Tags

,

FABIO GRANER

O Ministério da Economia se prepara para lançar ainda neste primeiro bimestre uma nova versão do programa Brasil mais Produtivo, política para aumentar a produtividade nas plantas industriais.

O objetivo dessa nova fase será apoiar cerca de 200 mil empresas em até quatro anos. Os esforços de aumento de produtividade não serão apenas voltados para o setor industrial, como na versão criada no governo Michel Temer. Incluirão também as empresas de pequeno e médio porte dos setores de serviços e comércio.

O projeto original prestou consultoria para cerca de 3 mil empresas entre 2016 e 2018. Seu relançamento havia sido prometido pelo secretário especial de Competitividade, Carlos Da Costa, ainda no início de 2019, mas só agora a medida está ficando pronta.

O Valor apurou que um dos objetivos do novo programa é colocar as empresas industriais na trilha da chamada indústria 4.0, que tem alto grau de digitalização e informatização em seu processo produtivo. Na versão original, o objetivo era mais modesto: melhorar os processos no “chão de fábrica”.

Ainda não há muitos detalhes sobre a iniciativa, que deve contar com recursos orçamentários e do Sistema S. De qualquer forma, evidencia correta preocupação do governo em fomentar a produtividade e dar horizonte mais sustentável e robusto de crescimento ao país.

A questão que se coloca é se o que a área econômica tem feito e pretende fazer, como esse novo programa, é suficiente para atender às enormes necessidades do país, que ainda não voltou aos níveis de produção, emprego e renda anteriores a 2015.

Há um amplo consenso entre os economistas de que a economia está em aceleração. Os cenários variam entre os mais pessimistas, com expansão ao redor de 2% ou pouco abaixo, e os mais otimistas, que já enxergam o PIB subindo na casa de 3% em 2020. O Ministério da Economia oficialmente prevê alta de 2,3%, mas está revendo os números. Algumas fontes oficiais apostam que o PIB poderá crescer acima de 3% neste ano.

Apesar da melhora que parece contratada, não há motivo para euforia. Como bem coloca o economista Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e pesquisador do Ibre, o país vive fase de “expectativas rebaixadas”. “Os dados econômicos no Brasil apresentam claros sinais de melhora. O PIB do terceiro trimestre avançou 0,6%. Este resultado, apesar de positivo, não tem nada de excepcional”, diz.

Para ele, em análise no Blog do Ibre, a lenta recuperação e o elevado desemprego normalizaram padrões baixos. “O que antes era visto como uma estatística econômica ruim passou a oferecer uma perspectiva mais positiva da economia. O atual modelo econômico entregou taxas de juros mais normais, mas ainda precisa mostrar capacidade expressiva de geração de emprego e crescimento e de melhoria das condições gerais de vida da população”, diz Pires. Há poucos anos, lembra, um crescimento de 3% era visto como decepcionante pela sociedade.

Ele defende medidas como uma reforma para ampliar e dar mais previsibilidade aos investimentos públicos. “Devem constar em um orçamento plurianual que garanta recursos ao longo do tempo para sua execução, sem interrupções. Devem ser iniciados com projetos executivos prontos e aprovados e devem passar por avaliação de custo benefício, mas não devem ser tratados como algo efêmero porque não são. Não é aceitável ver viadutos desabando como assistimos nos últimos anos”, sugere.

O professor de economia da UnB José Luis Oreiro espera uma expansão de no máximo 2% para o PIB neste ano. E diz que mesmo o consenso do mercado, de alta de 2,5%, é “medíocre”. Para ele, medidas como a liberação do FGTS deram algum impulso para o consumo, mas com fôlego limitado. Ele destaca que alta do emprego se dá em posições mais precárias, e a recuperação do setor de construção, em projetos de alta renda, inibindo resultados melhores no PIB.

Dessa forma, Oreiro defende a retirada dos investimentos públicos do limite do teto de gastos, como forma de alavancar o crescimento do país, impulsionando também a produtividade das empresas.

Paulo Gala, economista da Fator Administradora de Recursos e professor da FGV-SP, também concorda que o desempenho esperado para o país neste ano é muito abaixo do necessário. “Temos chance de crescer entre 2,5% e 3% neste ano, que é aquém do necessário mesmo para uma recuperação cíclica. E tenho dúvidas se isso se sustenta a partir de 2021”, diz.

Ele também é defensor de retirar os investimentos públicos, que estão no piso da série histórica, do teto de gastos. Isso, entende, seria necessário para fomentar o aumento da produtividade do país.

O economista tem se destacado por suas pesquisas e defesas de uma agenda de aumento da complexidade da economia nacional, que reverta a trajetória de primarização produtiva que tem ocorrido. Ele aponta a necessidade de apoio governamental para que o setor industrial volte a recuperar terreno na corrida tecnológica.

“A boa política industrial é aquela que ajuda a conquistar o mundo, e não a proteger o mercado interno”, salientou, defendendo que o governo mapeie os nichos de potencial apoio para estimular a inovação. Nesse sentido, ele aponta que o BNDES deve ter um papel importante, financiando projetos para elevar a capacidade tecnológica das empresas.

Segundo Gala, no passado o banco estatal errou ao financiar empresas que pouco contribuíram para o avanço da complexidade produtiva brasileira. E é a sofisticação do que se fabrica, na visão dele, que promove aumento de emprego, renda e crescimento econômico de qualidade e sustentável no longo prazo. “A China hoje já tem trabalhadores industriais com salários por hora maior do que dos trabalhadores brasileiros”.

Além de mais investimentos em infraestrutura e de uma nova política industrial, o economista defende que se evite uma valorização do real. “Eu não venderia reservas hoje. O câmbio é um pilar que garante que pelo menos parte dessa recuperação cíclica seja direcionada para a indústria”, salientou.

A equipe econômica acerta ao fomentar a produtividade das empresas com o novo Brasil Mais Produtivo. Mas faria bem em prestar atenção aos alertas acima, sem se conformar com o nível de crescimento que se desenha.

Brasil precisa ampliar complexidade da economia, diz Gala