Tags

Enquanto as instituições financeiras parecem unânimes em relação ao aumento da taxa Selic na próxima quarta-feira, especialistas apresentam opiniões diferentes sobre a decisão do Copom e questionam a eficácia da medida para combater a inflação.

“Todo mundo está dizendo que vão aumentar [a Selic], mas acho muito difícil que isso aconteça”, disse José Nicolau Pompeu, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “O efeito de mais um aumento sobre a inflação seria muito menor que o impacto sobre o ajuste fiscal”, justificou.

Para Roberto Luís Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), os diretores do Comitê de Política Monetária (Copom) devem decidir pela elevação de 0,25 ponto percentual (p.p.) “por conta do discurso do Banco Central sobre a deterioração das expectativas”.

Já José Luiz da Costa Oreiro, especialista em finanças públicas, acredita que é “quase certo” o aumento de 0,5 ponto da taxa básica de juros. Segundo o professor, a mudança é uma questão de “credibilidade”. “Como, em anos passados, o Banco Central diminuiu a Selic de maneira intempestiva, agora, para conseguir se recuperar, tenta ser mais realista que o rei”, explicou.

Do lado das instituições financeiras, o aumento da Selic é dado como certo. O relatório de mercado Focus, por exemplo, crava que a taxa básica encerrará janeiro cotada em 14,75%, 0,5 ponto acima do patamar atual.

“Tiro no pé”

A eficácia de um possível aumento também foi questionada pelos entrevistados. Para Oreiro, a inflação vai cair em 2016 mesmo sem a elevação da Selic. Uma nova mudança, por outro lado, aprofundaria o quadro recessivo e complicaria ainda mais a questão fiscal.

“Piora ainda mais as contas, com o pagamento de juros crescendo, e também prejudica as arrecadações do governo, já que afeta o desempenho da atividade econômica”, afirmou o especialista. “Essa é a pior decisão que podiam tomar nesse momento.”

Pompeu segue linha parecida: “Se realmente aumentarem, vai ser um tiro no pé”. O professor comentou que a Selic mais alta vai “aumentar o custo do capital para as empresas, o que prejudica a economia”, e não terá grande efeito sobre a inflação, “já que a demanda está fraca”.

Desde o começo de 2014, a taxa de juros foi elevada dez vezes, em 4,25 pontos percentuais, mas o impacto sobre a inflação não foi o esperado: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido em 12 meses, disparou de 5,6% para 10,7% no mesmo período.

A resiliência dos preços, segundo Oreiro, se deve ao aumento dos preços administrados e do câmbio em 2015, que não são afetados diretamente pela Selic. “O juro pode fazer muito pouco com a questão da inércia. O que o governo poderia fazer é avançar com uma agenda de desindexação geral, começando com a lei de reajuste de salário mínimo: foi um erro ter aprovado aumento de mais de 11%”, complementou.

Troster, por outro lado, tem visão mais otimista. “No curto prazo, pode haver piora das contas com aumento do endividamento, mas vai haver impacto, ainda que pequeno, sobre a inflação.”

Queda ainda em 2016

Se há divergência sobre o aumento da taxa, sua diminuição causa reações mais parecidas.

“Eles [Copom] vão ter que reduzir a Selic ainda em 2016, porque o nível de atividade econômica está muito preocupante”, analisou Oreiro.

Para Troster, devem ocorrer três aumentos seguidos no começo deste ano, mas, assim que a inflação começar a cair, a taxa de juros também pode diminuir. “Talvez na última reunião do ano”, estimou.

Pompeu disse que a redução da taxa de juros deve ocorrer no segundo semestre e defendeu que a medida “seria boa para reativar a economia”.

O relatório Focus, por outro lado, indica que a Selic deve fechar 2016 acima dos 15%.

Anúncios