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Com base no que podemos ler nos principais jornais de circulação diária no Brasil, o COPOM, na sua próxima reunião ordinária a se realizar na próxima quarta-feira, deverá elevar a taxa de juros em mais 0,5 p.p, de forma que a meta da taxa selic ficará em 14,75% a.a. O argumento utilizado pelos diretores e pelo Presidente do BCB em seus comunicados é que as expectativas (de mercado) de inflação se encontram acima do teto da meta de inflação para 2016 e acima do centro da meta de inflação para 2017. Dessa forma, um novo ciclo de elevação da taxa de juros se justifica com vistas a assegurar o cumprimento da meta de inflação ao longo do período relevante para a atuação da política monetária, algo como 18 meses.

Desde que o regime de metas de inflação foi implantado no Brasil em 1999 observa-se um fenômeno que alguem denominou de “Tensão Pré-Copom”, ou seja, um debate acalorado entre operadores do mercado financeiro, de um lado, e economistas acadêmicos e ligados ao setor produtivo, de outro, sobre o rumo que o BCB deveria dar a política monetária. Via de regra, os economistas do mercado financeiro defendiam um aumento da selic, ao passo que os economistas acadêmicos e os ligados ao setor produtivo defendiam uma redução da selic. É claro que para toda regra tem exceção, de forma que sempre seria possível encontrar algum economista do mercado defendendo uma redução dos juros, assim como algum economista acadêmico – principalmente se ligado aos departamentos de economia da PUC-Rio e da FGV-RJ – defendendo uma elevação dos juros. Mas a regra geral era essa: os economistas do mercado eram “altistas” e os acadêmicos e do setor produtivo eram “baixistas”.

Mas eis que agora tudo mudou. Um número expressivo de economistas do mercado financeiro se posicionou nos últimos dias de forma contrária a elevação da taxa de juros. O argumento consensual é que a elevação da taxa de inflação nos últimos meses se deve a um choque de oferta desfavorável (aumento dos preços administrados e o repasse da enorme desvalorização cambial para os preços), de forma que uma elevação dos juros, neste momento, seria não só inútil, pois a aceleração da inflação não seria resultado de excesso de demanda, como ainda poderia por mais lenha na fogueira da recessão pela qual passa a economia brasileira. Com efeito, conforme podemos verificar na tabela ao lado  (BCB e a marcha da insensatez) o PIB apresentava uma queda acumulada de cerca de 2,5% até o terceiro trimestre de 2015, devendo fechar o ano passado com uma queda próxima a 4%, segundo as expectativas de mercado. Observemos também que essa contração do PIB em 2015 foi seguida por uma aceleração da taxa de inflação, a qual passou de 6,56% a.a no ultimo trimestre de 2014, para 10, 43% a.a no ultimo trimestre de 2015. Ora, uma situação em que se verifica uma queda do nível de atividade econômica ao mesmo tempo em que se observa uma aceleração da inflação é sintoma inequívoco de choque de oferta, algo que uma elevação da taxa de juros simplesmente não pode combater. Além disso, não só não se prevê nenhuma melhoria no quadro de crescimento da economia brasileira ao longo do ano de 2016, como a expectativa dominante para o ano em curso é de uma nova queda do PIB, em torno de 2 a 2,5%. Nesse contexto, parece uma estupidez completa reforçar as tendências recessivas já presentes na economia brasileira com um novo aperto na política monetária.

Mas se o quadro recessivo da economia brasileira é tão grave, por que a inflação não cai? A explicação para isso reside no fato de que nos ultimos anos os mecanismos de indexação formal e informal da economia brasileira foram re-introduzidos, principalmente após a institucionalização de regra de reajuste do salário mínimo, o qual vincula o reajuste do mesmo a inflação ocorrida no ano anterior mais o crescimento do PIB de dois anos atrás. Essa regra faz com que a inflação observada no ano anterior seja automaticamente repassada para o salário mínimo no ano em curso, contribuindo assim para alimentar a inflação do setor de serviços, a qual acompanha mais de perto a evolução do salário mínimo. Nesse contexto, a inércia só pode ser rompida às custas de um aumento violento da taxa de desemprego, o qual pode fazer com que os trabalhadores cujos salários estejam acima do piso definido pelo salário mínimo aceitem moderar suas demandas salariais, ou seja, aceitem reajustes salariais inferiores ao reajuste do salário mínimo. Esse parece ser o curso de ação escolhido pelo BCB: elevar a taxa de desemprego para o nível necessário para fazer com que a inflação convirja para o centro da meta de inflação em 2017.

Essa não é a maneira mais inteligente de reduzir os níveis de inflação prevalecentes na economia brasileira. Dado o quadro recessivo ora existente e tomando como dado que o governo não vai fazer nada para mudar o nível de indexação existente na economia brasileira, o Presidente do BCB, Alexnadre Tombini, deveria convencer os demais membros do CMN a redefinir as metas de inflação para o triênio 2016-2018, ajustando as mesmas para o fato de que a aceleração inflacionária resultante do choque de oferta ocorrido em 2015 não pode ser dissipada rapidamente a não ser às custas de um aprofundamento socialmente inaceitável do quadro recessivo. Não se trata, obviamente, de trocar mais inflação por mais crescimento, mas sim de dilatar o prazo de convergência para o centro da meta de inflação, de forma a realizar uma desinflação mais gradual. Em outros termos, trata-se de aceitar uma maior volatilidade da taxa de inflação em troca de uma menor volatilidade da taxa de crescimento.

Nesse contexto, uma medida sensata seria elevar o centro da meta de inflação de 4,5% a.a para 6,5% em 2016, e reduzindo o mesmo de forma gradativa nos próximos anos. Sendo assim, o centro da meta poderia cair para 5,5% em 2017 e 4,5% em 2018. O intervalo de tolerância seria de 2 p.p em 2016, mas poderia cair para 1,5 p.p em 2017, alcançando 1,0 p.p em 2018. Dessa forma, o CMN estaria sinalizando uma redução do teto de inflação entre 2016 e 2018, o qual passaria de 8,5% a.a em 2016, para 7% a.a em 2017, alcançando 5,5% a.a em 2018. Trata-se de uma trajetória bastante razoável para a taxa de inflação, a qual daria algum espaço para a recuperação do crescimento da economia brasileira em 2017 e 2018.

Dificilmente, contudo, esse será o curso de ação adotado pelo BCB e pela equipe econômica do governo. É uma pena. O resultado dessa nova marcha da insensatez será um aprofundamento do quadro recessivo, com efeito quase nulo sobre a trajetória da taxa de inflação. É bem possível que em função desses efeitos, o BCB seja obrigado a rever sua decisão ainda ao longo do primeiro semestre de 2016, sepultando com isso o que resta de credibilidade da autoridade monetária.

 

 

 

 

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