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Hoje sua excelência o sapientíssimo doutor Paulo Guedes afirmou que “dólar alto é bom pois (sic) a empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada” (ver https://oglobo.globo.com/economia/guedes-diz-que-dolar-alto-bom-empregada-domestica-estava-indo-para-disney-uma-festa-danada-24245365?fbclid=IwAR3THD-FD8jn4RWdsqulHGvJgBmw3cB9rfUZJ5NIEtVu7GbU0IQgm_a2mWk). É impressionante a capacidade do Ministro da Economia de justificar algo que é absolutamente necessário para que a indústria brasileira tenha um mínimo de competitividade nos mercados doméstico e internacional, com base num argumento preconceituoso e classista. Guedes não comemora a melhoria da competitividade da indústria – efeito não intencional das políticas do governo brasileiro, mas do cenário econômico internacional mais arriscado devido a crise do Coronavírus e a desconfiança crescente dos investidores internacionais nas perspectivas de crescimento da economia brasileira – mas o fato de que as pobres das empregadas domésticas não conseguirem mais viajar para a Disney.

Alguns economistas liberais mais afoitos tiveram o desplante de dizer que os economistas novo-desenvolvimentistas (eu incluso) no fundo concordamos com o ministro da economia pois sempre defendemos uma taxa de câmbio competitiva como POLÍTICA HORIZONTAL de estímulo ao desenvolvimento industrial. Dessa forma, tanto Guedes como os novo-desenvolvimentistas estariam se regojizando ás custas das pobres empregadas domésticas que não teriam mais condições de viajar para a Disney e dar um beijo no Pato Donald.

Esse tipo de postura é de uma desonestidade intelectual do tamanho do monte Everest. No livro “Macroeconomia desenvolvimentista” (2016) escrito em co-autoria com Bresser-Pereira e Nelson Marconi, o desenvolvimento econômico é definido como um processo de acumulação de capital e incorporação do progresso tecnológico que LEVA A UM AUMENTO PERSISTENTE DOS SALÁRIOS REAIS E DO PADRÃO DE VIDA DA POPULAÇÃO. A sobrevalorização da taxa de câmbio é um fenômeno estrutural aos países com recursos naturais abundantes que leva a desindustrialização precoce e ao atraso econômico com respeito aos países ricos, fazendo com que a empregada doméstica, citada por Paulo Guedes e tão (supostamente) arduamente defendida pelos economistas liberais, seja condenada a uma situação de ETERNA POBREZA. A única solução para sair desse imbróglio é adotar medidas que NEUTRALIZEM A DOENÇA HOLANDESA de forma a permitir que a taxa real de câmbio convirja para o seu NÍVEL DE EQUILÍBRIO DE LONGO-PRAZO, coisa que o atual governo sequer cogita em fazer.

No momento em que se dá essa neutralização ocorre uma desvalorização súbita da taxa de câmbio que, por intermédio do aumento do custo de vida, resulta numa redução do salário real. Mas se a mudança da taxa real de câmbio for de caráter permanente ( ver https://jlcoreiro.wordpress.com//?s=o+novo+desenvolvimentismo+n%C3%A3o+%C3%A9+apenas+c%C3%A2mbio+competitivo&search=Ir), então haverá uma mudança estrutural na economia, favorecendo a expansão dos setores mais dinâmicos e que pagam salários reais mais elevados, fazendo com que, ao final de um período de transição, OS SALÁRIOS SEJAM MAIS ELEVADOS DO QUE SERIAM CASO O CÂMBIO NÃO TIVESSE SE AJUSTADO.

Em suma, o câmbio mais elevado não é bom porque impede a empregada doméstica de viajar para a Disney; mas porque permite que o filho da empregada doméstica possa ter um emprego decente, com carteira assinada e direitos trabalhistas, numa fábrica, ao invés de trabalhar com entregador de comida de um aplicativo, trabalhando 12 horas por dia, sete dias por semana, sem direito a férias, décimo terceiro salário e seguro saúde. 

Não são os novo-desenvolvimentistas que são contra os pobres. São os liberais, com suas políticas que favorecem a precarização dos empregos e a desindustrialização do país, que querem acabar com a Pobreza exterminando os mais necessitados.