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Um aspecto importante do ajuste macroeconômico feito ao longo do ano de 2015 foi a expressiva desvalorização da taxa nominal de câmbio. Com efeito, a taxa de câmbio sofreu uma desvalorização de 46,68% entre janeiro e dezembro de 2015. Em função disso, as exportações de manufaturados começaram a apresentar os primeiros sinais de recuperação no início de 2016, reduzindo assim o ritmo de queda da produção industrial decorrente do derretimento da absorção doméstica em 2015.

Não se deve atribuir, contudo, a desvalorização do câmbio às medidas de política econômica tomadas pela presidente da República afastada, Dilma Rousseff (PT). A mudança do patamar da taxa de câmbio foi a resposta “natural” da economia a uma mudança nos “fundamentos”, em concreto, a deterioração dos termos de troca devida a redução dos preços das commodities nos mercados internacionais e ao aumento do prêmio de risco soberano devido às incertezas associadas a trajetória da dívida pública, tida como insustentável por parte dos analistas financeiros.

A política econômica, na verdade, jogou contra esse ajuste, na medida em que as operações de swap cambial realizadas pelo Banco Central do Brasil, ao funcionarem como substitutos de operações de venda de reservas no mercado à vista, acabaram por limitar o movimento de desvalorização cambial.

A partir de janeiro de 2016 se verificou um movimento de reversão, ainda que parcial, desse processo de ajuste da taxa de câmbio. Entre janeiro e junho de 2016, a taxa nominal de câmbio apresentou uma valorização de 20,60%, devolvendo assim uma parte significativa dos ganhos de competitividade que a indústria havia obtido com o ajuste do ano anterior. Certamente que a valorização observada da taxa de câmbio deve-se a uma melhoria nos “fundamentos”: os termos de troca apresentaram uma pequena valorização e a percepção de risco de insolvência fiscal diminuiu após o impeachment de Dilma.

Os economistas liberais se mostram satisfeitos com o comportamento da taxa de câmbio. Afinal de contas se o regime cambial é flutuante, a dinâmica do câmbio deve refletir as forças de oferta e demanda. Nesse caso, o nível do câmbio é necessariamente certo, pois o equilíbrio de mercado é sempre eficiente.

Um problema que os economistas liberais negligenciam no atual processo de valorização da taxa de câmbio é que se o mesmo não for revertido; então a competitividade da indústria de transformação só poderá ser restaurada (se é que o será) por intermédio de uma forte redução dos salários dos trabalhadores. Dessa forma, o custo unitário do trabalho em reais poderá se reduzir, contrabalançando a valorização da taxa de câmbio.

De que forma os salários são reduzidos? Isso ocorre por intermédio da diferença entre o salário dos admitidos e o salário dos desligados. As firmas demitem um trabalhador mais experiente, que ganha um salário mais alto, e contratam um novo trabalhador para o seu lugar, por um salário mais baixo. Para que esse processo reduza o salário médio da indústria é necessário que aquela relação diminua ao longo do tempo, ou seja, que os salários dos admitidos sejam uma proporção declinante dos salários dos desligados. Está claro que não se trata de um processo espontâneo. Para que isso ocorra é necessário um aumento significativo da taxa de desemprego.

jose.oreiro@ie.ufrj.br

Professor de Economia da UFRJ

José Luis Oreiro