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Fábio Motta|Estadão

Os indicadores recentes de atividade econômica – que já fazem o governo emitir sinais de que a recuperação do País é lenta, mas consolidada – têm empolgado mais o mercado financeiro do que os economistas. Entre eles, a percepção é de que a economia dá sinais de melhora, mas a crise política adiou discussões relevantes, como a reforma da Previdência e a questão fiscal.

Na semana, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, voltou ao patamar dos 71 mil pontos, embalado pelo pacote de privatizações anunciado pelo governo, que inclui a Eletrobras e o aeroporto de Congonhas. Em um ano, a valorização acumulada da Bolsa é de 23,13%.

Apesar de reconhecerem avanços, economistas ouvidos são mais ponderados: há motivos para comemorar, mas a recuperação ainda é lenta e é preciso manter a percepção de que questões relevantes, como a fiscal, devem ficar para o próximo governo.

O professor da PUC-Rio José Marcio Camargo diz que parte da desconfiança dos economistas com a recuperação do País se explica pela neblina trazida pela situação política. “Mesmo que o governo não consiga mais fazer a reforma da Previdência que gostaria, algumas medidas de cortes de gastos estão sendo tomadas no curto prazo. A maior tranquilidade do mercado tem muito a ver com o que foi feito nos últimos 14 meses.”

Para José Roberto Mendonça de Barros, sócio fundador da consultoria MB Associados, há mesmo um certo descolamento entre as avaliações do mercado financeiro e dos economistas.

“Menos empolgados que o governo, os economistas também acreditam que o País parou de piorar, mas o enfraquecimento do Planalto após a delação do Joesley Batista, da JBS, freou essa recuperação. O mercado, por sua vez, é mais prático. Ele basicamente olha que foram aprovados a reforma trabalhista e o teto de gastos, que o governo pôs na mesa a discussão da TLP – a nova taxa de juros do BNDES – e acha que, apesar da demora na recuperação, está tudo bem encaminhado.”

Mendonça de Barros lembra que os investidores também apostam em sinais ainda não consolidados de que o segundo semestre será de números melhores na oferta de crédito e nas exportações. “Há uma perspectiva de que a Argentina cresça 2,7% neste ano, o que significa a recuperação mais robusta de um mercado onde os produtos brasileiros de maior valor, como carros, têm boa entrada.”

Concessões terão impacto fiscal pequeno

O economista José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, diz que o mercado ficou eufórico com a agenda de privatizações, mas que o impacto fiscal será muito pequeno. “Não resolve o problema e não destrava o investimento. Mesmo nas privatizações relevantes, como a da Eletrobrás e de aeroportos, até que o novo controlador tome posse e faça investimentos levará tempo”, disse

“Parece haver uma falta de pressa. O governo, que já demorou demais para cortar juros, ainda perde tempo com medidas de pouco impacto, como o plano de demissão voluntária de servidores. Vamos terminar o ano com um PIB perto de zero e não parece haver senso de urgência por parte do governo.”

Em entrevista na semana que passou, o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman disse que os economistas percebem mais claramente que a dificuldade de o governo pôr a área fiscal em ordem pode prejudicar o crescimento no médio e no longo prazos. “É uma vulnerabilidade óbvia do País a que ninguém está prestando muita atenção. Mas o fato é que isso é possível, porque estamos em um mundo de juros muito baixos e de investidores globais dispostos a correr riscos. Quando a maré está alta, você pode nadar pelado. O problema é quando a maré baixar.”

Recessão passada ainda atrapalha

A recuperação da economia brasileira já está em curso e só não é mais rápida porque a recessão sofrida pelo País foi a mais severa de sua história, afirmou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, neste sábado, 26, em discurso no Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capitais, organizado pela B3.

“Tivemos a recessão mais longa e profunda de sua história desde que o Produto Interno Bruto (PIB) começou a ser medido, maior do que a depressão de 1930 e 1931”, ressaltou.

Meirelles disse que, ao contrário de outras crises, muito mais curtas, agora o Brasil precisa passar por um processo de reconstrução da economia. “Em 2009, havia 400 pedidos de recuperação judicial, hoje são quatro mil”, afirmou.

No entanto, disse, vários setores industriais estão mostrando recuperação e citou, por exemplo, melhoras as áreas de informática, equipamentos e têxteis, por exemplo.