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Fernando Dantas

12 junho 2016 | 21:24

Ilan Goldfajn, novo presidente do BC, dâ ênfase à flutuação do câmbio. É possível que, um pouco adiante, retorne o velho debate entre os economistas ortodoxos e aquele que defendem um câmbio competitivo para a indústria.

A sinalização de Ilan Goldfajn, novo presidente do Banco Central (BC), da volta de um câmbio efetivamente mais flutuante pode trazer de volta a médio prazo a tradicional disputa entre industrialistas e ortodoxos. No curto prazo, com exceção da fração do grupo heterodoxo que se opõe ao ajuste fiscal, os economistas em geral estão alinhados em relação à necessidade do acerto das contas públicas e do combate à inflação – neste segundo caso, o que varia é apenas a recomendação do timing de convergência para a meta de 4,5%.

Na política cambial, ainda há um estoque de swaps cambiais a ser potencialmente zerado. Até que isto ocorra (se ocorrer), é possível simultaneamente agradar aos que se preocupam com a valorização do câmbio sem provocar maior contrariedade dos que defendem mais flutuação – afinal, em relação a estes últimos, trata-se de desfazer um excesso de intervenção passado.

É sabido que os movimentos do câmbio estão entre os mais imprevisíveis, mas, conjugando-se as hipóteses de aprovação do impeachment e de medidas importantes do governo Temer (como a PEC do limite de gastos) com um ambiente internacional em que já há mais de US$ 10 trilhões de títulos soberanos com rentabilidade negativa, não se pode descartar um cenário de apreciação do real.

Esta é uma preocupação para José Oreiro, economista da UFRJ, que teme o que chama de “a volta da âncora cambial”.

“Me preocupa a tentação que todo dirigente do Banco Central tem de deixar o câmbio derreter para tentar obter resultados mais rápidos no controle da inflação, como aconteceu de 2003 a 2006”, diz Oreiro.

O economista não vê essa questão como um problema urgente, já que atribui parcela da responsabilidade pela recente apreciação à revalorização dos termos de troca do Brasil, com altas nas últimas semanas de produtos como minério de ferro, petróleo e soja. O outro fator seria o discurso de Goldfajn na sabatina do Senado, considerado duro em termos de inflação – jogando “uma ducha de água fria” na expectativa de corte da Selic a curtíssimo prazo – e que sinalizou menos intervenção no câmbio.

Envolvido no lançamento do seu último livro, “Macroeconomia do Desenvolvimento, uma Perspectiva Keynesiana”, Oreiro é um heterodoxo que defende o ajuste fiscal, mas considera que a sobrevalorização do câmbio em meados da década passada foi uma das causas da atual crise econômica, ao atingir profundamente a indústria.

“A sobrevalorização é um remédio de curto prazo para a inflação, mas não ataca suas causas estruturais, com a persistência de um elevado grau de indexação, além de prejudicar a indústria e, portanto, o crescimento potencial da economia”.

Entretanto, com a formação de uma equipe econômica de perfil mais ortodoxo no governo Temer, é possível que a balança penda para o campo oposto ao de Oreiro na questão cambial. Samuel Pessôa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance, e pesquisador associado do Ibre/FGV, é um dos analistas que mais vem aprofundando o argumento a favor do câmbio mais flutuante.

“O câmbio não pode ser usado para fazer política econômica, isto é algo que nós tentamos muitas vezes, e os resultados sempre foram ruins”, ele diz. Na visão de Pessôa, o Brasil é uma economia de poupança muito baixa e juros muito altos – os dois fenômenos estão ligados –, enquanto os países que conseguem controlar melhor o câmbio, independentemente de se discutir o mérito de fazê-lo, são aqueles de elevada poupança e juros baixos.

Segundo o economista, a indústria brasileira afundou não por causa do câmbio, mas acompanhando a economia como um todo, derrubada pelas políticas equivocadas da nova matriz econômica. Adicionalmente, a economia global passou a apresentar excesso de oferta de produtos industriais a partir da crise mundial de 2008 e 2009, algo sobre o que a política econômica não tem muito a fazer, a não ser que incorra em risco de efeitos colaterais piores do que eventuais benefícios. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/6/16, sexta-feira.

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