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Se as projeções de inflação abrem espaços para reduzir a meta, o mesmo talvez não se possa dizer do momento em que a decisão foi tomada

Ao fixar a meta de inflação de 2019 em 4,25% e, num lance surpreendente, reduzi-la para 4%, em 2020, o governo dobrou uma aposta em que nem todos os economistas colocariam suas fichas. O pessoal do mercado aprovou em bloco a decisão que, segundo o ministro Henrique Meirelles, aproxima o regime brasileiro da “normalidade” das metas dos países que o adotam, notadamente os emergentes, cuja média das metas gira em torno de 3%. Mas não são poucas as desconfianças em relação não só ao acerto da decisão, mas sobretudo diante das dificuldades políticas e econômicas do momento em que foi adotada.

Os desconfiados não são apenas os economistas de linha heterodoxa, naturalmente críticos do governo. Alguns ortodoxos de peso também têm expressado dúvidas. É o caso do economista Sergio Werlang, da FGV-RJ, justamente o responsável pela introdução do regime de metas em 1999, quando era diretor do BC. Em entrevista ao jornal “Valor”, Werlang destacou que a amplitude dos desequilíbrios fiscais, agravada pela rigidez salarial no funcionalismo público, não recomendaria a redução da meta antes de que os ajustes se mostrassem mais consistentes — falar nisso, o déficit fiscal primário de maio, agora divulgado reforça expectativas de que a meta fiscal só será cumprida com manobras em receitas e elevação de tributos, como Meirelles passou a insinuar.

As restrições fiscais, a propósito, estão na base de uma cada vez mais aceita revisão dos efeitos das políticas monetárias. O debate acerca da potência do manejo das taxas de juros em ambientes de desajuste fiscal e elevado endividamento público, já acalorado em âmbito internacional, foi trazido há alguns meses ao Brasil pelo reconhecido economista André Lara Resende. Seu livro “Juros, moedas e ortodoxia” (Portfolio Penguin), lançado na semana passada, mostra que, nessas circunstâncias, altas nas taxas de juros, contrariamente aos cânones, podem resultar em elevação da inflação. “A política monetária hoje está diante de um anacronismo institucional e de um impasse analítico”, resume Resende na obra.

Outros temores, esses em relação ao efeito do aperto no regime de metas sobre processo de recuperação da economia, reúnem ortodoxos e heterodoxos. O economista e matemático Aloisio Araújo, referência entre os ortodoxos brasileiros, por exemplo, considera, segundo declarou ao jornal “Folha de S. Paulo”, que pode ser alto o custo de reduzir a meta neste momento, em especial na taxa de desemprego. Com ele concorda o economista heterodoxo José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília, para quem o difícil e longo processo de recuperação que a economia brasileira tem pela frente — reafirmado pela revisão oficial para baixo das projeções de crescimento do ano — não deveria correr o risco de uma reversão, com novos apertos, na política de juros.

No voto que detalhou os motivos da decisão de reduzir a meta de inflação, o CMN atribuiu a trajetória descendente da inflação ao “redirecionamento da política econômica” e à “adoção de reformas e ajustes” que, “combinada com a condução da política monetária, permitiu reancorar as expectativas de inflação”. Não há, porém, nem uma grama de consenso em relação a essa afirmação. Ela embute uma crença por muitos considerada exagerada nos poderes das expectativas de inflação na ancoragem dos preços.

Para André Modenesi, professor da UFRJ, especialista em regimes de meta de inflação, o comportamento dos preços, nos últimos dez anos, não permite concluir que o peso das expectativas tenha sido relevante na determinação da inflação. O que sobressai, no período, segundo ele, é a persistência da alta de preços no setor de serviços, cuja evolução é menos dependente de expectativas. “Não é de se esperar que ocorram quedas da inflação apenas pela redução da meta”, continua. “O rabo não vai sacudir o cachorro”.

Noves fora objetivos políticos, na linha de reforçar a mensagem de que a economia não será contaminada pelo ambiente de crise política, o que é negado por porta-vozes do Banco Central, uma conclusão possível é a de que, se há espaços para reduzir a meta, sob a ótica da evolução da inflação — as projeções para 2018 e 2019 estão hoje abaixo de 4,25% —, o mesmo não se pode dizer sobre a hora incerta em que a decisão de apertar o regime de metas foi tomada.

José Paulo Kupfer é jornalista

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