BNDES vai comprar Cedae (Correio Braziliense – 20/07/2017)

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Para dar um fôlego ao Rio de Janeiro, cujo rombo fiscal, este ano, deve ser próximo de R$ 20 bilhões, o governo federal autorizou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a comprar a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) do estado por R$ 3 bilhões. A venda da estatal é um dos pontos do plano de recuperação fiscal negociados pelo governo do Rio com a União. A ideia é o banco de fomento injetar os recursos no caixa estadual, que poderá colocar as principais contas em dia, sobretudo, os salários de servidores, cujo atraso soma mais de R$ 400 milhões.

Com a compra, o BNDES vai preparar a Cedae para privatização. Caso a venda da estatal supere os R$ 3 bilhões, a diferença irá para o estado. A proposta de compra da companhia está sendo costurada entre o banco, o Ministério da Fazenda e o governo do Rio. O modelo, que poderá ser usado em outros estados endividados, foi apresentado pelo presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro. De acordo com fontes do governo, Rabello de Castro estava desenvolvendo uma modelagem para compra de ativos dos estados que fossem bem avaliados, para, posteriormente, privatizá-los, caso da Cedae e da Cemig, distribuidora de energia de Minas Gerais.

Para o professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro, a operação de socorro é providencial. “Os salários dos funcionários públicos estão atrasados desde abril. Pelo que acompanho, as folhas de pagamento atrasadas estão na faixa de R$ 400 milhões. Então, os R$ 3 bilhões, se forem rapidamente liberados, resolverão um problema que já ganhou contornos humanitários. A situação é trágica. O governo precisa apagar esse incêndio”, analisou Oreiro.

Na opinião do especialista em contas públicas da Tendências Consultoria Silvio Campos Neto, do ponto de vista fiscal, a medida é necessária, mas insuficiente. “O Rio vive uma situação muito difícil. Isso não vai resolver o problema. Não cobre nem uma parte do deficit do Rio, calculado em R$ 17 bilhões para o ano, com possibilidade de chegar a R$ 20 bilhões”, ressaltou.

A hipótese que está em discussão no governo é vista como uma “solução mais ágil” porque, até então, o papel atribuído ao BNDES era de apenas estruturar a operação de privatização não só da Cedae, como também de outras companhias estatais de unidades da federação endividadas. No entanto, o processo seria mais demorado. No caso da Cedae, levaria até dois anos para ser concluído.

O plano de recuperação do Rio também previa a antecipação de até R$ 3,5 bilhões em empréstimos, com o compromisso de quitar esses financiamentos com os recursos obtidos da venda da Cedae. O novo modelo injetaria o valor integral da venda da Cedae imediatamente nos cofres fluminenses, dada a situação emergencial do estado. Por isso, a operação já é aventada para socorrer os outras unidades da Federação superendividadas. Procurados, o governo do Rio de Janeiro não respondeu e o BNDES e o Ministério da Fazenda preferiram não comentar. (Colaborou Rosana Hessel)

 

Mais uma baixa

O diretor de Controladoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Ricardo Baldin, decidiu deixar o cargo por divergências com o presidente do banco, Paulo Rabello de Castro. É a terceira baixa na diretoria desde que Rabello de Castro assumiu, no início de junho, em substituição a Maria Silvia Bastos Marques. No início do mês, Vinícius Carrasco, que ocupava a Diretoria de Planejamento, e Cláudio Coutinho, da área de crédito, pediram demissão em um ato de defesa da mudança na taxa de juros de longo prazo, a TJLP, proposta pelo governo. Baldin cuidava da gestão de riscos, tecnologia da informação e controladoria do BNDES.

Dificuldade para encontrar vagas (Correio Braziliense – 06/07/2017)

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A crise econômica provocou uma redução de 3,1% em 2015 no pessoal ocupado nas companhias que integram o Cadastro Central de Empresas (Cempre) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a primeira queda nesse indicador desde o início da série, em 2007. O pessoal assalariado diminuiu 3,6%, o que significou um corte de 1,7 milhão de empregos com carteira assinada.

Os homens sofreram mais os efeitos da crise, apresentando uma queda de 4,5% no número de ocupados, enquanto para as mulheres a redução foi de 2,4%. Em termos salariais, a diferença entre homens e mulheres diminuiu, mas ainda era grande: eles ganhavam 23,6% a mais do que elas.

