Edição 1065

Sumário

Esta Carta IEDI retrata algumas evidências empíricas sobre a importância da indústria para o crescimento econômico, a partir do artigo “Manufacturing, economic growth, and real exchange rate: empirical evidence in panel data and input-output multipliers”, de autoria dos economistas Luciano F. Gabriel (UFV), Luiz Carlos Ribeiro (UFS), Frederico Jayme Jr (UFMG) e José Oreiro (UnB), publicado em 2020 na PSL Quarterly Review.

Com base em dois instrumentais – modelo econométrico com dados em painel e modelo de insumo-produto, os autores demonstram efeitos importantes da manufatura e de uma taxa de câmbio real competitiva sobre o crescimento da renda real per capita, isto é, para o enriquecimento dos países. 

Um dos aspectos interessantes deste estudo é que realiza comparações internacionais com uma ampla amostra de países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento, ao longo de duas décadas, os anos de 1990 e 2011.

Os autores chegam a três principais conclusões, sintetizadas a seguir.

Em primeiro lugar, a indústria manufatureira é tida como o principal setor de bens comercializáveis para se alcançar maior crescimento da renda real per capita em países em desenvolvimento, ou seja, são a principal alavanca do enriquecimento destes países, segundo as evidências do estudo.

Em segundo lugar, os autores mostram que quanto maior a distância de um país em relação à fronteira tecnológica mundial, maior o efeito positivo de uma taxa de câmbio real competitiva sobre a taxa de crescimento da renda real per capita

Isso ocorreria porque o câmbio competitivo tende a compensar a baixa competitividade internacional derivada de fatores como baixa inovação e pouca diferenciação de produto etc., possibilitando ampliação de exportações e conquista de outros mercados, de modo a acelerar o crescimento da renda per capita doméstica.

Um terceiro resultado importante do estudo diz respeito aos multiplicadores da indústria manufatureira. Seja desenvolvido, seja em desenvolvimento, o país que tem indústria forte tende a crescer mais: o multiplicador da produção manufatureira sobre o total da economia é geralmente maior do que o do restante dos setores.

Na média dos países em desenvolvimento, para o ano de 2010, os autores calculam que a cada US$ 1 de incremento na demanda final da manufatura, a produção total da economia se expandiria em US$ 1,90. No caso do Brasil, este multiplicador é de 2,03, menor do que o da China (2,8), mas equivalente ao da Índia (2,04).

Não fosse o descuido brasileiro com sua indústria, poderíamos ter um multiplicador ainda mais elevado. As estimativas do estudo mostram que, entre 2000 e 2010, a manufatura na China ampliou sua capacidade de gerar dinamismo econômico de 2,47 para 2,8, enquanto no Brasil o multiplicador progrediu para 2,11 em 2005, mas retornou ao patamar de 2,03 em 2010, o mesmo de 2000.

A título de comparação, os autores apresentam este multiplicador para outros setores da economia. No Brasil, em 2010, era 1,61 na agropecuária e 1,5 nos serviços. Na média dos países em desenvolvimento estes valores eram 1,59 e 1,54, respectivamente. Inferiores, portanto, aos multiplicadores da manufatura.

O estudo também calculou os multiplicadores sobre o emprego. Isto é, quantos novos empregos são criados direta e indiretamente pelo incremento de US$ 1 milhão na demanda final de cada setor da economia. Cabe observar que os multiplicadores de emprego avaliam apenas o impacto quantitativo, nada indicando sobre a qualidade do emprego gerado.

Neste caso, segundo os cálculos apresentados no trabalho, não se constatam diferenças muito grandes entre os multiplicadores de emprego registrados na manufatura e nos setores de construção, comércio e serviços, nem no conjunto de países desenvolvidos, nem nos países em desenvolvimento. Uma possível explicação para isso: embora estes últimos sejam mais intensivos em mão de obra, a indústria, ao apresentar maior capacidade de dinamizar a produção do total da economia, indiretamente alavanca o emprego.

No Brasil, em 2010, estima-se que a cada US$ 1 milhão na manufatura eram criados 42 novos empregos. Na China eram 95 e na Índica 200. No conjunto dos países desenvolvidos, pelo grau maior de automação e digitalização, eram observados apenas 12 empregos adicionais, segundo o estudo.

Todas estas são evidências que reforçam a necessidade de se promover uma base industrial forte e integrada nas economias em desenvolvimento, de forma a promover um crescimento econômico mais acelerado, aproximando-se dos países avançados em termos de renda per capita (catching up). 

Para os autores, neste cenário, países como o Brasil, que passam por um processo agudo de retrocesso industrial precoce em relação a outras experiências internacionais, apresentando uma perda de participação relativa de sua indústria no PIB total antes de se ter atingido um nível de renda per capita elevado, tendem a enfrentar maiores dificuldades em sustentar seu crescimento econômico.

O documento completo pode ser acessado em : IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial