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Crise de abastecimento no Brasil fortaleceu o sentimento no Congresso de que o governo acabou, mas forçar a derrubada seria arriscado

Por Fábio Schaffner

No nono dia da greve dos caminhoneiros, com as estradas ainda bloqueadas e a gasolina faltando nas bombas mesmo após o governo anunciar o segundo acordo consecutivo com a categoria, o Congresso formou comissão geral para discutir a crise dos combustíveis.

Das 9h52min às 16h02min, 75 pessoas se revezaram nos microfones da Câmara, em Brasília.

Representante oficial do Planalto sentado à mesa, o ministro Moreira Franco (Minas e Energia) só apareceu após ser cobrado publicamente pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas não ousou pronunciar o nome do presidente Michel Temer, atitude repetida por ex-colegas de Esplanada como Osmar Terra (MDB-RS) e Mendonça Filho (DEM-PE).

O líder do governo, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), sequer pediu a palavra. Apenas 14 oradores invocaram o presidente, todos para criticá-lo. A despeito dos discursos virulentos, em nenhum momento alguém pediu sua renúncia ou gritou o bordão “Fora, Temer”.

Temer só termina o mandato porque a eleição é logo ali. Como teve muita gente pedindo intervenção militar, tirá-lo nesse contexto é um perigo porque ninguém sabe o que pode vir por aí – diz o economista José Luiz da Costa Oreiro, professor da UnB. 

O desprezo à principal autoridade da nação em meio ao debate mais agudo sobre os transtornos causados pelo desabastecimento geral sedimentou um sentimento no Congresso: o governo acabou, mas forçar uma derrubada neste momento seria ainda mais arriscado.

Durante toda a semana, parlamentares citaram os mais de 20 pedidos de impeachment protocolados na Câmara, mas ninguém se animou a atiçar Maia, primeiro na linha sucessória.

— O Brasil entrou numa situação muito grave. O cenário é ruim para todas as forças políticas e ninguém tem interesse em assumir o governo até o fim do ano. Então, criou-se um clima de que é melhor deixar como está para ver se não piora — diagnostica a cientista política Maria do Socorro Braga, professora da Universidade de São Paulo.

A quatro meses da eleição, Temer se tornou o personagem mais tóxico da política nacional. Seus porta-vozes emudeceram, aliados apagam fotos com ele em redes sociais e assessores ministeriais compartilham via WhatsApp piadas sobre a desgraça vivida pelo próprio governo.

Assustado com a crescente insatisfação popular e o abandono a que foi relegado, o emedebista tentou reagrupar a base nos últimos dias distribuindo cargos e emendas. Para a próxima semana, acena com recursos extra orçamentários.

— Vivi a mesma experiência do impeachment da Dilma (Rousseff, ex-presidente). Todo mundo debandando, mas, mesmo assim, há muitos deputados ainda brigando por cargos. Estão abrindo o caixão para arrancar os dentes de ouro do defunto — compara um parlamentar.

Especialistas projetam redução da atividade econômica e do PIB

O descontentamento também se disseminou nas forças de segurança. Nos bastidores, analistas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) negaram a versão espalhada pelo Planalto de que Temer não foi informado previamente sobre os riscos da greve. Acionadas para desbloquear as estradas após os caminhoneiros ignorarem o primeiro acordo com o governo, as polícias estaduais, Federal e Rodoviária Federal não tiveram o mesmo protagonismo do Exército.

Os comandantes das Forças Armadas, a quem mais uma vez o Planalto recorreu em situação de sufoco, reclamaram da condução errática da crise, sobretudo porque primeiro o governo orientou os militares a liberarem o transporte de cargas, mas, depois, pediu que não houvesse prisões ou confronto. O alto oficialato receou ainda quebra da disciplina e hierarquia, com cabos e soldados se negando a assumir a direção dos caminhões parados, temor amplificado por informações recebidas na Câmara Criminal da Procuradoria-Geral da República de que havia militares entre os grevistas.

Sem a sustentação do Congresso e perdendo autoridade a cada dia, restava a Temer o respaldo do mercado. Esse apoio ruiu com os subsídios de R$ 9,5 bilhões para forçar a redução no preço do diesel e o pedido de demissão do presidente da Petrobras, Pedro Parente.

Especialistas projetam redução da atividade econômica e já reduzem à metade a previsão de crescimento do PIB para 2018, dos 2,5% anteriores para 1,2%. 

— Todos os indicadores já vinham ruins e tendem a piorar. O presidente passou de pato manco a pato morto — diz Oreiro. 

Para zerar a conta das concessões feitas aos caminhoneiros – alguns deles funcionários de transportadoras que devem R$ 52 bilhões à União –, Temer retirou benefícios fiscais do setor produtivo e cortou gastos de áreas como segurança, educação e saúde.

O Criança Feliz, único programa social criado por seu governo, perdeu R$ 3,8 milhões ao tempo em que a mortalidade infantil voltou a subir após 13 anos de quedas sucessivas. Já o Ministério das Minas e Energia, cujo titular preside a política de combustíveis, sofreu corte de R$ 939 milhões, sendo irrisórios R$ 9,7 mil em auxílio-moradia de servidores. Algumas das medidas precisam passar pelo crivo do Congresso.

— Tenho dúvidas se consegue aprovar. Temer perdeu o protagonismo na condução da agenda legislativa e, agora, vêm as festas juninas e a Copa do Mundo, período em que o Congresso entra em recesso branco. Se algo for votado, é por vontade da Casa, daí resta ao governo fingir que a pauta é dele — comenta o analista político Antônio Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

Em meio ao turbilhão de más notícias, o presidente reservou parte da quinta-feira para rezar em um culto da Assembleia de Deus, em Brasília, no qual os fiéis foram orientandos a evitar vaias e hostilidades.

Antes de pedir que “orem por mim e orem pelo governo”, Temer disse se sentir “iluminado”.

— Acho que fui chamado no dia de hoje, viu, bispo Manuel Ferreira, iluminado por Deus, porque… na verdade, disseram: “olha, vá lá no templo da Assembleia de Deus comemorar a pacificação do país” — relatou o presidente.