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Enumero abaixo as proposições teóricas básicas do novo-desenvolvimentismo na minha interpretação do mesmo, a qual pode ter algumas diferenças pontuais com relação a interpretação do Bresser.

1 – O desenvolvimento econômico é um processo cumulativo de elevação dos salários reais e do padrão de vida da população que é viabilizado pelo aumento da produtividade do trabalho que decorre do progresso técnico incorporado em novas máquinas e equipamentos e da transformação estrutural da economia, com a migração de mão-de-obra dos setores com menor valor adicionado por trabalhador para os setores com maior valor adicionado por trabalhador. A taxa de crescimento da produtividade depende, portanto, da taxa de crescimento do estoque de capital por trabalhador e da evolução da estrutura produtiva ao longo do tempo.

2 – O ritmo de crescimento do produto real é determinado pelo crescimento da demanda autônoma que não cria capacidade. O investimento se ajusta, no longo prazo, ao ritmo de crescimento da demanda, de maneira que ele não pode “liderar” o crescimento do produto; mas é “puxado” pelo mesmo. Numa economia aberta que não dispoe de moeda de reserva internacional o crescimento do produto só será sustentável no longo-prazo se for liderado pelo crescimento das exportações; caso o motor de crescimento da demanda autônoma seja a demanda doméstica (por exemplo, os gastos do governo) a trajetória de crescimento será cedo ou tarde interrompida por uma crise no balanço de pagamentos.

3 – O ritmo de crescimento do produto não é limitado por fatores ligados ao lado da oferta, uma vez que o ritmo de crescimento do estoque de capital, do crescimento da força de trabalho e de crescimento da produtividade se adaptam, no longo prazo, ao ritmo de crescimento da demanda agregada autônoma.

4 – No longo-prazo o balanço de pagamentos também não é uma restrição ao crescimento de longo-prazo porque as elasticidades renda das exportações e das importações não são constantes, mas se adaptam a evolução da estrutura produtiva da economia. Na medida que a estrutura produtiva evolui no sentido de uma maior sofisticação ou complexidade, segue-se que a razão entre a elasticidade renda das exportações e das importações aumenta, permitindo assim uma maior taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos.

5 – A restrição ao crescimento de longo-prazo é dada, no caso das economias que possuem recursos naturais abundantes, pela tendência a sobrevalorização da taxa de câmbio que decorre da doença holandesa. Essa sobrevalorização cambial atua no sentido de interromper e, na sequencia, reverter o processo de sofisticação produtiva; fazendo com que a razão entre as elasticidade renda das exportações e das importações se reduza, o que termina por impor uma restrição de balanço de pagamentos ao crescimento do produto.

6 – A poupança doméstica e a poupança externa são substitutas, ao invés de complementares. Com efeito, a poupança agregada é determinada pelo investimento; mas a composição da poupança depende do nível da taxa real de câmbio. Um aumento da poupança externa – decorrência de uma apreciação da taxa real de câmbio – está associada a uma redução da poupança doméstica; porque a apreciação da taxa real de câmbio produz uma redução da participação dos lucros na renda nacional – pois o salário real aumenta com relação a produtividade do trabalho. Como a propensão a poupar a partir dos lucros é maior do que a propensão a poupar a partir dos salário; segue-se que a redução da participação dos lucros na renda decorrente de uma apreciação da taxa real de câmbio irá resultar numa redução da poupança privada doméstica.

7 – A abundância de recursos naturais num determinado país faz com que a taxa de câmbio de equilíbrio industrial – definido como aquele nível da taxa de câmbio que faz com que, para um dado nível de hiato tecnológico, as empresas domésticas sejam competitivas tanto no mercado doméstico como no mercado internacional – seja maior do que a taxa de câmbio que garante o equilíbrio em conta corrente do balanço de pagamentos. Dessa forma, a sustentabilidade de longo-prazo do processo de crescimento econômico dos países que possuem recursos naturais abundantes exige que os mesmos tenham superávit na conta de transações correntes do balanço de pagamentos.

8 – O saldo em conta corrente do balanço de pagamentos é determinado pelo saldo da conta de capitais. Dessa forma, a abertura da conta de capitais ao viabilizar a atração de capitais externos para o país acaba por levar, na ausência de uma política ativa de administração da taxa de câmbio, a uma apreciação da taxa de câmbio e, consequentemente, ao surgimento do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos. Dessa forma, segue-se que a administração da taxa de câmbio exige algum grau de controle de capitais.