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Os preços dos grupos saúde e cuidados pessoais e educação, dois dos componentes do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), subiram mais que o dobro da inflação oficial entre janeiro e abril deste ano.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi registrado, durante o primeiro quadrimestre, aumento de 2,92% nos preços de saúde e cuidados pessoais e de 6,39% para o grupo educação. Enquanto isso, o índice geral avançou apenas 1,1%.

A diferença entre o aquecimento do IPCA e desses dois componentes também foi vista nos últimos anos. Entre 2012 e 2016, os preços de remédios, exames e outros itens ligados ao setor de saúde só cresceram menos que o índice geral em 2015. Nos outros anos, o IPCA foi superado, às vezes com folga. Em 2016, por exemplo, a inflação oficial subiu 6,29% esse grupo avançou 11,04%.

O mesmo desenho foi visto com os preços da educação, que incluem as quantias pagas em cursos, escolas e cadernos. Com a exceção de 2015, o componente superou o IPCA em todos os outros anos. A maior disparidade também foi atingida em 2016, quando esse grupo ficou 8,86% mais caro.

Para especialista consultado pelo DCI, os reajustes salariais no setor privado são o principal motivo desse fenômeno. “Os preços de serviços, como saúde e educação, têm se mantido acima do IPCA por causa do avanço dos salários desse setor, que costuma ficar acima da inflação”, diz José Luis da Costa Oreiro, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Outro motivo para essa diferença, afirma ele, é o impacto da taxa de câmbio para o grupo saúde e cuidados pessoais. “Muitos remédios e equipamentos médicos são importados e, por isso, mais caros, o que puxa a inflação para cima”, explica o entrevistado.

Vários itens relacionados a esse setor tiveram aumentos expressivos neste ano. Foi o caso de medicamentos, como vitaminas (4,02%), antibióticos (3,67%) e antitérmicos (3,56%), e dos planos de saúde (4,33%).

Professor de administração da ESPM, Adriano Gomes afirma que o forte avanço dos planos, registrado também nos últimos anos, está relacionado a um maior pagamento aos médicos e a um gasto maior com medicamentos e exames. “É uma alta estrutural, algo muito difícil de controlar”, avalia ele.

Impacto no investimento

Com a aprovação do teto para gastos públicos, o avanço dos investimentos nos setores de saúde e educação precisará ser, no mínimo, igual à inflação registrada no ano anterior. Entretanto, como os custos desses setores sobem mais que o IPCA, a garantia prevista em lei pode se tornar insuficiente para impedir uma diminuição dos aportes públicos.

Professor de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), José Nicolau Pompeo critica o uso do índice geral como base para o investimento em setores específicos. “Foi criada uma distorção. Se o preço das commodities recuar, o índice vai cair e isso vai afetar o investimento em saúde.”

Sobre a possibilidade de o governo fazer aportes superiores ao teto, o especialista mostra pouco otimismo. “Com base no que temos visto, acredito que não dá pra depender da boa vontade do governo em questões dessa importância.”

Já Oreiro pondera que o IPCA registra com maior precisão as variações dos preços no setor privado do que em âmbito público. “A compra de remédios para o SUS é feita por leilões especiais e não entra no cálculo do IBGE”, diz ele.

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