Declaração pública de voto em Ciro Gomes no Primeiro Turno

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Caros leitores,

 

Relutei muito em escrever estas linhas. Minha experiência pregressa mostra que o posicionamento político-partidário explícito não é saudável para intelectuais, pois reduz a credibilidade das opiniões e análises proferidas por quem adota tais posicionamentos. Além disso, o clima de fla-flu reinante na política brasileira me faz ter um cuidado redobrado com as opiniões que eu possa externar, para não causar um vendaval de críticas mal-criadas a minha pessoa ou minha família.

Mas a possibilidade concreta de ter um fascista na Presidência da República não deixa muito espaço para “respeitos humanos”. As eleições de 2018 que deveriam tratar dos temas urgentes da sociedade brasileira como, por exemplo, a redução do desemprego, a retomada do desenvolvimento econômico, a redução da miséria e da desigualdade social, tornou-se um plebiscito sobre a conveniência ou não de ter um Presidente da República que defende a tortura, a discriminação de seres humanos com base na sua etnia, origem social ou orientação sexual, a execução sumária de seres humanos, sem o devido processo legal e amplo direito de defesa, caso os mesmos sejam vistos como “bandidos” e ainda, pasmem, o fim das liberdades democráticas e do Estado de Direito caso o “comando do Exército”, iluminado por alguma força divina, ache que a anarquia está tomando conta do país.

Nessas condições em que o país se encontra, não vejo outra opção que não seguir o saudoso governador Leonel Brizola e dizer um “não rotundo” a candidatura que representa a maior ameaça às liberdades democráticas desde a restauração do governo civil no Brasil em 1985.

Para derrotar o fascismo é necessário reconhecer, para o bem ou para o mal, que existe em amplos segmentos da sociedade brasileira uma grande aversão ao “petismo”. No momento atual, os principais institutos de pesquisa colocam Fernando Haddad do PT na frente de Ciro Gomes do PDT na disputa de uma vaga para o segundo turno das eleições presidenciais. Um segundo turno entre o “inominável” (também conhecido como “coiso”, “besta do apocalipse”, “pé preto”, etc) e o candidato do PT representa um sério risco de vitória das forças do atraso e da tirania. Em função disso minha opção de voto para o primeiro turno das eleições presidenciais é Ciro Gomes.

Reconheço que existem muitos óbices razoáveis a figura de Ciro Gomes. O mais comentado é sua língua ferina, que dia sim e outro também, acaba por fazer afirmações e ofensas a desafetos que não geram nenhum benefício eleitoral e ainda causam antipatia em muitas pessoas que poderiam votar nele. Espero que o peso da responsabilidade de derrotar um proto-fascista nas eleições de outubro tornem Ciro Gomes mais comedido com suas palavras.

Também não me agradam muitas das suas ideias no campo econômico. A defesa infantil da auditoria cidadã da dívida pública (que ouvi da sua própria boca em palestra realizada em março de 2018 na FACE/UnB), a insistência na implantação de um sistema de capitalização para a previdência social, quando até as pedras sabem que o custo de transição para o novo regime é impagável, e sua estratégia de reindustrialização apoiada, entre outros setores, no complexo do petróleo e gás quando os países desenvolvidos estão crescentemente adotando tecnologias de produção de energia que não são baseadas no carbono, são coisas com as quais não concordo e acredito que devem ser repensadas caso Ciro Gomes seja eleito Presidente da República. Confio na inteligência e agudeza de Ciro e que, no momento certo, ele deverá rever essas posições.

Contudo, está em jogo mais do que o modelo de desenvolvimento brasileiro. Está em jogo o destino da civilização brasileira. Que Brasil queremos para nós e nossos filhos? Um país onde a intolerância, o ódio e o autoritarismo irão ser o guia para a prática política? Somos tão descrentes assim da democracia que estamos dispostos a aceitar como Presidente (e vice-Presidente da República) uma pessoa que afirma que estão disposta a dar um golpe militar caso as circunstâncias assim exijam? Estamos dispostos a permitir que o Brasil se torne o único grande país do Mundo Ocidental a ser ter um governo militar e não democrático? (As unicas excessões na América Latina são Cuba e Venezuela, onde os presidentes da República são militares e o regime é claramente não democrático).