De lá pra cá, tem sido árdua a caminhada das pessoas que tentam se reempregar. Em busca de uma oportunidade, a moradora de São Sebastião Camila Nunes dos Santos, 21 anos, foi ontem com a amiga Ingrid Moraes Sobrinho, 20 anos, à Agência do Trabalhador, no Setor Comercial Sul. “Eles me perguntaram que tipo de vaga eu queria. Respondi: ‘Qualquer uma!’”, contou Camila, que está desempregada há um ano. Com ensino médio completo, ela trabalhava como operadora de caixa em uma empresa de serviços elétricos e hidráulicos e não conseguiu nova ocupação.

Filha mais velha, Camila explicou que, da renda de R$ 900 por mês, de R$ 600 a R$ 700 eram reservados para ajudar a mãe, diarista, e o pai, autônomo, a sustentar os quatro irmãos dela. “Meu salário faz falta em casa”, lamentou. A amiga Ingrid trabalhava como menor aprendiz em um restaurante, mas não pôde ser contratada como profissional porque a jornada de trabalho noturna coincidiria com o horário do curso de gestão de recursos humanos que frequenta: “Vim procurar estágio, mas não havia. Eu pago a faculdade e fiz uma reserva que vai durar quatro meses. Até lá preciso conseguir alguma renda”.

Cursando o primeiro ano do ensino médio, a moradora do Cruzeiro Novo Isabele Cavalcante de Sousa, 16 anos, foi à agência em busca do primeiro emprego. “Quero muito ganhar meu próprio dinheiro. Mas estou há três meses procurando e ainda não apareceu nada. É difícil conseguir uma oportunidade quando tantas pessoas estão sendo demitidas. Isso é muito desanimador”, lamentou a estudante.

No levantamento do IBGE, a única variável que não apresentou queda em 2015 foi o número de empresas e outras organizações, que se manteve praticamente estável em 5,1 milhões, registrando variação de 0,2% ou 11,6 mil empresas a mais que em 2014, quando houve a primeira queda na série.

O cenário até o fim de 2017 não é promissor, segundo o professor do Departamento de Economia da UnB José Luis Oreiro. “Nos próximos meses, a taxa de desemprego vai continuar aumentando. A melhora na economia no primeiro trimestre foi puxada pelo agronegócio e não tem reflexos no emprego. No setor de serviços e na indústria, o desemprego vai continuar. Só a partir de 2018, poderemos ver uma lenta recuperação do emprego a partir de uma também lenta recuperação da economia”, prevê.

Agenda Brasil (Diário de Comércio e Indústria – José Luis Oreiro – 03/07/2017)

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Mesmo que a economia brasileira consiga engatar uma trajetória de crescimento a partir de 2018, existem razões para acreditar que será um crescimento medíocre, incapaz de colocar o país numa trajetória de alcançamento com respeito aos países desenvolvidos. Isso porque a economia brasileira possui uma série de problemas estruturais que limitam seu potencial de crescimento de longo-prazo. Na sequência irei fazer uma lista dos principais problemas estruturais que limitam nosso potencial de crescimento.

Em primeiro lugar, a economia brasileira vem passando nos últimos 20 anos por um processo de desindustrialização precoce, o qual tem impacto negativo sobre o crescimento de longo-prazo por dois canais distintos. Por um lado a desindustrialização reduz o nível e a taxa de crescimento da produtividade do trabalho uma vez que (i) a produtividade do trabalho é, na média, mais alta na indústria de transformação do que nos demais setores; de forma que uma redução da participação daquela no PIB reduz a produtividade média da economia e (ii) a indústria é a fonte dos retornos crescentes de escala e do progresso técnico (na sua maior parte incorporado em máquinas e equipamentos) indispensáveis para o crescimento da produtividade no longo-prazo. Por outro lado, a elasticidade renda das exportações dos produtos manufaturados é maior do que dos produtos primários, de tal forma que a desindustrialização atua no sentido de criar um desequilíbrio externo estrutural, tornando o país dependente de poupança externa e, portanto, dos humores dos mercados financeiros internacionais.

