Tags

Especialistas avaliam que recuperação da credibilidade política, perspectiva de redução da taxa Selic e endereçamento de reformas estruturais serão as condições postas em 2017 para retomada

São Paulo – O compromisso com reformas estruturais, a melhora da confiança e a expectativa de redução da taxa básica de juros (Selic) serão as condições postas em 2017 para a retomada dos investimentos.

O presidente da Desenvolve SP, Milton Santos, contou ao DCI, por exemplo, que as empresas estão voltando a procurar a agência de fomento para se informar sobre formas de financiamento.

“No primeiro semestre, houve uma redução de 20% nos desembolsos da Desenvolve SP, comparado a igual período de 2015. Nunca tivemos isso antes”, relata. “No entanto, estamos vendo uma retomada das consultas, com empresas ingressando mais em nosso site para obter crédito e com maior participação nos eventos que fazemos”, acrescenta Santos.

Para ele, esses são sinais “alvissareiros” de uma retomada gradativa da economia. O presidente da Desenvolve SP elenca que os setores que terão recuperação mais rápida serão o agronegócio, empresas inovadoras (startups) e a indústria de construção civil. Já os segmentos de bens de capital, como autopeças, máquinas e equipamentos ainda devem demorar mais para retomar crescimento.

Segundo Santos, a recuperação dos investimentos virá na esteira da melhora da confiança. “O empresário toma decisão se percebe que o cenário político começa a se mostrar menos incerto. A redução da incerteza traz menos riscos aos negócios”, diz ele, ao se referir à finalização do processo de impeachment e o possível estabelecimento de Michel Temer na Presidência.

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central (BC), (1992-1993/1995-1997), avalia que a equipe econômica de Michel Temer traz confiança ao empresariado, fator fundamental na retomada dos investimentos em 2017. Mas pondera que a sustentabilidade da recuperação está no endereçamento de reformas estruturais e medidas fiscais. “A partir da confirmação do impeachment, essas pautas precisam avançar para que os investimentos possam se restabelecer”, afirma.

“Não sou ingênuo de achar que nós [Estado brasileiro] vamos aprovar todas as reformas. Mas as medidas-chaves precisam ser acompanhadas mais de perto, como a da Previdência e do teto para o gasto. O encaminhamento dessas vai ditar o humor dos analistas nos próximos meses”, reflete Loyola, ao não descartar o risco das propostas não serem aprovadas pelo Congresso.

Fiscal desafiador

Já na opinião de Fernando Ferrari Filho, professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), melhora de confiança não é garantia de volta de investimento. Para ele, o cenário fiscal desafiador é obstáculo à alavancagem dos aportes.

“O governo fala em recuperar o tripé macroeconômico [câmbio flutuante, metas de inflação e formação de superávit primário], mas está com um déficit de R$ 170 bilhões neste ano e espera mais um rombo de R$ 130 bilhões em 2017”, critica. “Só haverá retomada dos investimentos quando medidas concretas na área fiscal forem implementadas”, completa Ferrari Filho.

José Luis Oreiro, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que a recuperação da confiança alavanca investimento, mas não na velocidade necessária para reverter a redução do estoque de capital nos últimos dois anos.

“O indicador de confiança da CNI [Confederação Nacional da Indústria], por exemplo, já está acima de 50 pontos, indicando atividade positiva da produção industrial. Isso, mais cedo ou mais tarde, vai se refletir em um aumento do investimento”, analisa Oreiro.

No entanto, uma das condições que, para ele, impede uma alavancagem maior é o patamar do câmbio. “Para uma recuperação vigorosa, o câmbio teria de estar entre R$ 3,70 e R$ 3,80 [o que aumenta a competitividade da indústria], algo que não irá se concretizar em 2017”, considera Oreiro.

O professor da UFRJ avalia que a redução dos juros é outro fator que pode estimular os investimentos em 2017, já que a diminuição da taxa torna mais barato o custo do capital.

Ferrari Filho elenca que a restrição ao crédito e a inadimplência das empresas serão outros impedimentos para uma retomada mais vigorosa da economia. No entanto, ressalva que a entrada de capital estrangeiro é o que protege os aportes no País. “O Brasil continua sendo um dos países que mais recebe investimento em bens de capital [via multinacionais que estão instaladas no País], porque o nosso mercado consumidor é muito grande.”

Paula Salati