Alguns dos que estiverem lendo estas linhas poderão dizer que eu estou exagerando. Dirão que o “inominável” está apenas representando um papel, que no fundo, no fundo, ele não é nada disso e que eleito Presidente será bem menos radical do que se pensa. Não compartilho com esse otimismo. A figura em questão durante quase trinta anos de vida pública vem afirmando repetidas vezes seu desprezo pela democracia, pelos direitos humanos e pela diversidade de comportamentos e opiniões. Nada do que ele falou ou escreveu até agora me fazem pensar que ele tenha mudado de ideia. E mesmo que ele faça uma “carta ao povo brasileiro” afirmando seu compromisso com a paz social e a democracia, ainda assim não confiarei nele. A história mostra que pessoas que defendem as ideias dele são mentirosas costumazes. Em 1938 Hitler garantiu ao Primeiro Ministro Chamberlin do Reino Unido que a região dos Sudetos seria a última reinvidicação territorial da Alemanha. Não foi. Como afirmou Churchill na época,  ele Chamberlim “entre a paz e a desonra, escolheu a desonra. Terá a guerra sem honra”.

Tenho convicção que Ciro Gomes é, no momento atual da história do Brasil, o candidato que tem mais chances de derrotar o fascismo. Por isso meu voto no primeiro turno será para ele. Que Deus abençoe o Brasil e nos liberte do Mal.

 

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Equilibrar contas públicas é o desafio, dizem economistas (O Estado de São Paulo, 16/09/2018)

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Medida é fundamental para pôr País em trajetória de crescimento após dois anos de recessão e outros dois de resultados pífios

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

Equilibrar as contas públicas. A medida, que pode levar a economia a dar um passo para trás em um primeiro momento, é apontada por economistas como primordial para colocar o Brasil numa trajetória de crescimento novamente, após dois anos de recessão e outros dois de resultados pífios. Se o ajuste será feito com aumento de impostos, corte dos gastos públicos ou os dois, dependerá de quem for eleito, dizem os analistas.

“A questão fiscal vai vir antes de todas, a menos que um ambiente externo se torne muito favorável a emergentes. Provavelmente, vai haver aumento de impostos e corte nas despesas”, afirma Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Contas equilibradas serão essenciais para a manutenção de uma taxa de juros baixa – quando há déficits fiscais menores, o risco de calote de governos diminui e o mercado financeiro aceita emprestar por um juro reduzido. Essa taxa de juros baixa poderá, por sua vez, alavancar os investimentos no País e, consequentemente, a economia.

Além da reforma da Previdência, projetos que incluam redução da isenção de impostos, como o fim da desoneração da folha de pagamentos, devem fazer parte da agenda para que o governo aumente a arrecadação e reduza o déficit fiscal. “O Brasil transfere 4,5% do PIB para empresas em isenção fiscal, e há estudos que mostram que isso não resulta em aumento de produtividade”, diz Castelar.

“Não dá para rever tudo que há de isenção, mas, se revir 25% disso, já teria quase 1% do PIB”, acrescenta o professor José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB). Para o economista, mexer na fonte de receitas é o mais urgente. “O ajuste tem de ser rápido e, para isso, tem de ser pelo lado da receita. O que se podia cortar (de gastos do governo) já se cortou.”

Para reverter a deterioração fiscal do País, Oreiro coloca como alternativa a volta da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e a taxação de lucros e dividendos. Esses impostos garantiriam um aumento de R$ 130 bilhões a R$ 140 bilhões na arrecadação anual. “É um aumento de 10% da receita. Praticamente zera o déficit primário (que, neste ano, deverá ficar em R$ 139 bilhões)”, acrescenta Oreiro.

Privatizações. O ajuste fiscal também pode incluir a privatização de empresas, na visão de Castelar, mas será uma medida ligada à necessidade de levantar recursos, e não vinculada a questões ideológicas. “Não consigo imaginar uma mudança ideológica dramática de privatizar por acreditar na privatização.”

Para Oreiro, entretanto, vender estatais não ajudaria o Brasil, sobretudo em um momento em que países como China e Estados Unidos vão no sentido contrário. “Se há problema de corrupção nelas, isso se resolve com governança.” Segundo ele, em geral, as empresas cuja privatização está em debate atuam em monopólios naturais e passá-las para o mercado não garantiria aumento de eficiência.

