerca de R$ 19,4 bilhões para bancar reajuste salarial de servidores públicos do Executivo, Legislativo e Judiciário. Diante da forte pressão das categorias do funcionalismo público com elevado poder de fogo nos círculos de decisão, e da postura dos parlamentares de não desagradar o eleitorado, o Congresso “terceirizou” para o presidente Temer (MDB) a tarefa de vetar (ou não) o aumento na proposta do Orçamento de 2019, a ser enviada ao Legislativo até 31 de agosto.

‘Problema não é reajuste salarial…

Na avaliação do professor de Economia da Universidade de Brasília (UNB), José Luis Oreiro, o problema não é o reajuste de 6,4% para os servidores, que pouco supera a inflação (1,9% acima da meta de 4,5% para o próximo ano), mas o indexador usado para o teto dos gastos. O reajuste foi votado anteontem à noite pelo Congresso, no âmbito da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que orienta a proposta de orçamento da União para 2019, junto com benefícios para vários segmentos da economia. A Emenda Constitucional 95 prevê como indexador o IPCA.

…mas o indexador’

“Na época da votação do teto de gastos, vários estudos já mostravam que seria inviável manter o limite das despesas se o indexador fosse o IPCA. Sugeri que o indexador fosse o IPCA, somado à taxa de crescimento da população, para manter o gasto per-capita constante. Afinal de contas, se a população cresce em torno de 1 milhão e 600 mil pessoas por ano, então a demanda por serviços públicos também deve crescer na mesma proporção. Logo indexar o teto de gastos pelo IPCA implicava em reduzir o gasto público em termos per-capita, um claro absurdo”, diz.

Opção pela pior alternativa

Ainda de acordo com Oreiro, outra saída seria vincular o teto de gastos pela média móvel de cinco anos do crescimento do PIB do ano anterior à formulação da LDO do ano seguinte. “Nesse caso, a despesa primária como proporção do PIB ficaria relativamente constante ao longo do tempo, e o ajuste fiscal deveria ser feito integralmente pelo lado da receita, ou seja, recuperação cíclica mais aumento de impostos”, argumenta o economista. “Entre as alternativas disponíveis se escolheu a pior possível”, ressalta o professor da UNB.

Limite é insustentável

“Agora nos confrontamos com o fato consumado de que o teto de gastos, tal como regulamentado na Emenda Constitucional 95, é insustentável. O próximo governo terá que fazer uma nova emenda constitucional para alterar o indexador do teto de gastos”, enfatiza Oreiro. Ele acrescenta ainda que, como a população cresce 0,8% ao ano, o gasto salarial per-capita avançará apenas 0,8%. “Se o PIB real crescer 2% em 2019, cairá o gasto com funcionalismo público como proporção do PIB. Na verdade, essa relação está mais ou menos estável a 15 anos”, conclui.

Farra fiscal, a herança

Para o sócio-fundador do Grupo L&S, grupo de empresas na área de investimentos, Alexandre Wolwacz, “o próximo presidente precisará lidar com os arroubos dessa farra fiscal e tentar, dentro do possível , equilibrar as contas”. Segundo ele, a posição do governo é fragilizada, pois necessita da arrecadação. “Estamos observando um cenário econômico muito difícil”, diz. “Existe necessidade em recuperar o superávit fiscal (situação em que o governo arrecada mais do que gasta) e, infelizmente, o Congresso parece não se sensibilizar”. A Bolsa e o dólar subiram ontem.

Prioridade do PT e do PSDB…

André Perfeito, economista-chefe da Spinelli: “Lula Livre é forma de chamar atenção para o PT”

 

O PT se enfraqueceu em cargos legislativos e, assim, parece que a direção do partido deverá dar atenção aos Legislativos estaduais e federal. “A estratégia do ‘Lula Livre’ é antes uma forma de chamar atenção para o partido, mas não percebemos interesse no próprio PT em viabilizar sua campanha majoritária. O que a legenda pretende é usar as fichas do seu fundo partidário para reorganizar suas bases parlamentares, privilegiando a eleição de deputados e, principalmente, senadores”, afirma André Perfeito, economista-chefe da corretora Spinelli, em relatório sobre as eleições presidenciais.

…é reforço nos estados e no Congresso

O PSDB não tem diagnóstico diferente. “O partido havia eleito em 2010 uma bancada expressiva de oito governadores, ou 30% do total e já em 2014 caiu para metade. Isso explica em parte a dificuldade do candidato do partido à Presidência em pacificar sua própria base. As lideranças regionais querem restabelecer seus poderes locais, deixando o plano federal de fora de foco”, analisa o economista da Spinelli.

Liliana Lavoratti é editora de fechamento

liliana@dci.com.br

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A volta do conflito de classes (Diário de Comércio e Indústria, 10/07/2018)

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É necessário salvar o capitalismo no Brasil dos capitalistas brasileiros

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No Manifesto do Partido Comunista, em 1848, Marx e Engels afirmaram que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes, a qual assume, no capitalismo, a forma da luta entre capital e trabalho. Felizmente, o advento do Estado do Bem-Estar Social e da Doutrina Social da Igreja Católica na Europa no final do século 19; do capitalismo socialmente regulado após reformas de Franklin Roosevelt nos EUA nos anos 1930; e da “economia social de mercado” na Alemanha pós-segunda guerra mundial com o Partido Democrata Cristão de Konrad Adenauer “domesticaram” o capitalismo, combinando dinamismo econômico resultante da “destruição criativa”, assinalada por Schumpeter, com pleno-emprego e crescente redução das desigualdades sociais.

Durante 25 anos – de 1950 a 1975 –, a ideia de que os interesses de classe de trabalhadores e de capitalistas eram necessariamente antagônicos parecia estar superada. Era possível conciliar progresso econômico, pleno emprego, salários crescentes e melhoria da distribuição de renda. Era a época do pacto social-democrata.

A estagflação dos anos 70, decorrente do fim do acordo de Bretton Woods e choques do petróleo, acabou com o pacto social-democrata, substituído pelo neoliberalismo de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Começou ampla desregulação financeira, redução dos impostos sobre os mais ricos e de mudança do regime de política macroeconômica com a substituição do pleno-emprego pela obtenção de uma inflação baixa como meta da política macroeconômica.

O resultado de quase 40 anos do neoliberalismo foi catastrófico: crescimento econômico dos países desenvolvidos se desacelerou, o desemprego aumentou, os salários deixaram de acompanhar o crescimento da produtividade e a desigualdade de renda e de riqueza voltou a crescer.

Após o fracassado experimento liberal no governo Collor de Mello, o Brasil teve uma sequência de governos social-democratas com os dois mandatos de FHC e Lula. O País parecia ter chegado ao estágio de desenvolvimento político e institucional do Ocidente Democrático de meados do século 20. Nos governos FHC e Lula, contudo, a combinação de juros altos, câmbio sobrevalorizado e redução do investimento público levou à estagnação da produtividade do trabalho devido à redução do investimento privado e público. A estagnação da produtividade combinada com avanço de salários reais (política de valorização do salário mínimo), e a sobrevalorização da taxa de câmbio levaram à redução progressiva das margens de lucro no setor não-financeiro. No governo Lula, o crescimento econômico acelerado permitiu ampliar o uso da capacidade produtiva, contribuindo para manter a taxa de lucro em níveis razoáveis. Com a desaceleração do crescimento no primeiro governo de Dilma Rousseff, o esmagamento das margens de lucro virou queda da taxa de lucro, que saiu de 6,5% em 2010 para 4,3% em 2014.

Nesse cenário, empresários brasileiros têm se mostrado dispostos a romper qualquer tipo de pacto com trabalhadores, optando pela estratégia de recuperar seus lucros com a “flexibilização” das leis do trabalho. Se optar por esse caminho, então cometerá um erro gravíssimo. A sobrevivência do capitalismo depende de um acordo razoável entre capital e trabalho. Essa opção só aumentará o ressentimento de classes e, no longo prazo, realimentará o discurso marxista. É necessário que alguém salve o capitalismo no Brasil dos capitalistas brasileiros.

José Luis da Costa Oreiro é professor do Departamento de Economia da UNB

joreirocosta@yahoo.com.br

Agenda econômica de pré-candidatos à Presidência começa a se definir (Diário de Comércio e Indústria, – 05/07/2018)

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três meses das eleições, começa a haver uma clareza maior na agenda econômica dos pré-candidatos à Presidência, focada em reformas estruturais, como a previdenciária e a tributária.

