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Pouco depois de o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgar, ontem, que o PIB do Brasil deve sofrer retração de 3,5% em 2016, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, comentou os dados e fez menção à reunião de hoje do Copom.

A intervenção à véspera da decisão sobre o novo valor da taxa Selic pode indicar que o presidente do BC “está pensando em não aumentar os juros”, analisou José Luiz da Costa Oreiro, especialista em contas públicas. “Ainda assim, não sei até que ponto ele vai conseguir influenciar o resto do colegiado com esse comentário”.

O parecer de Tombini afetou também as expectativas do mercado financeiro sobre a evolução da taxa em 2016. “Até ontem de manhã, tínhamos esperança de três altas para a Selic neste ano”, disse Mariana Orsini, economista da GO Associados. “Com a nova sinalização, vamos ter que rever os números”.

Em nota divulgada pouco depois das nove da manhã, o presidente do BC comentou que as revisões do FMI para o crescimento do Brasil são “significativas” e ressaltou que “todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”.

Além da dúvida criada em relação ao que será decidido hoje, muitos analistas levantaram a possibilidade de que houve influência política no comentário de Tombini, tese que foi refutada por Virene Matesco, professora de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“O mais prudente seria ele [Tombini] não ter comentado nada, mas não vi nenhum problema adicional no comentário. Ele simplesmente admitiu que o relatório [do FMI] existe e que o Banco Central precisa estar atento, não disse nada a mais do que todos já sabem”.

Oreiro também não viu influência política no comentário do presidente do BC. “Pelo contrário, acho que é uma boa ideia tentar convencer os outros diretores a não aumentar a taxa”. Após lembrar que vários economistas, “inclusive alguns do mercado financeiro”, se posicionaram contra a elevação da alta de juros nos últimos dias, o especialista defendeu que seria um erro aumentar a Selic.

Antônio Correa de Lacerda, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) também defendeu que a Selic não seja elevada. “O Copom deveria reduzir a taxa e não subir ainda mais”. Ele explicou: “além de o fato que a economia está fragilizada, [o aumento] complicaria ainda mais o quadro fiscal do País”.

Para Miguel de Oliveira, diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) o Banco Central vive “situação delicada”, já que está “pressionado dos dois lados” em relação à decisão de amanhã.

“Há uma pressão contrária [à elevação da taxa], que diz que qualquer mudança de política monetária não vai funcionar. E também há pressão de que, se não houver aumento, o BC mostrará submissão ao governo”. Ele concluiu: “Seja qual for o resultado [de hoje], vão acontecer críticas”.

Repercussão

Dois ex-diretores do Copom classificaram como surpreendente a divulgação da nota pelo Banco Central um dia antes da decisão sobre a Selic.

“Todos os sinais do BC eram mais hawkishes [inclinado ao aperto monetário], apesar da recessão. Não entendemos o motivo de Tombini passar um recado tão dovish [suave] no meio do caminho”, afirmou uma das fontes entrevistadas.

Se havia uma possibilidade de Tombini deixar o cargo por conta da pressão política que vem sofrendo para não aumentar os juros, a avaliação dessa fonte é a de que a revisão do FMI caiu como uma luva para o presidente do BC, que poderá usá-la como argumento. Com isso, avaliou, também não haveria motivo para deixar o cargo. “Mas isso é contraditório com toda a linha apresentada desde o final do ano passado. Ou o BC não passou os recados certos ou teve de mudar de posição de última hora, o que é muito pior”, avaliou o ex-diretor.

Para outro ex-integrante do BC, a decisão do Copom de hoje foi praticamente antecipada para ontem. “É claro que se trata de um comentário assinado por Tombini, que é um voto, mas é um voto importante e, mais do que isso, de ‘minerva'”, considerou, levando-se em conta que a decisão poderá ser dividida. Na história, é difícil encontrar um momento em que o presidente do BC está no grupo dos “vencidos” em um placar do Copom.

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