Na análise da economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University, a privatização não é uma “bala de prata”. “É simplório pensar ‘vamos retirar o Estado da economia’. O Brasil tem um grau de complexidade grande”, diz ela, que destaca a necessidade de redução de cargos comissionados e uma gestão do Estado com pessoas preparadas, e não só indicadas politicamente.

Privilégios. Além de ser apontado como a medida mais importante, o ajuste fiscal é visto como uma das mais difíceis de ser adotada, já que esbarra no interesse de grupos bem representados no Congresso. “As demonstrações mais recentes dos parlamentares mostram que a tendência é justamente favorecer esses grupos”, diz Castelar.

Segundo o economista Marcos Lisboa, presidente da instituição de ensino superior Insper e secretário de Política Econômica no Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005, os privilégios corporativos têm tornado o País mais pobre. “A sociedade está acostumada a favores por meio de leis. Todos têm algum tipo de privilégio. O servidor público não quer discutir estabilidade de emprego, por exemplo. O setor produtivo não quer abrir mão do crédito subsidiado. Isso leva o Brasil para trás.”

Diante das dificuldades que o próximo governo deve enfrentar para aprovar medidas, a abertura do comércio ao mercado internacional pode ser uma ferramenta rápida para que o País ganhe produtividade e volte a crescer, na análise de Mônica. “O governo tem capacidade de fazer tratados de comércio sem entrar em choque com o Congresso, que provavelmente ainda estará fragmentado”, diz.

A abertura poderia alavancar a produtividade, pois, para se manterem competitivas com a entrada de companhias estrangeiras, as brasileiras teriam de achar um modo de serem mais lucrativas. “Para ter aumento de produtividade, as empresas precisam de um incentivo. Ele passa pela abertura comercial.”

Maior acesso ao mercado internacional também é uma das medidas citadas por Castelar para o País voltar a crescer. Ele destaca que uma reforma tributária também poderia impulsionar a economia. A proposta passaria pela criação de um imposto sobre o valor adicionado no lugar de vários outros que hoje tornam o sistema mais complexo.

Os dez anos da crise global 2008 – 2018 (Revista Isto é Dinheiro, 14 de Setembro de 2018)

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Em 15 de setembro de 2008, o banco americano Lehman Brothers quebrou e levou toda a economia mundial à bancarrota. Uma década depois, seus reflexos ainda são sentidos, inclusive no Brasil

Os dez anos da crise global 2008 – 2018

Gabriel Baldocchi

Os sinais de fumaça de que alguma coisa não ia bem com a economia global podiam ser observados desde 2007. Naquele ano, o banco francês BNP Paribas anunciou um congelamento dos saques em três de seus fundos atrelados a créditos imobiliários. Mas foi só à 1h45 da manhã de 15 de setembro de 2008, que o mundo veio abaixo. O horário marca a data do pedido de falência do Lehman Brothers, dos Estados Unidos, que deixou uma dívida de US$ 691 bilhões e 25 mil funcionários na rua. A partir de então, o planeta mergulhou na sua mais grave crise desde o crash da bolsa de Nova York de 1929. Uma década depois da quebra do quarto maior banco de investimento americano, o mundo não se recuperou totalmente. Seus reflexos ainda são sentidos globalmente. Abriu as portas para a crise na zona do Euro e derrubou os preços das commodities, que sustentavam a economia brasileira.

Uma crise de crédito foi o estopim do crash de 2008. Um período de bonança excessiva em que os bancos americanos concederam empréstimos imobiliários arriscados a compradores sem condições de pagar. Enquanto os americanos compravam até mais de uma casa para investir, os preços não pararam de subir. Para piorar, esse crédito passou a ser empacotado em complexos instrumentos financeiros e distribuídos a portfólios de investimento mundo afora, num contexto de regulação frágil, em que o risco não estava evidente. Quando os calotes ficaram claros, era tarde demais. Os bancos amargaram prejuízos, o preço das residências desabou e o crédito secou. Ao menos cinco milhões de americanos perderam suas casas. Com a queda de 2,4% no PIB, o desemprego subiu para o pico de 10% em 2009 nos Estados Unidos. Não demorou para a recessão se espalhar. Os efeitos foram devastadores na Europa, onde países como a Grécia acumulavam anos de indisciplina. Em 2009, o déficit grego chegou a 12,7% do PIB e a dívida bateu 300 bilhões de euros (113% do PIB).

