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Em função da repercussão recente gerada pela publicação de dois livros-texto na tradição novo-desenvolvimentista (“Macroeconomia do Desenvolvimento” de José Luis Oreiro e “Macroeconomia DEsenvolvimentista” De Bresser-Pereira, Oreiro e Marconi), alguns economistas liberais se dispuseram a escrever libelos contra essa corrente teórica, fazendo afirmações a respeito da substância de seus argumentos que simplesmente não correspondem a realidade. Trata-se da velha e desgastada estratégia de construir um espantalho para depois ataca-lo.

Sem querer entrar em polêmicas de natureza pessoal, até porque algumas dessas pessoas são meus amigos, faço abaixo uma desconstrução de seus argumentos:

Libelo 1: para os novo-desenvolvimentistas a poupança é irrelevante, pois o verdadeiro motor do crescimento é o consumo.

Erro duplo. Em primeiro ligar, para os novo-desenvolvimentistas, embora o investimento determine a poupança a nível agregado (seja pelo mecanismo tradicional do multiplicador keynesiano seja por vias de alterações na distribuição de renda, como em Kaldor e Pasinetti); a composição da poupança agregada importa. Uma baixa taxa de poupança doméstica com relação ao investimento tem como contra-partida logicamente necessária uma elevada poupança externa, ou seja, um alto déficit em conta-corrente. Para países, como o Brasil, que não possuem moeda de reserva internacional, isso significa uma elevada fragilidade externa, impondo a ocorrência periódica de crises de balanço de pagamentos (Ver Bresser-Pereira, Oreiro e Marconi, 2016, cap.10) o que reduz o crescimento de longo-prazo. Dessa forma, o ideal é que nos países de renda média a poupança doméstica seja maior do que o investimento, dando origem a superávits em conta-corrente. A ideia de que a poupança doméstica é irrelevante não faz parte do Credo novo-desenvolvimentista.

Em segundo lugar, o motor de crescimento não é o consumo, mas as exportações de manufaturados, adequadamente acompanhadas pelo investimento em capital fixo, o qual permite a incorporação de progresso técnico. A esse respeito ver Oreiro (2016, cap.4).

Libelo 2 : As obras de infraestrutura são irrelevantes para o crescimento de longo-prazo.

Outro erro. Os novo-desenvolvimentistas afirmam que a realização de investimentos em infra-estrutura, preferencialmente financiados com recursos do orçamento público, são fundamentais para o crescimento em função da complentariedade estratégica entre investimento público e investimento privado. Na verdade um regime ideal de política macroeconômica é aquele que, além de garantir a solvência inter-temporal do setor público, permite o aumento significativo do investimento público em infra-estrutura. A esse respeito ver Oreiro (2012).

Libelo 3: Não existem evidências de que o câmbio desvalorizado estimule o crescimento.

Falso. Nos ultimos 10 anos uma extensa literatura empírica tem se desenvolvido a respeito da relação entre câmbio e investimento, mesmo entre autores notadamente neoclássicos como Rodrik (2008). Entre os novo-desenvolvimentistas brasileiros, a relação empírica sobre câmbio e crescimento foi analisada por Missio, Gonzaga, Oreiro e Brito (2015). A conclusão é clara: a sobre-valorização cambial – medida pelo desvio da taxa real de câmbio com relação ao seu valor de equilíbrio dado pela PPC ajustado pelo efeito Balassa-Samuelson – afeta negativamente o crescimento de longo-prazo mesmo após controlarmos para variáveis como taxa de poupança, capita humano, inflação, renda per-capita inicial e gastos do governo como proporção do PIB.

Libelo 4 : os novo-desenvolvimentistas querem manipular artificialmente a taxa de câmbio.

Falso. Novo-Desenvolvimentistas acreditam que existem falhas de mercado importantes no mercado cambial, as quais fazem com que a taxa de câmbio determinada pelo mercado não seja aquela que maximiza o bem-estar social. Por isso defendem a introdução de políticas econômicas – como o controle a entrada e saida de capitais e o imposto de exportação de commodities – cujo objetivo é precisamente corrigir essas falhas.  Além disso, para que a desvalorização da taxa de câmbio possa ser obtida sem uma aceleração permanente da taxa de inflação e uma redução da participação dos salários na renda nacional é necessário que a mesma seja acompanhada por um aumento da poupança pública.

Libelo 5 : Os novo-desenvolvimentistas acham que basta desvalorizar o câmbio e tudo estará resolvido.

Falso. No debate sobre esse tema no Brasil, os novo-desenvolvimentistas sempre defenderam a tese de que a desvalorização cambial precisa ser acompanhada por um forte ajuste fiscal, de maneira a mudar o mix de política macroeconômica que permita a redução da taxa de juros sem produzir aceleração da inflação (Ver Oreiro, 2016, cap.8). A mudança no patamar da taxa de câmbio também precisa ser acompanhada de um aumento do investimento público e de uma mudança na política de reajuste do salário mínimo que atrele os aumentos salariais ao crescimento da produtividade do trabalho.

Libelo 6: Alguns Novo-Desevolvimentistas apoiaram o governo Dilma, isso mostra que o novo-desenvolvimentismo é o responsável pela nova-matriz macroeconômica.

Falso. De fato, um dos mais proeminentes nomes do novo-desenvolvimentismo apoiou (e aianda apoia) a Presidente afastada Dilam Rouseff, mas outros nomes, mais jovens dessa escola, sempre foram críticos do governo Dilma Rouseff. Não se deve misturar opiniões e conveniências políticas individuais com a posição teórica de uma escola de pensamento. O “desenvolvimentismo” de Dilma Rouseff não tem nada a ver com o novo-desenvolvimentismo (Ver Oreiro, 2016, cap. 8)

 

Referências:

Bresser-Pereira, L.C; Oreiro, J.L; Marconi, N. (2016). “Macroeconomia Desenvolvimentista: Teoria e Política Econômica do Novo-Desenvolvimentismo”. Elsevier: Rio de Janeiro.

Missio, F; Gonzaga, F; Brito, G; Oreiro, J.L. (2015). “Real Exchange Rate and Economic Growth: New Empirical Evidence”. Metroeconomica,

Oreiro, J.L. (2016). “Macroeconomia do DEsenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana”. LTC Editora: Rio de Janeiro.

Oreiro, J.L. (2012). “Novo-Desenvolvimentismo, Crescimento Econômico e Regimes de Política Macroeconômica”. Estudos Avançados.

Rodrik, D. (2008) Real Exchange Rate and Economic Growth. Brooking Papers on Economic Activity, vol. 2, pp. 365-412.