José Luis Oreiro*

Há muito tempo venho insistindo em meus artigos de que o debate econômico no Brasil se processa como se nosso país tivesse caído numa falha de espaço-tempo (peço as devidas vênias aos Físicos por me intrometer na sua seara), tendo sido transportado para um universo paralelo onde as leis econômicas funcionam ao contrário do universo de referência. A pressão que os economistas e analistas do mercado financeiro tem feito, por intermédio da grande mídia, para que o Banco Central do Brasil retome imediatamente a “normalização” da política monetária, com um “ajuste” (ou seja, elevação) da taxa Selic é mais uma demonstração da minha tese de que habitamos um universo paralelo. No universo de referência – aquele em que habitam o Federal Reserve, o Banco Central Europeu, o Bank of England e o Banco do Japão, entre outros – não existe ninguém, fora de alguma clínica psiquiátrica, que esteja defendendo uma elevação da taxa básica de juros no meio da maior contração do nível de atividade econômica desde a grande depressão de 1929. Mas no universo B do Banco Central do Brasil, ao que tudo indica, o COPOM deverá retomar o processo de elevação da taxa de juros com vistas a (sic) normalização das condições monetárias do país.

Os economistas do universo paralelo advogam duas razões para isso. A primeira é que o Banco Central do Brasil teria ido longe demais no processo de redução dos juros em 2020, o que levou a um aumento da inclinação da curva de juros, ou seja, a uma elevação da taxa de juros de longo-prazo relativamente a de curto-prazo dado que o mercado, atento ao crescente desequilíbrio fiscal da economia brasileira, estaria precificando uma elevação futura da Selic. A redução excessiva da Selic em 2020 também teria levado a uma redução do diferencial de juros com respeito as economias desenvolvidas, produzindo assim uma forte desvalorização da taxa de câmbio e, dessa forma, uma aceleração da inflação. A segunda razão é que, dada a elevação observada da inflação entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021, o Banco Central corre o risco de não alcançar a meta de inflação para 2021, o que justificaria a mudança imediata de postura na condução da política monetária.

Conforme argumentei inúmeras vezes, a inclinação da curva de juros não tem nada que ver com o desequilíbrio fiscal do Brasil. Em função da pandemia de covid-19 todos os países do mundo tiveram que adotar políticas fiscais extremamente expansionistas, vide o pacote de US$ 1,9 trilhão recentemente aprovado pelo governo Biden, bem como a suspensão das regras fiscais na União Europeia até 2022. Apesar da “indisciplina” ou “populismo” fiscal desses países, as taxas de juros de curto e longo-prazo continuam nas suas mínimas históricas e nem mesmo o governo da fiscalista Alemanha discute a possibilidade de, no futuro próximo, reverter essa política. No Brasil a curva de juros “imbicou” porque o BCB, na contramão do realizado pelos seus pares no hemisfério norte, e apesar de ter os instrumentos fornecidos pela EC do orçamento de guerra, decidiu não intervir na parte longa da curva de juros sob o argumento de não produzir (sic) artificialismos na estrutura de juros da economia.

Quanto a aceleração recente da inflação, a figura abaixo mostra que a elevação da média móvel dos últimos 12 meses do IPCA foi resultado basicamente da elevação extraordinária dos preços de alimentos e bebidas. As medidas de núcleo de inflação (aparadas sem suavização e excluindo alimentos e preços monitorados) mostram uma inflação bastante comportada e baixa, compatível com uma economia que opera com enorme capacidade ociosa. Isso mostra, portanto, que a aceleração recente da inflação foi devida a um choque de oferta negativo, o qual, por sua natureza, não pode ser combatido por intermédio de elevação de juros, cuja função é reduzir pressões de demanda; as quais são inexistentes na economia brasileira no presente momento. Elevar os juros nesse contexto será prova cabal de negacionismo econômico.

Fonte: IPEADATA. Elaboração do autor.


* Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília.