Tags

, , ,

O IBC-BR calculado pelo Banco Central do Brasil apresentou uma queda de 0,73% em fevereiro na comparação com janeiro de 2019. É o segundo mês consecutivo de queda do indicador que é uma espécie de “prévia” do PIB apurado no Sistema de Contas Nacionais do IBGE. Em janeiro de 2019 o IBC-BR apresentou uma queda de 0,31% com relação a dezembro de 2018.

O comportamento do IBC-BR aponta para a possibilidade concreta de uma contração do PIB no primeiro trimestre de 2019, interrompendo assim a mais lenta trajetória de recuperação do nível de atividade econômica desde 1981 (Ver gráfico 1)

A lenta recuperação do nível de atividade econômica desde o fim da recessão do período 2014-2016 tem como contrapartida a manutenção de um nível persistentemente alto de capacidade ociosa. Com efeito, conforme podemos observar na figura 2 abaixo, elaborada pelo economista Ricardo Barboza do grupo de conjuntura econômica do IE-UFRJ, a média aparada obtida a partir de 6 metodologias diferentes para o cálculo do produto potencial mostram que a economia brasileira se encontra 4,3% abaixo do produto potencial, o que significa um desperdício de recursos da ordem de aproximadamente R$ 315 bilhões. Se a economia brasileira estivesse hoje (abril de 2019) operando ao nível do produto potencial, a receita tributária do setor público consolidado teria um acréscimo mais de R$ 90 bilhões com relação a previsão para o ano de 2019, o que representa 64% do déficit primário estimado (R$ 139 Bilhões) pelo Ministério da Economia para o corrente ano.

Gráfico 2 : Estimativas do Hiato do Produto

Autor: Ricardo Barboza.

A persistência de um hiato do produto significativo por um período tão longo de tempo após o término oficial da recessão de 2014-2016 é sintoma claro de uma economia que padece de insuficiência crônica de demanda efetiva.

Existem diversos fatores que explicam o porque da demanda efetiva ter se mostrado cronicamente insuficiente nos últimos anos para permitir a eliminação completa do hiato do produto, mas um fator particularmente importante consiste no fato de que a política monetária brasileira tem se mostrado insuficientemente estimulativa, como apontado recentemente por Borges e Borça (2019a, 2019b). Embora o Banco Central do Brasil tenha realizado um processo de redução significativa da taxa Selic, tanto em termos nominais como em termos reais desde o final do segundo semestre de 2016, o valor neutro da taxa Selic – ou seja, o valor da taxa Selic que é compatível com uma inflação estável – também se reduziu ao longo desse período (ver figura 3) em função do efeito que o aumento do desemprego tem sobre as famílias que continuam empregadas durante a recessão, levando-as a reduzir seus gastos de consumo por razões puramente precaucionais (ver Vines e Wills, 2018). Dessa forma, a redução da taxa neutra de juros ocorreu concomitantemente ao processo de flexibilização monetária por parte do Banco Central do Brasil, reduzindo assim a amplitude do estímulo monetário dado para a economia brasileira.

Não é mais possível ou desejável esperar pela aprovação da Reforma da Previdência para então dar o estímulo monetário adicional que a economia brasileira precisa desesperadamente para não cair novamente em recessão. Usando uma metáfora adaptada da medicina a economia Brasileira é um como paciente que está sofrendo de bradicardia (ritmo cardíaco insuficiente), enquanto a equipe médica responsável pelo mesmo deseja realizar uma cirurgia bariátrica para resolver um problema de obesidade mórbida. Está claro que a obesidade mórbida é um risco para a vida do paciente no médio e longo-prazo e que, portanto, a cirurgia bariátrica é o tratamento adequado. Contudo, se a cirurgia for feita sem haver sido resolvido o quadro de bradicardia – o que exige, provavelmente, a implantação de um marca-passo – o risco é o paciente morrer na sala de cirurgia.

O Banco Central do Brasil precisa assumir sua responsabilidade com o presente da economia brasileira e reiniciar o processo de redução da taxa básica de juros já na próxima reunião do COPOM. Se não fizer poderá ser tarde demais para salvar … 2020.

Referências Bibliográficas.

  • Borges, B; Borça Jr, G.(2019a). “O quão estimulativa é a política monetária brasileira”. Blog do IBRE, 03 de janeiro.
  • Borges, B; Borça Jr, G.(2019b). “Deve o BC reduzir a Selic? Sim, e não estará desrespeitando o sistema de metas”. Blog do IBRE, 14 de fevereiro.
  • Vines, D; Wills, S. (2018). “The Financial System and the Natural Real Interest Rate: towards a ´new benchmark model”. Oxford Review of Economic Policy, Vol. 34, n.1, pp.252-268.
Anúncios