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Em fevereiro de 2016, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda de John Maynard Keynes completa 80 anos de sua publicação. Trata-se da obra que é considerada, pela maioria dos economistas, como a mais importante do século XX, ficando ao lado de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e de O Capital, de Karl Marx como um dos três mais importantes livros de economia já publicados. Também é o livro que marcou a fundação de um ramo específico do conhecimento econômico, a macroeconomia.

Qual a relevância da Teoria Geral de Keynes para o entendimento do funcionamento das economias capitalistas modernas? Para os economistas formados na tradição do mainstream economics a resposta a essa pergunta seria nenhuma. Com efeito, o mainstream economics se baseia num modelo de ciência que Pérsio Arida (2003)[1] denominou de Hard Science em seu artigo clássico sobre retórica na economia. Segundo essa concepção, o estudante de economia deve procurar se familiarizar com o estágio atual da teoria econômica, tal como expresso na fronteira do conhecimento. Nesse contexto, o estudo dos clássicos do passado – como, por exemplo, a Teoria Geral – seria uma pura perda de tempo dado que todas as contribuições pertinentes dos mesmos já teriam sido incorporadas no estágio atual de desenvolvimento da Teoria Econômica. Sendo assim, o aprendizado de economia deve dar-se com base em livros texto, de preferência aqueles publicados nos últimos cinco anos, os quais incorporam o conhecimento que a comunidade dos economistas acadêmicos considera como válido.

O elemento fundamental do modelo de Hard Science é, portanto, a noção de fronteira de conhecimento. Esse conceito se baseia em dois pressupostos, a saber: a fronteira do conhecimento incorpora todas as verdades descobertas pelos pesquisadores, o que inclui os embates teóricos ocorridos no passado, e que o aprendizado dessas verdades, tal como representado nas versões mais recentes da teoria econômica, prescinde por completo da referência a sua formulação original.

A existência ou não de uma fronteira do conhecimento depende do modo de resolução de controvérsias. Em particular, a noção de fronteira do conhecimento implica na resolução positiva de controvérsias, ou seja, a ideia de que as controvérsias entre os economistas são resolvidas em definitivo e que dessa resolução emerge a “verdade”, a qual é aceita por todos os participantes da controvérsia, sendo incorporada ao estado atual da ciência.

A Teoria Geral de Keynes é provavelmente o exemplo mais contundente da falácia implícita na ideia de superação positiva de controvérsias. O objetivo fundamental de Keynes na sua obra magna era mostrar que a teoria clássica aceita até então era apenas um caso particular de uma teoria mais geral na qual o equilíbrio com pleno-emprego dos fatores de produção era apenas uma das diversas posições de equilíbrio possíveis para o sistema econômico, todas as demais se caracterizando pela presença de desemprego involuntário da força de trabalho. Dessa forma, Keynes acreditava estar realizando uma revolução na “forma pela qual o mundo pensa os problemas econômicos” como fica claro em sua carta a Bernard Shaw.

Logo após a publicação da Teoria Geral diversos economistas, entre os quais, John Hicks, Franco Modigliani e Arthur Pigou começaram a reavaliar em que medida os argumentos apresentados por Keynes na Teoria Geral representariam, de fato, uma revolução científica. Para Hicks (1937), a Teoria de Keynes seria um caso particular de um modelo mais geral – o modelo IS-LM – válido apenas para uma economia que opera em condições de depressão. Nessas condições prevaleceria a assim chamada “armadilha da liquidez” de forma que a flexibilidade de preços e salários nominais, defendida pelos economistas clássicos, não seria capaz de restabelecer o equilíbrio com pleno-emprego, cabendo assim esse papel à política fiscal. Alguns anos mais tarde, Pigou (1943) argumentou que mesmo em condições de armadilha da liquidez, o resultado keynesiano de “equilíbrio com desemprego” não se sustentaria em contexto de preços e salários flexíveis em função da incorporação do “efeito riqueza” na função consumo. Nessas condições, o desemprego levaria a deflação de preços e salários, a qual aumentaria o valor real dos saldos monetários possuídos pelos agentes, estimulando assim os seus gastos de consumo. O processo continuaria até o ponto em que todo o desemprego involuntário fosse eliminado do sistema. Esse argumento encontraria sua expressão mais bem elaborada no artigo de Modigliani (1944), para quem a economia de Keynes seria apenas a economia de preços e salários nominais fixos.

Desde então a Teoria de Keynes foi descrita nos manuais de macroeconomia como um modelo de preços fixos, dando ensejo tanto à crítica dos economistas novo-clássicos, para quem a rigidez nominal era incompatível com o suposto tradicional de racionalidade dos agentes econômicos, como ao surgimento da escola novo-keynesiana que tenta redefinir a microeconomia de forma a torna-la compatível com a macroeconomia keynesiana.

Aparentemente essa foi uma controvérsia que seguiu o cânone previsto pela superação positiva. Mas isso não é verdade. Com efeito, Keynes dedica todo um capítulo da Teoria Geral, o capítulo 19, para avaliar os efeitos da flexibilidade de preços e salários sobre o nível de emprego. Sua conclusão foi que a flexibilidade de preços e salários poderia aumentar a instabilidade do sistema, ao invés de produzir uma convergência gradual para o equilíbrio com pleno-emprego. Mais recentemente suas conclusões foram confirmadas pelo Prêmio Nobel de Economia, James Tobin (1981), para quem Keynes teria demostrado que o equilíbrio com pleno-emprego é globalmente instável na presença de preços e salários flexíveis. Keynes continua vivo.

[1] Ver Arida, P. (2003). “A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica” In Gala, P; Rego, J.M. A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica: ensaios sobre metodologia em economia. Editora 34: São Paulo.

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