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Caros leitores,

 

Relutei muito em escrever estas linhas. Minha experiência pregressa mostra que o posicionamento político-partidário explícito não é saudável para intelectuais, pois reduz a credibilidade das opiniões e análises proferidas por quem adota tais posicionamentos. Além disso, o clima de fla-flu reinante na política brasileira me faz ter um cuidado redobrado com as opiniões que eu possa externar, para não causar um vendaval de críticas mal-criadas a minha pessoa ou minha família.

Mas a possibilidade concreta de ter um fascista na Presidência da República não deixa muito espaço para “respeitos humanos”. As eleições de 2018 que deveriam tratar dos temas urgentes da sociedade brasileira como, por exemplo, a redução do desemprego, a retomada do desenvolvimento econômico, a redução da miséria e da desigualdade social, tornou-se um plebiscito sobre a conveniência ou não de ter um Presidente da República que defende a tortura, a discriminação de seres humanos com base na sua etnia, origem social ou orientação sexual, a execução sumária de seres humanos, sem o devido processo legal e amplo direito de defesa, caso os mesmos sejam vistos como “bandidos” e ainda, pasmem, o fim das liberdades democráticas e do Estado de Direito caso o “comando do Exército”, iluminado por alguma força divina, ache que a anarquia está tomando conta do país.

Nessas condições em que o país se encontra, não vejo outra opção que não seguir o saudoso governador Leonel Brizola e dizer um “não rotundo” a candidatura que representa a maior ameaça às liberdades democráticas desde a restauração do governo civil no Brasil em 1985.

Para derrotar o fascismo é necessário reconhecer, para o bem ou para o mal, que existe em amplos segmentos da sociedade brasileira uma grande aversão ao “petismo”. No momento atual, os principais institutos de pesquisa colocam Fernando Haddad do PT na frente de Ciro Gomes do PDT na disputa de uma vaga para o segundo turno das eleições presidenciais. Um segundo turno entre o “inominável” (também conhecido como “coiso”, “besta do apocalipse”, “pé preto”, etc) e o candidato do PT representa um sério risco de vitória das forças do atraso e da tirania. Em função disso minha opção de voto para o primeiro turno das eleições presidenciais é Ciro Gomes.

Reconheço que existem muitos óbices razoáveis a figura de Ciro Gomes. O mais comentado é sua língua ferina, que dia sim e outro também, acaba por fazer afirmações e ofensas a desafetos que não geram nenhum benefício eleitoral e ainda causam antipatia em muitas pessoas que poderiam votar nele. Espero que o peso da responsabilidade de derrotar um proto-fascista nas eleições de outubro tornem Ciro Gomes mais comedido com suas palavras.

Também não me agradam muitas das suas ideias no campo econômico. A defesa infantil da auditoria cidadã da dívida pública (que ouvi da sua própria boca em palestra realizada em março de 2018 na FACE/UnB), a insistência na implantação de um sistema de capitalização para a previdência social, quando até as pedras sabem que o custo de transição para o novo regime é impagável, e sua estratégia de reindustrialização apoiada, entre outros setores, no complexo do petróleo e gás quando os países desenvolvidos estão crescentemente adotando tecnologias de produção de energia que não são baseadas no carbono, são coisas com as quais não concordo e acredito que devem ser repensadas caso Ciro Gomes seja eleito Presidente da República. Confio na inteligência e agudeza de Ciro e que, no momento certo, ele deverá rever essas posições.

Contudo, está em jogo mais do que o modelo de desenvolvimento brasileiro. Está em jogo o destino da civilização brasileira. Que Brasil queremos para nós e nossos filhos? Um país onde a intolerância, o ódio e o autoritarismo irão ser o guia para a prática política? Somos tão descrentes assim da democracia que estamos dispostos a aceitar como Presidente (e vice-Presidente da República) uma pessoa que afirma que estão disposta a dar um golpe militar caso as circunstâncias assim exijam? Estamos dispostos a permitir que o Brasil se torne o único grande país do Mundo Ocidental a ser ter um governo militar e não democrático? (As unicas excessões na América Latina são Cuba e Venezuela, onde os presidentes da República são militares e o regime é claramente não democrático).

Alguns dos que estiverem lendo estas linhas poderão dizer que eu estou exagerando. Dirão que o “inominável” está apenas representando um papel, que no fundo, no fundo, ele não é nada disso e que eleito Presidente será bem menos radical do que se pensa. Não compartilho com esse otimismo. A figura em questão durante quase trinta anos de vida pública vem afirmando repetidas vezes seu desprezo pela democracia, pelos direitos humanos e pela diversidade de comportamentos e opiniões. Nada do que ele falou ou escreveu até agora me fazem pensar que ele tenha mudado de ideia. E mesmo que ele faça uma “carta ao povo brasileiro” afirmando seu compromisso com a paz social e a democracia, ainda assim não confiarei nele. A história mostra que pessoas que defendem as ideias dele são mentirosas costumazes. Em 1938 Hitler garantiu ao Primeiro Ministro Chamberlin do Reino Unido que a região dos Sudetos seria a última reinvidicação territorial da Alemanha. Não foi. Como afirmou Churchill na época,  ele Chamberlim “entre a paz e a desonra, escolheu a desonra. Terá a guerra sem honra”.

Tenho convicção que Ciro Gomes é, no momento atual da história do Brasil, o candidato que tem mais chances de derrotar o fascismo. Por isso meu voto no primeiro turno será para ele. Que Deus abençoe o Brasil e nos liberte do Mal.