É o que demonstrou o debate promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ontem com os possíveis presidenciáveis Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB) e Jair Bolsonaro (PSL).

Na avaliação de especialistas, as propostas econômicas estão mais definidas, principalmente do Alckmin e Ciro Gomes, com exceção do pré-candidato do PSL.

“A única incógnita na política econômica é o Bolsonaro. Ele tem levado o seu discurso mais para as questões morais, de segurança pública, corrupção”, considera o professor de economia do Ibmec-SP, Walter Franco.

Essa postura, para ele, é muito ruim, pois os rumos da política econômica precisam estar bem definidos para gerar confiança. Do contrário, Franco prevê turbulências no período de três meses que separa o final das eleições e a posse do novo presidente.

No debate de ontem, Bolsonaro não deu detalhes sobre as suas propostas e, quando questionado sobre temas econômicos, afirmou que um presidente não precisa “saber tudo”. “Um presidente é como um técnico, ele não vai entrar em campo. Ele tem que ter o discernimento, força para buscar as soluções”, disse.

Já o professor de economia da Universidade de Brasília (UNB), José Luiz Oreiro, avalia que Bolsonaro é um estatista que tem tentado se passar por liberal, o que “que não convence”, dado o seu histórico de oposição às privatizações.

Para Oreiro, somente Alckmin e Ciro possuem uma agenda econômica mais definida. “O Ciro tem claramente um perfil de centro-esquerda, que alia o discurso de responsabilidade fiscal e o desenvolvimentismo”, ressalta.

Previdência

Durante o debate, Ciro defendeu uma reforma da Previdência Social onde haja consulta popular para alterar o regime. Ele propõe unificar o sistema de aposentaria do setor público e privado e criação de um modelo de capitalização.

O pré-candidato do PDT disse também que irá rediscutir a reforma trabalhista nos seis primeiros meses de mandato, com a participação das centrais sindicais.

Alckmin também afirmou que irá implementar reformas logo no primeiro semestre de 2019 e que seu foco será a unificação dos regimes privado e público. “Para o trabalhador da indústria, do comércio, a média de aposentadoria é R$ 1.391. E ninguém passa de R$ 5.000 reais. O setor público federal pode escolher, 8 (mil), 17 (mil) e 27 mil de reais de média”, comentou, no evento.

Para Franco, do Ibmec, as agendas de Alckmin e de Meirelles são bastante convergentes, preocupadas com a trajetória fiscal e focada em reformas estruturais que incluem, além da Previdência, mudanças tributárias.

Ontem, o ex-ministro da Fazenda destacou, inclusive, que a sua primeira medida será uma ampla reforma tributária que simplifique a cobrança de impostos e que adote o imposto de valor adicionado (IVA) . “Isso será a primeira reforma a ser feita no Congresso Nacional. Na minha equipe, já temos profissionais trabalhando no detalhamento dessa proposta”, ressaltou Meirelles.

Por serem agendas semelhantes (Alckmin e Meirelles), Oreiro tem dúvidas de como o ex-ministro irá se diferenciar de Alckmin. “As agendas mais definidas são do Ciro e do Alckmin. O restante ou é mais do mesmo, como o Meirelles, ou então é uma conversão não sincera a uma outra corrente, como é o Bolsonaro”, enfatiza.

Oreiro possui a mesma posição a respeito de Marina. Ele avalia que os economistas que coordenam a pré-candidatura da Rede têm pensamento próximos ao PSDB. Franco se posiciona de maneira um pouco distinta. O professor do Ibmec vê em Marina e, com mais ênfase em Ciro, uma mudança em relação à atual política econômica. Ele lembra que, ontem, Marina defendeu mudanças na lei trabalhista a respeito das mulheres grávidas trabalharem em locais insalubres e o período de descanso.

