Tags

,

A inflação no menor nível em duas décadas e os juros no mais baixo patamar da história estão dando condições para os brasileiros voltarem a demandar bens e serviços, mas a sustentabilidade desse cenário positivo depende do próximo presidente da República
As condições para que o consumo das famílias retome um sustentado ciclo de crescimento estão dadas. Com a inflação no menor nível em duas décadas e os juros no mais baixo patamar da história, o cenário é favorável para que os consumidores voltem a demandar bens e serviços. Após dois anos de uma das mais duras recessões da história do país, eles querem, e, aos poucos, sentem que podem gastar. Sobretudo, pelos sinais de melhora do mercado de trabalho. Para garantir a sustentabilidade desse período de reaquecimento em 2019, será necessário que o próximo presidente da República mostre comprometimento com o equilíbrio fiscal.Motivos não faltam para crer que o consumo avance nos próximos anos. Em 2017, em face do processo de redução de dívidas das famílias, desaceleração da inflação e queda dos juros, a conjuntura para os gastos é favorável. Ao ponto de a Rosenberg & Associados projetar alta de 1,2% no consumo das famílias em 2017, mais do que o Produto Interno Bruto (PIB), que avançará 0,9%. Para 2018, as expectativas da consultoria apontam para a manutenção do crescimento das despesas dos consumidores, de 2,8%, acima da geração de riquezas do país, que subirá 2,5%.

Enquanto os especialistas percebem a melhora nos números, as famílias a sentem no bolso. Boa parte dos gastos que a dona de casa Priscila Trigueiro, 29 anos, e o marido, o analista contábil Carlos Trigueiro, 29, precisaram segurar ao longo do ano saíram do papel nos últimos três meses. “Trocamos de cama, compramos celulares novos e conseguimos reformar a cozinha”, conta Carlos. Os reflexos chegaram à ceia de Natal. O quilo do bacalhau, lembra a dona de casa, estava R$ 10 mais barato este ano. O filho do casal, Gabriel, 3, também percebeu que o Papai Noel foi mais generoso. “No ano passado, ele ganhou uma bicicleta. Este ano, foram cinco brinquedos diferentes. O nível dos presentes para os familiares melhorou. Deixou de ser só lembrancinha”, comemora Priscila.

A explicação para o aumento dos gastos está ancorada na conjuntura criada pela atual política econômica. Com as expectativas de inflação acomodadas, os juros caíram e as concessões para consumidores se recuperaram. Para a economista-chefe da Rosenberg, Thaís Zara, o quadro deve ser mantido em 2019. “Com a melhora dos mercados de crédito e de trabalho, a perspectiva é muito boa para o consumo das famílias nos próximos dois anos”, avalia.

Puxado por tais condições, o consumo em 2019 subirá 3,5%, mas a perspectiva de alta acima do PIB para por aí. A previsão de geração de riquezas da Rosenberg para o ano é a mesma das demandas das famílias. “É uma projeção sujeita a choques, dado o horizonte mais longo”, justifica Zara. Não é para menos. Se, por um lado, a economia deve deslanchar em 2018, por outro, as incertezas em relação à próxima política econômica tornam mais difíceis a assertividade das projeções. Sobretudo no campo político. “Até 2019, saberemos quem vai ser o presidente e sua capacidade de fazer reformas”, diz.

No caso de a reforma da Previdência ficar para 2019, o próximo governante precisará mostrar aos agentes econômicos a adoção de medidas necessárias para evitar a interrupção do crescimento. Sem o equilíbrio fiscal, os impostos tendem a subir e os investidores podem aplicar capital no mercado externo, o que elevaria o dólar em relação ao real. Os dois fatores provocam pressão sobre a inflação, obrigando o Banco Central (BC) a subir os juros, o que assusta empresários e inibe investimentos, fundamentais para a geração de empregos. “Ou seja, o quadro ficaria adverso para o consumo”, adverte o economista Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

“O consumo é uma junção de salário e crédito. Uma candidatura que não transmita comprometimento com os ajustes pode significar nova alta de juros e do câmbio. E, assim, o consumo vai encolher”, alerta Silveira. A reforma da Previdência, no entanto, não é a única medida que o próximo presidente deverá adotar. “Quem assumir vai ter que mexer em supersalários e nos benefícios do funcionalismo”, avalia. (Colaborou Alessandra Azevedo)

Relacionamento

Ter um bom relacionamento com os mercados internacionais poderá dar uma sobrevida ao próximo presidente da República. Portanto, a proposição de medidas austeras é imprescindível para obter apoio e confiança desses agentes econômicos e evitar a perda do mandato, alerta o economista Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores. “O mercado internacional financia importações e exportações, com efeito sobre juros e câmbio. É necessário ter uma boa relação com esses agentes. Peitar as regras desse mercado colocaria o Brasil em risco de terminar como a Grécia ou a Venezuela”, adverte.

____

Sem espaço ao populismo

A sustentabilidade do consumo exigirá mais do que o compromisso com o ajuste fiscal. Será igualmente importante que o próximo presidente da República evite políticas populistas voltadas para os gastos. Ainda que a aceleração da demanda não traga a inflação de volta a patamares elevados, uma vez que a capacidade ociosa ainda é grande, medidas de incentivo às despesas podem ser danosas e elevar os desembolsos acima do nível de produção atual da economia.

Medidas populistas podem gerar aumento da inflação e queda nas despesas, alerta o chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes. “Tende a fomentar o consumo no curto prazo e comprometer o cenário de inflação no longo prazo. O que pode preservar o quadro de inflação baixa é a retomada dos investimentos”, avalia.

“Historicamente, os governos seguram um pouco os gastos e os estímulos ao consumo no primeiro ano de mandato. A questão são as medidas a serem adotadas depois”, pondera. Bentes reforça que foram os incentivos aos gastos que levaram o país à recessão. “A crise da qual acabamos de sair foi plantada a partir do incentivo exagerado ao consumo”, lembra.

A corrida eleitoral ainda está longe de definição. Independentemente de quem ganhar, a agenda reformista será necessária. O que ajuda a acalentar as expectativas de que o populismo possa ficar em segundo plano. Para o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), é certo que ajustes serão promovidos. “Talvez não as reformas que o mercado quer. Mas ajustes serão inevitáveis”, sustenta.

Oreiro acredita que a homologação da reforma da Previdência ocorrerá somente em 2019. Sob os moldes de outro texto, e não será a única mudança em relação às propostas levadas pelo presidente Michel Temer ao Congresso Nacional. “Não será o texto da forma como está. As premissas da reforma da Previdência propostas da forma atual estão mal fundamentadas. O próprio teto de gastos precisará ser revisto, com talvez alguma mudança de indexador”, avalia.

A necessidade de uma agenda de reformas é mais do que uma questão ideológica e partidária. É a garantia de que o presidente terá governabilidade e diálogo com os mercados. Evitando, assim, violar a “regra de ouro”, que proíbe a emissão de dívida para pagar despesas correntes, e correr o risco de sofrer impeachment. (RC)

Anúncios