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A nova Cassandra da economia brasileira

Com previsões controversas, Felipe Miranda, sócio da casa de análises Empiricus, provoca o mercado financeiro e cutuca o governo brasileiro. Acreditar nele, ou não, pode trazer prejuízo ou lucro

A Empiricus, umas das maiores casas independentes de análise financeira do País, anda na contramão das previsões do mercado. Seus relatórios, assinados pelo sócio-fundador Felipe Miranda, têm o poder de cair como uma bomba na mesa dos investidores. Na terça-feira 16, a mais recente projeção da equipe da Empiricus fez a espinha de muitos gelar: “O calote – o Brasil está tecnicamente quebrado”. Para corroborar essa tese, no dia seguinte a agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que já havia retirado o grau de investimento do Brasil, em setembro, rebaixou novamente a nota soberana, agora com perspectiva negativa. (leia reportagem aqui).

Aos 31 anos, Miranda incorpora o mito grego da Cassandra, aquela que tem o dom da profecia, mas vive sob dilema. Se erra, é desmoralizada. E, se acerta as previsões, é chamada de agourenta. “Não sou psicólogo, meu trabalho não é deixar as pessoas bem-humoradas”, diz Miranda. “Meu trabalho é fazer as pessoas ganharem dinheiro.” Miranda é um especialista em mexer com o imaginário dos leitores. De segunda a sexta-feira, ele se fecha às 7h40 em sua mesa, no 4º andar de um edifício no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo, e fica cerca de duas horas analisando o mercado financeiro e buscando a frase impactante de seu próximo livro ou relatórios sobre a situação econômica brasileira.

A força da Empiricus está, justamente, no poder do título, muito mais catastrofista e chamativo que o conteúdo de seus trabalhos. Nesse último relatório, para justificar que o Brasil está quebrado, Miranda e sua equipe mostram que a relação dívida-PIB caminha rapidamente para superar o patamar de 80% – hoje está em 66% – depois de 2018. Mas, com a ressalva: “Mais uma vez, não se trata de uma conta exclusiva da Empiricus”, diz o texto. E, diferentemente da agressividade do título de seu produto, Miranda não acredita veemente em um default.

“Antes de dar o calote, como última consequência, o governo tem a prerrogativa de imprimir dinheiro para honrar seus compromissos”, diz ele. “Mas pagar a dívida com inflação é um calote disfarçado.” O segredo da empresa está nessa fama de polemista adquirida nos últimos anos, principalmente após a publicação do relatório O Fim do Brasil, em 2014. Ser considerado agourento rende, também, fortuna. Os seguidores da Empiricus aumentam na mesma proporção que a popularidade de seus relatórios chamativos.

Atualmente, são 1,6 milhão de assinantes do conteúdo gratuito e 115 mil pagantes, que desembolsam entre R$ 9,90 a R$ 600 por mês para ter acesso ao material exclusivo. O resultados da empresa é mantido em sigilo. A história recente da economia mostra outros personagens conhecidos como Cassandra. O economista americano Nouriel Roubini, chamado de doutor Catástrofe, deu início a uma série de previsões pessimistas sobre a economia mundial no início dos anos 2000. Quando acertou a previsão de quebra do mercado imobiliário americano, passou a ser o sábio a quem ninguém deu ouvidos.

A desmoralização da Cassandra acontece por aqueles que lembram de projeções falhas ou do longo período para a concretização de uma previsão. Quando Miranda falava que a cotação do dólar chegaria a R$ 4, a moeda americana estava sendo negociada a R$ 2,90 e chegou a cair antes de iniciar uma trajetória de alta. Em janeiro, Miranda disse que as ações da Petrobras estavam condenadas a cair, por isso era preciso vender e não comprar papéis da estatal. Em poucos dias, a Petrobras alcançou uma valorização de mais de 20%.

A bolsa de valores causou o mesmo efeito, porém contrário, que a S&P sobre seu último relatório. Especialistas ouvidos pela DINHEIRO acreditam que a intenção de Miranda é assustar para gerar mais volatilidade no mercado financeiro e, assim, mais demanda para sua consultoria. “O Brasil não vai dar um calote, não teremos crise de abastecimento e muito menos hiperinflação”, diz José Oreiro, professor do Instituto de Economia da UFRJ e da Associação Keynesiana Brasileira. 

“Nossas instituições são sólidas o suficiente para que medidas drásticas como essas se concretizem.” As críticas fazem parte da história da Empiricus. No final de 2011, a casa de análise publicou uma carta aberta aos clientes e à imprensa detalhando o que considerava inconsistente no balanço do frigorífico Marfrig. A empresa entrou com uma notificação na Comissão de Valores Mobiliários e, em novembro de 2012, venceu o caso.

A Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais avaliou como inadequada a conduta de analistas da Empiricus, que estavam abusando de agressividade nos relatórios. Marcos Eduardo Elias, responsável pelos textos, recebeu a suspensão do credenciamento por um ano. Rodolfo Amstalden e Roberto Altenhofen pagaram multa de R$ 2 mil. “Para se firmar no mercado financeiro é preciso cultivar a chamada teimosia saudável e não ter medo de errar”, afirma Miranda. “Vamos errar, isso é certo, mas temos que errar pequeno para perder menos. Esse é nosso objetivo.”

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Bola de cristal

O que dizem os relatórios escritos por Felipe Miranda, analista e sócio-fundador da casa independente de finanças Empiricus

Previsões em 2014:

• “Combinado o repasse integral das tarifas públicas represadas e a desvalorização esperada do câmbio, a inflação brasileira pode chegar a 12% ao ano, para uma meta de 4,5%”
A inflação fechou 2014 a 6,41% e em 2015 a 10,7%

• “O Banco Central norte-americano deve começar a subir a taxa de juro em 2015. Neste momento, vai faltar dólar no Brasil. Teremos uma disparada da taxa de câmbio” 
O Fed elevou os juros em dezembro de 2015, a primeira alta desde junho de 2006

• “A poupança de milhões de pessoas será dizimada. A mudança vai afetar seus negócios e empregos” 
A nova regra da poupança passou a valer em maio de 2012, mas o saldo só começou a cair no ano passado, com a alta da inflação e a recessão da economia. O total depositado está em R$ 648,6 bilhões

Previsões em 2016:

• “As duas únicas alternativas possíveis para a dívida brasileira: pagá-la gerando inflação ou renegociá-la com os credores, com risco de moratória”
O total da dívida pública brasileira chegou a R$ 2,79 trilhões no ano passado, ou seja, 66% do PIB brasileiro

• “Problemas de abastecimento e falta de produtos não são distantes da realidade do brasileiro. O que estamos fazendo para evitar a volta do fantasma do passado?”
O agronegócio aumentou sua participação na economia, com uma fatia de 23% do PIB em 2015 ante 21,4% em 2014, segundo a CNA

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