O Fracasso do Governo Temer (Jornal do Brasil, 20/06/2018)

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José Luis Oreiro*

A recente turbulência no mercado de câmbio jogou uma pá de cal nas expectativas de retomada mais vigorosa do crescimento da economia brasileira em 2018. Os indicadores de nível de atividade econômica já vinham apresentando uma performance muito abaixo do esperado pelo governo e pelos analistas econômicos no primeiro quadrimestre de 2018. A greve dos caminhoneiros – iniciada no final de maio e que durou 11 dias – teve um impacto significativo na produção, tanto de bens agrícolas como industriais, devendo puxar para baixo o PIB do segundo trimestre de 2018; o qual poderá apresentar variação próxima de zero com respeito ao primeiro trimestre. Nesse cenário já bastante desalentador, a desvalorização recente da taxa de câmbio produziu uma elevação da taxa de juros futura em função da expectativa de que o BACEN será obrigado a elevar a taxa Selic ainda em 2018, para coibir o repasse da desvalorização cambial para a taxa de inflação.  A resultante de todos esses fatores foi uma redução expressiva da expectativa de crescimento da economia brasileira, para um patamar entre 1,2 a 1,5% em 2018.

Se esse cenário se confirmar então o governo Temer terá sido um completo fracasso. Com efeito, o impeachment da Presidente Dilma Rouseff foi vendido para a sociedade brasileira como a única maneira de “por o país em ordem” e assim retomar o crescimento da economia. Em maio de 2016 o Brasil se encontrava no momento mais grave da pior recessão dos últimos 30 anos, tendo apresentado uma contração de quase 4% do PIB no ano anterior. Os economistas liberais afirmavam que a substituição de Dilma Rouseff por Michel Temer iria restaurar a “confiança” dos empresários, levando assim a um aumento do investimento e ao fim da recessão. O Brasil poderia então retomar um crescimento moderado em torno de 2,5% a.a, o qual poderia ser ampliado por intermédio de uma série de reformas como, por exemplo, a PEC do Teto dos Gastos, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência Social. Dessas três reformas, o governo Temer conseguiu emplacar as duas primeiras: a PEC do teto dos gastos foi aprovada em 2016 e a reforma trabalhista em 2017.

Não podemos deixar de fora das “reformas” do governo Temer a mudança ocorrida na atuação do BNDES com a substituição da TJLP pela TLP e a expressiva redução dos desembolsos do banco, o qual restituiu ao Tesouro Nacional praticamente todos os empréstimos recebidos no período 2008-2014. Em suma, o governo Temer e seu “dream team” da área econômica seguiu a risca o receituário liberal e desmontou a famigerada “nova matriz macroeconômica”, erguida durante o primeiro mandato da Presidente Dilma Rouseff.

Quais os resultados dessa “guinada” na condução da política econômica? A economia brasileira saiu da recessão em 2017, mas a velocidade de recuperação do nível de atividade econômica é o mais lento entre todas as recessões que o Brasil experimentou desde o início da década de 1980. O hiato do produto ainda se encontra em torno de 6% segundo estimativas do Instituição Fiscal Independente; e o desemprego persiste em torno de 13% da força de trabalho.  A inflação se encontra abaixo do piso do regime de metas de inflação a 11 meses consecutivos, graças a forte desaceleração da inflação de serviços, o que mostra a debilidade do nível de atividade econômica e do mercado de trabalho. Mantido o atual ritmo de crescimento da atividade econômica, o Brasil deverá recuperar o PIB de 2014 por volta de 2020 ou 2021. Teremos uma nova década perdida, ainda pior do que a ocorrida nos anos 1980.

Os economistas liberais certamente irão dizer que a razão do fracasso do governo Temer foi que não se realizaram todas as reformas necessárias, afinal de contas ficou faltando a reforma da previdência. Mantida essa linha de raciocínio então os economistas liberais terão que admitir que todas as reformas feitas pelo governo Temer não tinham utilidade alguma; e a única reforma que era realmente necessária foi precisamente a que eles mesmos sugeriram que fosse deixada por último! O erro terá sido deles, ao invés de ser um efeito retardado da nova matriz macroeconômica.

Existe outra interpretação para esse fracasso. A política macroeconômica do governo Temer, continuando o modelo adotado no segundo mandato na Presidente Dilma Rouseff, foi caracterizada por aquilo que o economista Braulio Borges do IBRE-FGV denominou de “overkill” ou “contracionismo excessivo”.  Entre 2015 e 2016 houve a ocorrência simultânea de uma política fiscal, monetária e para-fiscal contracionistas. Com efeito, a política macroeconômica produziu uma forte elevação da taxa Selic e uma redução expressiva dos gastos de investimento da União e das empresas estatais; ao mesmo tempo em que o BNDES reduzia os seus desembolsos e aumentava o custo de suas operações de crédito. O resultado não podia ter sido outro: um colapso do nível de atividade econômica, o qual só começou a arrefecer quando a política monetária começou a ser afrouxada no final de 2016 e após a liberação dos saldos inativos das contas do FGTS.

