Educando Alexandre Schwartsman, até onde for possível – Por Nelson Barbosa (Folha de São Paulo, 15/12/2017)

Tags

,

Em sua coluna mais recente, na quarta-feira (13), Alexandre Schwartsman mais uma vez me ataca com a virulência que lhe é característica. Pela minha conta, já fui tema de 10% do que o polemista publicou na Folha neste ano. Só Freud explica.

Mas, como sou otimista com a raça humana, acho isso positivo. Estou educando Schwartsman, até onde isso for possível.

No último ataque, o colunista parece revoltado por eu ter apontado que vivemos a mais lenta recuperação após uma recessão e que isso não pode ser creditado só à política econômica adotada antes da mudança de governo. Decisões pós-maio de 2016 também explicam por que o PIB está crescendo tão devagar, mas vamos aos pontos levantados por Schwartsman.

Primeiro, o colunista me acusa de dizer que não haveria retomada do crescimento do PIB em 2017. Basta consultar minha resposta a sua primeira crítica, em abril deste ano, para verificar que apontei que o contingenciamento de gastos adotado pelo governo tendia a atrasar, não a interromper, a recuperação do crescimento.

Felizmente, o governo não ouviu Schwartsman, mudou a meta de deficit primário e liberou mais recursos no segundo semestre (e ainda houve o FGTS e o PIS).

O artigo ao qual Schwartsman se refere foi publicado no blog do Ibre e trata do mais recente estudo de Alberto Alesina e cia., no qual os autores constatam que, em média, a contração fiscal é contracionista no curto prazo. Mais importante, o mesmo artigo diz que, mesmo em ajustes “baseados em cortes de gastos”, 20% do esforço fiscal ocorreu via aumento de receita, ponto ignorado pelo colunista em suas análises.

Em segundo lugar, Schwartsman me ataca por, no início de 2015, ter esperado uma rápida recuperação da economia. O colunista se esqueceu de dizer que naquele momento o governo já baseava suas projeções nas expectativas de mercado, que em dezembro de 2014 projetavam um crescimento de 0,6% do PIB para 2015. Nisso sou culpado. Errei a projeção com o mercado por não antecipar a série de choques políticos e econômicos que a economia sofreu naquele ano.

O mesmo comentário vale para minha expectativa, em setembro de 2015, de que a economia se recuperaria ao longo de 2016. Naquele momento, o mercado também apontava para o crescimento do PIB no último trimestre de 2016 (+0,2%). Tudo isso é público e disponível no site do Banco Central.

Terceiro, meu maior admirador critica minha observação de que a taxa de juro real caiu lentamente. Porém, os próprios números apontados por Schwartsman comprovam que a queda da taxa real esperada foi lenta diante do tamanho da recessão. Se considerarmos a taxa real efetiva, a redução só começou em agosto deste ano, como apontei em coluna publicada na Folha, em setembro.

Por fim e mais grave, o polemista parece não entender, ou não querer entender, minha crítica sobre a incerteza fiscal. Até as esquinas de Brasília sabem que sou favorável à reforma da Previdência e ao ajuste fiscal gradual, via aumento de receita e redução do crescimento do gasto.

Porém, o ódio cego de Schwartsman faz com que ele não veja que o problema não é o ajuste, e sim a incerteza sobre a forma do ajuste, uma vez que o governo Temer aprovou um teto de gasto inadequado e sem nenhum instrumento para o próximo governo conseguir cumpri-lo a partir de 2019.

De todo modo, espero que o polemista continue aprendendo com o que escrevo.

Anúncios

O motor do crescimento (Diário de Comércio e Indústria, 04/12/2017)

Tags

,

Qual o ritmo de avanço que a economia brasileira sustentará daqui para frente?

A economia brasileira deverá fechar 2017 com crescimento abaixo de 1%, resultante dos efeitos combinados da liberação dos depósitos inativos do FGTS, da redução da taxa de juros e do forte crescimento das exportações, tanto de produtos básicos como de manufaturados, em função da aceleração da economia mundial. Considerando a queda acumulada de quase 9% do PIB real no período 2014-2016, trata-se de uma recuperação anêmica, ainda que bem-vinda.

