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(*) Escrito por Guilherme Antonio Fernandes (**) com exclusividade para o blog de José Luis Oreiro

(**) Doutor em Direito pela USP. Mestre em Integração da América Latina pela USP. Bacharel em Direito pela USP. Professor e advogado

Em recente artigo publicado na Revista Piauí, intitulado de “Uma esfinge na presidência” (https://piaui.folha.uol.com.br/materia/uma-esfinge-na-presidencia/) , o cientista político Miguel Lago brilhantemente analisou o método bolsonarista de fazer política nas redes sociais. Apontou que Bolsonaro soube compreender aquilo que os demais políticos do establishment político brasileiro pareciam ainda não ter entedido bem na época das eleições: como se mover politicamente dentro das redes sociais a partir da construção da polarização e da divisão do cenário político em dois grandes compartimentos. Isto é, dividir o mundo das redes sociais em duas grandes correntes, uma a favor de Bolsonaro, que estaria automaticamente associada a uma suposta “nova política”, aliada à bandeira da anticorrupção, e a outra contra Bolsonaro, que estaria automaticamente associada à corrupção e aos vícios do que chamou de “velha política brasileira”. Deste modo, Bolsonaro soube construir sua campanha por meio de uma avalanche de desinformação, violenta e agressiva, movida por meio de fake news, que serviram para alimentar o clima de ódio e contraposição entre os dois campos nos quais dividiu o cenário brasileiro completamente. O mundo virtual dividiu o mundo real.

Miguel Lago captou que Bolsonaro possui esse método claro de fazer política dentro das redes sociais: provoca para ser atacado, ataca para ser vitimizado. Ou seja, ataca para movimentar com força sua máquina de  fake news e fazer a sua falange de seguidores responder, acriticamente, aos seus comandos de defesa. Esse é justamente o método que Bolsonaro utiliza para navegar no cenário político. Cria suas narrativas vitimizadoras, escolhe seus adversários ao sabor do momento, um a um, caracterizando-os como obstáculos que precisam ser retirados, imediatamente, para que possa levar a nação brasileira a sua “terra prometida” e limpar o Brasil de todos os seus vícios. Isto é, a tática bolsonarista é a da construção permanente de inimigos. Se nas eleições o inimigo era o PT e o seu antagonista maior o ex-presidente Lula, agora o inimigo é outro: o governador do Estado de São Paulo João Dória, que assume, na realidade, o papel de representante encarnado dos governadores e prefeitos que impedem, segundo o método bolsonarista, que a nação prospere.

A tática de Bolsonaro é tão evidente que sites como “jornal da cidade online” ou “Brasil sem medo” são fontes inesgotáveis da sua claque virtual. Aliás, basta apenas uma breve piscadela em um desses sites para se perceber o quanto são seguidores fiéis de seu indireto chefe. Todavia, para o fiel seguidor virtual de Bolsonaro, já não mais capaz de exercer o juízo crítico, pois já refém do método bolsonarista em transformar pessoas em seguidores fanáticos, em replicadores de robôs que disparam os ataques agressivos aos seus inimigos, todas as notícias ali veiculadas são prontamente espalhadas.

Foi, portanto, justamente nesse sentido que Miguel Lago percebeu que o que Bolsonaro mais deseja agora é aquilo que parece ser o palco perfeito para a sua vitimização maior: um processo de impeachment. Ou seja, Bolsonaro quer o impeachment. Bolsonaro quer ser contraposto pelo Congresso e pelo Poder Judiciário para que possa dar a sua cartada final em seu projeto de poder: disparar nas redes sociais e com a força dela construir sua base de apoio popular para derrotar as instituições democráticas brasileiras que “querem seu impeachment”. Afinal, nada melhor do que forças obscuras da velha política (talvez aqui o leitor tenha um breve deja vú…), corrupta e carcomida, personalizadas num processo de impeachment contra o salvador da nação brasileira. Nada melhor do que os inimigos concretos contra o mito. O impeachment seria a batalha triunfal de Bolsonaro contra a corrupta política brasileira. Ou seja, a melhor oportunidade de novamente dividir o Brasil em dois; a favor e contra.

Bolsonaro precisa mais do que nunca provocar para que o impeachment venha. Ele quer isso, ele deseja isso. Não são por acaso suas provocações em sair às ruas e contrariar tudo que o mundo tem dito sobre isolamento social todos os dias. Ele faz isso conscientemente, sabendo que o quanto mais provocar, mais seu exército virtual o defenderá e quanto mais indignação causar, mais indignado e violentamente seu séquito o defenderá. Bolsonaro é justamente a vítima das vítimas, que precisa derrotar seus inimigos.

