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A perda do “grau de investimento” na nota de crédito do Brasil na Fitch não muda drasticamente o cenário, pois algumas das consequências disso, como a alta do dólar, já vinham acontecendo, mas a decisão da agência de risco é “bem razoável”, tendo em vista que, em meio a “uma crise política sem precedentes desde a redemocratização”, o governo não tem conseguido aprovar um ajuste estrutural de longo prazo nas contas públicas. A avaliação é de José Luís Oreiro, professor do Instituto de Economia da UFRJ.

O novo rebaixamento muda o cenário para a economia do País?

É uma tragédia anunciada. O mercado já estava precificando em boa parte a perda do grau de investimento. É lógico que o fato consumado sempre piora um pouco as coisas, mas não acho que vai ser nada muito diferente do que já está nos preços dos ativos. O dólar se aproximou de R$ 4,00. É possível que ultrapasse esse patamar nos próximos dias. Acredito que a gente vai entrar 2016 com o dólar acima de R$ 4,00. A gente vai ter um dólar mais valorizado, mais pressões inflacionárias em 2016, algumas empresas vão ter mais dificuldade para captar recursos para financiar investimentos, mas isso também não vai ser muito drástico.

A Fitch acertou de apontar a dificuldade política de aprovar o ajuste fiscal como motivo para o rebaixamento?

A decisão da Fitch é bem razoável. De fato, o Brasil passa por uma crise política sem precedentes desde a redemocratização, num momento crítico também para a economia, o que impede qualquer reforma fiscal de caráter estrutural. Sem um ajuste fiscal estrutural, não tem como sairmos do impasse em que estamos neste momento. O ajuste fiscal de curto prazo enxuga gelo. Tentar reduzir o déficit cortando gastos no curto prazo acaba piorando a atividade econômica e isso se reflete negativamente sobre as receitas. O que tem de ser feito é um ajuste fiscal de longo prazo, com reformas estruturais na Previdência, na desvinculação de gastos, na regra de reajuste do salário mínimo, coisas que sinalizem que, no médio e longo prazo, haverá um ajuste estrutural das contas públicas e isso permitiria uma redução significativa da incerteza, possibilitando uma retomada do investimento. Com o processo de impeachment, isso ficou impossível.

Em 2016 dá para avançar?

Vai depender do desenlace da questão do impeachment. Um cenário é a presidente Dilma ser afastada e o vice-presidente (Michel Temer) assumir. Nesse cenário, existe uma chance maior de se recompor alguma normalidade para o governo, de haver um grande acordo entre PMDB e PSDB com vistas à governabilidade e aí a gente tem chance de pôr essa agenda estrutural em votação. No segundo cenário, que é Dilma ficar, provavelmente, ela não vai ter força para votar o ajuste estrutural.

Alguns desses pontos estruturais, e talvez o mais emblemático seja a regra do salário mínimo (reajuste anual igual à inflação do ano anterior, somada à variação do PIB de dois anos antes), são quase como bandeiras do governo. Dá para mudar isso?

A regra de reajuste do mínimo tinha que ser mudada agora, antes de virar o ano. A gente vai começar 2016 com reajuste do salário mínimo próximo de 11%. Isso com a economia caindo em 2015 por volta de 4% e podendo cair 3% em 2016. Isso é absolutamente insustentável nesse quadro recessivo. Do jeito que está, isso vai causar sérios problemas para as empresas, incluindo médias e pequenas, que vão forçar muito a mão na demissão.

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