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No primeiro trimestre de 2012, os 10% mais ricos do país ganhavam, em média, 29 vezes a mais do que os 40% mais pobres. Já nos primeiros meses deste ano, essa relação subiu para 36,6 vezes. Índice Gini aumentou pela 17ª vez

Com o desemprego alto, 12,7% de janeiro a março, e os efeitos prolongados da recessão iniciada em 2014, a desigualdade de renda atingiu o nível mais elevado em sete anos, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). O índice Gini de 0,627, medido no primeiro trimestre, é o maior desde o primeiro trimestre de 2012, início da série histórica, quando era de 0,608. A taxa mede a desigualdade em uma escala de zero a um, sendo que o zero representa a igualdade perfeita.

Este foi o 17° aumento trimestral consecutivo do indicador. O levantamento do Ibre/FGV também mostra um aumento na distância entre os mais ricos e os mais pobres. De acordo com a pesquisa, no primeiro trimestre de 2012, os 10% mais ricos do país ganhavam em média 29 vezes a mais do que os 40% mais pobres. Já nos primeiros meses de 2019, essa relação subiu para 36,6 vezes.

Essa discrepância de renda pode ser notada ao comparar a rotina e dificuldades enfrentadas por pessoas com condições financeiras diferentes. Renata Lima, de 25 anos, moradora do Recanto das Emas, procura emprego há mais de um mês para ajudar a sustentar sua família. Com uma renda familiar em torno de R$ 1.000, graças aos rendimentos do marido, que é vendedor ambulante, ela precisa fazer diversos bicos para garantir alimentos e saúde para o filho pequeno. “Faço alguns trabalhos extras na informalidade, como cortes de cabelo ou bolos de pote. Me viro como posso para ajudar nos custos da casa”, diz.

Renata conta que, como o marido é autônomo e depende das vendas para obter sua renda, a família já chegou a passar por apertos na hora de pagar as contas e fazer compras. Ela relata que, nos últimos meses, notou um grande aumento nos preços dos produtos que compra para seu filho. “Meus principais gastos são as coisas para meu filho, e no último mês, o preço de leites e fraldasfoi o que mais aumentou. Todo dia tem um aumento diferente no mercado. Por causa da nossa renda, acabamos tendo só o básico para sobreviver. Só o dinheiro suficiente para comida e contas da casa”, conta.

Já a professora Márcia Benetti, 53, consegue manter o emprego e a renda já que é servidora pública do Governo do Distrito Federal (GDF). Moradora do Lago Sul, ela afirma que, mesmo em  escala bem menor, também sentiu diferença no orçamento. “Apesar de ser funcionária pública, nosso rendimento não é o mesmo. Eu sinto que a nossa capacidade financeira foi se deteriorando porque a gasolina sobe, o gás sobe, tudo sobe e esse impacto pode ser sentido no nosso salário”, avalia.

Com uma renda líquida em torno de R$ 7.900, a professora afirma que um dos principais pontos onde vê impacto é no preço da gasolina. “Em Brasília, dependendo de onde você mora, depende do carro, porque tem uma dificuldade com o transporte público”, ressalta.

Motivos e soluções

Daniel Duque, pesquisador e autor do levantamento do Ibre/FGV, aponta a falta de emprego para pessoas com menores qualificações e de classes mais baixas como o maior entrave para a redução da desigualdade de renda. “O que precisa ser feito é ter um cenário de melhora na economia, que seja baseado no emprego da população de classes mais baixas. É necessário conseguir empregos para as pessoas de menor qualificação, que é quem mais sofre com a crise”, pontua Duque.

Na sua avaliação, a reforma da Previdência, caso aprovada, pode ter um impacto positivo no índice: “Para obter renda, você precisa trabalhar, e uma das medidas principais da reforma é a alteração na idade mínima de aposentadoria. Com mais pessoas trabalhando por mais tempo, pode acontecer uma melhor distribuição da renda”.

O professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB)José Luís Oreiro concorda, mas acredita que além de uma mudança no mercado de trabalho, seria necessário também uma reforma tributária. “O que vai mudar a distribuição de renda no Brasil é uma reforma tributária. Nosso sistema tributa muito os produtos, em vez de tributar a renda. Por isso, o pobre acaba pagando mais imposto do que o rico”, compara.

* Estagiária sob supervisão de Cláudia Dianni