Se o Presidente Michel Temer não tivesse dado ouvidos aos economistas liberais seu governo poderia ter sido melhor em matéria econômica. Esperemos que o próximo Presidente da República não cometa o mesmo erro.

 

* Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília.

BC intervém e segura o dólar (Correio Braziliense, 13/06/2018)

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Editoria: ECONOMIA
Autor(a): SIMONE KAFRUNI
Tipo: Matéria
Veiculação: 13/06/2018
Página: A06
Assunto: UnB, PROFESSORES
O Banco Central (BC) teve que repetir mais uma forte atuação no câmbio ontem para conter a alta do dólar. A autoridade monetária precisou fazer duas ofertas de contratos de swap ao longo do dia para segurar a divisa norte-americana, que fechou o pregão com recuo de 0,3%, cotado em R$ 3,713. Após cinco quedas seguidas, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) teve um leve respiro e subiu 0,62% aos 72.754 pontos.Na primeira intervenção, às 10h20, o BC ofertou 30 mil contratos. Como a medida foi insuficiente para reverter a escalada do dólar, a autoridade monetária colocou mais 30 mil no mercado por volta do meio-dia. Os dois leilões somaram US$ 3 bilhões, volume maior do que os 50 mil contratos ofertados na véspera.

Para André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora, a intervenção do BC está saindo cara demais. “Apesar dos esforços, o dólar chegou a subir a R$ 3,715 antes do fechamento. As ações do BC tendem a ser infrutíferas a médio prazo, porque tentam resolver de forma quantitativa um problema qualitativo”, avaliou.

Segundo ele, o estoque de swap, em 5 de junho, era de US$ 34 bilhões e chegou a US$ 47 bilhões. “Subiu 38% em dias, o que mostra a firme determinação do BC”, disse. O motivo que leva o dólar a se valorizar, no entanto, persiste. Segundo Perfeito, o quadro eleitoral, a falta das reformas e de um candidato comprometido com o mercado são as principais razões para a volatilidade. “Até agora, ninguém perdeu nada, mas se o dólar continuar subindo, o que parece ser o caso, vai gerar prejuízo para o governo”, alertou.

O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, explicou que o movimento de alta também é impulsionado pelo cenário internacional, menos amigável, com a expectativa da reunião de política monetária do Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano), marcada para hoje. “Há uma perspectiva de alta dos juros dos Estados Unidos. O mercado está 100% certo de que o Fed vai aplicar nova alta de 0,25 ponto percentual, o que leva os investidores para lá”, disse. O Banco Central Europeu também deve mudar sua política monetária esta semana, conforme Rosa.

No entendimento de Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da corretora Treviso, o mercado forçou a intervenção do BC para mudar o patamar do dólar, que estava em R$ 3,30. “Precisou a moeda bater R$ 4 para o BC tomar a decisão e agir. Agora, o mercado está se aproveitando”, avaliou. O especialista aposta que o BC vai exaurir o mercado de swap cambial e os leilões de linha para conter o dólar. “Quando Ilan (Goldfajn, presidente do BC) assumiu, o estoque de swaps era de US$ 128 bilhões. Caiu para US$ 23 bilhões em dois anos. Agora, ele vai usar o que precisar para intervir e pode, sim, bater o recorde em um mês. Ilan tem um arsenal contra a alta especulativa do dólar e vai usar tudo”, opinou.

Cinco perguntas para

José Luis Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB)

 

O Banco Central (BC) deve manter as ações para conter a alta do dólar oferecendo proteção para empresas endividadas, mas não deve atuar diretamente na venda da moeda, defende o economista José Luiz Oreiro. Ele concedeu entrevista, ontem, ao programa CB. Poder, parceria entre a  TV Brasília e o Correio. A seguir, alguns trechos:

O senhor falou da necessidade de equilibrar as contas públicas. Ao fazer isso, o próximo governo adotará medidas impopulares. Haverá tensão social caso se tente resolver os problemas do país?