A pergunta que se coloca a partir de agora é qual o ritmo de crescimento que a economia brasileira pode sustentar no médio e no longo prazo? Essa pergunta é essencial para a projeção sobre a trajetória de contas públicas, bem como para o desenho de políticas capazes de lidar com problemas estruturais da sociedade brasileira na educação, saúde e infraestrutura. A teoria econômica indica que o avanço potencial de uma economia no longo prazo é igual a soma entre a taxa de crescimento da força de trabalho e a taxa de crescimento da produtividade. A primeira depende do avanço da população e da taxa de participação, ou seja, do aumento da razão entre a força de trabalho e a população. Em função da queda tendencial da taxa de fecundidade derivada do processo acelerado de urbanização da economia brasileira nos últimos 50 anos, a taxa de crescimento da população caiu progressivamente, hoje em torno de 0,8% ao ano.

Na década passada a força de trabalho cresceu acima do avanço da população devido ao aumento da taxa de participação, induzida pela expansão do nível de emprego. Embora a recessão de 2014 à 2016 tenha crescido a taxa de desemprego, não podemos mais contar com um aumento significativo da taxa de participação nos próximos 15 anos, dado que a mesma já se encontra num patamar elevado. Assim, o crescimento da força de trabalho deve contribuir com, no máximo, 1 ponto porcentual para o crescimento do PIB nos próximos anos.

E o que dizer da taxa de crescimento da produtividade? Economistas ortodoxos acreditam que a produtividade é algo que não tem nada que ver com a acumulação de capital ou com a composição intersetorial da produção e do emprego, dependendo só de instituições (grau de abertura da economia e grau de observância ao império da lei) e do estoque de capital humano. Dessa forma, a receita ortodoxa para acelerar a produtividade é fazer a abertura indiscriminada e unilateral da economia, junto com o aumento do investimento em educação básica e fundamental.

Em artigo publicado em 2013, o economista Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, mostrou que a estratégia de desenvolvimento baseada na melhoria de instituições e da acumulação de capital humano é relativamente pouco eficaz como fonte de aumento da produtividade. Os países que experimentaram surtos de crescimento econômico acelerado foram os que conseguiram transferir mão-de-obra de setores tradicionais para a indústria de transformação. Esse processo permite o aumento mais rápido da produtividade do trabalho.

Ou seja, os campeões de crescimento foram os países que se industrializaram mais rápido. Para impedir a “desindustrialização precoce”, Rodrik constata que a industrialização deve se basear na conquista de mercados externos, ao invés da substituição de importações. Assim, a política macroeconômica torna-se pilar fundamental do desenvolvimento econômico ao ter como meta obter superávits em conta corrente do balanço de pagamentos.

joreirocosta@yahoo.com.br

Professor do Departamento de Economia da UNB

Link do artigo: http://www.dci.com.br/opiniao/o-motor-do-crescimento-id667792.html

Investimentos reagem após 15 quedas seguidas (O Estado de São Paulo, 02/12/2017)

Tags

,

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2017 | 11h22

RIO – Após 15 trimestres seguidos de retração, os investimentos voltaram ao azul no terceiro trimestre do ano. A formação bruta de capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) cresceu 1,6% em comparação ao segundo trimestre, segundo os dados divulgados nesta sexta-feira, 1, pelo IBGE. Ainda assim, a taxa de investimentos ficou em 16,1% do PIB, pior nível para terceiros trimestres desde 1996, início da série do IBGE.

Tanto a produção nacional quanto a importação de bens de capital contribuíram para a elevação dos investimentos. Os destaques foram os investimentos em máquinas e equipamentos, caminhões e ônibus.

Segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o consumo de máquinas e equipamentos puxou a melhora dos investimentos, mas a construção também contribuiu positivamente no período, embora ainda não haja retomada no setor. Por outro lado, o componente “outros investimentos” – que inclui desde touro reprodutor a pés de café, passando por recursos empenhados em pesquisa e desenvolvimento – recuaram 2,2%.

“A retomada é de máquinas e equipamentos”, disse José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea.

O economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), lembrou que, depois de tanto tempo investindo pouco, as empresas são obrigadas a modernizar o maquinário. Por isso, segundo Souza Júnior, do Ipea, a construção ainda tem ociosidade alta em todos os ramos: residencial, comercial e industrial. “Quando você retoma a produção, não é necessário investir em construção. Você precisa é fazer alguma modernização e manutenção de máquinas e equipamentos”, disse Souza Júnior.

Isso contribuiu para o avanço de 1,4% na indústria da transformação no terceiro trimestre ante o segundo, puxando a alta de 0,8% no PIB industrial.

Só que a indústria da construção ficou estagnada, por causa dos cortes de investimentos do governo e a conjuntura econômica desfavorável,disse Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. O segmento de infraestrutura foi o que mais sofreu. Em momentos de austeridade, os investimentos são as despesas mais fáceis de cortar. O fenômeno ocorre nas três esferas de governo: federal, estadual e municipal.

“Com os governos impossibilitados de fazer obras, isso ainda vai perdurar. Você pode construir residências, mas essa parte sozinha não ajuda o desempenho da construção no PIB. O importante é que máquinas e equipamentos estão se recuperando”, disse o economista Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Concessões. Os leilões de concessões realizados recentemente e os que ainda estão por vir podem ajudar numa recuperação futura. O Ipea prevê uma retração de 2,5% nos investimentos em 2017, seguida por avanço de 4,2% em 2018. “Investimentos dependem mais de confiança. O problema é que no ano que vem teremos eleição”, disse Souza Júnior.

Para o PIB, a expectativa do Ipea é de alta de 0,7% este ano e avanço de 2,6% no ano que vem. “Mas provavelmente vamos revisar as projeções, e com viés de alta. Os dados estão melhores do que estávamos esperando. Houve revisão para cima. O PIB todo foi revisto, então devemos revisar para cima também nossas expectativas”, concluiu Souza Júnior.

O Crescimento Brasileiro Revisitado (1980-2012) – Revista de Conjuntura Ano XVII, N. 60

Tags

, ,

Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar as causas da desaceleração do crescimento da economia brasileira a partir de um referencial teórico Keynesiano-Estruturalista, segundo o qual o crescimento da produtividade do trabalho depende da mudança estrutural e da acumulação de capital. Nesse contexto, iremos mostrar que o ritmo de acumulação de capital na economia brasileira se reduziu de forma expressiva a partir do final dos anos 1980, e que essa redução foi causada basicamente pela redução da taxa de investimento a preços correntes. Iremos mostrar também que a participação da indústria de transformação no PIB apresentou uma nítida tendência de redução a partir de 1980, a qual está associada a instabilidade macroeconômica da segunda metade dessa década e a tendência a apreciação da taxa real de câmbio observada a partir da implantação do Plano Real e da adoção do modelo liberal-dependente de poupança externa a partir de 1994.

 

Palavras-Chave: Mudança estrutural, acumulação de capital, semiestagnação, Brasil.

Para acessar o arquivo com o artigo clique no ícone ao ladoRevista-CoreconDF-Edição-60-FINAL

Estudo do Banco Mundial é importante para apontar problemas, dizem economistas (O Estado de São Paulo, 22/11/2017)

Tags

, ,

Para eles, no entanto, relatório ignora a dificuldade política de tornar o conjunto de propostas realidade

Márcia De Chiara, Douglas Gavras e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2017 | 05h00

SÃO PAULO e BRASÍLIA – O diagnóstico do Banco Mundial para as contas públicas brasileiras reforça, na visão de economistas, um problema que já está escancarado: o País gasta além do que poderia e de forma ineficiente. Embora concordem com o resultado geral do estudo, divergem sobre as medidas apontadas como solução.

O trabalho sistematiza toda a literatura que mostra que o Brasil é um País emergente que gasta muito e gasta mal”, diz Marcos Lisboa, presidente do Insper. “Para a qualidade do que é oferecido, gastamos em demasia. Deveríamos ter serviços muito melhores”, afirma. O Insper vai debater o documento com os representantes do Banco Mundial.

O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça de Barros, diz que esse tipo de estudo é importante por apontar onde estão os graves problemas e ser uma fonte de consulta. Mas o economista frisa que isso não pode ser considerado uma agenda para o governo.

