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Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli escreveram um instigante artigo no Valor Econômico de hoje no qual afirmam que a razão fundamental para o atraso econômico do Brasil com relação aos Estados Unidos não se deve a insuficiência de capital físico ou a composição da estrutura produtiva da economia brasileira – que nos últimos anos regrediu em direção a atividades com menor valor adicionado per-capita como mostrou Marconi (2015) – mas deve-se a ineficiência na alocação dos fatores de produção (capital e trabalho). Essa ineficiência poderia ser comprovada pelo fato de que ao se controlar a produtividade do trabalho no Brasil pela composição setorial da produção observada nos EUA, ou seja, ao se “trocar o peso de cada setor no produto brasileiro pelas participações correspondentes nos EUA, mantendo-se constante a produtividade de cada setor no Brasil”; a produtividade do trabalho no Brasil aumentaria (sic) “apenas” 11 p.p com relação a observada nos EUA (efeito composição). Contudo, se mantivermos constante a participação de cada setor no Brasil e substituirmos a produtividade de cada setor pela produtividade correspondente nos EUA, a produtividade do trabalho no Brasil teria um aumento de 71 p.p com relação ao nível observado nos EUA (efeito nível). Nesse contexto, os autores afirmam que “os exercícios sugerem que o atraso brasileiro não se deva ao fato de o país ter se especializado em setores pouco produtivos, mas a dura realidade de que, em todos os setores e subsetores, a produtividade do trabalhador brasileiro é muito inferior à observada nos Estados Unidos e demais países desenvolvidos”.

A primeira observação que quero fazer é que essa afirmação dos autores é um simples truísmo. Se os trabalhadores brasileiros fossem tão produtivos quanto os trabalhadores americanos; então o Brasil seria um país tão rico quanto os Estados Unidos. A pergunta a ser feita é porque a produtividade do trabalhador no Brasil é tão menor do que a produtividade do trabalhador americano.

Antes de responder a essa pergunta, contudo, não podemos dar de barato – como fazem os autores – de que o assim chamado “efeito composição” é irrelevante. Com efeito, suponhamos que a produtividade do trabalho nos EUA medida em PPP seja de US$ 75.000,00. Se a produtividade do trabalho no Brasil for 16% da produtividade nos EUA, então cada trabalhador no Brasil irá produzir US$ 12.000,00 por ano. Consideremos agora que devido a bem sucedida implantação das políticas novo-desenvolvimentistas apresentadas por Bresser-Pereira, Oreiro e Marconi (2016), a produtividade do trabalho no Brasil aumentasse para 27% da produtividade do trabalho nos EUA num intervalo de, digamos, 15 anos. Ao fim desse período a produtividade do trabalho no Brasil teria aumentado para US$ 20.250,00, o que equivale a um aumento de 68,75%, ou seja, uma média de 4,58% a.a !!!! Trata-se de um aumento expressivo da produtividade do trabalho de forma que a conclusão dos autores de que (sic) “políticas que privilegiam setores específicos terão efeito mínimo sobre a produtividade agregada” simplesmente não decorre das premissas apresentadas no próprio artigo. Trata-se de um simples non-sequitur.

Mas retornemos ao ponto apresentado pelos autores referente às diferenças de nível de produtividade entre os setores. Por que razão o setor de serviços e o setor manufatureiro nos EUA é tão mais produtivo do que no Brasil? Existem muitos fatores que explicam esse diferencial de produtividade. Um deles, certamente, é o estoque de capital físico. O capital por trabalhador nos EUA é muito maior do que o estoque de capital por trabalhador no Brasil. Além disso, o treinamento e a capacitação da força de trabalho, o que inclui a educação formal, são maiores nos EUA do que no Brasil. É provável também que a infra-estrutura seja melhor nos EUA do que no Brasil. Contudo, há um fator que não foi apontada pelos autores, aquilo que no meu livro “Macroeconomia do Desenvolvimento” (2016) chamei de “assimetrias tecnológicas”, ou seja, da existência de um hiato tecnológico (technological gap) das empresas brasileiras viz-a-viz suas competidoras nos EUA. Ao contrário do que afirmam os modelos neoclássicos de crescimento Solow-Swan, nos quais a tecnologia é um bem público, estando livremente disponível para todas as empresas de todos os países; a tecnologia no mundo real é um bem não rival, mas excluível, ou seja, pode ser apropriada privadamente. Dessa forma, o domínio da fronteira tecnológica acaba por se traduzir em vantagens competitivas para as empresas localizadas nos países desenvolvidos.

A existência de assimetrias tecnológicas – algo que os exercícios tradicionais de growth accounting simplesmente desconsideram – tende a fazer com que a contribuição do capital físico para a “produtividade total dos fatores de produção” seja, em larga medida, subestimada. Isso porque a maior parte das inovações tecnológicas estão incorporadas em máquinas e equipamentos recentemente construidos. Isso faz com que  a forma pela qual as empresas retardatárias podem se aproximar das empresas que operam na fronteira tecnológica é por intermédio do investimento em capital físico. Sendo assim, o grande diferencial de produtividade entre as empresas americanas e brasileiras pode decorrer, em larga medida, do diferencial existente no estoque de capital por trabalhador; ou seja, os trabalhadores brasileiros são menos produtivos porque possuem menos máquinas up-to-date do que os trabalhadores americanos. Nesse contexto, o crescimento da economia brasileira poderá ser substancialmente incrementado por intermédio de políticas que fomentem a acumulação de capital e a inovação tecnológica, ao invés de políticas que procurem aumentar a eficiência no uso dos fatores de produção.

Referências

Bresser-Pereira, L.C; Oreiro, J.L; Marconi, N. (2016). Macroeconomia Desenvolvimentista. Elsevier: Rio de Janeiro.

Marconi, N (2015). “Estrutura Produtiva e Crescimento Econômico” In Barbosa, N et al (orgs). Indústria e Desenvolvimento Produtivo no Brasil. FGV Editora: São Paulo.

Oreiro, J.L. (2016). Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. LTC Editora: Rio de Janeiro.

 

 

 

 

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