O euro por um fio: colapso dos mercados quase levou a Grécia à bancarrota e ameaçou a estabilidade da moeda comum europeia

O dilema grego antecipou o que poderia se transformar na crise do euro, que teria efeitos ainda mais devastadores. Foi evitado somente graças à atuação do banco central europeu. Aos gregos, sobrou um socorro de mais de US$ 340 bilhões, com duras contrapartidas de austeridade, que levaram o desemprego a mais de 26% em 2015. Em menor escala, um risco semelhante está colocado mais uma vez para governos e empresas em todo o mundo. Quem aproveitou o período de liquidez para arrumar a casa, terá mais solidez para enfrentar um ambiente mais escasso de recursos e com juros mais altos. É um alarme especialmente para o Brasil, num contexto de uma guerra comercial iminente e de líderes menos dispostos a cooperações internacionais. “Não é possível avaliar exatamente o legado da crise dez anos depois, porque ele ainda está sendo escrito”, afirmou a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde.“Avançamos muito, mas não o suficiente.”

A crise financeira global trouxe reflexos políticos. Um estudo liderado pelo economista Amir Sufi, da Universidade de Chicago, em mais de 60 países, mostrou uma queda de eleitores no centro e um aumento nos extremos da direita e esquerda após eventos financeiros drásticos. Não parece então uma mera coincidência que o avanço de candidaturas mais exacerbadas na corrida para a Presidência do Brasil esteja acontecendo na mesma semana em que se completam dez anos do crash de 2008. A vitória de um candidato como Jair Bolsonaro (leia reportagem aqui) confirmaria um fenômeno que elegeu um líder estridente como Donald Trump nos EUA, que levou a Inglaterra a sair da Zona do Euro, que contribuiu para a vitória de um radical de esquerda na Grécia e que promoveu a ascensão de partidos extremistas e antiglobalização por todo o mundo.

Lagarde, do FMI: “Não é possível avaliar exatamente o legado da crise dez anos depois, porque ele ainda está sendo escrito. Avançamos muito, mas não o suficiente” (Crédito:Afp Photo / Andrew Caballero-Reynolds)

A preferência por Bolsonaro – como sugerem as pesquisas – não é o único sinal de que os efeitos da Grande Recessão ainda se fazem presentes uma década após o estouro da bolha imobiliária. No Brasil, o discurso populista do candidato de extrema direita soa como uma alternativa a um período de penúria sem precedentes. O experimento econômico que contribuiu para levar o País à maior recessão da sua história teve origem na reação da tormenta de 2008. As políticas de estímulo introduzidas corretamente após a quebra do Lehman Brothers foram reconhecidas, à época, como uma das reações mais eficazes à prostração da atividade. O PIB alcançou 7,5% em 2010 e colocou o País na capa da revista The Economist. Na época, o então presidente Lula chegou a dizer que a crise era apenas uma“marolinha”. O entusiasmo foi levado ao extremo e embasou a elaboração da Nova Matriz Econômica, um conjunto de políticas heterodoxas que resultou em inflação, acentuou a piora fiscal e abalou a confiança, sem a contrapartida da alta dos investimentos, dos empregos e da sustentação do ritmo do PIB.

O déficit fiscal, reinaugurado em 2014, encerrou anos de solidez nas contas públicas. E, pelas previsões dos economistas, não será finalmente revertido antes de 2020, quase uma década depois. Período semelhante de tempo terá sido o necessário para o País recuperar o nível de riqueza (medido pelo PIB per capita) do pré-crise. “A resposta imediata do Brasil foi excelente: no segundo semestre de 2009, já tínhamos voltado a crescer”, afirma José Luis Oreiro, economista da Universidade de Brasília (UNB) e autor de dois livros sobre o tema. “A resposta ao segundo desdobramento da crise é que não foi eficiente. Acabou levando a experimentos loucos de política econômica, como consequência da valorização da taxa de câmbio.” A forte queda do dólar era o que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, denominou de guerra cambial e que ajudou a justificar o experimento econômico no País.

