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No meu último post sobre a abordagem do supermultiplicador Sraffiano (https://jlcoreiro.wordpress.com/2019/02/17/criticas-ao-supermultiplicador-sraffiano-o-modelo-de-thirwall-e-o-novo-desenvolvimentismo/) argumentei que esse “fechamento” para os modelos heterodoxos de crescimento e distribuição de renda possui duas deficiências fundamentais. A primeira, enfatizada por Nikiforos (2018), é a hipótese de que o grau normal de utilização da capacidade produtiva é exógeno o que, além de fazer com que o nível de utilização da capacidade produtiva seja determinado pelas condições de oferta no longo-prazo, tornando-o assim similar ao “modelo clássico”; simplesmente ignora toda a literatura desenvolvida nos últimos 30 anos, na qual se endogeniza o grau de utilização da capacidade (Skott, 1989; Oreiro, 2004; Nikiforos, 2013). Além disso, a endogenização do grau de utilização da capacidade produtiva permite que a capacidade excedente não-planejada nos modelos neo-kaleckianos convirja para zero no longo-prazo; respondendo assim a crítica dos autores marxistas (Duménil, G; Lévy, D.1995, 1999) a respeito da capacidade dos modelos neo-kaleckianos serem capazes de retratar as propriedades de longo-prazo das economias capitalistas.

A segunda crítica – elaborada por Oreiro e Costa Santos (2019), e inspirada em Bortis (1997), um dos “pais fundadores” da abordagem do SSM – refere-se a aplicabilidade da abordagem do SSM para uma pequena economia aberta com atividades governamentais. Os modelos usuais do supermultiplicador Sraffiano – como, por exemplo, o elaborado por Freitas e Serrano (2015) e Lavoie (2016, 2017)- assumem uma economia fechada e sem governo de forma que a fonte de crescimento da demanda autônoma que não cria capacidade é o consumo das famílias, podendo o mesmo ser financiado por crédito, como em Freitas e Serrano (2015), ou pela riqueza dos capitalistas, como em Lavoie (2016, 2017). Nesse tipo de arcabouço não existe espaço, por definição, para tratar de questões relacionadas a restrição de balanço de pagamentos e/ou a solvência intertemporal das finanças públicas. Contudo, ao se elaborar um modelo SSM para uma pequena economia aberta com atividades governamentais, e onde a taxa de crescimento das exportações e dos gastos do governo crescem a uma taxa exógena, mas não necessariamente igual; Oreiro e Costa Santos (2019) mostram que a existência de uma trajetória de crescimento balanceado de longo-prazo só é possível no caso em que a taxa de crescimento das exportações é igual ou maior do que a taxa de crescimento dos gastos do governo; de onde se conclui que a abordagem SSM só se aplica para o caso de um regime de crescimento do tipo export-led. Nesse caso, contudo, a abordagem SSM torna-se indistinguível do modelo de Thirwall (1979, 2002) de crescimento com restrição de balanço de pagamentos; como também compatível com a macroeconomia desenvolvimentista, a qual estabelece que o crescimento de longo-prazo das economias capitalistas que não possuem moeda conversível – ou seja, os países de renda média – deve ler liderado pelas exportações de manufaturados (Bresser-Pereira, Oreiro e Marconi, 2015).

Em função dessas deficiências, não me parece provável que a abordagem do SSM consiga sobreviver por muito tempo, uma vez que tenha passado a euforia inicial com a mesma ao ser vista como uma espécie de tábua de salvação para os modelos neo-kaleckianos de crescimento e distribuição de renda, como argumentei em outro post (https://jlcoreiro.wordpress.com/2019/02/16/a-controversia-entre-peter-skott-e-marc-lavoie-e-o-supermultiplicador-sraffiano/).

Se essa conjectura estiver correta então qual o futuro dos modelos de crescimento liderados pela demanda? Estariam eles condenados ao desaparecimento ? Eu não acredito que esse seja o caso. Comecemos com os modelos neo-kaleckianos. A crítica de Peter Skott (2010) a especificação da função investimento dos mesmos foi muito forte; mas ela pode ser respondida, de forma razoavelmente tranquila, por intermédio da endogenização do grau normal de utilização da capacidade produtiva. Ao se fazer “un” uma constante no curto-prazo; mas uma variável endógena no longo-prazo; então a propensão marginal a investir de longo-prazo será maior do que a propensão marginal a investir de curto-prazo, respondendo assim a crítica de Skott. Essa endogenização dará lugar, contudo, ao aparecimento de equilíbrios múltiplos para o grau de utilização da capacidade produtiva e a participação dos lucros na renda, como demonstrado em Oreiro (2016, pp. 122-123). Em particular, teremos dois equilíbrios de longo-prazo; um equilíbrio com elevada utilização da capacidade produtiva e baixa participação dos lucros na renda nacional; e outro equilíbrio com baixa utilização da capacidade produtiva e elevada participação dos lucros na renda. O motor do crescimento de longo-prazo será, contudo, o componente autônomo da demanda de investimento, determinado pelo animal spirits dos capitalistas. Nesse contexto, a distinção entre regimes de crescimento do tipo wage-led e profit-led perde todo o sentido, pois mudanças na distribuição funcional da renda entre salários e lucros não terão nenhum impacto sobre o investimento autônomo.