É fundamental, na campanha eleitoral, os candidatos falarem a verdade para a população. O filme The Darkest Hour mostra que Winston Churchill, primeiro-ministro da Grã-Bretanha na 2ª Guerra, fez o seguinte discurso: “Nada tenho a oferecer senão meu trabalho, sangue, suor e lágrimas”.

E os brasileiros estão preparados para ouvir isso?

Têm que saber a verdade. O que nos espera é difícil, temos muitos ajustes para fazer, não vamos voltar do dia para a noite para uma situação de bem-estar. Mas os candidatos a presidente têm que dizer isso. É o que vão fazer. O que não pode acontecer é o que a Dilma fez: um discurso na campanha eleitoral e, logo que eleita, algo completamente diferente.

O BC tem capacidade de proteger, neste momento, as empresas que estão endividadas em dólar?

Sim. O swap que está sendo oferecido é um contrato em que o BC troca a desvalorização do câmbio pelo pagamento de juros. Quando o câmbio se desvaloriza além dos juros domésticos, o BC paga para o possuidor do contrato essa diferença.

É necessário usar as reservas cambiais para atuar diretamente no mercado, vendendo dólares?

Pode-se fazer, mas não é a melhor forma de intervir. A melhor forma é por intermédio de swap cambial. Há um arsenal enorme de instrumentos para reduzir a pressão especulativa sem mexer na taxa de juros.

O BC pode ter de elevar juros?

Mexer na taxa de juros neste momento é suicídio.

“Mexer na taxa de juros nesse momento é suicídio”, afirma especialista (Correio Braziliense, 12/06/2018)

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Diante de uma projeção econômica instável, seria suicídio o Banco Central elevar a taxa de juros, segundo com o professor José Luis Oreiro, do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB). “Você tem um arsenal enorme de instrumentos para reduzir a pressão especulativa sem mexer na taxa de juros. Mexer na taxa de juros nesse momento é suicídio”, disse, em entrevista ao CB.Poder, parceria entre TV Brasília e Correio.
A afirmativa do especialista decorre da movimentação das empresas privadas, que pressionam o câmbio através da proteção contra a subida do dólar. “O que acontece hoje no mercado de câmbio, daí a pressão no câmbio, são empresas demandando red (proteção contra a subida do dólar)”, explica.
Questionado se o Banco Central teria capacidade de proteger as empresas, o professor afirma que sim, é possível. “Pode. O swap é um contrato em que o BC troca a desvalorização do câmbio pelo pagamento de juros, então quando o câmbio se desvaloriza além do juros doméstico, o BC paga para o possuidor do contrato essa diferença”, analisa.
Além disso, grande parte da instabilidade provém da relação política-econômica da corrida presidencial. “Acho que uma parte do mercado financeiro que, inicialmente de maneira desavergonhada e agora mais explícita, está adorando a ideia do Jair Bolsonaro ser presidente da república”, reconhece.
Isso acontece, principalmente, por conta da especulação em torno nome que seria indicado ao Ministério da Fazenda, caso Bolsonaro vença o pleito, o ex-banqueiro Paulo Guedes. “Eles acham que Guedes poderá implementar uma agenda liberal e adotará aquilo que o mercado quer”, ressalta.
Todavia, o próximo governo tem necessidade de pôr as contas públicas em dia, independente da direção política. “É fundamental, na campanha eleitoral, os candidatos falarem a verdade para a população. Inclusive, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Churchill, discursa no filme Darkest Hour o seguinte: ‘Eu nada tenho a oferecer, senão ao meu trabalho, sangue, suor e lágrimas'”, explica. “Os brasileiros têm que estar preparados para ouvir isso, o que nos espera é difícil”, completa.
* Estagiária supervisionada por Anderson Costolli

Ação conjunta para evitar nova recessão (Correio Braziliense, 11/06/2018)

