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NEI: O que esperar da economia em 2016?

Oreiro: A economia brasileira vai continuar em recessão no ano de 2016. Se em 2015 o PIB deve fechar com uma queda de 3,0% com respeito a 2014, em 2016 a queda será de 2,0%. A inflação de 2016 deverá ceder um pouco, situando-se em 6,5% a.a. O dólar deverá continuar se valorizando frente ao Real, alcançando R$ 4,50 no final de 2016. Isso porque em algum momento ao longo de 2016, o Federal Reserve – O Banco Central dos Estados Unidos – deverá iniciar a “normalização das condições monetárias”, ou seja, deverá iniciar o ciclo de elevação da taxa básica de juros da economia americana, atualmente em 0,25% a.a. A elevação dos juros nos EUA deverá induzir um processo de mudança na composição de portfólio dos investidores internacionais, no qual eles irão reduzir a sua exposição em ativos de países emergentes, particularmente de ativos denominados em Reais. O PIB industrial deverá continuar seu processo de queda no primeiro semestre de 2016, mas deverá apresentar alguma recuperação no segundo semestre, impulsionado seja pelo aumento das exportações de manufaturados, como pela substituição de importações por produção doméstica em função da taxa de câmbio mais desvalorizada.

NEI: Quais ações o Brasil precisa adotar para recuperar o crescimento econômico e a confiança?

Oreiro: O maior desafio de curto-prazo para a recuperação da confiança é o ajuste das contas públicas. O governo precisa reverter a trajetória de deterioração do resultado primário – o qual deverá apresentar um déficit de 0,9% em 2015 – em 2016, apresentando medidas concretas (seja corte de gastos ou aumento de impostos, ou uma combinação de ambos) que permitam a obtenção de um pequeno superávit primário em 2016. Se isso ocorrer, o prêmio de risco país começará a cair, permitindo assim que o Banco Central inicie – já no final do primeiro semestre de 2016 – o processo de redução da taxa básica de juros, a Selic. Nessas condições, no segundo semestre de 2016 teremos uma combinação virtuosa de câmbio competitivo e taxa de juros em processo de queda, o que deverá aumentar tanto a demanda doméstica como a demanda externa, estimulando assim a produção industrial e o crescimento da economia brasileira como um todo.

NEI: Quais os principais desafios que serão enfrentados pela indústria e que medidas precisam ser adotadas urgentemente para impulsionar o desenvolvimento industrial em 2016?

Oreiro: Desde 2004 que a indústria brasileira vivencia uma queda muito forte na sua competitividade externa o que se reflete num aumento muito forte do custo unitário do trabalho medido em dólares. Observe que isso ocorre para todos os setores da indústria brasileira, independentemente do nível de intensidade tecnológica. A perda de competitividade externa foi resultado da enorme apreciação da taxa de câmbio ocorrida a partir de 2005 e do crescimento dos salários acima da produtividade do trabalho. O efeito cumulativo desses desdobramentos foi uma redução da taxa de retorno sobre o capital próprio das principais empresas brasileiras de capital aberto, ou seja, um profit squeeze, o qual resultou numa redução significativa da taxa de investimento da economia brasileira a partir do final de 2013.

A boa notícia para a indústria brasileira é que desde o final de 2014 que estamos vivenciando um processo de ajuste bastante rápido e forte da taxa de câmbio, a qual se encontra atualmente em patamares competitivos com base em estudo realizado pelo Centro de Estudos do Novo-Desenvolvimentismo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, sob coordenação de Nelson Marconi. Dessa forma, eu acredito que se a taxa de câmbio for mantida em patamares competitivos, a produção e as vendas da indústria brasileira irão apresentar sinais consistentes de recuperação a partir do segundo semestre de 2016.

NEI: Que incentivos a indústria pode esperar para renovação do parque fabril e melhoria do processo produtivo? Há previsão de investimentos que vão impactar o desenvolvimento industrial?

Oreiro: O melhor incentivo que a política macroeconômica pode dar para o desenvolvimento industrial do Brasil é assegurar a manutenção da taxa real de câmbio num patamar competitivo, estável e sustentável no longo-prazo. Para tanto, os líderes da indústria devem exigir do governo empenho para que a política macroeconômica (ou seja, a política monetária e fiscal) tenha como um dos seus objetivos uma meta para a taxa real de câmbio, conforme eu argumentei recentemente num artigo publicado no Valor Econômico.

NEI:  Comente sobre as vantagens e desvantagens da valorização do câmbio para a indústria nacional, mostrando os desafios impostos a ela. (foco na importância da indústria se preparar tecnologicamente para melhor competir no mercado global).

Oreiro: O parque industrial brasileiro é velho, segundo estimativas do prof. David Kupfer do IE-UFRJ, a idade média do equipamento de capital no Brasil é de 17 anos. Na Alemanha a idade média do equipamento de capital é de apenas 7 anos, ou seja, 40% a menos do que no Brasil. Nosso parque industrial é velho porque os empresários brasileiros não investiram na modernização e atualização do equipamento de capital nos últimos 10 anos em função dos efeitos negativos da taxa de câmbio sobrevalorizada sobre a rentabilidade dos investimentos na indústria. Na medida em que a taxa de câmbio fica novamente num patamar competitivo, os investimentos na modernização e atualização do equipamento de capital se tornam novamente lucrativos. Com a retomada desses investimentos, o hiato tecnológico da indústria brasileira irá se reduzir ao longo do tempo, aumentando assim a sua capacitação tecnológica.

NEI: A indústria está sofrendo com a crise e isso acelera a defasagem tecnológica. Na sua opinião, quais as chances de o Brasil retomar esse impulso tecnológico e com que velocidade? Há alguma área que deve puxar essa retomada?

Oreiro: Como eu havia dito na pergunta anterior, a defasagem tecnológica na indústria brasileira é resultado dos baixos investimentos feitos na modernização e atualização do equipamento de capital, o que, por sua vez, é decorrência da baixa rentabilidade desses investimentos em função da apreciação da taxa de câmbio. Se o câmbio for mantido num patamar competitivo nos próximos anos, esses investimentos serão retomados, fazendo com que a defasagem tecnológica diminua gradualmente.

NEI: “Crescer pela indústria é o melhor caminho”. Você concorda com esta afirmação? Por quê?

Oreiro: A evidência empírica é avassaladora no sentido de mostrar que a indústria é o motor de crescimento de longo-prazo das economias capitalistas (sugiro a leitura do livro de Anthony Thirwall, “The nature of Economic Growth” publicado em 2002 pela Edward Elgar, especialmente o capítulo 3). Isso porque a indústria é a fonte das economias estáticas e dinâmicas de escala, a fonte ou o principal setor para a difusão do progresso tecnológico e o setor que possui os maiores encadeamentos para frente e para trás na cadeia produtiva. Os países do G7 e alguns países da América Latina (em particular o Brasil) passaram por um processo de desindustrialização desde o final da década de 1970. Esse processo veio acompanhado por uma redução da taxa média de crescimento do PIB. Se o Brasil deseja retomar o seu crescimento a taxas robustas, então é necessário reindustrializar o país.

NEI: Qual a palavra de ordem para o Brasil em 2016?

Oreiro: Reindustrialização já.

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