Aqueceu demais: sob o comando de Guido Mantega, a Fazenda conseguiu reverter os efeitos do crash, mas os estímulos foram levados ao limite e causaram a recessão anos depois no Brasil

A onda de valorização do real refletia a adoção de outra política não convencional. Os bancos centrais das maiores economias reduziram a próximo de zero as suas taxas de juros, na tentativa desesperada de aquecer a atividade. Para evitar uma catástrofe maior, foram além: adotaram estímulos via compras trilionárias de ativos, uma medida nunca testada antes na história. “Aprendemos que o experimento de política monetária deu as condições para uma expansão mais efetiva. Não caímos no problema da depressão de 1929”, afirma o diretor do Banco Mundial no Brasil, Martin Raiser. As condições de juros baixos e liquidez abundante foram mantidas por anos. Elas explicam como a economia americana chegou ao nível de aquecimento atual. O país está próximo de completar a mais longa sequência de avanços no PIB já registrada, a um ritmo de crescimento de 4%, com pleno emprego e recordes no mercado de ações. O efeito colateral dos estímulos foi uma elevação do nível de endividamento.

Em seus relatórios mais recentes, o FMI vem alertando para os desafios dessa condição. A dívida mundial superou o pico da crise e equivale a 225% do PIB. Ao todo, são US$ 247 trilhões, incluindo governos, empresas e famílias. O risco é o de que essa pilha de dívidas acabe se transformando em problemas maiores no curso da elevação da taxa de juros mundo afora. Os problemas na Argentina e na Turquia, onde há ainda fragilidades externas adicionais, simbolizam o novo período de desarranjo. Embora mais blindado, o Brasil pode sofrer pela desconfiança de investidores. “O mundo está experimentando uma retomada importante, mas não pode demorar a fazer o dever de casa”, afirma Raiser. “Os países que demoraram mais a fazer enfrentarão uma volatilidade maior.”

Alto custo de capital e inviabilidade de investimentos são impasses no Brasil (Diário de Comércio e Indústria, 05/09/2018)

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Especialistas afirmam que a taxa de investimentos no País está 7 pontos percentuais inferior à necessária e criticam o encarecimento dos juros nos financiamentos trazido pela TLP neste ano

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A taxa de investimentos no País está 7 pontos percentuais abaixo do necessário para trazer um crescimento sustentável à indústria, afirmam especialistas. Com alto custo de capital, as sugestões estão em redução de tributos e incentivos à poupança corporativa.

Para o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, para que o Brasil tenha um ambiente de “crescimento sustentável”, a taxa de investimentos no País deveria atingir os 23% do Produto Interno Bruto (PIB).

Os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram uma taxa de 16% no segundo trimestre deste ano.

“A formação bruta de capital fixo média já caiu frente os últimos anos e, atualmente, ela sequer repõe a depreciação dos ativos que vimos por aqui”, opinou o executivo ontem, no 15º Fórum de Economia promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Os especialistas comentam, no entanto, que “diferentemente do observado nos Estados Unidos”, o País não consegue se financiar com capital externo e que, do total de investimentos feitos nas empresas brasileiras, cerca de 75% são realizados apenas com recursos próprios.

“O problema que se agravou na recessão é que, junto à ausência de recursos do governo há também a falta de poupança das empresas, que diminuíram junto com a margem financeira”, explica o diretor de competitividade da Abimaq, Mario Bernardini.

Ele comenta que, ante o alto custo de capital de terceiros – via mercado de capitais aos que possuem capital aberto ou pelo financiamento bancário –, há, portanto, um impasse para aumentar os investimentos das empresas no Brasil.

“Sem recursos próprios e com taxas de juros bastante elevadas quando comparadas à Selic [taxa básica de juros], até mesmo os financiamentos do BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social] ficaram caros demais”, completa Bernardini.

O caso comentado pelos especialistas, nesse sentido, é principalmente em relação à implementação da Taxa de Longo Prazo (TLP) no lugar da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) no início deste ano.

Com a mudança, os contratos – que eram definidos pela meta da inflação mais um prêmio de risco arbitrado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) – começaram a ser compostos pela variação da inflação e a serem ligados a títulos indexados na inflação tenso, assim, taxação semelhante aos juros de mercado.

O exemplo, dado pelo presidente-executivo da associação, foi o de uma venda financiada pelo BNDES realizada pela Romi, em março, de uma máquina Tornos, cujo valor principal para amortização era R$ 400 mil em um prazo de 45 meses.

Segundo Velloso, a primeira parcela paga pelo comprador, por ter sido em um mês onde a inflação estava em 0,09%, foi de R$ 10.370. A segunda parcela, com o IPCA já em 0,22%, subiu para R$ 11.250. No terceiro mês, com inflação a 0,4%, foi para R$ 11.970.