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Editoria: ECONOMIA
Autor(a): RODOLFO COSTA
Tipo: Matéria
Veiculação: 11/06/2018
Página: A06
Assunto: UnB
Incertezas relacionadas às eleições causam desconfiança em investidores e reduzem a atividade econômica, obrigando o Banco Central e o Tesouro a atuarem. Expectativa é de que PIB cresça próximo de 1% , elevando o desemprego
A equipe econômica corre contra o tempo para tentar evitar o pior. Técnicos dizem que os próximos seis meses, os últimos do governo do presidente Michel Temer, serão um grande teste para impedir que a economia mergulhe novamente na recessão. A expectativa é de que o país enfrente uma onda de desconfiança até as eleições. O rastro de prejuízo será inevitável. Para evitar o pior, o Tesouro Nacional e o Banco Central (BC) estão tendo que atuar conjuntamente.Diante das incertezas tanto no quadro econômico quanto no político, investidores estão vendendo títulos públicos a qualquer preço. O efeito disso é a queda do valor dos papéis, acarretando perdas gigantescas aos poupadores que aplicam em títulos públicos, por meio dos tradicionais fundos de investimento de renda fixa. Esse grupo inclui a classe média, que rejeita em peso o governo.

A situação está tão complicada que o Tesouro tem feito leilões extraordinários de compra de títulos públicos para dar um parâmetro ao mercado e conter as perdas dos investidores. Nas últimas duas semanas, o Tesouro Direto, pelo qual transitam os pequenos poupadores que aplicam em papéis do governo, suspendeu as negociações em vários dias.

Do lado do BC, o quadro não é diferente. Sob ataque, o presidente da instituição, Ilan Goldfajn, anunciou uma megaintervenção de US$ 20 bilhões no mercado de câmbio até a próxima sexta, mas ressaltou que, se necessário, esse arsenal poderá ultrapassar o volume de US$ 110 bilhões utilizado durante o governo de Dilma Rousseff.

Medida extrema

O principal objetivo da autoridade monetária é segurar o dólar e, por tabela, a inflação. O BC não quer chegar à medida extrema de elevar a taxa básica de juros (Selic), que está em 6,5% ao ano, nível mais baixo da história. Para diretores da instituição, seria catastrófico aumentar juros com a economia em desaceleração, e, sobretudo, diante de um cenário de 13,7 milhões de desempregados.

Apesar de todas as ações, técnicos do Tesouro e do BC admitem que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficará mais próximo de 1%, repetindo o resultado de 2017. O efeito prático disso será o aumento do desemprego. Há, na equipe econômica, quem não descarte a possibilidade de o número de trabalhadores à procura de emprego voltar ao patamar recorde de 14,2 milhões registrado no primeiro trimestre de 2017.

Entregar a economia em situação menos combalida possível não será uma tarefa simples e dependerá muito da atuação do BC. Do lado fiscal, não é possível fazer nada para reduzir a pressão sobre a autoridade monetária, avalia o economista José Luís Oreiro, do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB). “É impossível cortar gastos e o governo não tem condições de elevar as receitas por aumento de imposto. As despesas discricionárias estão no osso e as obrigatórias não se pode cortar. A recriação de uma CPMF para impulsionar a arrecadação depende de uma base de que o governo não dispõe mais no Congresso Nacional”, pondera.

Restará ao BC o trabalho de amenizar os impactos e deixar a atividade produtiva da forma menos desastrosa possível para o futuro governante. Segundo Oreiro, o quadro aponta para crescimento do PIB entre 1,2% e 1,5%. Ele avalia que os ataques sofridos nas últimas semanas são especulativos e em até duas semanas o câmbio voltará a se estabilizar. Para ele, não há fundamentos que justifiquem o comportamento, seja da taxa de juros de longo prazo, seja da taxa de câmbio.

“Os núcleos de inflação estão muito comportados, abaixo de 4% no acumulado em 12 meses. Não há por que a autoridade monetária reagir de maneira intempestiva e elevar a taxa de juros. O que o BC terá que fazer é atuar tanto no mercado de títulos da dívida quanto no mercado de câmbio para estabilizar os preços e deixar essa especulação passar nos dois mercados”, sugere Oreiro.

Incertezas

O estresse nos mercados se atribui, em parte, a incertezas em relação às eleições. A possibilidade de um segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) preocupa os investidores. Os dois são avaliados pelos poupadores como presidenciáveis que não dariam continuidade a uma agenda reformista ortodoxa. No caso do pedetista, a análise é de que ele encaminharia uma pauta progressista, com aumento da tributação de lucros e dividendos, tributação de herança e volta da CPMF. O concorrente no pleito é encarado como alguém autoritário e que não daria espaço para a equipe econômica tocar uma política de abertura de mercados.

