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Na entrevista a seguir, José de Souza Martins, José Geraldo de Sousa Junior, José Luís Oreiro e Valério Arcary analisam as manifestações de 7 de setembro

Link da matéria completa: http://www.ihu.unisinos.br/612718-o-dia-da-independencia-foi-sequestrado-expressoes-de-uma-manipulacao-teatral-e-um-presidente-isolado-algumas-analises.

Ao invés de atos politizados organizados por cidadãos que reivindicam o cumprimento da democracia, o que se pôde observar nas manifestações da última terça-feira, 07 de setembro, foi uma “política despolitizada, divorciada da concepção clássica e civilizada de política, que aqui deixou de ser de cidadãos para ser de atores”, disse o sociólogo José de Souza Martins na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Os atos que marcaram o dia da Independência, avalia, foram “uma grande conspiração antipatriótica para difundir a cultura da idolatria de Bolsonaro como substituta da consciência de pátria“, formados pela “presença de ativistas de aluguel”.

O jurista e ex-reitor da Universidade de Brasília – UnB, José Geraldo de Sousa Junior, compartilha da mesma análise. “No gramado e na avenida, um presidente isolado numa bolha de mobilização artificial, preparada com antecedência e financiada pelo setor mais canibalizador da economia, o agronegócio, sequestrou o dia da Independência“, destacou na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Em seus pronunciamentos, observa, Bolsonaro “falou como um presidente que não governa, que conspira; que não se solidariza com o social, mas com os seus interesses, de seus domésticos e associados; que não tem empatia com o povo e com a vida, só se liga nos negócios”.

O economista José Luís Oreiro sublinha que a “manifestação de 7 de setembro foi feita, no fundo, com dois objetivos: primeiro, animar a sua plateia e, segundo, para juntá-los em poucos lugares para dar a impressão para o Congresso Nacional e para o Supremo Tribunal Federal de que o Bolsonaro tem muita força”. Mas a agenda do presidente até as eleições presidenciais do próximo ano, ressalta, é tentar manter o grupo de apoiadores coeso. “O que as manifestações indicam é o desespero de Bolsonaro, que está tentando, com essas manobras, manter os seus 20% de aprovação para ver se ele consegue chegar no segundo turno [das eleições de 2022] e aí polarizar com Lula“.

Para o historiador Valério Arcary, nas manifestações “Bolsonaro deixou claro que não renunciará à luta implacável pelo poder”. A tática do presidente no momento, pontua, “consiste em ganhar tempo. Morde a assopra. Ocupa o centro das cidades, mas não autoriza distúrbios. Faz ameaças golpistas, mas lança uma carta apaziguadora. Mas qual é a estratégia? Garantir um reposicionamento melhor para a disputa eleitoral, e garantir a reeleição? Sim, mas não é só isso. O governo da extrema direita liderado por um neofascista não é um governo ‘normal’ com uma agenda de contrarreformas neoliberais. Bolsonaro tem como estratégia uma nova localização do capitalismo brasileiro no mundo em uma aliança estratégica com uma fração do imperialismo norte-americano contra a China“.

José Luis da Costa Oreiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, possui mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela UFRJ. Atualmente é professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília – UnB. Entre as inúmeras publicações, destacamos o livro Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana (publicado pela LTC em 2016) e o livro Macrodinâmica Pós-Keynesiana: crescimento e distribuição de renda (Alta Books, 2018).

IHU – Como interpreta as manifestações de 7 de setembro? O que elas indicam?

José Luís Oreiro – Foi a prova de que o presidente da República está desesperado. Quer dizer, a sua popularidade está cada vez mais baixa: mais de 60% dos brasileiros rejeitam o governo Bolsonaro; ele tem uma aprovação de pouco mais de 20%. Ele sabe que se essa aprovação cair abaixo de 20%, ele fica com uma situação muito frágil no Congresso Nacional, a ponto de ser disparado um pedido de impeachment. Ele sabe também que as perspectivas da economia brasileira daqui para a frente são muito ruins, seja por conta da aceleração da inflação, seja por conta da crise energética, seja por conta do problema dos precatórios, que vai tirar todo o espaço fiscal que o governo pensava que teria no ano que vem para fazer o pacote de bondades e tentar cacifar eleitoralmente o presidente da República.

