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A expectativa (bayesiana) de quem começa a leitura de Keynes X Hayek: as origens e a herança do maior duelo econômico da História, escrito por Nicholas Wapshott é de que poderá se deleitar com uma batalha épica entre o maior economista do século XX e o seu (supostamente) maior crítico. Após a leitura das 351 páginas que compõe o corpo do livro, a sensação é de frustração. Isso porque o duelo entre Keynes e Hayek foi a Batalha de Itararé da economia, ou seja, uma batalha que foi largamente esperada, mas que nunca aconteceu.

Não que não tenham ocorrido debates entre Keynes e Hayek. Com efeito, entre agosto de 1931 e fevereiro de 1932, Hayek, incentivado por L. Robbins, publicou três artigos na revista Economica, da prestigiosa London School of Economics, na qual ele fazia uma revisão bastante crítica dos argumentos apresentados por Keynes no seu recém-publicado Treatise on Money (1930). O primeiro desses artigos levou a réplica de Keynes no número seguinte da Economica, intitulado “The Pure Theory of Money: a reply do Dr. Hayek” (Economica, Vol, 34, Novembro). A publicação da tréplica de Hayek em 1932 foi seguida pela entrada no debate de Piero Sraffa quem, a pedido de Keynes – na época editor do Economic Journal – fez uma crítica demolidora do livro “Prices and Production” publicado por Hayek no início de 1932.

Por mais intenso que possa ter sido o debate Hayek-Keynes-Sraffa no início da década de 1930, deve-se destacar que na época do mesmo Keynes já se encontrava no processo de elaboração de seu Magnum Opus, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda; publicado em fevereiro de 1936. Seria com esse livro que Keynes passaria para a história não só como o fundador de um novo ramo do conhecimento econômico, a Macroeconomia; como também como o maior economista do século XX, responsável por “mudar a forma pela qual o mundo vê os problemas econômicos”, como ele havia antecipado a Bernard Shaw numa correspondência pessoal em 1935.

Se tivesse ocorrido um duelo épico entre Keynes e Hayek, como o título do livro parece sugerir; então o mesmo deveria ter se dado em torno das ideias apresentadas por Keynes na sua Teoria Geral, não no Treatise on Money, livro no qual Keynes ainda se movia dentro da ortodoxia prevalecente até então, qual seja, a assim chamada Tradição Neo-Wickselliana, da qual faziam parte os economistas da escola de Estocolmo como Lindahl, Myrdal e Ohlin, bem como colegas de Keynes em Cambridge como Dennis Robertson (Ver Amadeo, 1989, pp. 157-173).

O problema é que esse debate nunca aconteceu. A tão esperada crítica de Hayek a Teoria Geral de Keynes nunca foi escrita. Como atestado pelo autor “(…) não veio resposta de lugar algum. Hayek permaneceu em silêncio. Diante do confronto completo com Keynes, Hayek piscou” (p.186). Dessa forma, o duelo entre Keynes e Hayek se converteu na batalha de Itararé do pensamento econômico do século XX.

Quais as razões que teriam levado Hayek a recuar do que poderia ter sido o confronto decisivo com Keynes? No capítulo 12 do livro, o autor afirma que Hayek nunca deu uma explicação convincente do porque de sua omissão. Oficialmente a explicação dada por Hayek é de que ele se encontrava ocupado na elaboração do que acreditava ser sua obra prima em Teoria Econômica, a qual poderia competir com a Teoria Geral de Keynes. Tratava-se do livro “The Pure Theory of Capital”. Publicado apenas em 1941, o livro de Hayek era muito obscuro para ter qualquer chance de competir com a Teoria Geral de Keynes. A essa época a Revolução Keynesiana já era amplamente triunfante.

Uma explicação possível para o recuo de Hayek pode ser buscada no resultado de sua controvérsia com Keynes e Sraffa no início da década de 1930. Como ressaltado mesmo por autores simpáticos a Hayek – como, por exemplo, Lachmann (1986) – o debate com Keynes e Sraffa produziu um dano sério e irreversível a estatura de Hayek como teórico de economia (Kurz, 2000, p.294). Em carta a Sraffa, ninguém menos do que Joseph Schumpeter afirmou que estava plenamente de acordo com os argumentos apresentados contra Hayek. Essa controvérsia pode ter cristalizado em Hayek o sentimento de que ele não possuía a estatura teórica necessária para desafiar Keynes pela segunda vez. Dessa forma, os argumentos contrários às ideias apresentadas por Keynes na sua Teoria Geral seriam alinhavados por outros economistas “clássicos”, notadamente Robertson e Ohlin (Ver Oreiro, 2000).

A década de 1970 marcaria a crise do Keynesianismo e o recrudescimento das ideias liberais. Embora Hayek tivesse um papel importante na filosofia política do neo-liberalismo, em função do seu The Road To Serfdom (1944); seu papel na crítica a Macroeconomia Keynesiana seria praticamente nulo. Esta foi desafiada, não pela Teoria Austriaca do Capital, como era a intenção de Hayek; mas pela Teoria da Taxa Natural de Desemprego de Milton Friedman e pela Crítica de Robert Lucas aos modelos macroeconométricos de inspiração keynesiana.

A crise financeira de 2008 permitiu a reabilitação (parcial) das ideias de Keynes, postas no ostracismo durante a vigência da assim chamada nova-sintese neoclássica. No longo-prazo Keynes ainda está vivo.

Link: http://www.cofecon.org.br/index.php?option=com_docman&view=docman&Itemid=975