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Aumento de verba destinada às obras públicas para R$ 6,5 bi e cancelamento da agenda entre Bolsonaro e ministro que trataria do Renda Brasil mostram que mal-estar piorou
O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi mais uma vez ultrapassado, ontem, pela determinação de Jair Bolsonaro de pavimentar o caminho da reeleição, inclusive com medidas que ameaçam o teto de gastos. O presidente concordou em destinar R$ 6,5 bilhões para gastos com obras públicas, em mais um revés para o titular da equipe econômica, que propôs R$ 5 bilhões. 

Dos R$ 6,5 bilhões, R$ 3,3 bilhões serão para indicações de parlamentares, que poderão destinar os recursos para redutos eleitorais. Já os ministérios do Desenvolvimento Regional e da Infraestrutura – cujos titulares, Rogério Marinho e Tarcísio de Freitas, então em alta com o presidente por conta do projeto eleitoral que vem se desenhando -devem receber R$ 1,6 bilhão cada.

 

Bolsonaro começou a se afastar de Guedes com o impasse sobre a fonte de financiamento do Renda Brasil, quando o presidente disse que não poderia “tirar dos mais pobres para dar aos paupérrimos”, e suspendeu o lançamento do programa. Havia a expectativa de que os dois aparecessem juntos na live de ontem à noite, como forma de mostrar que a divergência fora superada. Mas quem estava ao lado do presidente era Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos.

 

O mal-estar prossegue com o cancelamento da reunião, até então prevista para hoje, no Palácio do Planalto, na qual Guedes apresentaria a Bolsonaro as novas fontes de recurso do Renda Brasil, sem suprimir  benefícios sociais, como o abono salarial, o seguro defeso ou o Farmácia Popular. O encontro estava previsto desde que o presidente estabeleceu prazo para a equipe econômica resolver o impasse do programa. A ocasião também era apontada como fundamental para a definição dos valores da prorrogação do auxílio emergencial de R$ 600 — cujos rumores dão conta de que ficará em R$ 300.

 

As dúvidas sobre o humor de Bolsonaro em relação a Guedes e a permanência do ministro do governo seguem fortes, mas tem como contraponto o mercado financeiro — que reage a qualquer ameaça ao ministro, pois vê nele o fiador do governo com a responsabilidade fiscal e o teto de gastos. As opiniões sobre a permanência se dividem, pois é claro o enfraquecimento.

 

“Guedes só sai demitido. Ele é totalmente Bolsonaro na ideologia”, apostou a economista e advogada Elena Landau. “Ele está mostrando que faz tudo o que for possível para ficar e pode até pôr uma clarabóia no teto”, reforçou o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro.

 

Quem manda

O sentimento é de que Guedes precisa se ajustar à agenda populista do presidente e entender que, apesar da importância do teto de gastos, quem manda é Bolsonaro.

 

“O discurso do presidente está cada vez mais populista. A questão é que quem decide é o presidente e o problema é que as propostas de Guedes não estão mais encontrando espaço no governo”, frisou o cientista político David Fleischerprofessor emérito da UnB, para quem Guedes deve sair “até o fim do ano”.

 

Lideranças do Congresso que têm bom trânsito no Palácio do Planalto reconhecem que o ministro precisa “se ajustar” ao ritmo político. Mas consideram que a inadaptação ao figuro não é motivo para demissão. O ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e o vice-presidente, Hamilton Mourão, também afastam a hipótese da retirada de Guedes.

 

Onyx, que também está à frente do Renda Brasil, disse que não acredita na saída de Guedes “de jeito nenhum”, mas destacou que todo o “time Bolsonaro” precisa ter o compromisso de lealdade com o presidente. “Não tem conflito nenhum. Tem uma escolha que vai ser sempre feita pelo presidente”, disse.

 

Na live, entre o apoio e a cobrança

 

A live de ontem à noite do presidente Jair Bolsonaro alternou afagos e alfinetadas em Paulo Guedes. Quando tratou do valor do auxílio emergencial, disse que o país não tem condições de seguir gastando R$ 50 bilhões por mês, por mais quatro meses, e que R$ 600 não é muito para quem recebe, mas custa muito aos cofres públicos – concordando com o ministro da Economia. Mas, disse que R$ 200 é pouco, deixando um recado. “Temos notícia de que a economia, do Paulo Guedes, está reagindo. A gente espera que aconteça”, cobrou.

 

Em seguida, deixou claro que a ala tarefeira do governo está em alta, ao elogiar o ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas. “Vai viver com R$ 600? Muitos dizem que o dinheiro é nosso. Não, é endividamento. São R$ 50 bilhões por mês. Eu queria R$ 50 bilhões na mão do Tarcísio. Em um ano, ele resolveria todos os problemas de infraestrutura do país”, afirmou.

 

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que participou da live, brincou e pediu R$ 5 bilhões para a pasta. Bolsonaro disse que o orçamento da Infraestrutura, em 2021, será de R$ 8 bilhões, e voltou a falar no auxílio. “Tenho conversado com a equipe econômica, com Paulo Guedes. Eu digo que R$ 200 é pouco, mas não dá para manter os R$ 600. É pouco para quem recebe, mas muito para quem paga”, disse.