Em segundo lugar, o Brasil possui um desequilíbrio fiscal estrutural que se expressa numa nítida tendência ao aumento da carga tributária e da despesa primária como proporção do PIB nos últimos 20 anos. Atualmente a carga tributária total (União, Estados e Municípios) responde por 33% do PIB, nível comparável à média dos países da OCDE, os quais possuem um nível de renda per capita muito maior que o Brasil. Sendo assim, torna-se necessário interromper o processo de crescimento da despesa primária, dada a perda de espaço para o aumento da carga tributária. Por outro lado, quando olhamos para a composição da despesa primária, observamos que menos de 10% da mesma é composta por investimento público. Os restantes 90% se destinam ao pagamento de gastos previdenciários e de assistência social, dos salários do funcionalismo público e do custeio de saúde e educação. Como os investimentos públicos em infraestrutura são fundamentais para o aumento da produtividade da economia como um todo e da competitividade da indústria de transformação; segue-se que é necessário mudar a composição da despesa primária, aumentando a participação dos investimentos.

Por fim, o Brasil possui uma instabilidade macroeconômica recorrente que se expressa em inflação relativamente alta (média de 6,5% de 1999-2015) e uma tendência à sobrevalorização da taxa de câmbio, pontuada por episódios de desvalorização súbita e expressiva do câmbio. A resistência da inflação no patamar de 6% ao ano explica a manutenção dos juros em patamares elevados, o que aumenta o custo do capital, desestimulando assim os investimentos produtivos; como ainda contribui para a valorização da taxa de câmbio ao atrair capitais externos interessados apenas em lucrar com o enorme diferencial entre os juros internos e externos.

Hora incerta – Coluna de José Paulo Kupfer (O Globo, 30/06/2017)

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Se as projeções de inflação abrem espaços para reduzir a meta, o mesmo talvez não se possa dizer do momento em que a decisão foi tomada

Ao fixar a meta de inflação de 2019 em 4,25% e, num lance surpreendente, reduzi-la para 4%, em 2020, o governo dobrou uma aposta em que nem todos os economistas colocariam suas fichas. O pessoal do mercado aprovou em bloco a decisão que, segundo o ministro Henrique Meirelles, aproxima o regime brasileiro da “normalidade” das metas dos países que o adotam, notadamente os emergentes, cuja média das metas gira em torno de 3%. Mas não são poucas as desconfianças em relação não só ao acerto da decisão, mas sobretudo diante das dificuldades políticas e econômicas do momento em que foi adotada.

Os desconfiados não são apenas os economistas de linha heterodoxa, naturalmente críticos do governo. Alguns ortodoxos de peso também têm expressado dúvidas. É o caso do economista Sergio Werlang, da FGV-RJ, justamente o responsável pela introdução do regime de metas em 1999, quando era diretor do BC. Em entrevista ao jornal “Valor”, Werlang destacou que a amplitude dos desequilíbrios fiscais, agravada pela rigidez salarial no funcionalismo público, não recomendaria a redução da meta antes de que os ajustes se mostrassem mais consistentes — falar nisso, o déficit fiscal primário de maio, agora divulgado reforça expectativas de que a meta fiscal só será cumprida com manobras em receitas e elevação de tributos, como Meirelles passou a insinuar.

As restrições fiscais, a propósito, estão na base de uma cada vez mais aceita revisão dos efeitos das políticas monetárias. O debate acerca da potência do manejo das taxas de juros em ambientes de desajuste fiscal e elevado endividamento público, já acalorado em âmbito internacional, foi trazido há alguns meses ao Brasil pelo reconhecido economista André Lara Resende. Seu livro “Juros, moedas e ortodoxia” (Portfolio Penguin), lançado na semana passada, mostra que, nessas circunstâncias, altas nas taxas de juros, contrariamente aos cânones, podem resultar em elevação da inflação. “A política monetária hoje está diante de um anacronismo institucional e de um impasse analítico”, resume Resende na obra.

Outros temores, esses em relação ao efeito do aperto no regime de metas sobre processo de recuperação da economia, reúnem ortodoxos e heterodoxos. O economista e matemático Aloisio Araújo, referência entre os ortodoxos brasileiros, por exemplo, considera, segundo declarou ao jornal “Folha de S. Paulo”, que pode ser alto o custo de reduzir a meta neste momento, em especial na taxa de desemprego. Com ele concorda o economista heterodoxo José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, para quem o difícil e longo processo de recuperação que a economia brasileira tem pela frente — reafirmado pela revisão oficial para baixo das projeções de crescimento do ano — não deveria correr o risco de uma reversão, com novos apertos, na política de juros.

No voto que detalhou os motivos da decisão de reduzir a meta de inflação, o CMN atribuiu a trajetória descendente da inflação ao “redirecionamento da política econômica” e à “adoção de reformas e ajustes” que, “combinada com a condução da política monetária, permitiu reancorar as expectativas de inflação”. Não há, porém, nem uma grama de consenso em relação a essa afirmação. Ela embute uma crença por muitos considerada exagerada nos poderes das expectativas de inflação na ancoragem dos preços.

Para André Modenesi, professor da UFRJ, especialista em regimes de meta de inflação, o comportamento dos preços, nos últimos dez anos, não permite concluir que o peso das expectativas tenha sido relevante na determinação da inflação. O que sobressai, no período, segundo ele, é a persistência da alta de preços no setor de serviços, cuja evolução é menos dependente de expectativas. “Não é de se esperar que ocorram quedas da inflação apenas pela redução da meta”, continua. “O rabo não vai sacudir o cachorro”.

Noves fora objetivos políticos, na linha de reforçar a mensagem de que a economia não será contaminada pelo ambiente de crise política, o que é negado por porta-vozes do Banco Central, uma conclusão possível é a de que, se há espaços para reduzir a meta, sob a ótica da evolução da inflação — as projeções para 2018 e 2019 estão hoje abaixo de 4,25% —, o mesmo não se pode dizer sobre a hora incerta em que a decisão de apertar o regime de metas foi tomada.

José Paulo Kupfer é jornalista

Redução da meta de inflação exigirá juros mais altos, dizem especialistas (Diário de Comércio e Indústria – 30/06/2017)

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A redução da meta de inflação para 2019 e 2020 exigirá uma política de juros mais altos, avaliam especialistas, pontuando que a larga difusão da indexação no Brasil impede trabalhar com parâmetros de preços mais baixos.

Após 14 anos com uma meta de 4,5%, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu ontem estabelecer uma referência menor para a inflação: 4,25% para 2019 e 4,00% para 2020, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, para mais ou para menos. Isso significa que, em 2019 por exemplo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) poderá acumular, em 12 meses até dezembro, alta entre 2,75% e 5,75%, sem que o Banco Central (BC) descumpra a meta.

Para o professor de economia da Universidade de Brasília (UNB) José Luiz da Costa Oreiro, esta decisão é “temerosa”, pois pode produzir juros reais muito altos os quais, por sua vez, geram apreciação do câmbio (valorização do da moeda nacional frente ao dólar) e recessão.

“A experiência brasileira com o regime de metas de inflação, implementado há 18 anos, mostra que a média do IPCA entre 1999 e 2016 sempre ficou em torno de 6,5%, afirma Oreiro. “Em 18 anos de história, as únicas vezes em que a inflação fechou o ano abaixo de 4,5% foi em 2006, 2007 e 2009. Nos dois primeiros anos, por conta de uma apreciação muito forte da taxa de câmbio e, em 2009, por conta dos efeitos da crise financeira internacional”, completa o professor da UNB, destacando que a expectativa de um IPCA abaixo de 4,5% para este ano se explica pelos impactos da recessão.

Indexação

Para Oreiro, ainda é muito complicado trabalhar, no Brasil, com parâmetros de inflação menores, enquanto a indexação de preços é bastante difundida na economia. “Não só não retiramos algumas indexações, como fomos incorporando outras ao longo do tempo”, diz ele, mencionando, por exemplo, a correção do salário mínimo pela inflação do ano anterior (ele também é reajustado pelo desempenho do Produto Interno Bruto, o PIB, de dois anos atrás).

Segundo o professor, sem resolver essas questões, quando chegarmos em 2020, por exemplo, o BC terá que pressionar a taxa básica de juros para cima (Selic) para alcançar uma inflação de 4,00%. “Caso isso aconteça, será realmente bem difícil ter juros baixos no Brasil”, critica Oreiro.

O professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP), Simão David Silber, acrescenta que juros reais altos implicam em um câmbio mais baixo (dólar mais barato), o qual, por sua vez, retira a competitividade da indústria nacional. Silber considerou “inadequada” a decisão do CMN, pois, na sua avaliação, as questões que o Brasil precisa resolver hoje são: retomar o crescimento econômico, reduzir o desemprego e melhorar o quadro fiscal do setor público.

“O problema do Brasil daqui para a frente não é inflação. Pelo contrário, nosso IPCA está em 3,6% em 12 meses. O grande problema do País é que ele não está crescendo. Além disso, o câmbio está baixo e os juros, muito altos. Portanto, qualquer política monetária mais dura vai nos levar para a direção errada”, afirma Silber.

“Outro imbróglio do Brasil está na área fiscal, sendo que um dos componentes dele são as despesas financeiras, pressionadas por juros altos.”

Já o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin considera “acertada” a decisão do CMN, pois as novas metas estão ancoradas com as expectativas de mercado. Esta ancoragem se explica, para ele, pela perspectiva de demanda mais fraca e de “câmbio comportado” nos anos à frente.

“Nos próximos anos, ainda que ocorra uma recuperação da demanda, a indústria ainda será capaz de atendê-la, dada a sua alta capacidade ociosa”, diz ele. “Por outro lado, nossas reservas internacionais e balança comercial devem permitir uma estabilidade cambial.”

O CMN também definiu que as metas de inflação serão definidas com três anos de antecedência, e não mais nos dois anos anteriores. Para o presidente do BC, Ilan Goldfajn, isso trará diversos benefícios. O primeiro, segundo ele, está ligado ao planejamento da sociedade. “Alongar o horizonte permite balizar as expectativas de inflação em prazos mais longos”, disse Ilan. “Segundo, com expectativas ancoradas, a economia pode almejar ter juros de longo prazo mais baixos”, afirmou Goldfajn.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, acrescentou que a equipe econômica trabalha com “o cenário colocado e não com hipóteses”. “Estamos cumprindo o nosso mandato, trabalhando com foco e vamos continuar a fazê-lo. Cabe ao presidente da República a nomeação dos seus ministros e, estando no cargo, todos estão fazendo o seu trabalho.”

Três perguntas para… (Correio Braziliense – 30/06/2017)

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André Perfeito
Economista chefe da Gradual Investimentos

Foi correta a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de estabelecer metas de inflação menores do que a atual para os anos de 2019 e 2020?
Acho que foi acertada, porque foi uma mudança pequena, e as bandas de tolerância se mantêm. A minha sugestão é que o CMN seja mais ambicioso, que se estude no país uma medida de núcleo de inflação.

Que efeitos na economia podem se esperar dessa medida?
Se a meta de 2018 fosse alterada, o BC teria de subir ou manter os juros este ano, pois a política monetária de hoje tem efeitos para o ano que vem. Poderia haver ruído. Por isso a decisão foi acertada. E, a despeito de todo o deficit público, a questão fiscal não é um problema. Temos um IPCA podendo ficar abaixo de 3%, um IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna) em zero e um IGP-M agora negativo.

Neste cenário, é possível ser otimista para a trajetória dos juros?
O BC precisa fazer um simpósio internacional para fazer estas discussões. A cesta do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do país, tem coisas complicadas, como o peso dos alimentos. Aí acontece uma variação maior e o BC vai ter que subir a Selic? A elevação da Selic não vai fazer chover. Também precisamos discutir a indexação. Não faz sentido reajuste de aluguel ser medido pelo IGP-M (Índice Geral de Preços de Mercado). O sistema de metas tem que ser modernizado. Os manuais de economia foram rasgados: os Estados Unidos injetaram US$ 3 trilhões na economia! O mundo mudou. Simples assim. Já temos Bitcoin.

 

José Luís Oreiro
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília

Foi correta a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de estabelecer metas de inflação menores do que a atual para os anos de 2019 e 2020?
A média histórica da inflação no Brasil é de 6,5% desde 1999. Se atingimos essa média, é porque há algo estrutural na inflação da economia brasileira. Isso se deve à indexação dos preços e salários, o que foi reforçado com a vinculação do reajuste do salário mínimo aos preços. É um otimismo irresponsável (reduzir a meta).