“Esses órgãos, como o Banco Mundial, têm técnicos muito competentes que fazem uma análise olhando as contas. Só que eles não têm a menor responsabilidade com a possibilidade política de se fazer tudo isso”, afirma. “O grande problema quando se está no governo é ter de lidar com a realidade política e social.” Ele questiona, por exemplo, o aspecto jurídico de se mexer no salário do servidor público que tem direito adquirido.

Para a economista Ana Carla Abrão, sócia da Consultoria Oliver Wyman, o relatório fala “todas as verdades” que a população e o Congresso precisam ouvir. “Os números estão lá. Vamos continuar fechando os olhos para uma política de avestruz ou vamos enfrentar o problema?”, disse. Segundo ela, o que chamou atenção no relatório é o desperdício de recursos em Educação. “Quando se vê o número de forma tão objetiva é indefensável”, afirma a ex-secretária de Fazenda de Goiás.

Já o economista da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro diz que as medidas sugeridas pelo Banco Mundial não são viáveis. “Esse pessoal aproveita a desgraça que foi o governo anterior para atender aos países ricos”, afirma. Para ele, proposições como a cobrança de mensalidade de universidades públicas, mesmo com subsídio para alunos carentes, não é um bom caminho para melhorar as contas das instituições. “Há um problema de receita, mas não é assim que se resolve.”

O Brasil e as fontes do crescimento econômico sustentado

Tags

, , ,

Ao que tudo indica a economia brasileira deverá fechar o ano de 2017 com um crescimento abaixo de 1%, resultante dos efeitos combinados da liberação dos depósitos inativos do FGTS, da redução da taxa de juros e do forte crescimento das exportações, tanto de produtos básicos como de manufaturados, em função da aceleração do crescimento da economia mundial. Considerando a queda acumulada de quase 9% do PIB real no período 2014-2016 trata-se de uma recuperação anêmica, ainda que bem vinda.

A pergunta que se coloca a partir desse momento é qual o ritmo de crescimento que a economia brasileira pode sustentar no médio e no longo-prazo? Essa pergunta é fundamental tanto para a formulação de projeções sobre a trajetória das contas públicas, como também para o desenho de políticas que permitam lidar com os problemas estruturais da sociedade brasileira nas áreas de educação, saúde e infraestrutura.

A teoria econômica indica que o crescimento potencial de uma economia no longo-prazo é igual a soma entre a taxa de crescimento da força de trabalho e a taxa de crescimento da produtividade. A taxa de crescimento da força de trabalho depende da taxa de crescimento da população e do crescimento da taxa de participação, ou seja, do aumento da razão entre a força de trabalho e a população. Em função da queda tendencial da taxa de fecundidade (filhos por mulher) derivada do processo acelerado de urbanização da economia brasileira nos últimos 50 anos, a taxa de crescimento da população vem se reduzindo progressivamente, situando-se hoje em torno de 0,8% a.a. Na década passada a força de trabalho cresceu a um ritmo superior ao crescimento da população devido ao aumento da taxa de participação, induzida pela expansão do nível de emprego possibilitada pelas políticas de expansão da demanda agregada adotadas pelos governos Lula e Dilma. Embora a recessão de 2014 à 2016 tenha aumentado a taxa de desemprego, não podemos mais contar com um aumento significativo da taxa de participação nos próximos 15 anos, dado que a mesma já se encontra num patamar elevado. Dessa forma, o crescimento da força de trabalho deve contribuir com, no máximo, 1 p.p para o crescimento do PIB nos próximos anos.

E o que dizer da taxa de crescimento da produtividade? Os economistas ortodoxos (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2017/10/1929109-profundezas-da-improdutividade.shtml) acreditam que  o crescimento da produtividade do trabalho é algo que não tem nada que ver com a acumulação de capital ou com a composição intersetorial da produção e do emprego, sendo dependente apenas das instituições) (grau de abertura da economia e grau de observância ao império da lei) e do estoque de capital humano. Dessa forma, a receita ortodoxa para acelerar o crescimento da produtividade é fazer a abertura indiscriminada e unilateral da economia para obrigar as firmas a serem mais eficientes, ao mesmo tempo em que se aumenta o investimento em educação básica e fundamental.

