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O mercado financeiro brasileiro viveu um dia de euforia nesta quarta-feira, 15. A Bovespa fechou com alta de 1,89%, aos 67.975,58 pontos, o maior patamar desde março de 2012. A Bolsa brasileira vinha de cinco altas consecutivas, até registrar leve queda na última terça-feira, 14. Em um ano, a Bolsa acumula ganhos de quase 70%. O dólar, por sua vez, fechou em queda de 1,08%, a R$ 3,0605, no menor patamar desde 18 de junho de 2015.

Para Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, essa melhora nos indicadores se dá principalmente porque o mercado aposta que as reformas propostas pelo governo Temer, como a previdenciária e a trabalhista, vão se materializar. E as sinalizações de estímulo a concessões e obras de infraestrutura, que têm sido feitas pelo governo, soam como música para os ouvidos do investidor.

Por isso, diz, mesmo com a economia real ainda patinando – o varejo fechou 2016 com queda recorde de 6,2% e os serviços tiveram recuo de 5%, só para citar índices mais recentes divulgados pelo IBGE -, os investidores fazem essas apostas. “A Bolsa, muitas vezes, antecipa movimentos, normalmente tenta indicar que tende a melhorar antes de o resto da economia reagir. Isso não quer dizer que o mercado vai acertar no prognóstico, mas pode.”

Ele lembra que o investidor estrangeiro vive hoje no melhor dos mundos, com os juros brasileiros ainda elevados, garantindo vantagens para o investidor, e com perspectiva de queda, sinalizando uma melhora da economia do País no médio prazo. E é o investidor estrangeiro o responsável por boa parte do crescimento acumulado da Bolsa.

Para o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, esses números positivos se devem a essa reação do mercado à melhora de patamar do ambiente econômico, ainda que a situação atual do País permaneça preocupante. “As indicações são de que a economia não está brilhante, mas é possível que comecemos uma recuperação em 2017. Saímos de um degrau muito ruim para outro menos pior.”

Mudanças. “Essa demonstração de melhora, ainda que a situação seja ruim, é muito importante na hora de definir preços de ativos, e o mercado sabe como explorar essas mudanças de patamar”, avalia Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson e colunista do Estado. Na visão da economista, porém, os resultados recentes da Bolsa podem ser uma espécie de “euforia de verão”. “Não deve passar do carnaval. Até porque não vai dar tempo de o governo fazer tudo o que precisa até 2018 para atingirmos um otimismo sustentável. O desemprego está tão alto que o mal-estar econômico vai continuar presente”, disse.

“Uma análise mais cuidadosa desse otimismo com a economia mostra que vivemos uma ‘exuberância irracional’. Estamos no terceiro ano de recessão, o crescimento em 2017 deverá ser medíocre e pode levar mais uns quatro ou cinco anos para voltarmos ao PIB de 2013”, avalia José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Expectativas. No caso do dólar, a queda das cotações está diretamente relacionada a expectativas de novos ingressos de capitais estrangeiros no País. Analistas ouvidos pelo Estado avaliam que a moeda americana pode ficar abaixo de R$ 3. “Isso, se o Brasil fizer o dever de casa. O mundo não tem onde investir. Mas só se criarmos expectativas positivas, com reformas fundamentais para devolver o crescimento sustentável”, diz Nathan Blanche, sócio da Tendências.

A queda do dólar também contou com a expectativa de entrada de recursos com uma nova rodada da Lei de Repatriação, que foi aprovada na Câmara. / COLABORARAM ÁLVARO CAMPOS, LUCAS HIRATA, MARIA REGINA SILVA E PAULA DIAS 

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