Uma outra vertente dos modelos de crescimento liderados pela demanda consiste nos modelos Kaldorianos de crescimento, dos quais o modelo de Thirwall é um caso particular. O aspecto essencial dos modelos Kaldorianos de crescimento é combinar o multiplicador dinâmico do comércio exterior de Harrod com uma equação dinâmica para a taxa de crescimento das exportações, uma equação para a dinâmica da taxa de inflação e uma equação para a taxa de crescimento da produtividade do trabalho, inspirada na assim chamada “lei de Kaldor-Verdoorn” (Oreiro, 2016, capítulo 4, pp. 79-85). O modelo Kaldoriano canônico, elaborado pioneiramente por Dixon e Thirwall (1975), não só é compatível com uma solução de steady-state; como ainda mostra em quais condições uma determinada economia pode fazer o catching-up com respeito ao resto do mundo, bem como em que condições pode ocorrer uma situação de fallind-behind. O modelo canônico Kaldoriano foi estendido recentemente por Santana e Oreiro (2018) para incorporar mobilidade imperfeita de capitais, política monetária conduzida por intermédio de um regime de metas de inflação e câmbio flutuante. Nesse arcabouço, Santana e Oreiro mostram que a política monetária pode afetar a taxa de crescimento de longo-prazo do produto real, por intermédio de um aumento permanente da meta de inflação, ao induzir uma subvalorização temporária da taxa real de câmbio, a qual permanece, durante alguns períodos, acima do nível de equilíbrio industrial, estimulando assim um aumento da participação da indústria de transformação no PIB. Como a participação da indústria de transformação tem um impacto positivo no coeficiente Kaldor-Verdoorn de indução do crescimento da produtividade do trabalho pelo crescimento do nível de produção; segue-se que a taxa natural de crescimento da economia irá aumentar como resultado direto desses desdobramentos. Daqui se segue, portanto, que os modelo kaldorianos de crescimento não apenas possuem uma estrutura teórica mais abrangente do que a abordagem do SSM, como parecem ser muito mais promissores em termos de possibilidades de desenvolvimentos futuros.

Outra possibilidade de desenvolvimento para os modelos de crescimento liderados pela demanda é abandonar a abordagem de equilíbrio ou steady-state e enveredar para a análise dinâmica, na qual o objetivo não é descrever as propriedades de um sistema econômico numa posição de repouso; mas a dinâmica desse sistema ao longo do tempo. Um exemplo recente desse tipo de abordagem é o trabalho de Dávila-Fernandez e Sordi (2017). Nesse artigo, os autores expandem o modelo de ciclo distributivo de Goodwin (1967) para uma economia aberta de forma a incorporar uma restrição de balanço de pagamentos. Além disso, os autores incorporam uma função de progresso técnico, no qual a taxa de crescimento da produtividade do trabalho é uma função do nível de utilização da capacidade produtiva; e uma função investimento na qual a taxa de crescimento do estoque de capital é uma função positiva do nível de utilização da capacidade produtiva e negativa da participação dos salários na renda, na minha de Bhaduri e Marglin (1990). O resultado é um modelo com quatro equações diferenciais, no qual se produzem flutuações regulares para a taxa de crescimento do produto e do estoque de capital, do grau de utilização da capacidade produtiva, para a participação dos salários (e dos lucros) na renda e para o grau de utilização da capacidade produtiva.

Além disso, não podemos esquecer dos modelos com consistência entre estoques e fluxos (SFC), os quais ganharam importância crescente na literatura heterodoxa a partir do livro de Godley e Lavoie (2017). Esses modelos permitem a integração entre as duas vertentes do pensamento pós-keynesiano (Oreiro et al, 2018), e podem ser facilmente adaptados de forma a serem convertidos em modelos de crescimento, como fica cabalmente demonstrado no capítulo 11 de Godley e Lavoie (2007), onde os autores apresentam um protótipo de modelo de crescimento SFC. Esse modelo permite a análise da interação entre as variáveis reais e financeiras de uma economia capitalista, elemento absolutamente ausente da abordagem SSM. Deve-se ressaltar também que no protótipo de modelo de crescimento desenvolvido por Godley e Lavoie, o nível de produção das firmas é determinado pela demanda esperada pelas firmas, de forma que o modelo é plenamente compatível com o princípio da demanda efetiva. 

Em suma, existe uma ampla gama de possibilidades de pesquisa teórica no campo dos modelos de crescimento e distribuição de renda além da abordagem SSM, a qual não me parece ser um campo muito fértil para novos desenvolvimentos. Jovens pesquisadores na área dos modelos heterodoxos de crescimento devem, portanto, manter uma “cabeça aberta” para as diversas agendas de pesquisa existentes; sem se deixar dominar por “modismos passageiros” ou, o que seria pior, por dogmatismos teóricos.

Referências

 

Bhaduri, A., Marglin, S. (1990). Unemployment and the real wage: The economic basis for contesting political ideologies. Cambridge Journal of Economics 14(4), 375-393.

BORTIS, H. (1997). Institutions, Behavior and Economic Theory: a contribution to Classical-Keynesian Political Economy. Cambridge University Press: Cambridge

BRESSER-PEREIRA, L.C; OREIRO, J.L; MARCONI, N. (2015). Developmental Macroeconomics: new developmentalism as a growth strategy. Routledge: Londres.

Dávila-Fernández; M. J; Sordi, S. (2017). “Distributive cycles and endogenous technical change in a BoPC growth model”. QUADERNI DEL DIPARTIMENTO DI ECONOMIA POLITICA E STATISTICA, N. 760, outubro.

Dixon, R.J. and Thirlwall, A.P. (1975), “A model of regional growth-rate differences along Kaldorian lines”, Oxford Economic Papers, Vol. 27, No. 2, pp. 201-214

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Godley, W; Lavoie, M. (2007). Monetary Economics: An integrated approach to Credit, Money, Income, Production and Wealth.  Palgrave Macmillan: Londres.

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