Então, a agenda do Bolsonaro é tentar manter coesos esses 20%. A manifestação de 7 de setembro foi feita, no fundo, com dois objetivos: primeiro, animar a sua plateia e, segundo, para juntá-los em poucos lugares para dar a impressão para o Congresso Nacional e para o Supremo Tribunal Federal de que o Bolsonaro tem muita força. Mas na verdade, essas manifestações foram meticulosamente organizadas, financiadas por empresários bolsonaristas. O que as manifestações indicam é o desespero de Bolsonaro, que está tentando, com essas manobras, manter os seus 20% de aprovação para ver se ele consegue chegar no segundo turno [das eleições de 2022] e aí polarizar com Lula. É isso que as manifestações indicam.

IHU – Como avalia os pronunciamentos do presidente em relação aos demais poderes?

José Luís Oreiro – As manifestações do presidente não me surpreendem. Quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro, disse que tinha que ocorrer uma guerra civil no Brasil para matar pelo menos 30 mil pessoas. Durante o impeachment da presidente Dilma, ele fez, no plenário do Congresso Nacional, um elogio a um torturador. Quer dizer, nada que sai da boca dessa pessoa que ocupa a presidência da República de forma temporária me surpreende. Os pronunciamentos são antidemocráticos, configuram crimes de responsabilidade, principalmente o discurso feito na Av. Paulista, em que ele cita nominalmente o ministro Alexandre de Moraes, dizendo que não iria mais obedecer a ordens de um ministro do STF. Ou seja, ele simplesmente rasgou a Constituição. Mas ele já fez vários crimes de responsabilidade; esse é só mais um. A questão é saber quando o Congresso Nacional vai assumir o papel que lhe compete e abrir o processo de impeachment contra este ser que ocupa a presidência da República.

IHU – Que desdobramentos políticos e institucionais vislumbra daqui para frente e como avalia os pronunciamentos institucionais feitos após as manifestações?

José Luís Oreiro – Daqui até o ano que vem, vamos ficar com esse jogo. Estamos aguardando as manifestações do dia 12, contra Bolsonaro; vamos ver qual vai ser o tamanho delas. Vislumbro que esse clima de instabilidade política vai ser mantido até as eleições, mas elas vão acontecer.

desdobramento político é que cada vez mais a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva torna-se amplamente favorita e com vitória em 2022, até mesmo no primeiro turno. Se há dois meses eu tinha dúvidas sobre a possibilidade de Bolsonaro chegar no segundo turno, hoje eu acho que ele pode sequer chegar, dado o desespero em que se encontra. Essa gritaria do Bolsonaro e seus aliados não é sinal de força; é sinal de fraqueza. Quem tem poder de verdade não grita. Quando você grita é ou porque perdeu a razão ou porque perdeu o poder ou as duas coisas.

Pronunciamentos institucionais

Os pronunciamentos institucionais têm ficado muito a desejar. Assisti ao do Arthur Lira, que foi ruim. O do [LuizFux foi melhor, mas o grande problema do Brasil é que nós nunca atacamos a raiz dos problemas. Vou dar como exemplo o que aconteceu na segunda-feira, no jogo entre Brasil e Argentina, em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa entrou em campo para prender os quatro argentinos que haviam mentido para a Polícia Federal e que deveriam cumprir quarentena. Eu vi muita gente criticando a Anvisa, questionando por que ela não esperou terminar o jogo. A Anvisa fez o correto; a lei tem que ser cumprida. Se Bolsonaro tivesse perdido o mandato dele quando elogiou [Carlos BrilhanteUstra durante a sessão de impeachment da presidente Dilma na Câmara dos Deputados, nós não estaríamos com esse problema hoje.

Este defeito brasileiro de não ser radical, de não ter soluções definitivas, é o nosso problema. Vamos “empurrando as coisas com a barriga”, achando que elas vão se resolver com o tempo. Não, elas não vão; elas podem piorar com o tempo. Bolsonaro é a maior prova disso. Toda hora que ele avança o sinal, vem o pessoal e diz “deixa disso”, “passa o pano”, “vamos fazer as pazes”. Ele já deveria ter sido tirado do cargo há muito tempo. Tudo isso só prejudica o país. Temos problemas seríssimos de desemprego, inflação, gente passando fome e morrendo por causa da pandemia, e estamos discutindo voto impresso, impeachment de ministro do STF, porque simplesmente mandou prender pessoas que estavam incitando a prática de crimes nas redes sociais. Ou seja, isso aqui está virando uma bagunça porque as pessoas não querem ser radicais no cumprimento da lei. A lei é dura, mas é lei, como se diz em latim, dura lex, sed lex.