RIO, SÃO PAULO E WASHINGTON – Enquanto as atenções do Brasil inteiro estão voltadas para os próximos movimentos no cenário político, no front econômico o país tem pouco tempo para evitar amargar, em 2017, seu terceiro ano seguido de recessão. Na média, os analistas de mercado ainda preveem leve alta no PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) no próximo ano, de 0,3%, segundo o Boletim Focus, do Banco Central. Mas muitos não descartam uma contração. Inverter o rumo da economia a esta altura representa uma corrida contra o tempo. Na avaliação de especialistas, ainda é possível salvar o país do que seria o maior e mais profundo período de recessão em mais de um século, desde que a crise política tenha um desfecho rápido. Para isso, dizem os analistas, é preciso que o governo, seja ele qual for, adote ação concentrada, com medidas de compromisso fiscal para manter a dívida pública em patamar sustentável. Um resgate da confiança é, assim, fundamental para a retomada dos investimentos que tornem possível ao país voltar a crescer.

A definição de quem estará no governo tem papel crucial sobre as expectativas. Entre os analistas de mercado, a tendência é de um viés mais otimista com uma troca de comando. Mas, em qualquer cenário, a retomada do crescimento não é vista como tarefa de fácil execução.

— Se o processo do impeachment não passar, outras denúncias vão continuar atrapalhando o governo. Se passar, teremos a ação de movimentos sociais e não saberemos como será governar em meio a uma sociedade rachada. Então, mais do que quem vai estar lá (no comando do país), é a quantidade de nevoeiro que vai determinar quando voltaremos a crescer. Hoje, estamos descendo a serra sem enxergar cem metros à frente. Então, andamos devagar. Se você consegue tirar essa nuvem da frente, é possível olhar adiante e até recuperar o terreno perdido com crescimento rápido de médio prazo — avalia o economista-chefe do Banco ABC, Luis Otavio de Souza Leal.

Para o economista, o governo precisa provar que a dívida pública ficará sob controle. No ano passado, o governo federal fechou o ano com rombo de R$ 114,9 bilhões no orçamento. É o maior déficit da história. Sem superávit, o governo não consegue economizar para pagar os juros da dívida pública.

— A grande questão é mostrar, na parte fiscal, que a dívida do governo não vai entrar em trajetória insustentável. Estamos em um círculo vicioso, e tudo é pessimismo. Precisamos virar a chave para que os agentes econômicos comecem a achar que tem uma luz no fim do túnel. Com melhores expectativas, o dólar fica mais baixo, a inflação, mais comportada e os juros podem cair, melhorando as expectativas de crédito e as dos empresários, que voltam a investir — analisa Leal, que, ainda assim, avalia que a economia terá retração de 0,2% em 2017.

DEPENDÊNCIA DO SETOR EXTERNO

Analistas de agências de classificação de risco que participam da reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, avaliam que o impeachment, em si, não mudará a percepção econômica do mundo. Falando sob sigilo, dizem que, independentemente do governo, será necessário ver se o país obtém “consenso político” para fazer o ajuste fiscal. Ressaltam que não se atêm ao curto prazo, mas observam a trajetória e as expectativas em períodos de 12 a 18 meses. Levarão em conta a capacidade de o país voltar a crescer, pois, do contrário, o ajuste fiscal não será sustentável. Além de um plano crível, dizem que o governo terá de mostrar capacidade de implementá-lo.

No ano passado, o consumo das famílias desabou 4%, e os investimentos, 14%. Os dois setores registram o pior desempenho em 19 anos e foram determinantes para a economia ter encolhido 3,8%. A indústria está cada vez mais ociosa e opera com um nível de utilização da capacidade instalada de 73%. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo defende que é necessário incentivar o setor privado a investir, por meio de concessões, por exemplo:

— Seja qual for o resultado sobre o pedido de impeachment, salvar 2017 depende da capacidade do governo de articular medidas com o setor privado, de modo a recuperar algum estímulo à economia. É preciso impulsionar os investimentos privados, com concessões. Mas as empresas de infraestrutura estão paralisadas com a Lava-Jato. É necessário que se separe o destino das empresas dos seus controladores.

