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Uma das principais implicações do assim chamado Princípio da Demanda Efetiva enunciado por J.M.Keynes no capítulo 3 de sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936) é a relação de determinação da poupança agregada pelo investimento. No modelo desenvolvido por Keynes, um aumento do investimento planejado pelas empresas irá induzir um crescimento de tal magnitude do nível de emprego e de renda que, ao final do processo, a poupança agregada terá aumentado na mesma magnitude do que a poupança (Amadeo, 1989). Como corolário dessa argumentação segue-se que não pode haver uma “escassez” de poupança no sistema econômico, pois o investimento sempre cria uma poupança na mesma magnitude. Esse resultado é igualmente válido para uma economia aberta, embora a composição da poupança entre poupança doméstica e poupança externa, seja uma variável que depende, entre outros fatores, da taxa real de câmbio. Dessa forma, um aumento do investimento privado irá sempre produzir um aumento equivalente na poupança total; mas a poupança doméstica pode não acompanhar o aumento do investimento caso a taxa real de câmbio esteja sobrevalorizada. Nesse caso, o aumento correspondente da poupança será atendido por “poupança externa”; aumentando assim a fragilidade externa da economia em consideração.

A extensão do princípio da demanda efetiva para o longo-prazo – ou seja, para aquele intervalo de tempo para o qual o estoque de capital, o tamanho e a qualificação da força de trabalho e as técnicas de produção variam ao longo do tempo – foi feito pelos autores pertencentes a assim chamada Escola de Cambridge (Reino Unido), os quais acabaram sendo denominados de pós-keynesianos. Nesse grupo podemos destacar Roy Harrod, Nicholas Kaldor e Luigi Pasinetti. Os modelos desenvolvidos por esses autores tinham como suposto básico a ideia de que, no longo-prazo, o estado normal de operação de uma economia capitalista seria a plena utilização da capacidade produtiva existente. Nesse contexto o ajuste entre poupança e investimento não poderia mais ser feito por intermédio de variações do grau de utilização da capacidade produtiva; mas por alterações na distribuição de renda entre salários e lucros, a qual se tornava uma variável endógena ao processo de crescimento econômico. Partindo do pressuposto fundamental de que a propensão média a poupar da economia é uma média ponderada das propensões a poupar a partir de salários e lucros, cada qual multiplicada pela participação da classe de rendimentos correspondente na renda nacional; e que a propensão a poupar a partir dos lucros é maior do que a propensão a poupar a partir dos salários (no caso de Kaldor porque as empresas são compelidas, num ambiente de retornos crescentes de escala, a realizar gastos de investimento para, pelo menos, manter o seu market-share e assim não perder competitividade); segue-se que a participação dos lucros na renda nacional pode atuar como variável de ajuste entre investimento e poupança.

Consideremos uma economia que opera inicialmente em equilíbrio de longo-prazo e que ocorre um aumento da taxa de investimento. Ao nível inicial de distribuição de renda, a taxa de investimento será maior do que a taxa de poupança e a economia ficará sobreaquecida. Nessas condições as firmas deverão aumentar suas margens de lucro o que fará com que, a nível da economia como um todo, a participação dos lucros na renda nacional aumente. O aumento da participação dos lucros irá aumentar a propensão média a poupar de tal forma que a taxa de poupança irá se ajustar ao novo valor da taxa de investimento. O investimento continua determinando a poupança, mas a variável de ajuste é a distribuição de renda, ao invés do nível de emprego e de utilização da capacidade produtiva. Nessa classe de modelos, contudo, uma aceleração permanente da taxa de investimento e de acumulação de capital vem necessariamente acompanhada por um aumento (redução) da participação dos lucros (salários) na renda. Em outras palavras, nesses modelos o regime de crescimento é do tipo profit-led.

