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RIO – Com a ajuda das contas de luz e dos combustíveis mais baratos, a inflação oficial voltou a recuar em abril. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve alta de 0,14%, o menor resultado para o mês desde o início do Plano Real, em 1994, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o resultado, crescem as pressões do mercado por um aumento do ritmo da queda dos juros.

A inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,08%, o menor patamar em dez anos. Essa é a primeira vez desde agosto de 2010 que o IPCA em 12 meses fica abaixo do centro da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%. É esse reforço do alívio inflacionário mostrado pelo resultado de abril que permitiria uma aceleração no ritmo de corte da taxa básica de juros, a Selic, de 1 ponto para 1,25 ponto porcentual este mês, uma vez que um dos principais objetivos do juro alto é conter o consumo e, por sua vez, a inflação.

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IPCA acumulou alta de 1,10% no ano e 4,08% em 12 meses Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Um levantamento feito ontem pelo Projeções Broadcast com 35 instituições financeiras, após a divulgação do IPCA de abril, mostra que 14 delas já apostam em uma queda de 1,25 ponto porcentual na taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que será realizada no final do mês. As outras 21 projetam queda de 1 ponto, de 11,25% para 10,25% ao ano.

Para o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, a questão agora não é tanto se preocupar se o próximo corte da Selic será de 1 ou de 1,25 ponto porcentual, mas onde a taxa de juros pode chegar com a inflação dentro da meta. “Quando se olha para a dinâmica da taxa de inflação, dá para perceber que ela está em uma trajetória acentuada de queda, e o comportamento da inflação, é claro, vai ser levado em conta pelo Copom ao planejar as próximas quedas dos juros”, diz. “Mas ele já trabalha com uma Selic em um dígito até dezembro.”

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“Nos últimos três meses, o BC até fez uma redução rápida, o erro foi não ter começado a cortar juros ainda no ano passado. Agora, o governo precisa correr atrás do prejuízo”, diz José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB). Para ele, o corte da Selic é uma das poucas medidas que restaram para reanimar a economia. “Consumo e investimento estão muito ruins, pelo desemprego alto e grande ociosidade da indústria. O governo não pode investir e as exportações sofreram com o câmbio.”

Muitos economistas, porém, ainda condicionam uma aceleração do corte da Selic à aprovação da reforma da Previdência na Câmara, pelo menos em primeiro turno. A expectativa do governo é que a votação aconteça este mês.

“Os dados de inflação dos últimos dois meses – e principalmente o de abril, que costuma ter um peso maior – abrem caminho para uma queda mais acelerada, de 1,25 ponto, nos juros. Só que o cenário não está dado por completo”, diz o economista Sérgio Vale, da MB Associados. Ele lembra que o Banco Central pode usar o argumento do peso da reforma da Previdência e do ajuste fiscal para justificar o conservadorismo na condução da política monetária. “Caso eles optem por um corte mais tímido agora, se a reforma passar na primeira votação, pode estimular uma queda mais forte.”

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O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, esperava redução da Selic em 1 ponto porcentual na próxima reunião do Copom, mas agora aguarda uma queda de 1,25 ponto. “A inflação não estava surpreendendo tanto, mas agora voltou a surpreender”, afirmou ele.

Além da continuidade no processo de desaceleração da inflação, Perfeito diz que a expectativa de aprovação da reforma previdenciária também reforça sua projeção para Selic. “Estamos acreditando que será aprovada, senão deixarão uma bomba para o próximo governo.”

Ajuste na meta. O bom comportamento dos preços nos últimos meses também tem reaberto as discussões a respeito de uma redução na meta de inflação no País, hoje fixada em 4,5% ao ano. “Não é só pelo resultado de abril, a questão é que não faz sentido uma meta de 4,5%, muito elevada para os padrões do restante da América Latina. A equipe econômica precisa levar adiante essa discussão e considerar pôr a meta de 2019 em 4%”, diz Vale.

“Nesse cenário, a tendência é reduzir a meta para 4,25%, mas há espaço para um corte maior sem frear a queda dos juros. A perspectiva é que a inflação encerre o ano abaixo de 4%”, diz Schwartsman. /DANIELA AMORIM, DOUGLAS GAVRAS, MARIA REGINA SILVA E THAÍS BARCELLOS

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