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O Banco Central (BC) indicou que a redução da taxa básica de juros está próxima. Manteve a Selic em 14,25% ao ano pela sexta vez consecutiva, mas, agora, em decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom). Na reunião anterior, dois diretores haviam votado pela alta: Tony Volpon e Sidnei Marques. O encontro de ontem pode ser o último conduzido por Alexandre Tombini, que não deverá ser mantido no comando da autoridade monetária em um eventual governo de Michel Temer.

Além da unanimidade, um forte sinal de que os juros estão próximos veio no comunicado distribuído no fim do encontro, o qual afirma que “o comitê reconhece os avanços na política de combate à inflação”. O Copom ressalvou, porém, que, medida em 12 meses, a carestia continua alta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou 9,39% até março, muito acima da meta de 4,5%. De acordo com o comitê, “as expectativas de inflação distantes dos objetivos do regime de metas não oferecem espaço para flexibilização da política monetária”.

Para a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, o Copom não usou o tom necessário na nota. “Eu preferia um comunicado mais duro. Os diretores do BC falam em avanços, mas não é possível ainda tirar o paciente da UTI. A inflação não está apenas alta, está a anos-luz da meta”, criticou. Zeina explicou que o BC está se esforçando para recuperar a credibilidade, e, ao sinalizar que os juros vão baixar logo, pode atrapalhar esse processo. “Há risco de desancorar as expectativas de que a inflação volte para a meta”, disse. Isso provocaria uma convergência mais demorada para o objetivo.

A manutenção da Selic por unanimidade era esperada pelo mercado. O último boletim Focus, divulgado pelo BC na segunda-feira passada, mostrou recuo de 13,38% para 13,25% na expectativa dos analistas para a taxa no fim deste ano. A questão, no entanto, ainda é controversa. Para alguns, a desaceleração deve ser mais comedida, até em decorrência da instabilidade política. “É preciso aguardar que a tendência de recuo dos preços se consolide para reduzir os juros”, disse o economista-sênior do Banco Haitong, Flávio Serrano. Ele prevê cortes na taxa básica apenas nas reuniões de outubro e de novembro, de 0,50 ponto percentual em cada uma.

Com Temer na Presidência, a expectativa é de uma política econômica mais ortodoxa. Isso envolveria redução de gastos e política monetária conservadora. Na opinião de economistas heterodoxos, o ideal seria uma queda mais rápida da Selic. José Luís Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que a ênfase na estabilidade de preços compromete a atividade econômica. “Embora seja importante ter a inflação sob controle, o combate à carestia não pode prevalecer sobre o nível de atividade”, afirmou. Para Fábio Silveira, diretor de Pesquisa Econômica da GO Associados, a redução de juros na próxima reunião não seria surpresa. “Os preços do etanol e da gasolina estão mais baixos no atacado. É questão de tempo para que essa redução chegue ao varejo, por volta de maio ou junho.”

Sem mudança nos EUA

Confirmando as expectativas, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve as taxas de juros de referência na faixa de 0,25% a 0,50% ao ano, mas sinalizou confiança na perspectiva econômica do país, deixando a porta aberta para uma alta em junho. Em nota, a instituição afirmou que a economia dos EUA mostra boa performance em alguns aspectos, mas sinais preocupantes em outros. Embora o cenário global ainda seja incerto, o comunicado não usou a palavra “riscos” ao se referir à economia mundial.