Mais recentemente uma série de autores autoproclamados “neo-ricardianos” – entre os quais Serrano (1995), Bortis (1997) e Dejuan (2005) – desenvolveram um novo mecanismo de ajuste entre poupança e investimento que (i) manteria a “posição keynesiana” de determinação da poupança pelo investimento; (ii) seria compatível com a economia operando numa posição de equilíbrio de longo-prazo na qual a demanda agregada e a capacidade produtiva estariam plenamente ajustadas uma a outra, de forma que o grau de utilização da capacidade produtiva seria igual ao grau “normal” de utilização da capacidade, exogenamente determinado; (iii) seria compatível uma distribuição de renda entre salários e lucros exógena ao sistema econômico; e (iv)  alterações exógenas da participação dos salários na renda seriam compatíveis com um aumento do nível de renda e de estoque de capital na trajetória de crescimento de longo-prazo; embora não tenha efeito sobre a taxa de crescimento dessas variáveis, a qual seria determinada pela taxa de crescimento do componente da demanda autônoma que não cria capacidade produtiva. Esse componente pode ser a parcela do consumo das famílias que é financiado por intermédio de aumento do endividamento, o investimento residencial, as exportações ou os gastos do governo. Na versão mais simples desse mecanismo, o consumo financiado pelo endividamento é escolhido como o motor de crescimento da demanda autonôma. Esse mecanismo de ajuste ficou conhecido como o modelo do Supermultiplicador Sraffiano (SSM).

Como opera esse mecanismo? A ideia básica do supermultiplicador é muito simples. O ponto de partida do SSM consiste em observar que a propensão média a poupar da economia pode ser diferente da propensão marginal a poupar se considerarmos a existência de um termo autônomo na função poupança. Assim, ao invés de supormos que a poupança é uma função linear da renda como no modelo de Harrod (1939) [S=sY, onde s é a propensão marginal a poupar] ou uma média ponderada entre as propensões a poupar a partir dos salários e lucros como em Kaldor (1956) e Pasinetti (1961) [ S = s1*w Y+ s2*(1-w)Y, onde s1 é a propensão a poupar a partir dos salários, s2 é a propensão a poupar a partir dos lucros , w é a participação dos salários na renda nacional; ]; iremos supor que a função poupança pode ser escrita como S = -Z + s.Y (onde Z é o consumo autônomo). Se dividirmos S pelo nível de produto temos que S/Y = s – z (onde z = Z/Y). Considere agora que h = I/Y é a taxa de investimento. Suponha que a mesma seja constante no curto-prazo. O equilíbrio no mercado de bens para uma economia fechada e sem governo exige que h = s -z. Como h e s são variáveis exógenas; segue que a variável de ajuste deve ser z, ou seja, o consumo autônomo por unidade de produto. Dessa forma, um aumento exógeno da taxa de investimento irá levar a uma redução de z para que a taxa de poupança agregada se ajuste ao novo nível da taxa de investimento. O investimento continuará determinando a poupança, mas a variável de ajuste não mais será o grau de utilização da capacidade produtiva ou a distribuição funcional da renda; mas a relação entre o consumo autônomo e o nível de renda.

Mas no médio e longo-prazo a propensão a investir não fica constante. Com efeito ela deve se ajustar ao longo do tempo em função da diferença entre o grau efetivo e o grau normal de utilização da capacidade produtiva; ou seja, dh/dt = h (u – un), onde un é o grau normal de utilização da capacidade. Além disso, a relação entre o consumo autônomo e o estoque de capital z deve variar ao longo do tempo com base na seguinte equação dz/dt = z (gz – gk), onde gz é a taxa de crescimento do consumo autônomo, a qual é tida como exógena ao modelo. Por fim, o grau de utilização da capacidade produtiva irá se ajustar ao longo do tempo com base na seguinte equação du/dt = u (g – gk), onde g é a taxa de crescimento do produto e gk é a taxa de crescimento do estoque de capital.  O equilíbrio de longo-prazo do sistema é tal que (dh/dt)=(dz/dt)=(du/dt)=0. Nessa posição teremos que u=un;  gz = gk, g = gk; ou seja, o grau de utilização da capacidade produtiva será igual ao normal, mas a taxa de crescimento do  nível de produto e do estoque de capital será igual a taxa de crescimento do consumo autônomo. No modelo SSM o nível de utilização da capacidade produtiva é determinado pelas condições de oferta da economia no longo-prazo; mas a taxa de crescimento do produto e do estoque de capital são determinados pela taxa de crescimento do componente da demanda autônoma que não cria capacidade. Trata-se de um modelo no qual a Lei de Say vale para o  o grau de utilização da capacidade produtiva; mas o princípio da demanda efetiva vale para a taxa de crescimento do produto!

