Tags

Uma das teses da Macroeconomia Desenvolvimentista é a tendência cíclica a sobrevalorização da Taxa de Câmbio Real nos Países ricos em recursos naturais e com contas de capital abertas. A abundância de recursos naturais dá origem a doença holandesa, que se manifesta da diferença entre a taxa de câmbio que garante a competitividade das empresas industriais domésticas que operam com tecnologia no estado da arte mundial – o assim chamado equilíbrio industrial – e a taxa de câmbio de equilíbrio em conta corrente, ou seja, aquela que garante o equilíbrio intertemporal da conta corrente do balanço de pagamentos. Na presença de doença holandesa a taxa de câmbio de equilíbrio em conta-corrente será inferior a taxa de câmbio de equilíbrio industrial em função das rendas ricardianas advindas da exploração dos recursos naturais; as quais permitem que a exploração e exportação de commodities sejam lucrativas a uma taxa de câmbio significativamente menor do que aquela que permite as empresas industriais domésticas obter uma taxa normal de retorno sobre o capital investido.

A abertura da conta de capitais, por sua vez, aprofunda a apreciação cambial devida a doença holandesa ao permitir a entrada de capitais estrangeiros no país seja para aproveitar o diferencial de juros (que tende a ser positivo nos países em desenvolvimento devido a menor densidade e desenvolvimento dos seus mercados financeiros, o que gera um prêmio de liquidez expressivo para as aplicações de longo-prazo relativamente ao que se observa nos países desenvolvidos), seja para a aquisição de direitos de propriedade sobre a exploração dos recursos naturais que dão origem a doença holandesa. Dessa forma, a combinação de abundância de recursos naturais e abertura de conta de capitais termina por dar ensejo a uma forte apreciação cambial e desequilíbrios crescentes em conta-corrente, pois o câmbio real termina por se apreciar além do nível compatível com o equilíbrio em conta-corrente. O desequilíbrio externo crescente faz com que, de tempos em tempos, ocorra uma crise cambial devido a parada súbita de financiamento externo que é induzida pela crescente desconfiança dos investidores internacionais a respeito da solvência externa do país. Ocorre então uma desvalorização forte e súbita da taxa de câmbio, eliminando, temporariamente, a sobre-valorização cambial. Passados os efeitos da crise cambial e retomada a confiança dos investidores internacionais, o processo se inicia novamente.

Essa teoria se aplica ao caso brasileiro? Antes de responder a essa pergunta temos que ter um indicador preciso da taxa real de câmbio. Um indicador muito usado é a taxa real efetiva de câmbio, a qual consiste na média aritmética ponderada das taxas de câmbio reais bilaterais do país em relação a 24 parceiros comerciais selecionados. A taxa de câmbio real bilateral é definida pelo quociente entre a taxa de câmbio nominal (em R$/unidade de moeda estrangeira) e a relação entre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE) do Brasil e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do país em caso. As ponderações utilizadas variam a cada ano, sendo obtidas pelas participações de cada parceiro no total das exportações brasileiras para os países considerados nos 2 anos imediatamente anteriores.

Outra forma de medir a taxa real de câmbio é por intermédio da razão entre os índices de preços de bens transacionáveis e não-transacionáveis. Nesse contexto, se a taxa de variação dos preços (inflação) dos bens não-transacionáveis for superior a taxa de variação dos preços dos bens transacionáveis haverá uma apreciação da taxa real de câmbio, sinalizando uma redução da rentabilidade do capital aplicado no setor transacionável relativamente ao setor não-transacionável. Essa mudança nas taxas relativas de retorno deverá induzir uma transferência de recursos do setor transacionável para o setor não-transacionável, mudando assim a estrutura produtiva da economia, a qual passará a exibir uma participação menor (maior) do setor (não) transacionável no PIB. Como o setor transacionável tende a exibir maiores níveis de eficiência e produtividade devida a sua exposição a competição internacional; segue-se que essa mudança na estrutura produtiva acabará por reduzir a produtividade e o crescimento econômico de longo-prazo.

Na figura anexada ao post (clique no ícone cambio real no Brasil) podemos verificar que por ambas as medidas da Taxa Real de Câmbio, observa-se uma tendência clara a apreciação cambial no Brasil desde 1994, interrompida brevemente entre 1999 e 2004 devido aos efeitos da crise cambial de 1998 e da crise fiscal de 2002. Enquanto essa tendência não foi eliminada, o Brasil não voltará a ter uma trajetória de crescimento sustentada do PIB

Cambio REal no Brasil

Anúncios