Ele acredita que, ao contrário da última vez em que o país passou por três anos seguidos de recessão, no início dos anos 1980, o crescimento não se dará por meio das exportações dessa vez:

— Não há demanda global considerável. A economia mundial está devagar, quase parando.

Para o professor do Instituto de Economia da UFRJ José Luis Oreiro, a recessão se aprofundou em razão da crise política. Para o professor, a presidente Dilma Rousseff não tem apoio político para criar um consenso mínimo em torno de uma agenda de reformas estruturais no lado fiscal que mostre, no médio e longo prazos, que o país é capaz de conter o ritmo de despesas primárias da União. Sem reformas, para ele, não é possível retomar o crescimento:

— É preciso colocar as reformas estruturais em prática para que o Banco Central possa baixar juros e estimular consumo e investimento.

Oreiro explica que a permanência da presidente Dilma no cargo seria mal recebida pelo mercado e, em consequência, o país voltaria a registrar forte desvalorização cambial, com o dólar voltando ao patamar dos R$ 4, e maior percepção de incerteza:

— Isso afastaria qualquer possibilidade de retomada em 2017.

A Tendências Consultoria estima que o país sairá da recessão em 2017 com crescimento de 1,2%. Isso baseado em cenário que considera probabilidade de 70% de uma interrupção do atual governo. E, ao contrário de Belluzzo, a casa de análises aposta numa retomada via exportações:

— Vemos o setor externo puxando o crescimento, já que as exportações estão aumentando. As importações estão caindo dramaticamente e sendo substituídas por produção nacional — justifica a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências.

No cenário em que a presidente Dilma permanece na presidência, a Tendências prevê queda do PIB de 0,6% em 2017.

PACTO DE CONVIVÊNCIA POLÍTICA

Arminio Fraga, sócio da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, condiciona uma retomada à saída da presidente. O economista tem sido citado como possível ministro em um eventual governo Michel Temer, mas sustenta que tem interesse apenas em colaborar, não em assumir um cargo:

— Se o impeachment vier acompanhado de uma proposta clara para o futuro do Brasil, uma mudança de rota com relação ao que temos hoje, acho que a economia pode reagir. Não creio que vá dar um salto e começar a crescer de forma acelerada porque os problemas são muitos e muito difíceis.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, traça cenários distintos para a economia de acordo com o resultado da crise política e vê espaço para uma expansão de 0,6% em 2017 diante de uma troca de comando. Segundo Vale, os bons ventos sobre o mercado, neste cenário, poderiam ser aproveitados pelo novo governo com a retomada do tripé macroeconômico, pautado em metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante.

— E também sinalizando com reformas mínimas, especialmente a da Previdência — diz.

Sobre a possibilidade de Dilma se manter presidente e os efeitos na economia, Arminio Fraga demonstra preocupação:

— Podemos mergulhar numa trajetória muito mais apavorante que a atual. Porque a atual se beneficia da expectativa de mudança.

Para Francisco Lopreato, economista da Unicamp, independentemente de quem seja o presidente, é preciso que o governo firme um pacto de convivência política que crie estabilidade. Com esse pacto, acredita ser possível “ficar com o nariz fora d’água” durante 2017. Para, então, iniciar lentamente um processo de recuperação e chegar ao final do ano em situação melhor do que a atual.

— Esse pacto é necessário para que o governo consiga governar. Nada foi aprovado no Congresso. Tudo está parado: concessões, renegociação da dívida dos estados, reforma tributária, da Previdência, nada teve continuidade — enumera Lopreato.

Para Lopreato, a situação econômica é decorrente do que ele descreve como uma “situação de terra de ninguém no campo da política”:

— Historicamente, as grandes crises do país ocorreram por causa do setor externo. Temos um volume de reservas enorme e o balanço de pagamento se recuperou. O grosso do ajuste das empresas já foi feito. A situação fiscal piorou muito em função da própria queda da arrecadação. Se houver melhora, a situação fiscal ficará mais manejável. Melhora a arrecadação, a situação de municípios e estados, e temos um câmbio favorecendo as exportações.

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