Neste modelo um aumento da taxa de crescimento do consumo autônomo irá acelerar o ritmo de expansão da demanda agregada relativamente ao ritmo de expansão do estoque de capital  (gk) fazendo com que ocorra um aumento do grau de utilização da capacidade produtiva (u), o qual ficará maior do que o nível normal de utilização da capacidade (un). Como o grau de ociosidade da capacidade produtiva será menor do que o nível normal de longo-prazo, as empresas do setor privado, pressionadas pela concorrência, irão acelerar seus planos de investimento, aumentando assim a taxa de investimento (h), o que irá acelerar a taxa de crescimento do estoque de capital (gk) e, por conseguinte, reduzir o nível de utilização da capacidade produtiva. O aumento de h, por sua vez, irá reduzir o valor de z, de forma que ao longo do processo de transição para o novo equilíbrio de longo-prazo o nível de atividade produtiva deverá crescer mais rapidamente do que o consumo autônomo. Ao final do processo terá ocorrido um aumento permanente na taxa de crescimento do produto e do estoque de capital, e um aumento igualmente permanente no nível de produto e do estoque de capital; mas o grau de utilização da capacidade produtiva terá voltado ao seu valor normal de longo-prazo.

O modelo do SSM tem ganhado popularidade no meio acadêmico brasileiro e internacional devido a controvérsia entre Marc Lavoie (2016; 2017) e Peter Skott (2016) sobre a especificação da função investimento dos modelos neo-kaleckianos de crescimento e distribuição de renda, a qual teve início no trabalho seminal de Skott (2010).  A análise dessa controvérsia e da relação da mesma com o SSM será objeto de um próximo post.

Referências

AMADEO, E.J. (1989). Keynes´s Principle of Effective Demand. Edward Algar: Aldershot.

BORTIS, H. (1997). Institutions, Behavior and Economic Theory: a contribution to Classical-Keynesian Political Economy. Cambridge University Press: Cambridge

Dejuán, O. (2005). “Paths of accumulation and growth: towards a Keynesian long-period theory of output.” Review of Political Economy 17(2): 231–52

HARROD, R.F.  (1939). “An Essay in Dynamic Theory” In: A. Sen (org). Growth Economics. Penguin Books: Middlesex, 1970.  

KALDOR, N. (1956). “Alternative Theories of Distribution”. Review of Economic Studies, 23, pp. 83-100.

KEYNES, J.M. (1936). The General Theory of Employment, Interest and Money. Macmillan Press: Cambridge

Lavoie, M. (2016). “Convergence towards the normal rate of capacity utilization in neo-Kaleckian models: The role of non-capacity creating autonomous expenditures”. Metroeconomica, 67(1), 172–201.

Lavoie, M. (2017). “Prototypes, reality and the growth rate of autonomous consumption expenditures: A rejoinder”. Metroeconomica, 68(1), 194–199

Pasinetti, L. (1961-62). “Rate of Profit and Income Distribution in relation to the Rate of Economic Growth In: A. Sen (org.). Growth Economics. Penguin Books: Middlesex, 1970.

Serrano, F. (1995). ‘Long Period Effective Demand and the Sraffian Supermultiplier.’ Contributions to Political Economy 14 67–90.

SKOTT, P. (2010). “Growth, Instability and Cycles: Harrodian and Kaleckian models of accumulation and income distribution” In: SETTERFIELD, M. (org.). Handbook of Alternative Theories of Economic Growth. Edward Elgar: Aldershot

Skott, P. (2016). “Autonomous demand, Harrodian instability and the supply side”. Department of Economics Working Paper Series. 215. Retrieved from http://scholarworks.umass.edu/econ_workingpaper/215.