“Em julho, a parcela foi para R$ 15.410 e o empresário devolveu a máquina. A indústria de transformação é responsável por 30% da arrecadação, mas em um ambiente de incerteza, ninguém corre o risco de atrasar contas”, avaliou.

“Sem contar que a matriz risco e retorno no Brasil é bastante distorcida. Em um mix de títulos e indexadores, por exemplo, investimentos onde o risco é muito baixo ou zero são comuns e concentram investidores”, lembra o professor da Unifesp André Carvalho.

PropostasComo solução, o economista José Luís Oreiro da UnB propõe a viabilização de um ambiente mais favorável às empresas.

“Reduzir imposto de renda e tributar dividendos é uma saída para gerar equidade tributária e aumentar investimentos. Além disso, é preciso diminuir o custo de capital de terceiros. Mas isso, ainda assim, é só o começo”, conclui.

15 Forum de Economia – FGV/SP

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3 e 4 de setembro de 2018

Fórum coordenado pelo Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo  

da Escola de Administração (EAESP) e pela Escola de Economia (EESP)

da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Sujeito a alterações

No final deste ano o Brasil terá eleições presidenciais em um clima de grande incerteza. A economia brasileira, porém, precisa de tranquilidade para reencontrar o desenvolvimento econômico há muito tempo perdido. Em seus quatorze anos, o Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas tem sido crítico tanto da alternativa liberal quanto da populista, defendendo uma política novo desenvolvimentista baseada em responsabilidade fiscal e cambial que, até hoje, nenhum dos governos da Nova República implementou. Que política é essa?

 

Segunda-feira – 3 de setembro de 2018

08:30-9:00 – Credenciamento

09:00-9:30 – Abertura

Luiz Carlos Bresser-Pereira – Coordenador do Fórum

Carlos Ivan Simonsen Leal – Presidente da Fundação Getúlio Vargas

Yoshiaki Nakano – Diretor da EESP-FGV

João Guilherme Sabino Ometto – FIESP e Grupo São Martinho

Pedro Wongtschowski – Presidente do IEDI

Clemente Ganz Lúcio – Diretor do DIEESE

09:30 -10:15Palestra: Eduardo Guardia (Ministro da Fazenda)

10:30-13:00 – 1º Painel – Como agir em 2019 diante do teto de gastos?

Depois de 12 anos de superávits primários satisfatórios, a economia brasileira enfrenta desde 2013 desequilíbrio e crise fiscal. E agora um teto fiscal congelou os gastos do governo em termos reais. Terá o próximo governo condições de cumprir o teto, ou ele é inviável e o novo governo deverá propor reforma constitucional? Neste caso, qual seria a meta fiscal em comparação tanto com a despesa de 2017 quanto com o limite do teto constitucional?

Presidente da Mesa: Pedro Wongtschowski (IEDI)

Expositores: Luciano Coutinho (UNICAMP); Nelson Barbosa (FGV); Gabriel Galípolo (Fator); Nelson Marconi (FGV).

Debatedores: Bráulio Borges (LCA), Manoel Pires (FGV/Ibre).

 

13:00 -14:30 – Almoço

14:30-17:00 – 2º Painel – O voto distrital devolverá governabilidade ao presidencialismo?

O sistema eleitoral proporcional com listas abertas tem-se revelado incompatível com a governabilidade, porque o presidente eleito é, em seguida, obrigado a realizar acordos vexatórios com os partidos. Não estaria na hora de sacrificar um pouco a representatividade e adotar o sistema majoritário distrital, que todos os outros grandes países democráticos adotam?

Presidente da Mesa: João Guilherme Sabino Ometto (FIESP)

Expositores: Marcus Ianoni (UFF); Claudio Gonçalves Couto (FGV); Maria do Socorro de Souza Braga (UFSCAR), Fernando Abrucio (FGV)

Debatedores: Joaquim Falcão (ABL); Mario Sergio Conti

 

Terça-feira, 4 de setembro de 2018

09:00 -10:00 – Palestra: André Singer

10:00 – 12:30 – 3o. Painel – Por que o Brasil investe tão pouco?

