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A recuperação da atividade econômica pode ter menor intensidade e demorar mais para começar, indicaram especialistas entrevistados pelo DCI. Isso porque o tombo do Produto Interno Bruto (PIB) de 2016 superou as expectativas do mercado.

Divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a atividade econômica do ano passado teve queda de 3,6% na comparação com 2015. Entre o quarto e o terceiro trimestres de 2016, o recuo foi de 0,9%, enquanto o mercado previa queda de 0,6%.

O resultado fez com que a GO Associados alterasse a previsão para o desempenho do PIB neste ano: o crescimento de 0,8% foi revisado para uma alta de 0,6%.

“Esse corte [na projeção] vem do setor de serviços, que deve ficar zerado neste ano”, explicou Luiz Fernando Castelli, economista da GO. A agropecuária e a indústria, por outro lado, devem terminar 2017 no azul.

Já a Tendências Consultoria Integrada manteve a projeção para um crescimento anual de 0,7%. Foi inserido, porém, um viés de baixa. “Partindo de uma base pior, fica mais difícil conseguir o desempenho que era esperado anteriormente”, justificou Rafael Bacciotti, economista da instituição.

As duas consultorias têm esboços mais otimistas que a média do mercado. No último relatório Focus, apresentado antes da divulgação do PIB, os analistas financeiros apostaram em uma expansão de 0,49% para este ano.

Para José Luis Oreiro, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o resultado de ontem indica que o PIB só deve voltar a um patamar positivo no terceiro trimestre de 2017.

O avanço do carregamento estatístico, herança levada de um ano para o outro, é uma das causas da piora nas expectativas para este ano. O Itaú Unibanco, por exemplo, acreditava que essa taxa seria negativa em 0,8%, mas ela ficou ainda abaixo (-1,1%).

Aportes em queda

Um dos fatores que preocupa os especialistas é a derrocada dos níveis de investimento. A chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) registrou nova baixa, de 1,6%, no embate entre os dois últimos trimestres do ano passado.

“Sem a melhora do investimento e da poupança interna [que também está caindo], não é possível esperar uma recuperação econômica”, disse Altamiro Carvalho, economista da FecomercioSP.

O entrevistado destacou que algumas medidas, como a redução da taxa básica de juros, podem estimular um avanço da FBCF, mas apenas no médio e longo prazo. “No curto prazo, não há nenhuma condição para uma retomada significativa”, acrescentou Carvalho.

Para Oreiro, as concessões de projetos de infraestrutura são a única possibilidade para o estímulo do investimento. “Se o governo conseguir um bom resultado nos leilões, a situação pode melhorar. Mas, com as empreiteiras em crise, isso pode não acontecer.”

Atraso

Com a queda do ano passado, a recessão brasileira alcançou 7,2% em dois anos. Assim, a atividade econômica voltou ao patamar do ano de 2010.

Na opinião dos especialistas consultados pelo DCI, o PIB só deve voltar ao nível de 2014, quando a crise ainda não havia começado, entre 2020 e 2021.

“Só conseguiríamos voltar rapidamente àquele grau de atividade [de dois anos atrás] se tivéssemos avanços de 4% em 2018 e 2019. Isso não deve acontecer”, indicou Oreiro.

Segundo ele, após um aumento “próximo de zero”, em 2017, o Brasil deve se acostumar com um crescimento potencial próximo dos 2%. Nesse cenário, uma volta ao patamar de 2014 aconteceria em 2021.

As estimativas da Tendências são um pouco mais otimistas, com altas de 2,4%, para 2018, e de 2,5%, para 2019 e 2020. Com isso, o a economia voltaria ao seu melhor nível no último ano desta década.

Também chama atenção a diminuição do PIB per capita, divisão da produção econômica pela população do País, que recuou pelo terceiro ano consecutivo, acumulando perda de 9,1% desde 2014. Os especialistas destacaram que essa trajetória representa um empobrecimento dos brasileiros.

Expectativa

Após a divulgação pelo IBGE, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que os dados de 2016 são parte do passado. “É o espelho retrovisor.”

Segundo ele, o Brasil voltou à normalidade e a economia já voltou a crescer. Como justificativa, ele destacou o aumento do fluxo de veículos nas estradas, das importações e da confiança dos consumidores.

O ministro ainda apostou em um crescimento expressivo, de 2,4%, no quarto trimestre de 2017, ante igual período de 2015. Meirelles indicou que o crescimento potencial do País, a partir de 2018, deve ficar entre 2,2% e 2,5%.

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