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André Perfeito
Economista chefe da Gradual Investimentos

Foi correta a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de estabelecer metas de inflação menores do que a atual para os anos de 2019 e 2020?
Acho que foi acertada, porque foi uma mudança pequena, e as bandas de tolerância se mantêm. A minha sugestão é que o CMN seja mais ambicioso, que se estude no país uma medida de núcleo de inflação.

Que efeitos na economia podem se esperar dessa medida?
Se a meta de 2018 fosse alterada, o BC teria de subir ou manter os juros este ano, pois a política monetária de hoje tem efeitos para o ano que vem. Poderia haver ruído. Por isso a decisão foi acertada. E, a despeito de todo o deficit público, a questão fiscal não é um problema. Temos um IPCA podendo ficar abaixo de 3%, um IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna) em zero e um IGP-M agora negativo.

Neste cenário, é possível ser otimista para a trajetória dos juros?
O BC precisa fazer um simpósio internacional para fazer estas discussões. A cesta do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do país, tem coisas complicadas, como o peso dos alimentos. Aí acontece uma variação maior e o BC vai ter que subir a Selic? A elevação da Selic não vai fazer chover. Também precisamos discutir a indexação. Não faz sentido reajuste de aluguel ser medido pelo IGP-M (Índice Geral de Preços de Mercado). O sistema de metas tem que ser modernizado. Os manuais de economia foram rasgados: os Estados Unidos injetaram US$ 3 trilhões na economia! O mundo mudou. Simples assim. Já temos Bitcoin.

 

José Luís Oreiro
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília

Foi correta a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de estabelecer metas de inflação menores do que a atual para os anos de 2019 e 2020?
A média histórica da inflação no Brasil é de 6,5% desde 1999. Se atingimos essa média, é porque há algo estrutural na inflação da economia brasileira. Isso se deve à indexação dos preços e salários, o que foi reforçado com a vinculação do reajuste do salário mínimo aos preços. É um otimismo irresponsável (reduzir a meta).

Que efeitos na economia podem se esperar dessa medida?
O governo está atacando de forma errada o problema. Nós saímos de uma inflação de 11% para uma de 4% ao ano, mas isso aconteceu às custas de uma recessão exagerada, que está entrando no terceiro ano. É um conjunto de medidas políticas e econômicas que pode tornar a política monetária flexível, mas o governo está começando do final, decidindo quanto vai mostrar o termômetro sem ter medido a temperatura do doente.

Neste cenário, é possível ser otimista com a trajetória dos juros?
Neste ano, a inflação ficou abaixo da média histórica por causa da recessão e do choque positivo de alimentos. Não há garantia de novos choques. Por isso, foi mantida a meta para 2018. Em algum momento haverá a necessidade de alguma desvalorização no câmbio para manter a competitividade. Manter a meta neste ano foi a melhor decisão, para que o BC possa baixar os juros no curto prazo para enfrentar a crise. Mas, historicamente, há uma dificuldade enorme no Brasil de manter a inflação abaixo de 6%. Por isso, a meta de 4% para 2020 é um risco.

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