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1) Podemos pensar em uma forte redução do dólar nos próximos meses? No que isso impacta a economia brasileira?


Oreiro: Acho pouco provável. Em primeiro lugar, a incerteza sobre a evolução da pandemia do covid-19 continua forte devido a propagação da variante delta do Sars-Cov-2, a qual reduz a eficácia das vacinas existentes até o presente momento. Isso significa que podemos ter, no Brasil, uma terceira onda de contágios e mortes por volta de agosto/setembro de 2021 com a decretação de novas medidas de distanciamento social, com impacto negativo sobre os preços dos ativos, particularmente a taxa de câmbio. Em segundo lugar, a crise política no Brasil subiu alguns degraus após os recentes depoimentos ocorridos na CPI do Senado Federal, com indícios crescentes de envolvimento do Presidente da República, ao menos por omissão, no caso da vacina Covaxin. Instabilidade política se traduz sempre em aumento de percepção de risco e, dessa forma, em desvalorização do Real frente ao dólar. Por fim, a proposta de reforma tributária do Ministro Paulo Guedes parece não ter agradado ao mercado financeiro, o que mantem uma pressão baixista sobre o Bovespa e altista sobre o preço da moeda norte-americana. Sendo assim, acredito que a taxa de câmbio continuará acima de R$ 5,00 mantendo pressionados o IPA e o IGP-M, os quais tem forte correlação com o IPCA. Nesse contexto o Banco Central do Brasil deverá continuar o processo de “normalização” da política monetária, com a elevação da selic para perto de 7% a.a até dezembro de 2021. 


2) O Banco Central do Brasil anunciou aumentos consecutivos da taxa de juros para a economia nos últimos meses. O FED (autoridade monetária americana) também sinalizou que pode aumentar os juros no longo prazo. Como o aumento dos juros interfere na vida dos brasileiros?


Oreiro: Quanto ao FED não existe nenhuma evidência de que a taxa de juros básica da economia norte-americana possa ser elevada antes de meados de 2022. No Brasil, como disse na pergunta anterior, o BACEN deverá continuar o processo de elevação da taxa de juros Selic até que a mesma alcance um patamar próximo de 7% a.a em dezembro de 2021. Como as expectativas de inflação para 2022 estão abaixo de 4% a.a, isso significa que a economia brasileira vai entrar o ano de 2022 com uma taxa real de juros em torno de 3% a.a num contexto de desemprego elevado e muita capacidade ociosa. Justamente o oposto que deveria ser feito nestas circunstâncias. As evidências empíricas disponíveis mostram, sem margem para dúvida razoável, que existe uma relação inversa entre o nível de atividade econômica e a taxa real de juros. Dessa forma, o aperto monetário deverá tirar alguns pontos percentuais de crescimento do PIB em 2022, contribuindo assim para a perpetuação do quadro de estagnação da economia brasileira. 


3) Com o real desvalorizado frente ao dólar, encarecem-se as importações e favorecem-se as exportações. O setor exportador brasileiro tem se beneficiado com a pandemia? A sociedade brasileira obtém alguma vantagem com o aumento no número das exportações?


Oreiro: Numa economia que opera com sub-utilização dos recursos produtivos, como é o caso do Brasil, um aumento das exportações líquidas, ou seja, da diferença entre exportações e importações é positiva para o nível de atividade econômica pois aumenta a demanda agregada por bens e serviços produzidos no país. O problema é que, devido a composição da pauta de exportações brasileira, atualmente dominada por produtos primários, as importações (devido a pequena recuperação econômica em curso) vão crescer mais do que as exportações, ou seja, as exportações líquidas irão diminuir. No ano de 2021, as exportações brasileiras foram muito beneficiadas pelo aumento do preço internacional da soja. Esse fator não deverá se repetir em 2022, quando haverá uma queda expressiva da cotação da soja no mercado internacional. Se o câmbio permanecer num patamar competitivo por um período razoavelmente longo de tempo, então eventualmente a composição da pauta de exportações começará a se mover na direção de produtos manufaturados; mas se trata de um processo que leva muito tempo para ocorrer, pois exige uma transformação na estrutura produtiva da economia brasileira.

Desde 2005, o Brasil passou por um forte processo de desindustrialização, com a participação da indústria de transformação no PIB caindo de cerca de 17% em 2005 para pouco mais de 10% em 2019. No mesmo período, a participação dos produtos primários na pauta de exportações superou a participação dos produtos manufaturados. A classificação da economia brasileira no Atlas de Complexidade Econômica caiu da 34 posição em 2005 para a 49 posição em 2018 (ver The Atlas of Economic Complexity (harvard.edu)), mostrando de forma clara a perda de sofisticação da estrutura produtiva no Brasil. A manutenção de uma taxa de câmbio competitiva é condição necessária, mas não suficiente, para reverter esse quadro. O Brasil precisa retomar, urgentemente, as políticas industrial, de ciência e tecnologia e inovação com o objetivo de modernizar o parque industrial brasileiro, de maneira a preparar nossa indústria para a próxima Revolução Industrial que será baseada na descarbonização da estrutura de produção e consumo. Se perdermos essa janela de oportunidade o Brasil irá se transformar num grande “fazendão”.