Em artigo publicado em 2013, o economista Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, mostrou que a estratégia de desenvolvimento baseada na melhoria de instituições e da acumulação de capital humano é relativamente pouco eficaz como fonte de aumento da produtividade. Os países que experimentaram surtos de crescimento econômico acelerado foram precisamente aqueles que conseguiram transferir mais rapidamente mão-de-obra dos setores tradicionais para a indústria de transformação. Isso porque a indústria de transformação é o setor que se beneficia mais intensamente dos efeitos de transbordamento positivos da fronteira tecnológica, razão pela qual se observa uma convergência incondicional entre os níveis de produtividade dos setores manufatureiros ao redor do mundo; ou seja, a produtividade do trabalho na indústria de transformação tende a crescer mais rapidamente nos países que estão atrás da fronteira tecnológica (Rodrik, 2012), fazendo com que a produtividade do trabalho na manufatura desses países possa convergir rapidamente para a produtividade do trabalho da manufatura nos países que estão na dita fronteira.

A intensidade e a duração da fase a la Lewis (1954) de transferência de mão-de-obra dos setores tradicionais para a manufatura irá depender, contudo, dos limites existentes a participação da mão de obra industrial na força de trabalho. Rodrik (2013) mostra que a participação do emprego industrial no emprego total é limitada por dois fatores fundamentais, a saber: (i) a participação dos produtos manufaturados na demanda agregada doméstica (ii) o saldo da balança comercial de produtos manufaturados. Em função da “lei de Engel”, a participação dos manufaturados na demanda doméstica tende a cair com o processo de desenvolvimento econômico, o que tende a diminuir a participação do emprego industrial no emprego total, levando assim a um processo de desindustrialização e, consequentemente, a redução do ritmo de crescimento da produtividade do trabalho.  Para retardar ou até mesmo reverter esse processo é necessário aumentar o saldo da balança comercial de manufaturados, o que exige, entre outras coisas, manter a taxa de câmbio num patamar competitivo. Dessa forma, a estratégia de desenvolvimento por intermédio da industrialização deve estar baseada na conquista de mercados externos, ao invés da substituição de importações.

Esse arcabouço teórico nos permite entender as razões para o sucesso econômico da Alemanha e do fracasso do Brasil nos últimos 15 anos. Conforme aponta Flassbeck (2017), desde 1998 a Alemanha vem adotando uma política de “desvalorização interna” da taxa de câmbio por intermédio de medidas que levaram a um crescimento dos salários reais a um ritmo inferior ao da produtividade do trabalho. Como resultado dessa política, o custo unitário do trabalho na Alemanha se reduziu relativamente ao dos demais países da Área do Euro, permitindo assim que a Alemanha acumulasse crescentes superávits em conta-corrente como proporção do PIB. Dessa forma, a participação do emprego industrial no emprego total na economia alemã pode ser mantida, evitando-se assim a “desindustrialização” com a transferência de mão-de-0bra da indústria para o setor de serviços. Já no Brasil a taxa real de câmbio tem apresentado uma tendência crônica a sobrevalorização desde 1994, a qual foi revertida de forma pontual e temporária no período (2000-2004). O resultado dessa sobrevalorização cambial foi a redução gradual do superávit comercial da indústria de transformação até 2007, momento a partir do qual se passa a observar déficits comerciais crescentes nesse setor. Esse movimento foi acompanhado de uma transferência de mão-de-obra e recursos da indústria de transformação para o setor de serviços, sendo esta uma das razões fundamentais para a estagnação do crescimento da produtividade do trabalho no Brasil.

Isso posto, para que seja possível acelerar o ritmo de crescimento do trabalho na economia brasileira será necessário reverter o processo de desindustrialização por intermédio de medidas que visem manter a taxa real de câmbio num patamar competitivo no médio prazo. Isso significa obter um patamar para a taxa de câmbio que seja alto o suficiente para reverter, de forma persistente, o déficit comercial da indústria de transformação. Dado que o Brasil é um grande exportador de produtos básicos, a reversão do saldo comercial da indústria de transformação terminará por fazer com que o Brasil apresente um superávit estrutural no saldo em conta-corrente do balanço de pagamentos.   Dessa forma, a obtenção de um modesto superávit em conta-corrente, na ordem de 1% do PIB, deve ser visto como condição necessária para a aceleração sustentável do crescimento da economia brasileira.

