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Por André Henrique

José Oreiro – Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq e Pesquisador Associado do Centro de Estudos do Novo-Desenvolvimentismo.

Em busca de fôlego político, o presidente Michel Temer celebra a queda da taxa de juros e da inflação, bem como resultados pontuais na indústria e nas exportações, como conquistas da política econômica do seu governo.

Entretanto, em entrevista para o Independente, o economista José Oreiro ressalta que os juros caíram em função da rápida redução da inflação causada por intensa e prolongada recessão econômica com 14 milhões de desempregados. Oreiro apresenta variações nos preços de combustíveis e energia entre 2015 e 2016 como elementos que também derrubaram a inflação, e conclui “não podemos qualificar a queda dos juros e da inflação como êxitos do governo”.

O economista elenca fatores conjunturais que acarretaram no aumento de vendas de automóvel e afirma que o fato não se deve a medidas estruturantes do governo federal. Para José Oreiro, a indústria brasileira permaneceu estagnada entre 2011 e 2014 e restabeleceu a competitividade por conta da desvalorização cambial em 2015, mas a política monetária ultra-conservadora do governo Temer “fez com que a taxa de câmbio voltasse a se apreciar fortemente, eliminando assim a possibilidade de uma saída da crise pela via da demanda externa”.

Para o economista, Temer errou ao “priorizar uma agenda de reformas, muitas das quais exigem mudanças constitucionais, ao invés de uma agenda de recuperação da economia”, vai daí a desidratação contínua do capital político que o presidente possuía após o impeachment da presidenta Dilma, salienta.

Acompanhe estes e outros pontos na entrevista:

Independente – Quais fatores causaram a queda dos juros (taxa selic)?

José Oreiro – A selic vem sendo reduzida muito lentamente desde o final de 2016 em função da rápida redução da taxa de inflação – a variação acumulada do IPCA nos últimos 12 meses ficou abaixo de 3% no mês passado – a qual pode inclusive ficar abaixo do piso do regime de metas de inflação para o ano de 2017 (3% a.a). Nesse contexto, o protocolo do regime de metas de inflação aponta para a necessidade de uma redução da selic, ainda mais num contexto de recessão prolongada no qual 14 milhões de pessoas estão desempregados.

 Independente – A redução da taxa de juros e a menor inflação da década se devem a êxitos do governo?

José Oreiro – A redução rápida da inflação se deveu, em primeiro lugar, a intensidade e a duração da própria recessão. Com efeito, a recessão iniciada no segundo trimestre de 2014 é a mais longa e profunda da história do Brasil desde o final da segunda guerra mundial. Está claro que a recessão não foi causada pelas medidas de política econômica tomadas pelo atual governo, mas certamente a recessão não teria sido tão profunda se, a partir de agosto de 2016, o BACEN tivesse iniciado o processo de flexibilização da política monetária, o qual só se inicia em novembro do ano passado e de forma puramente simbólica, com uma redução de apenas 0,25 p.p da taxa selic. Outro fator que permitiu a rápida queda da inflação foi que a aceleração do ritmo de aumento de preços verificada em 2015 deveu-se basicamente ao aumento dos preços da energia e dos combustíveis no primeiro semestre desse ano, o qual não se repetiria no primeiro semestre de 2016. Dessa forma, a simples dissipação dos efeitos do “tarifaço” de 2015 levaria, por si só, a queda da taxa de inflação. Isso posto, não podemos qualificar a queda da inflação e dos juros como “êxitos” do governo.

Independente – O governo celebra o aumento de vendas em setores específicos da indústria e o superávit das exportações; esses resultados pontuais são decorrentes de medidas estruturantes?

José Oreiro – Não. O aumento das exportações de automóveis deveu-se basicamente a combinação de elevada capacidade ociosa na indústria local, uma taxa de câmbio um pouco mais competitiva devido à forte desvalorização ocorrida em 2015 (portanto anterior ao atual governo) e a aceleração do crescimento da economia mundial. Nenhum desses fatores guarda qualquer relação com medidas de política econômica tomadas pelo governo atual.

Independente – O faturamento de máquinas e equipamentos registrou queda de 21,9% no primeiro semestre deste ano em comparação ao do ano passado. Que avaliação o senhor faz da situação da indústria brasileira e o quê o governo deveria fazer para alavancá-la?

José Oreiro – Desde 2011 a indústria brasileira se encontra em crise. Com efeito após uma rápida recuperação dos efeitos da crise financeira internacional de 2008, a produção industrial brasileira permanece estagnada entre 2011 e 2014. Desde então verificou-se uma queda acentuada da produção industrial, a qual retornou aos patamares prevalecentes em 2004. A desvalorização cambial ocorrida em 2015 tinha restabelecido a competitividade, o que permitiria a indústria se recuperar via aumento das exportações. Mas a política monetária ultra-conservadora seguida pela atual gestão do BACEN fez com que a taxa de câmbio voltasse a se apreciar fortemente, eliminando assim a possibilidade de uma saída da crise pela via da demanda externa.

Independente – Os impactos da crise política na economia foram limitados, como sustenta a nota do Banco Central sobre a queda da Selic?

José Oreiro – Sim, é só olhar para o comportamento dos preços dos ativos (dólar e bolsa) para perceber que a delação da JBS teve pouco impacto na economia. Isso não quer dizer que a economia brasileira irá exibir uma recuperação vigorosa a partir do segundo semestre. Pelo contrário, tivemos um crescimento um pouco mais “robusto” no primeiro trimestre de 2017 devido ao comportamento do agronegócio, mas esse fator não irá se repetir ao longo do ano. Como a demanda doméstica (consumo e investimento) continuam em queda e as exportações não aumentaram muito devido à apreciação cambial, as perspectivas para 2017 são sombrias. Continuo apostando em crescimento zero para 2017.

Independente – Logo, não se pode concluir que a economia brasileira está em recuperação…

José Oreiro – O país não está em rota de recuperação devido à ausência de um vetor de demanda que impulsione o aumento do nível de atividade econômica.

Independente – Que avaliação o Sr faz da condução econômica do governo Temer?

José Oreiro – O governo Temer errou ao priorizar uma agenda de reformas muitas das quais envolvem mudança na Constituição, ao invés de uma agenda de recuperação da economia. O resultado é que a recessão está durando muito mais do que o necessário, o que acabou por solapar o pequeno capital político que o Presidente Temer possuía após o Impeachment da Presidente Dilma.

Link da matéria: http://independente.jor.br/nao-podemos-qualificar-queda-dos-juros-e-da-inflacao-como-exitos-do-governo-afirma-economista/
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