O Brasil investe e poupa muito pouco, e por isso cresce pouco. Por que a poupança é tão pequena. É um problema cultural sem solução? É meramente um problema de populismo fiscal, expresso em elevados déficits públicos, como dizem os liberais? Ou é também um problema de populismo cambial, expresso em déficits em conta-corrente, como dizem os novos-desenvolvimentistas?

Presidente da Mesa: José Velloso Dias Cardoso (Abimaq)

Expositores: Mario Bernardini (Abimaq); José Luis Oreiro (UNB); André Roncaglia de Carvalho (UNIFESP).; Fernando de Holanda Barbosa Filho (IBRE/FGV).

Debatedores: José Francisco de Lima Gonçalves (Fator), Ricardo Carneiro (Unicamp).

 

12:30 -14:00 – Almoço

14:00-16h30 – 4º. Painel – O Leste da Ásia tem alguma coisa a nos ensinar?

Os países do Leste da Ásia são únicos países que, no século XX, adotaram um modelo de crescimento desenvolvimentista e nacionalista, e, assim, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Singapura se tornaram ricos. E desde 1980 é a China que segue o mesmo rumo. Os novos-desenvolvimentistas afirmam que a teoria e a política que propõem estão baseados nessa experiência. Têm esses países, realmente, algo a nos ensinar?

Presidente da Mesa: Fernando Bueno (Abimaq)

Expositores: Yoshiaki Nakano (FGV); Carmem Feijó (UFF); Carlos Aguiar de Medeiros (UFRJ), Roberto Borghi (Unicamp).

Debatedores: Luiz Fernando de Paula (UERJ); Gustavo Fernandes (FGV).

 

17:00 – Encerramento

 

Local: Salão Nobre da EAESP, 4º. Andar (Entrada pela Rua Itapeva, 432)

Crise turca: lições para o Brasil (Diário de Comércio e Indústria, 21/08/2018)

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Reservas internacionais altas são necessárias para evitar turbulências no câmbio

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Nas últimas semanas a Turquia tem sido o foco das atenções dos mercados financeiros internacionais pela intensidade da desvalorização de sua moeda. No acumulado ao longo de 2018 a lira turca teve depreciação superior a 40% frente ao dólar americano, a maior entre todas as moedas dos países emergentes. Os analistas econômicos afirmam que a crise turca é resultado do populismo econômico de Erdogan, o qual se expressou na recusa em ajustar a política monetária num contexto de forte aceleração da inflação a partir de 2017.

Uma olhada mais atenta aos dados nos leva a ser mais cautelosos a respeito desse “populismo”. Entre 2010 e 2017 a economia turca apresentou um crescimento médio de 6,83% ao ano e uma inflação média de 7,96%. Em 2017 o PIB cresceu 7,18% em termos reais, valor ligeiramente superior a média do período 2010-2017. É verdade que a inflação de 2017, de 11,14%, foi bastante superior a média do período 2010-2017; mas esse foi o único ano durante esse período no qual a inflação divergiu de forma significativa da média dos últimos 7 anos. Por fim, em 2016 o PIB cresceu apenas 3,23%, número bastante inferior ao verificado nos seis anos anteriores; o que sinaliza uma desaceleração cíclica em 2016 e, dessa forma, a necessidade de adoção de uma política monetária expansionista em 2017.

Os números do déficit em conta corrente são mais preocupantes. No período 2010-2017 a Turquia apresentou um déficit em conta corrente de 5,59% do PIB, um patamar alto para países que não possuem moeda conversível. Contudo, os dados existentes até 2016 mostram que a relação dívida externa/exportações se situava ligeiramente acima de 210%, um patamar confortável no que diz respeito à solvência externa.

O calcanhar de Aquiles da Turquia pode ser identificado no comportamento da relação dívida externa de curto-prazo/reservas internacionais. Entre 2010 e 2016 essa relação permaneceu perigosamente próxima de 100%, ultrapassando esse patamar em 2014. Segundo dados divulgados recentemente, a dívida de curto-prazo da Turquia já superaria em cerca de US$ 40 bilhões as reservas internacionais.

A Turquia está sujeita a crises cambiais por “profecias auto-realizáveis”. Agentes acreditam que a Turquia não irá conseguir rolar sua enorme dívida de curto-prazo, então querem antecipar uma forte depreciação cambial na esteira da “parada súbita” de financiamento externo. Assim, sua decisão racional será retirar recursos aplicados na Turquia, dando origem a forte saída de capitais, com consequente depreciação da taxa de câmbio. A única forma de evitar esse desfecho é ter reservas internacionais em grau suficiente para permitir a saída de um volume suficientemente grande de capitais, sem efeitos desruptivos sobre os mercados de câmbio.