Contudo, é interessante se anotar que apesar da não mudança no método bolsonarista, Bolsonaro talvez se esqueça que ganhar uma eleição é uma coisa, governar um país com fortes instituições é outra. O pleito eleitoral é um momento mais curto do que um governo de quatro anos. Além do mais, a aposta de Bolsonaro em seguir com seu método sem a base concreta de um partido político, articulado no mundo não virtual com as forças políticas que emergem do cenário brasileiro, pode lhe custar muito caro. É de se pensar que a própria sobrevida que o Partido dos Trabalhadores possui hoje muito se dá ao fato de ser um partido com forte base orgânica e estrutural, que o sustenta desde a sua fundação. Fosse qualquer outro partido brasileiro, não teria resistido depois de tamanha flagelação. Se o Partido dos Trabalhadores compreendeu isso e buscou mudar o seu discurso, isso é outra história. Contudo, não se nega que o partido subsiste. Assim, é exatamente aqui que talvez esteja uma das apostas equivocadas de Bolsonaro, tentar continuar a governar apenas com seu método virtual, sem base partidária alguma.

Além disso, nas eleições o método bolsonarista ainda era algo nebuloso. Hoje as reações a esse método já se constroem. É notória a existência de um Gabinete do Ódio, que aliás, causa perplexidade por não ser caracterizado como motivo para processos judiciais contra o vereador do Rio de Janeiro que o comanda do Palácio do Planalto sem sequer ter um cargo no governo federal. De qualquer maneira, a aposta de Bolsonaro em governar o tempo todo por esse método é uma jogada arriscada, pois um dia aquele que foi vítima do seu método aprende a lidar com ele. O jogo de Bolsonaro já não mais possui a vantagem do ineditismo.

Outro ponto importante a ressaltar é que o método de construção de inimigos talvez agora venha a falhar. Era mais fácil contruir do petismo o antagonista de Bolsonaro do que João Dória. Por quê? Porque João Dória não está preso, não está concorrendo no pleito eleitoral, é governador, tem mandato, comanda o Estado mais rico da nação e passa a liderar a grande maioria dos governadores brasileiros, representando o próprio institucionalismo da ordem federativa construída na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Ou seja, Bolsonaro talvez não tenha bem compreendido que o governo federal pode muito, mas não pode tudo e que além de sua “caneta”, existe a toga do Poder Judiciário, os mandatos legítimos de deputados e senadores, assim como as “canetas” dos prefeitos e governadores.

O mais grave de tudo é que hoje o método bolsonarista está a todo vapor em um contexto extraordinário: a luta contra uma pandemia. Bolsonaro usa seu contínuo método ignorando que, na sua tentativa de construir novos inimigos, a vida de brasileiros está sendo perdida. Ou seja, Bolsonaro, que não consegue oferecer nada, absolutamente nada além do seu método de governar pelas redes sociais, não se atenta para o que é gritantemente urgente: brasileiros estão morrendo. A perda de vidas por conta do coronavírus somada à inevitável recessão econômica lhe custará muito caro. Sua constante provocação a estimular os brasileiros a saírem as ruas se apegando a falsas narrativas e a promessas científicas ainda não comprovadamente seguras, como o uso da hidroxicloroquina, com o objetivo claro de polarizar e radicalizar o cenário político e quiçá provocar um processo de impeachment, levará, como tem levado, ao afrouxamento da quarentena e a um aumento gigantesco do número de contaminados e vítimas fatais.

Bolsonaro não se importa que vidas brasileiras sejam perdidas. Afinal, se realmente se importasse, já teria mudado sua própria orientação, tal como seu ídolo assim o fez nos Estados Unidos. Talvez Bolsonaro não se importe não porque seja um ser humano sem a capacidade de sentir empatia, mas porque não consegue mudar seu método de fazer política. Bolsonaro é um político que quer governar nos braços do povo e por meio desse mesmo povo ter carta branca para comandar o país do jeito que bem entender. Bolsonaro, na realidade, está ainda em êxtase por ter conseguido chegar onde jamais imaginaria ter chegado tão rapidamente, o que explica o seu apego ao  método de fazer política nas redes sociais, que é incapaz de largar.

Contudo, Bolsonaro pode ser a próxima vítima do método bolsonarista…afinal, construir inimigos em um momento em que brasileiros estão perdendo a vida por conta de algo que vai muito além dos anseios políticos, é um grande equívoco. Jogar a culpa pela morte de brasileiros em seus inimigos políticos é um jogo cruel e irresponsável. O método bolsonarista de fazer política está nos custando muito caro e dar um processo de impeachment a Bolsonaro é tudo que ele quer no momento.

O mais importante agora é salvar a vida dos brasileiros diante da terrível ameaça do coronavírus.

Caso o apego ao seu método não provoque circunstâncias que o levem a renunciar, talvez seja melhor simplesmente ignorá-lo, por ora.