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Instigado pela leitura do belo artigo de meu colega Paulo Gala no Valor de hoje (A desvalorização do Real veio para ficar, http://www.valor.com.br/financas/4379202/desvalorizacao-do-real-veio-para-ficar) resolvi estudar um pouco mais sobre os efeitos de histerese no comércio exterior. Logo me deparei com o artigo de Richard Baldwin e Paul Krugman intitulado “Persistent Trade Effects of Large Exchange Rate Schoks” publicado no Quarterly Journal of Economics, Vol. CIV, em novembro de 1989. O artigo tem por objetivo mostrar em quais condições teóricas um grande choque sobre a taxa nominal (e real) de câmbio – como a valorização do dólar americano no início dos anos 80 – pode produzir uma mudança permanente no padrão de comércio entre países, ou seja, mesmo após o retorno da taxa de câmbio para a cotação anterior ao choque. Trata-se, portanto, de mostrar em quais condições pode-se observar o efeito de histerese no comércio exterior.

No modelo desenvolvido por Baldwin e Krugman supõe-se que a decisão de uma firma estrangeira de entrar ou não no mercado doméstico (via importação) depende não só do lucro líquido, avaliado em moeda estrangeira, das vendas para o mercado doméstico, como ainda do custo de entrada e permanência nesse mercado.  A ideia aqui é que para vender para o mercado doméstico a empresa estrangeira se defronta com custos de entrada nesse mercado (publicidade, distribuição, marketing, etc). Uma vez que a entrada tenha sido realizada, contudo, a firma deve incorrer ainda em custos de manutenção para permanecer no mercado. Os autores supõe que o custo de entrada, N, é superior ao custo de manutenção, M. Nessas condições, pode-se demonstrar que o nível de taxa de câmbio (medida como o preço da moeda doméstica em termos da moeda estrangeira) que é necessário para induzir a entrada da firma estrangeira no mercado doméstico é mais alto (apreciado) do que o nível da taxa de câmbio que é necessário para induzi-la a permanecer no mercado, uma vez que tenha decidido entrar.

Dessa forma, um choque temporário da taxa de câmbio pode ter efeitos permanentes sobre a estrutura produtiva da economia doméstica e sobre o seu padrão de comércio exterior.  Seja E1 o da taxa de câmbio nominal acima do qual a firma estrangeira decide entrar no mercado, e E0 (E0<E1) o nível da taxa de câmbio acima do qual a firma estrangeira, já estabelecida no mercado doméstico, decide permanecer no mercado. Consideremos uma situação inicial na qual o câmbio é igual a E0 e a firma estrangeira está fora do mercado. Se o câmbio se apreciar até o nível E1, então a firma estrangeira irá entrar no mercado doméstico, vendendo seus produtos no mesmo. Ao faze-lo, as empresas domésticas irão perder market-share na proporção da participação obtida pela empresa estrangeira, o que irá se refletir num aumento do coeficiente de penetração das importações. Se a taxa de câmbio se desvalorizar até E0, mas permanecendo acima desse patamar, as importações feitas por intermédio da firma estrangeira não serão reduzidas a zero, mas continuarão sendo feitas enquanto o resultado líquido dessas vendas superar o custo de permanência nesse mercado. Daqui se segue, portanto, que uma vez que a taxa de câmbio tenha se valorizado a ponto de mudar a estrutura produtiva da economia doméstica, o simples retorno ao patamar original não será acompanhado pelo retorno do saldo comercial ao seu nível prevalecente antes da valorização da mesma. Em outras palavras, uma valorização temporária da taxa de câmbio terá como resultado um aumento permanente do coeficiente de penetração das importações. Nessas condições, para que o coeficiente de penetração das importações retorne ao nível original – restaurando assim a estrutura produtiva que a economia possuía antes da valorização cambial – será necessário que o câmbio caia abaixo de E0 e permaneça nesse patamar por um período de tempo suficientemente longo para induzir a firma estrangeira a sair do mercado doméstico.

Esse raciocínio sugere, portanto, que a taxa de câmbio de equilíbrio industrial – definida como o nível da taxa de câmbio para o qual as empresas domésticas que operam com tecnologia no estado da arte mundial são competitivas tanto no mercado doméstico como nos mercados internacionais – é dependente da trajetória efetivamente seguida pela taxa de câmbio ao longo do tempo. Se a taxa de câmbio permanece sobre-valorizada por longos períodos, como ocorreu com a economia brasileira no período 2005-2014, então a mudança na estrutura produtiva decorrente dessa sobre-valorização não poderá ser totalmente revertida com o retorno da taxa de câmbio ao seu patamar original. Será necessário que a taxa de câmbio se deprecie além do ponto inicial e fique nesse novo patamar por um período de tempo suficientemente longo para que as firmas estrangeiras que entraram no bojo da sobre-valorização cambial decidam se retirar do mercado. Em outras palavras, para que os efeitos da sobre-valorização cambial sejam revertidos será necessário um período relativamente longo de over-shooting, no qual a taxa de câmbio deverá permanecer acima do seu nível de equilíbrio.

Uma implicação dessa análise para o caso brasileiro é que novas rodadas de desvalorização cambial podem ser necessárias de forma a se gerar o over-shooting cambial requerido para que os efeitos do ultimo ciclo de valorização cambial sejam revertidos. Isso significa que a economia brasileira pode estar ainda bem longe de iniciar seu processo de recuperação cíclica.

 

 

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