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Recentemente tem-se observado um aumento do otimismo com as perspectivas de crescimento da economia brasileira para o ano de 2017.  Com efeito, o índice BOVESPA aproxima-se dos 60 mil pontos, acumulando uma alta de quase 60% com respeito à mínima verificada em janeiro do corrente ano. A taxa de câmbio US$/R$ também apresentou uma notável apreciação de 22% com respeito ao valor de R$ 4,15 observado na segunda quinzena de janeiro.  Lado a lado com a recuperação dos preços dos ativos observamos também um aumento consistente do índice de confiança do empresário industrial, o qual passou de um valor igual a 36,5 em Janeiro, para 51,5 em Agosto. Por fim, os técnicos do Ministério da Fazenda reviram a previsão de crescimento da economia brasileira para 2017 de 1,2% para 1,6%.

Uma análise mais cuidadosa dos dados, contudo, revela que o otimismo atual – tal como expresso nos preços dos ativos financeiros – pode ser exagerado, reflexo de uma “exuberância irracional” dos mercados financeiros com relação às perspectivas da economia brasileira. Com efeito, apesar do aumento recente do otimismo dos empresários industriais, a economia brasileira deverá fechar o ano de 2016 com uma retração de 3% em termos reais. Dessa forma, mesmo que a economia apresente um crescimento de 1,6% em 2017, o PIB real será ainda 7,4% mais baixo do que o verificado no ultimo trimestre de 2014. Admitindo que o crescimento se acelere para 2,5% a.a a partir de 2018, a economia brasileira só irá recuperar o nível observado no ultimo trimestre de 2014 no final de 2020. Acontece que o valor máximo observado pelo BOVESPA ao longo do ano de 2014 não atingiu 58 mil pontos, o que nos leva a concluir que os preços dos ativos estão provavelmente acima do seu valor de equilíbrio.

Além disso, não é liquido e certo que a economia brasileira irá apresentar um ritmo moderado de crescimento a partir de 2018. Isso porque a era petista deixou uma herança maldita para o Brasil na forma de uma redução significativa da participação da indústria de transformação no PIB. Essa mudança estrutural, conhecida como “desindustrialização”, tem um impacto negativo sobre as perspectivas de crescimento da economia brasileira, haja vista que a indústria é o setor de atividade econômica responsável pela geração e difusão do progresso tecnológico e dos ganhos de produtividade. Dessa forma, a desindustrialização está associada a uma redução da taxa de crescimento da produtividade do trabalho, o que diminui o ritmo de crescimento do PIB que é compatível com uma taxa de inflação estável.

A participação da indústria no PIB depende, entre outros fatores, do preço dos bens transacionáveis relativamente ao preço dos bens não-transacionáveis, ou seja, da taxa real de câmbio. O valor da taxa real de câmbio para o qual a participação da indústria no PIB permanece constante ao longo do tempo – de forma a interromper o processo de desindustrialização – é chamado de equilíbrio industrial. Cálculos do Centro de Estudos do Novo-Desenvolvimentismo da FGV-SP mostram que para alcançar o equilíbrio industrial a taxa nominal de câmbio deveria estar em torno de R$3,80.

O problema é que a valorização observada do câmbio nominal nos últimos meses colocou novamente a taxa real de câmbio num patamar incompatível com a recuperação da participação da indústria de transformação no PIB. Sendo assim, ou o câmbio terá que sofrer uma forte depreciação nos próximos meses para aumentar as perspectivas de crescimento da economia brasileira a partir de 2018; ou os preços das ações brasileiras terão que sofrer uma forte correção para baixo. O cenário atual de câmbio baixo-preço alto das ações é insustentável no médio-prazo.

Link: http://www.dci.com.br/opiniao/exuberancia-irracional–id571454.html