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José Luís Oreiro é professor de economia da UnB. Foto: Agência Câmara

“Está  aumentando o custo do dinheiro. Isso vai aumentar o custo do crédito para as empresas, para os consumidores. O que nós vamos ver como consequência disso é uma desaceleração ainda maior do nível de atividade”, diz o economista sobre o aumento da taxa Selic anunciado hoje (2) pelo BC, “o que sinaliza que o ciclo de aperto monetário não vai terminar tão cedo”

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) aumentou nesta quarta-feira (2) a taxa básica de juros (Selic) de 9,25% ao ano para 10,75% ao ano. Na avaliação do economista e professor do Departamento de Economia da UnB, José Luis Oreiro, “o Banco Central está pondo mais lenha na fogueira da  recessão”.

“O Copom aumentou a taxa básica de juros, a Selic, em 1,5 pontos percentuais, e a taxa de juros voltou a dois dígitos pela primeira vez desde julho de 2017. Duas coisas chamam atenção, primeiro a magnitude da mudança, ou seja, manteve o ritmo de aumento. Ele estava aumentando nas últimas reuniões nessa magnitude de 150 pontos base. Então, ele manteve o ritmo de aumento, o que sinaliza que o ciclo de aperto monetário não vai terminar tão cedo. Quer dizer, se ele estivesse para terminar, você deveria esperar uma redução do ritmo de aumento. Não. Mas ele manteve o ritmo de aumento. Então, assim, realisticamente falando, eu acho que nós vamos ter ainda aumento na Selic durante todo o primeiro semestre de 2022”, avaliou o Oreiro.

“Agora quando você olha para a expectativa de inflação do Boletim Focus, a expectativa de inflação para 2022 é de algo em torno de 5%, 5,2%, 5,3%. Com uma Selic de 10,75%, isto significa um  juro real de 5,5%, numa economia que tem uma elevada taxa de desemprego, mais de 12 milhões de pessoas estão desempregadas, é uma economia que tem uma expectativa de crescimento muito baixa para 2022. A expectativa de crescimento está em 0,5%, mas já existem instituições financeiras que estão prevendo inclusive contração do nível de atividade econômica em 2022. Então, o Banco Central está pondo mais lenha na fogueira da  recessão. Está  aumentando o custo do dinheiro. Isso vai aumentar o custo do crédito para as empresas, para os consumidores. O que nós vamos ver como consequência disso é uma desaceleração ainda maior do nível de atividade”, denunciou o economista.

“Mais uma vez eu tenho que enfatizar que o Banco Central do Brasil é o único banco central do mundo que está elevando, sistematicamente, a taxa de juros. O Federal Reserve está começando a discutir se e quando ele vai aumentar os juros, mas a situação do mercado de trabalho americano é completamente diferente do mercado de trabalho no Brasil. Os Estados Unidos já se recuperaram da crise do Covid, a taxa de desemprego nos Estados Unidos está em 3,9 % da força de trabalho, ou seja, mais baixo do que no nível anterior à crise do Covid, e os salários estão aumentando. Aqui é tudo ao contrário”, destacou.

“No Brasil nós temos uma taxa de desemprego em torno de 12% da força de trabalho. Nós temos mais ou menos 4 milhões de pessoas que saíram da força de trabalho durante a pandemia – que ainda continua, mas ainda não voltaram. Isso nos deixa 16 milhões de pessoas sem trabalho. Nós temos uma economia que cresceu alguma coisa em 2021, mas que vai crescer muito pouco em 2022 e os salários estão caindo. Os salários não estão conseguindo repor a inflação. Então, a situação do mercado de trabalho no Brasil é completamente diferente da situação do mercado de trabalho nos Estados Unidos”, argumentou.

“Nos EUA, realmente, já faz sentido você discutir em que momento, que ainda não começou, mas em que momento a política monetária vai ser normalizada. Ou seja, você vai ter alguma elevação dos juros, lembrando que os juros nos EUA continuam 0,25% ao ano. No Brasil está 10,75% ao ano, ou seja, uma diferença de 10,05 pontos percentuais, um enorme spread, uma enorme diferença de juro. Isso vai atrair capital especulativo, lógico, para apreciar o câmbio. O velho populismo cambial de sempre, que foi usado ‘ad nauseam’ no governo Fernando Henrique Cardoso, também no primeiro mandato do presidente Lula, quando você tinha o Henrique Meirelles como presidente do Banco Central, e agora está sendo usado de novo. Mais uma vez o Brasil está cometendo o mesmo erro de sempre, de aumentar o juro para valorizar o câmbio e assim reduzir a inflação. Isso já foi feito várias vezes e sempre deu errado, no sentido que o produto dessa política macroeconômica é desindustrialização. Agora, é lógico que é uma política macro que atende aos interesses dos rentistas brasileiros”, afirmou Oreiro.

ANTONIO ROSA