Que efeitos na economia podem se esperar dessa medida?
O governo está atacando de forma errada o problema. Nós saímos de uma inflação de 11% para uma de 4% ao ano, mas isso aconteceu às custas de uma recessão exagerada, que está entrando no terceiro ano. É um conjunto de medidas políticas e econômicas que pode tornar a política monetária flexível, mas o governo está começando do final, decidindo quanto vai mostrar o termômetro sem ter medido a temperatura do doente.

Neste cenário, é possível ser otimista com a trajetória dos juros?
Neste ano, a inflação ficou abaixo da média histórica por causa da recessão e do choque positivo de alimentos. Não há garantia de novos choques. Por isso, foi mantida a meta para 2018. Em algum momento haverá a necessidade de alguma desvalorização no câmbio para manter a competitividade. Manter a meta neste ano foi a melhor decisão, para que o BC possa baixar os juros no curto prazo para enfrentar a crise. Mas, historicamente, há uma dificuldade enorme no Brasil de manter a inflação abaixo de 6%. Por isso, a meta de 4% para 2020 é um risco.

Inflação: meta pode diminuir (Correio Braziliense – 29/06/2017)

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Ainda não há consenso na equipe econômica sobre a redução da meta de inflação de 2019 em reunião, hoje, do Conselho Monetário Nacional (CMN). O grupo composto pelos titulares da Fazenda, do Planejamento e do Banco Central (BC) deve confirmar a meta de 2018, de 4,5%, e decidir sobre a do ano seguinte. A expectativa é de uma redução para 4,25% para a variação prevista do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem sinalizado a interlocutores. BC e Planejamento evitam comentar o assunto.

Em meio ao aumento das incertezas devido à piora no cenário político, que está dificultando o avanço das reformas no Congresso, Meirelles não pretende fazer uma mudança brusca na meta, mas tenta alinhar o objetivo com a perspectiva de inflação mais baixa em 2019, que atualmente está próxima de 4,25%. Todavia, se houver uma redução, mesmo que pequena, na meta inflacionária, o Banco Central corre o risco de não conseguir dar continuidade ao ciclo de redução da Selic (taxa básica de juros),atualmente, em 10,25% ao ano, de acordo com especialistas ouvidos pelo Correio.

Ex-diretor do Banco Central, o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, não vê espaço para a redução da meta. “O quadro fiscal está muito ruim. Esse é o ponto. O Brasil não é necessariamente parecido com outros países com metas de inflação de 2% ou 3% anuais. A inflação deste ano está baixa, mas temos inflexibilidades nominais que outros países não têm. E elas não permitem que o país conviva com uma inflação muito baixa. Para o CMN reduzir a meta central para 4%, o país teria que sofrer uma carga maior de recessão. E esse custo é muito alto”, disse Gomes.

Para ele, mesmo se a meta for reduzida para 4,25%, será um sinal de que os juros reais permanecerão altos por mais tempo que o necessário. “Reduzir a meta vai impedir a queda dos juros. O problema fiscal persiste e o cenário de desemprego elevado e rombo enorme nas contas públicas não permite essas redução. A prioridade do governo tem que ser tirar o país do buraco”, alertou. Na avaliação de Gomes, a inflação caiu fortemente agora porque o país ainda está em recessão e a boa safra agrícola provocou queda dos preços de alimentos. “O BC melhorou a comunicação com o mercado. Mas não precisa chegar ao exagero de baixar a meta agora, seria um risco para a credibilidade conquistada, já que a perna fiscal do tripé não ajuda”, completou.

Buraco

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, destaca que haveria espaço para o corte da meta de inflação para 4% se houvesse certeza da aprovação da reforma da Previdência. “Não faz sentido reduzir a meta agora porque o governo não fez o ajuste fiscal que prometeu e as reformas não avançaram. A única medida de ajuste foi a emenda do teto de gastos, mas, na prática, ela não adianta nada se não houver a reforma da Previdência. A equipe econômica vendeu ilusões para o mercado e nada fez de concreto do que havia prometido. A redução da meta não faz sentido em um momento em que as contas públicas estão em desordem”, destacou.

O economista e professor da Universidade de Brasília José Luís Oreiro afirma que a redução da meta terá um efeito contrário ao pretendido. “A ancoragem das expectativas é um argumento fraco para diminuir a meta. Não é ela que ancora as expectativas, mas os resultados apresentados pelo governo. Ele precisa anunciar um objetivo alcançável pelo BC para o órgão não perder credibilidade”, disse.

