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Ideia do governo de criar moeda única entre Brasil e Argentina gera ceticismo entre especialistas, devido à conjuntura econômica e ao nível de desenvolvimento e de integração entre os vizinhos sul-americanos. Banco Central afirma que não há projeto sobre o assunto


A criação de uma moeda única entre Brasil e Argentina, à qual seria dado o nome de “peso real”, ideia ventilada pelo presidente Jair Bolsonaro em visita ao país vizinho nesta semana, caiu mal entre economistas e parlamentares, que consideram o projeto “fora da realidade”. De acordo com especialistas, é possível perseguir uma união monetária, a exemplo da União Europeia, no entanto, considerando a conjuntura econômica e o nível de desenvolvimento e de integração entre os vizinhos sul-americanos, seria necessária uma construção institucional que adiaria o projeto por tempo a perder de vista.

“Uma nova moeda é como um casamento. Você ganha de um lado e perde de outro. Às vezes, você quer ver seu Botafogo jogar e não consegue, porque sua esposa quer ir ao shopping. Às vezes, acontece o contrário também, tá certo?”, disse Bolsonaro, para quem a moeda pode ser uma “trava” ao que chamou de “aventuras socialistas” na América do Sul.

“Você quer levar sua esposa para ver o Mengão jogar e não consegue. Mas, como em todo o casamento, a gente mais ganha do que perde. Na moeda também. Vejo que temos muito mais a ganhar do que a perder”, comparou o presidente, ao explicar a proposta, nesta sexta-feira (7/6), já no Rio de Janeiro. Com a repercussão que ganhou nas redes sociais, onde proliferaram memes sobre a suposta moeda, o presidente disse que ouviu do ministro da Economia, Paulo Guedes, que a intenção seria incluir outros países do continente na moeda única, mas que seria um projeto para o futuro.

Ainda em Buenos Aires, quando questionado pela imprensa, Bolsonaro havia dito que a ideia a moeda é de Guedes. “Já falei para vocês que meu forte não é economia. Nós acreditamos no feeling, na bagagem, no conhecimento e no patriotismo do Paulo Guedes”, afirmou. Antes de deixar a Argentina, ele ressaltou que Guedes teria dado o primeiro passo para o “sonho” da unificação monetária entre os dois países.

Nesta sexta-feira (7/6), ainda pela manhã, o Banco Central tratou de esclarecer, por meio de nota, que não há projeto ou estudo em andamento para uma união monetária com a Argentina. “Há tão somente, como é natural na relação entre parceiros, diálogos sobre estabilidade macroeconômica, bem como debates acerca de redução de riscos e vulnerabilidades e fortalecimento institucional”, disse a nota.

Perdas e ganhos

As perdas do eventual “casamento” seriam a autonomia para definir as políticas monetária, cambial e fiscal. Mesmo assim, antes, seria preciso percorrer um longo caminho, já que não é possível partir diretamente para uma moeda única, sem passar por várias etapas de integração econômica, como fez a Europa do pós-guerra, com a criação do Mercado Comum do Carvão e do Aço, em 1951, até 2002, quando o euro começou a circular, lembrou José Luis Oreiro, professor de economia da Universidade de Brasília.

Foram mais de 50 anos em que a Europa passou por uma união alfandegária (fim das tarifas comerciais entre os países do bloco), avançou para uma união aduaneira (adoção de uma tarifa comum para terceiros países), depois para um mercado comum (transição de pessoas, com mercado de trabalho comum), para, finalmente, chegar a uma união monetária, nível que requer convergência entre taxa de juros, de câmbio, inflação e meta fiscal. “Como pode haver convergência com a Argentina acumulando inflação de 55% em 12 meses, e o Brasil, 4%?”, questionou Oreiro. “Imagino que os ministros das finanças da Europa estão se divertindo com a ideia.”

Já o ganho poderia ser uma moeda mais forte, que aumentaria a potência dos países sul-americanos em negociações comerciais. Mas, na atual conjuntura econômica dos envolvidos, o preço seria alto. “Brasil e Argentina estão com indicadores econômicos bem diferentes e, na Europa, os países, quando fizeram a integração monetária, tinham níveis de desenvolvimento muito diferentes dos nossos países”, disse o coordenador do curso de economia do Ibmec, Márcio Antonio Salvato. Para ele, o real, a moeda brasileira mais longeva, instituída em 1994, foi trabalhoso e bem-sucedido, combatendo uma alta inflação. Ele também recordou as dificuldades que teve a Grécia, em 2010, para cumprir a meta fiscal europeia, colocando o bloco em risco. “Perde-se muita autonomia. É por isso que o Reino Unido não aderiu ao euro e mesmo assim está tendo muita dificuldade para sair do bloco.”

Fora da realidade

Nelson Marconi, professor da Fundação Getulio Vargas, considerou a proposta “bem fora da realidade”. Ele explicou que, ao perder autonomia para gerir sua taxa de câmbio, o país abre mão da liberdade de influenciar sua competitividade. “Os países usam suas taxas de câmbio para ganhar competitividade nos mercados internacionais. Sem isso, só se pode melhorar a competitividade dos produtos pela redução dos custos de produção”, comparou. “A Espanha, por exemplo, quando aderiu ao euro, teve de promover um verdadeiro arrocho salarial para ser competitivo dentro do bloco”, lembrou.  De acordo com o economista, hoje, por ter a maior inflação, a Argentina perderia muito. “Ou o Brasil teria que desvalorizar tanto sua moeda que geraria inflação aqui.”

Economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani classificou a ideia como “engraçada”. Ele acredita que o objetivo do presidente Bolsonaro tenha sido dar um sinal mais político do que criar uma expectativa econômica. “É menos uma proposta econômica e mais uma sinalização geopolítica, já que, durante a eleição, ele sinalizava que não apoiava o Mercosul”, frisou.