Alguns economistas podem fazer objeções a essa política dizendo que o Brasil tem escassez de poupança doméstica e que, portanto, não é viável ou desejável a obtenção de superávits em conta-corrente do balanço de pagamentos. Conforme já argumentei em outro post (https://jlcoreiro.wordpress.com/2017/10/14/poupanca-lucros-e-industria/), a taxa de poupança doméstica está positivamente correlacionada com a participação da indústria de transformação no PIB, uma vez que (i) a fonte principal de poupança doméstica consiste nos lucros corporativos; (ii) os produtos manufaturados, por serem mais intensivos em capital, são precisamente aqueles que possuem maior participação dos lucros no valor adicionado. Dessa forma, a reindustrialização do Brasil, se bem sucedida, também deverá eliminar o problema estrutural de escassez de poupança no Brasil.

Referências

Flassbeck, H. (2017). “Germany´s Trade Surplus”. American Affairs, Vol. I, N.3.

Lewis, A. (1954). “Economic Development with Unlimited Supplies of Labor”. Manchester School of Economics and Social Studies, 28: 139-191.

Rodrik, D. (2013). “The Past, Present and Future of Economic Growth”. The Global Citizem Foundation, Working Paper 1.

Rodrik, D. (2012). “Unconditional Convergence in Manufacturing”. Quarterly Journal of Economics, pp.165-204.

 

 

 

 

 

Sexto Forum de Economia da Universidade de Brasília

Tags

Discutir reformas deve ser sempre um exercício continuado de qualquer país que almeje a superação de seus entraves econômicos e o desenvolvimento de suas instituições. Em especial, o Brasil atravessa um momento que suscita ainda mais a necessidade de autorreflexão. Neste sentido, a 6a edição do Fórum de Economia da UnB tem como propósito trazer diferentes perspectivas de quais devem ser os ajustamentos econômicos e sociais necessários ao crescimento sustentado e igualitário do país. O Fórum tem como intenção ser um evento propositivo e acredita que as reformas que vêm sendo apresentadas precisam ser rigorosamente analisadas e discutidas dentro de um espectro amplo de opiniões.

Dado este contexto, o Centro Acadêmico de Economia tem o prazer de anunciar o 6º Fórum de Economia da UnB, com o tema “Reformas no centro do debate: as mudanças estruturais de que o Brasil precisa”. Gostaríamos de convidar todos os estudantes para uma semana de reflexão acerca de questões capazes de impactar os rumos econômicos do país, bem como o bem-estar dos cidadãos.

O 6º FEUnB, que se dará no período que compreende os dias 06 (segunda-feira) a 10 (sexta-feira) de novembro, contará com palestras às 12h e às 18h de cada dia. Os diferentes subtemas abordados por cada palestrantes serão divulgados em breve. A programação do Fórum será:

06/11
12h: Monica de Bolle (videoconferência)
18h: Roberto Ellery e José Luís Oreiro

07/11
12h: Ana Paula Vescovi
18h: Marcos Mendes

08/11
12h: Edmar Bacha
18h: Marcos Lisboa

09/11
12h: Tony Volpon
18h: Samuel Pessôa

10/11
12h: Marcio Holland de Brito
18h: Eduarda La Rocque

O evento ocorrerá no Auditório Verde da FACE. Entretanto, a primeira palestra – videoconferência – será realizada no Auditório da FD (Faculdade de Direito). Como tais espaços estão sujeitos a lotação, incentivamos fortemente que tentem chegar cedo, de modo a garantirem seus lugares.

Além disso, emitiremos certificados para aqueles que participarem de pelo menos 60% das palestras do Fórum, ou seja, 6 palestras. Qualquer dúvida, entre em contato com o CAECO via Facebook ou pelo email ca.economia.unb@gmail.com.