Oreiro lembrou que, desde o início do regime de metas, em 1999, a inflação só ficou abaixo de 4,5% em três ocasiões: 2006, 2007 e 2009. “ Mais de 60% da economia é indexada, por isso o combate à inflação é difícil. E o governo só poderá mexer na meta quando fizer um verdadeiro processo de desindexação. Caso contrário, o custo será muito elevado. O que vivenciamos hoje é uma queda da inflação pela perda da atividade e do emprego. Se o governo quiser tocar uma agenda relevante, ele não deve mudar a meta, e sim a regra de reajuste do salário mínimo”, afirmou.

 

Meirelles: menos PIB e mais impostos

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, adiantou ontem que a economia vai crescer menos que o previsto em 2017, e admitiu que o governo poderá aumentar impostos para cumprir as metas fiscais deste ano e do próximo, que limitam o deficit das contas públicas federais a R$ 139 bilhões e R$ 129 bilhões, respectivamente. “Se for necessário aumentar impostos , vamos fazê-lo. O mais importante é assegurar o equilíbrio fiscal”, disse o ministro em São Paulo, adiantando que a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano será revisada e ficará abaixo do 0,5% inicialmente estimado.

 

Franquias terão frente parlamentar

Com o objetivo de fortalecer o modelo de franquia empresarial (franchising), profissionais com atuação nas áreas do associativismo e cooperativismo, empresários e empreendedores no setor vão fazer hoje a assembleia geral de criação da Associação Brasileira de Franqueados (Asbraf) e, ao mesmo tempo, lançar a Frente Parlamentar de Apoio às Empresas Franqueadas, às 9h30, na Câmara dos Deputados. O movimento tem o objetivo de defender os ideais e objetivos econômico-sociais e o fortalecimento da competitividade do segmento, que emprega 1,192 milhão de pessoas e faturou, em 2016, R$ 152,1 bilhões, por meio de 142,6 mil unidades de 3.039 redes. Para 2017, o sistema de franquias deve crescer de 7% a 9% em faturamento.

Reduzir a Meta? (Correio Braziliense, 28/06/2017)

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A redução consistente da inflação acumulada nos últimos 12 meses desde o início do segundo semestre de 2016 tem levado vários analistas econômicos a propor uma alteração da meta de inflação perseguida pelo Banco Central. Desde o ano de 2005 que a meta de inflação é de 4,5% a.a., valor bastante superior a meta dos países desenvolvidos que adotam o regime de metas de inflação (2,2% a.a), como também dos países emergentes que adotam o mesmo regime (4% a.a).  O boletim Focus mais recente mostra que a mediana das expectativas dos economistas ouvidos pelo Banco Central para a variação do IPCA está em 3,71% para 2017 e 4,37% para o ano de 2018. Dessa forma, argumenta-se que existe um espaço para a redução da meta de inflação pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) na reunião a ser realizada no próximo dia 29 de junho. Informações de bastidores apontam que o CMN deverá reduzir a meta para 4,25% a.a a partir de 2019. Economistas ligados ao mercado financeiro vão mais além e advogam que a meta deveria ser reduzida para 4,0% a.a para consolidar um patamar de inflação consistentemente mais baixo. Argumenta-se que o custo de reduzir a meta de inflação em 0,5 p.p seria relativamente pequeno em termos de redução de crescimento, algo como 0.1 p.p depois de sete trimestres.

A teoria econômica e a evidência empírica mostram que não existe um dilema de longo-prazo entre inflação e crescimento, ou seja, que uma redução da taxa de inflação não produz efeitos permanentes  sobre a taxa de crescimento do PIB real. No curto e médio-prazo, contudo, todo processo desinflacionário está associado a um aumento da taxa de desemprego e a uma redução da taxa de crescimento devido a inércia inflacionária resultante da indexação de preços e salários a inflação passada. Essa regulariedade empírica se confirmou tragicamente no caso brasileiro recente no qual a redução da inflação de um patamar superior a 10% a.a em 2015 para um valor compatível com o centro da meta de inflação no primeiro semestre de 2017 foi seguida por uma redução sem precedentes do nível de atividade econômica, configurando a maior recessão da história do Brasil. Esse fato mostra que no Brasil a inflação é extremamente resistente a queda, o que exige doses cavalares de queda do nível de atividade econômica ou uma forte apreciação da taxa de câmbio, com reflexos altamente negativos sobre a competitividade da indústria de transformação.

O comportamento recente da taxa de inflação reflete um estado de quase depressão do nível de atividade econômica que não pode (não deve) perdurar para sempre. Em algum momento ao longo dos próximos meses a atividade econômica, estimulada pelo relaxamento – lento, mas contínuo – da política monetária, deverá iniciar um processo de recuperação gradual, eliminando assim o viés de queda dos índices de inflação. O histórico do regime de metas de inflação no Brasil, por sua vez, não dá muita margem para sermos otimistas quanto à viabilidade de uma meta de inflação de 4,0% a.a. Com efeito, a variação do IPCA acumulada nos últimos 12 meses no período compreendido entre março de 1999 e março de 2015 foi de 6,52% a.a. No segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, período no qual o regime de metas de inflação foi instituído, a inflação média foi de 7,03% a.a. Durante os dois mandatos do Presidente Lula a inflação média foi de 6,39% a.a; ao passo que no primeiro mandato da Presidente Dilma a média foi de 6,19% a.a. O histórico da economia brasileira mostra uma dificuldade muito clara em manter a taxa de inflação abaixo de 6% a.a, exceto em períodos nos quais a taxa de câmbio se apreciou de forma muito violenta – como em 2006 – ou no qual o nível de atividade apresentou uma queda muito acentuada – como na crise de 2009 e mais recentemente na grande recessão de 2015-2017.

Nesse contexto, a política monetária deve estar focada na recuperação do nível de atividade econômica, deixando-se para um momento mais oportuno a discussão sobre a redução da meta de inflação.

 

Comentário a entrevista de André Lara Resende para o Estadão

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Acabei de ler a entrevista de André Lara Resende (doravante ALR) para o Estadão sobre o seu novo livro – Juros, Moeda e Ortodoxia – no qual apresenta a “conjectura” de que a resistência da inflação no Brasil deve-se a um problema de dominância fiscal. Na entrevista ALR afirma que devido a dominância fiscal a manutenção de uma política de juros altos acaba por impedir a queda da taxa de inflação ao sinalizar para os agentes um agravamento do desequilíbrio fiscal, manifestado num crescimento mais rápido da relação dívida pública/PIB. Ao ser questionado pela competente jornalista Alexa Salomão se o Brasil já se encontra, de fato, em uma situação de dominância fiscal ele afirma que “se estamos ou não em dominância fiscal é algo que não se pode afirmar categoricamente”. Ora, se o Brasil estivesse vivenciando um problema de dominância fiscal então a autoridade monetária estaria sendo leniente com a inflação,pois seria obrigada a entregar para o Tesouro Nacional a receita de senhoriagem/imposto inflacionário necessária para o atendimento da restrição orçamentária do governo. Podemos acusar a gestão de Ilan Goldfajn no BCB de tudo, menos de ser leniente com a inflação. A previsão da maior parte dos analistas de mercado é que a inflação irá fechar o ano de 2017 abaixo do centro da meta de 4,5% a.a, provavelmente em torno de 3,8%. Esse resultado é per se incompatível com a tese de dominância fiscal. Está claro que os juros no Brasil são excessivamente altos para padrões internacionais, mas isso não tem nada que ver com a tese de dominância fiscal – a qual não diz absolutamente nada sobre o nível de equilíbrio da taxa real de juros – mas a existência de mecanismos de limitam a eficácia da política monetária, tais como a indexação de preços e salários a inflação passada e a existência de títulos públicos indexados a própria taxa de juros.
Por fim, me soa estranho que um economista que deseja criticar o pensamento dominante sobre a relação entre juros e inflação admita publicamente que não possui nenhuma evidência empírica para corroborar sua tese ou conjectura. Esse tipo de comportamento é inaceitável do ponto de vista científico. Hipóteses ou conjecturas não são verdades auto evidentes, mas devem sempre ser avaliadas pela sua capacidade de resistir a tentativas de refutação empírica. Se o formulador da hipótese admite que não tem evidências a respaldar a mesma, então não se deve levar a sério nem a hipótese e nem o seu formulador.