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Nos últimos meses temos observado um aumento da confiança dos agentes econômicos na performance da economia brasileira. O índice BOVESPA está acima de 60 mil pontos, a taxa de câmbio se apreciou, ficando abaixo de R$ 3.20 e o índice de expectativas dos empresários industriais se encontra acima do valor verificado em setembro de 2014. Alguns economistas interpretam esses números como um sinal claro de que a economia brasileira está pronta para iniciar um processo de recuperação cíclica, apresentando um crescimento perto de 2% em 2017, e próximo a 4% em 2018. Esse otimismo se baseia no pressuposto de que o retorno da confiança é condição necessária para que os empresários voltem a investir. Dessa forma, a retomada do crescimento da economia brasileira seria puxada pela expansão do investimento privado em expansão da capacidade produtiva.

Esse prognóstico é excessivamente otimista, pois desconsidera que o retorno da confiança é condição necessária, mas não suficiente, para a retomada do investimento privado em expansão da capacidade. Com efeito, para que os empresários se sintam estimulados a investir, não basta que eles estejam mais otimistas, é necessário também que as empresas não estejam operando com excesso indesejado de capacidade; uma vez que o investimento em expansão da capacidade só faz sentido quando não existe mais capacidade ociosa para ser ocupada e assim atender ao crescimento esperado das vendas.

O problema é que quando olhamos para os dados de capacidade ociosa na indústria verificamos que a média móvel dos últimos 12 meses do grau de utilização da capacidade instalada tem caído continuamente à dois anos. De fato, o grau de utilização da capacidade produtiva em setembro de 2016 é 11,59% mais baixo do que o valor verificado em setembro de 2014.  Nesse contexto, é pouco provável que os empresários estejam dispostos a realizar novos investimentos, por mais otimistas que estejam. A atitude racional será esperar até que o crescimento da economia leve a um aumento das vendas e, dessa forma, a redução da capacidade ociosa.

Sendo assim, não é razoável esperar que a retomada do crescimento será puxada pelo investimento privado em expansão da capacidade produtiva. Aqui nos deparamos com um sério problema. Se não é pelo investimento privado, de onde virá a demanda necessária para reativar a economia? Certamente não virá do setor público, dada a crise fiscal que a União se encontra, a qual produziu uma retração do investimento público para 0.5% do PIB, uma queda de 0.9 p.p com respeito ao valor verificado em 2014. Também não será puxada pelo consumo dada o forte aumento da taxa de desemprego verificada nos últimos dois anos. A única alternativa seria puxar a retomada por intermédio das exportações, como a Espanha fez para escapar dos efeitos recessivos da Crise do Euro. No primeiro semestre de 2016 o Brasil vinha ensaiando essa saída para a crise em função do efeito que o câmbio desvalorizado teve sobre as exportações industriais. Contudo, a obstinação irracional do BCB em atingir o centro da meta de inflação já em 2017, retardou o ciclo de redução da taxa selic, fazendo com que boa parte do ajuste cambial feito em 2015 fosse perdido. A redução de 0,25 p.p feita na ultima reunião do COPOM foi muito pouco e muito tarde para salvar o ano de 2017. Talvez consigamos voltar a crescer em 2018.