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José Luis Oreiro*

Link: http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/2020/08/14/rpd-jose-luiz-oreiro-pos-covid-19-estagnacao-perpetua/

A eclosão da pandemia do coronavirus no primeiro trimestre de 2020 está produzindo a maior contração coordenada do nível de atividade econômica a nível global desde a grande depressão de 1929. A média das previsões do Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e Comissão Europeia apontam para uma queda de 6,5% da economia mundial em 2020, com as economias avançadas apresentando um recuo mais forte, de 7,5%; ao passo que as economias em desenvolvimento devem apresentar uma retração mais suave, de “apenas” 3,0%. Deve-se deixar claro, contudo, que boa parte da queda mais suave das economias em desenvolvimento relativamente as economias avançadas deve-se a projeção média de queda de 0,6% em 2020 para a economia da China. No que se refere a economia brasileira, a média das previsões aponta para uma retração de 8,7%, configurando assim a mais rápida e intensa queda do nível de atividade econômica já registrada no Brasil desde 1929.

Para o ano de 2021 a média das previsões das instituições internacionais listadas acima aponta para uma recuperação relativamente rápida da economia mundial, a qual deverá apresentar um crescimento de 5,4% em 2021. Mas a recuperação será extremamente desigual entre os países analisados. Enquanto a China deverá apresentar um crescimento de 4,9% em 2021, devolvendo toda a perda de produto ocorrida durante a crise do coronavirus; as economias avançadas deverão apresentar um crescimento de 4,4% no próximo ano, valor insuficiente para recuperar a perda de produção e de renda ocorrida ao longo do ano de 2020. As previsões para o Brasil são ainda mais sombrias: a economia brasileira deverá crescer apenas 2,9% em 2021, de forma que o PIB brasileiro ao final desse ano ainda estará 6,25% abaixo do valor verificado no final de 2019.

A teoria macroeconômica convencional apresenta os ciclos econômicos como oscilações de amplitude e periodicidade irregular em torno de uma tendência de longo-prazo relativamente constante, determinada por fatores do lado da oferta da economia e independente das flutuações do nível de atividade. Dessa forma, períodos de forte contração do nível de atividade econômica deveriam ser seguidos por períodos de crescimento acelerado, caso a tendência de crescimento de longo-prazo não seja alterada ao longo do processo. As previsões acima, contudo, parecem apontar para efeitos persistentes da crise do coronavírus sobre o nível de atividade econômica, pois as projeções de crescimento para 2021 para a maior parte dos países indicam que suas economias chegarão ao final desse ano com um nível de atividade muito abaixo do nível prevalecente antes da Pandemia.

O caso brasileiro é particularmente grave nesse quesito. Não só a economia brasileira ao final de 2021 estará operando muito abaixo do nível verificado no final de 2019; como ainda estará 9,4% abaixo do valor verificado em 2014! Isso porque, no início de 2020, a economia brasileira sequer havia se recuperado dos efeitos da crise de 2015-2016, quando o nível de atividade apresentou uma contração de 6,81%. A perda de produto não recuperada ao longo do período 2017-2019 será somada a contração esperada de 9,10% (pelo FMI) no ano de 2020, totalizando uma queda de produto de 11,96% no período 2015-2020.

O cenário para 2021 é assustador. Os programas do governo federal de manutenção de renda e de emprego devem ser terminados no final do terceiro trimestre de 2020. Se nada for posto no seu lugar teremos uma queda de renda significativa no último trimestre do ano, o que deverá produzir uma segunda contração do nível de atividade econômica e um novo mergulho recessivo. Além disso, se o teto de gastos não for flexibilizado em 2020, com a exclusão dos investimentos públicos do teto a partir de 2021; então o governo federal será obrigado a recomeçar o ajuste fiscal, mas com uma economia que deverá registrar índices cavalares de ociosidade da capacidade produtiva. Nesse contexto, parece pouco provável que a economia brasileira possa ter um desempenho de crescimento superior ao que obteve no período 2017-2019, ou seja, um crescimento médio em torno de 1% a.a. Com esse ritmo de crescimento a economia brasileira só retornaria ao nível de PIB de 2014 em 2033! Se esse cenário se concretizar a economia brasileira passará por um período de estagnação de quase 20 anos. Não acredito que uma estagnação tão longa seja política e socialmente sustentável. Ou a sociedade brasileira se livra das amarras de um pensamento econômico obsoleto ou ela poderá trilhar o caminho da auto destruição.

* Professor Associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. E-mail: joreiro@unb.br.