A crise da Turquia nos lembra que a manutenção de um volume grande de reservas internacionais é condição necessária para evitar turbulências com a taxa de câmbio. Desde que o Brasil passou a acumular um volume expressivo de reservas, a partir de 2007, não tem ocorrido mais nenhum episódio de stress cambial significativo. Nesse contexto, é muito preocupante que dois principais candidatos da centro-esquerda à Presidência da República estejam divulgando propostas mirabolantes que envolvem o uso das reservas internacionais. Pelo visto, não aprenderam nada com o que é provavelmente o único sucesso indiscutível das sucessivas administrações do PT.

José Luis Oreiro é professor do departamento de economia da UNB

Link: https://www.dci.com.br/colunistas/artigo/crise-turca-lic-es-para-o-brasil-1.734013

Em palestra comemorativa ao Dia do Economista, José Luis Oreiro falou sobre os desafios econômicos para o próximo presidente da República (COFECON, 14/08/2018)

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O economista José Luis Oreiro, professor associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), ministrou palestra sobre “Crescimento e ajuste fiscal: os desafios para o próximo presidente da República” no Dia do Economista, comemorado em 13 de agosto. O evento ocorreu na sede do Conselho Federal de Economia, em Brasília, e foi realizado pelo Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), iniciando as festividades no mês do economista. O evento foi transmitido ao vivo na página do Cofecon no Facebook e está disponível em https://www.facebook.com/cofeconeconomia/. Clique aqui para conferir a apresentação de slides do palestrante.

Em sua apresentação, Oreiro explicou suas visões pessoais sobre por que o crescimento econômico não decola. Afirmou que a recessão de 2014-2016 foi a segunda mais intensa em termos de queda do nível de atividade econômica no período iniciado em 1981 até 2016, com nove recessões no total, e com a recuperação mais lenta. O professor apontou suas hipóteses para o ritmo lento de recuperação da atividade econômica, citando os especialistas Bráulio Borges e Paulo Gala: conservadorismo excessivo da política econômica e deflação de dívidas.

“A economia brasileira passou por um ciclo de expansão de crédito no período pós 2008. Isso resultou num aumento significativo do grau de alavancagem das empresas não-financeiras. A reversão de políticas de represamento dos preços administrados e consequente elevação da taxa de juros a partir de 2015, em conjunto com a forte desvalorização da taxa nominal de câmbio, levaram as empresas e as famílias a desalavancar seus balanços, contraindo os gastos com investimento e consumo. Nesse contexto, a política monetária perde eficácia e a recuperação do nível de atividade é mais demorada”, explicou José Luis Oreiro.

O economista apresentou também suas impressões sobre o que chamou de “O fracasso do ajuste fiscal de Dilma/Temer”. Segundo Oreiro, a partir de meados de 2014 a relação dívida líquida do setor público/PIB passou a apresentar uma dinâmica insustentável. “Entre junho de 2014 e junho de 2018, a relação dívida líquida/pib aumenta 25 p.p. Isso decorreu do aumento expressivo do deficit nominal do setor público, o qual passou de 3,30% no acumulado em 12 meses em junho de 2014 para 10,72% do PIB no acumulado em 12 meses em janeiro de 2016”, afirmou.

O professor da UnB destacou que deficit nominal apresentou uma tendência de redução ao longo de 2017, mas que ainda esteve no patamar de 7,5% do PIB no primeiro semestre de 2018. “A tendência de aumento da relação dívida pública líquida/PIB ainda não apresenta nenhuma tendência visível de reversão. Até quando as instituições financeiras e os rentistas se mostrarão dispostos a aumentar a participação dos títulos públicos na sua carteira de ativos?”, questionou o economista.

Por fim, o palestrante opinou que “A única forma de compatibilizar a aceleração do crescimento com o reequilíbrio das contas públicas é por intermédio de um ajuste fiscal de emergência baseado em aumentos de impostos sobre as unidades que possuam menor propensão a consumir, combinado com um modesto aumento do investimento público, notadamente em obras de infraestrutura”.

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