A situação se assemelha a 2002. Por volta de junho daquele ano, as pesquisas apontavam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como favorito na intenção de voto dos eleitores. A avaliação dos investidores não era diferente da atual: acreditavam que a política econômica em uma eventual gestão petista seria marcada por intervenção e pouco diálogo com os mercados. A solução encontrada pelo presidente do BC à época, Armínio Fraga, foi controlar a crise no mercado de câmbio com swaps cambiais, instrumento que equivale à venda de dólar no mercado futuro.

Semelhança

O paralelo com 2002 pede uma estratégia semelhante, avalia o economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do BC. “Armínio colocou uma ração diária que o mercado dizia que não serviria para nada e, no fim do ano, estavam pedindo de joelhos para pararmos de vender dólar. Não tenho mais o pulso do mercado, mas, no momento atual, não seria uma má ideia colocar um pouco de dólar. Aumentaria nossa dívida externa, mas reduziria a interna”, pondera.

A injeção de “rações diárias” ao mercado, como define Freitas, são algumas das poucas medidas que a equipe econômica pode adotar. Por esse motivo, ele entende que há pouco o que fazer. “Não vejo nada que possam fazer melhor do que estão fazendo. O governo está na UTI e respirando por aparelhos. Teremos uma sobrevida dramática. Vamos ver se aguenta. O importante é tentar evitar o pior”, avalia o consultor. Em 2002, ele ocupava a diretoria de Liquidações e Desestatização do BC.

O economista-sênior do banco Haitong, Flávio Serrano, endossa a análise de Freitas. “É preciso que a equipe econômica continue o que vem fazendo. Não há muito o que discutir em relação à atuaçãodo BC e do Tesouro”, diz. As previsões dele para o PIB, no entanto, são pouco mais otimistas, de crescimento de 2%. Diferentemente de outros analistas que embutiram um impacto forte para a economia em decorrência da greve dos caminhoneiros, ele adota uma postura mais comedida.  “Acho pouco provável ficar abaixo de 1,5%. Imaginamos que os impactos (da paralisação) tendem a ser mais pontuais”, justifica.

A previsão de Serrano é de que a atividade econômica volte a se recuperar no terceiro e quarto trimestres, com alguma recuperação da produção industrial e dos investimentos. Mantida a tensão nos mercados e os impactos à dinâmica da atividade até o fim do ano, entretanto, Serrano admite que pode revisar as estimativas. “Pode ser que tenhamos outras notícias negativas.”

PIB deve andar de lado até o fim do ano (O Estado de São Paulo, 10/06/2018)

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Bancos revisam para baixo projeções de crescimento para os próximos trimestres e economistas já falam até em alta de apenas 1% no ano

Luciana Dyniewicz, Mônica Scaramuzzo e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 05h00

SÃO PAULO e RIO – Uma greve que parou o País, um governo frágil, um cenário eleitoral completamente indefinido, um desempenho econômico decepcionante aliado a um cenário externo desfavorável. Esses ingredientes desestabilizaram o mercado na semana passada, deixaram os investidores no escuro e levaram os economistas a rever todas as projeções para 2018 e 2019. A deterioração da economia e da política brasileira ainda deverá frear os investimentos feitos pelos estrangeiros no País pelo menos até dezembro e não há sinais de que o nervosismo financeiro vá passar.

A turbulência mudou totalmente o cenário otimista que o mercado projetava no início do ano. A sensação dos investidores e dos economistas dos grandes bancos era que a alta estimada de 3% no Produto Interno Bruto (PIB) chegaria ao dia a dia da população, que, consequentemente, apoiaria um candidato de centro-direita para a corrida eleitoral.

Mas o cenário se distanciou bastante disso. Na sexta-feira, mais bancos reviram para baixo suas projeções econômicas para 2018 – o Bradesco cortou de 2,5% para 1,5%, o Itaú de 2% para 1,7% e o Bank of America Merrill Lynch de 2,1% para 1,5%. Há, inclusive, economistas que já projetam uma repetição do resultado de 2017, quando o PIB avançou 1%, após acumular queda de quase 7% nos dois anos anteriores.