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A volatilidade registrada nos mercados desde a eleição de Donald Trump, na terça-feira, deverá se manter pelas próximas semanas, com impacto nos juros, câmbio, fluxo de capitais e até na inflação, de acordo com especialistas ouvidos pelo ‘Estado’. Fora de quase todos os cenários projetados por analistas para os quatro anos a seguir, o novo presidente dos Estados Unidos ainda é uma incógnita, e as bolsas deverão reagir a cada nova sinalização do que virá a ser o seu governo, a partir de janeiro do ano que vem.

Na semana passada, a Bovespa refletiu o chamado “efeito Trump”. Na última sexta-feira, a Bolsa registrou uma nova queda, de 3,30%, e saiu do patamar de 60 mil pontos, fechando em 59.183,50 pontos. Em uma semana, a BM&FBovespa acumulou perdas de 3,92%. O dólar também encerrou o dia com uma nova elevação, de 1,3%, cotado a R$ 3,40.

“Foi uma reação natural, as pesquisas apontavam Hillary Clinton na dianteira e todo o mercado trabalhava com essa expectativa. O discurso de campanha de Trump fugia tanto do senso comum que ninguém ainda sabe onde termina o personagem e onde começará o presidente – e qual será sua política econômica, ainda mais governando com maioria na Câmara e no Senado”, diz o economista José Luis Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A perspectiva é de maior volatilidade para os próximos meses, e que o mercado reaja positiva ou negativamente, a depender da temperatura das futuras declarações de Trump.

Próximos sinais. Durante a campanha, Trump sinalizou que pretende aumentar gastos, o que deve pressionar a inflação. Como contrapartida, a expectativa é que, a partir do ano que vem, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) aplique a política de elevação da taxa de juros, para conter os preços.

“A subida dos juros de longo prazo também será ruim para o Brasil, pois temos um problema fiscal grave e precisamos contar com uma condição de financiamento mais favorável”, analisa Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas. “A eleição de alguém fora do espectro político tradicional representa uma mudança importante também para a economia mundial.”

Em um cenário mais nebuloso como o projetado para o ano que vem, a urgência de reformas estruturais no Brasil, como a reforma fiscal, torna-se ainda maior, diz Pessôa.

O aumento da taxa de juros deverá ter impacto na valorização do câmbio, que deve se refletir na depreciação do real, que já começou, lembra Oreiro. “Espera-se que ele aplique fortes cortes de tributos, o que poderia impulsionar com força o déficit orçamentário americano.”

Caso essa volatilidade se mantenha, o Banco Central poderá ter de rever a convergência da inflação brasileira para o centro da meta, de 4,5%, para 2018 ou 2019, diz. “Seria impraticável a projeção de que isso aconteça a partir do ano que vem.”

“Há ainda um fenômeno de saída forte de capitais de mercados emergentes, em geral. Os ativos estão caindo, porque as pessoas agora estão mais preocupadas com o aumento do risco. Como os discursos de campanha de Trump eram muito duros e distantes da realidade, o mercado agora deverá reagir às nomeações para o Tesouro e demais pastas”, lembra Armando Castelar, também do Ibre.

Disputa com chineses. Uma queda de braço fiscal do governo de Donald Trump com a China colocará o Brasil em uma situação delicada. Durante as eleições, o republicano criticou a postura comercial chinesa e ameaçou impor tarifas de 45% sobre os produtos do país asiático importados pelos EUA.

“Uma briga entre esses dois gigantes gera uma perspectiva de redução no comércio mundial e isso aconteceria em um momento delicado para o Brasil, que não pode abrir mão de divisas”, diz José Luis Oreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Mesmo que doure a pílula agora, a tendência é que Trump faça exigências muito mais pesadas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e eleve o tom do discurso protecionista, prejudicando os demais países.”

Mercado latino. Para o ex-secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) João Clemente Baena Soares, o recado de Trump é bem claro: ele não está interessado no fortalecimento de blocos econômicos. “Ainda que suavize o discurso, ele já sinalizou que a Parceria Transpacífico (TPP) pode não vingar e que o Nafta (aliança com México e Canadá) deverá ser revisto.”

“Trump não está preocupado com a economia mexicana, só está de olho nos imigrantes. Os latino-americanos, em geral, não serão prioridade, muito menos os países do Mercosul.”

A vitória do republicano representa a consolidação de uma onda protecionista que ocorre em escala mundial, e o bloco deveria investir na facilitação da circulação de pessoas e no estímulo a investimentos entre os países da região, diz.